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A responsabilidade pelo dano decorrente do pedido de tutela

3 A TUTELA ANTECIPADA NO PROCESSO DO TRABALHO E

3.5 A responsabilidade pelo dano decorrente do pedido de tutela

A responsabilidade civil é a obrigação de indenizar, moral ou materialmente, os danos causados por aquele, que por ação ou omissão, comete ato ilícito.

O lesionamento a elementos integrantes da esfera jurídica alheia acarreta ao agente a necessidade de reparação dos danos provocados. É a responsabilidade civil, ou obrigação de indenizar, que compele o causador a arcar com as consequências advindas da ação violadora, ressarcindo os prejuízos de ordem moral ou patrimonial, decorrente de fato ilícito próprio, ou de outrem a ele relacionado.66

No regime legal anterior à responsabilidade civil, só vinha prevista para as ações cautelares, não havendo previsão para a tutela antecipada, sendo que caso a antecipação de tutela gerasse prejuízo para a parte, essa deveria, em ação autônoma, postular a reparação pelo dano sofrido, utilizando-se de normas sob a responsabilidade civil prevista no ordenamento.

O CPC, no seu artigo 302, trouxe o regramento da responsabilidade civil tanto para as tutelas cautelares como antecipadas, uma vez que as tutelas de urgência, como garantias processuais, não visam, apenas, à proteção do bem tutelado ou a pretensão do autor, mas, também, a proteção da relação jurídica amparada na boa fé e na participação responsável no processo por ambas as partes, razão pela qual o ordenamento jurídico assegurou a proteção ao réu, sujeitando o autor a responsabilidade objetiva pelo dano causado na efetivação da medida de urgência, eliminando a discussão doutrinária sob qual tipo de responsabilidade, objetiva ou subjetiva, deveria responder o causador do dano pelo pedido de tutela antecipada, já que o Código Civil prevê, como regra, a responsabilidade subjetiva.

O artigo 302 do CPC trouxe quatro hipóteses de responsabilidade: a primeira hipótese de responsabilidade é a sentença desfavorável no processo principal; a segunda é a responsabilização pela não promoção da citação do demandado no prazo de citação quando se trata de tutela antecedente; a terceira hipótese é a de cessação da eficácia, ou seja, a improcedência do pedido apresentado pelo requerente ou a extinção do processo sem resolução do mérito; e a quarta e última é a responsabilização do autor se a alegação de prescrição ou decadência for acolhida.

Diante das hipóteses trazidas pelo dispositivo legal sobre a questão da responsabilidade, surge novo celeuma na doutrina processual civilista, sob se essa responsabilidade objetiva se aplica em todas as hipóteses ou não. Existem, na doutrina, duas correntes, como argumenta Jean Carlos Dias:

Basicamente há duas abordagens na doutrina a esse respeito: uma corrente que entende que todas as hipóteses previstas no artigo em questão serão aferidas com base no critério da responsabilidade civil objetiva, ou seja, em que a culpa em sentido amplo e irrelevante e outra corrente para quem as diversas situações reguladas ensejam o emprego distinto de métodos de responsabilização.

Para os adeptos da segunda corrente, quando o dispositivo estabelece que o dano causado decorra da ausência de oferta de meios para a citação (resumidamente o pagamento das custas, quando essa não for incluída nas custas inicias) ou se houver cessação da eficácia da medida nas hipóteses legais, o método a ser aplicado é a responsabilidade objetiva. Do outro lado quando o dano for de resultante da improcedência da ação ou da declaração de decadência ou prescrição o método a ser aplicado é o subjetivo, isto é, é relevante e necessária a demonstração da culpa em sentido amplo.67

A respeito da responsabilidade objetiva se aplicar em todas as hipóteses do artigo 302 do CPC, Luiz Guilherme Marinoni, Sérgio Cruz Anenhart e Daniel Mitidiero asseveram:

Como diante do direito anterior, porém, é preciso distinguir as hipóteses: é certo que nas hipóteses dos incisos II e III do art. 302, pode-se falar em responsabilidade objetiva. No entanto, nas hipóteses dos incisos I e IV a responsabilidade tem que ser subjetiva. Isso porque, se a tutela provisória e necessária e devida, conforme a apreciação sumária do juízo, torná-la posteriormente indevida e atribuir responsabilidade objetiva pela sua fruição implica ignorar efetiva existência da decisão que anteriormente a concedeu. Em outras palavras, significa desconsiderar o juízo sumário, como se nunca houvesse existido, apagando-o retroativamente. É claro que o juiz pode considerar inexistente o direito antes reconhecido como provável. Não pode, contudo, apagar a existência do juízo sumário. O juízo exauriente substitui o juízo sumário, mas não apaga a sua existência. Nesses casos, a responsabilidade civil pela fruição da antecipação da tutela depende da alegação e prova de dolo ou culpa, porque amparada em um legítimo exercício de poder estatal. Só há responsabilidade objetiva diante da sentença de improcedência quando a tutela provisória é obtida de forma injustificada, isto é, com violação à ordem jurídica (por exemplo, com base em prova falsa).68

67 Tutelas Provisórias no Novo CPC: tutelas de urgência; tutela de evidência. 2. ed.rev. e atual.

Salvador: Editora Juspodivm, 2018, p. 127.

Em posição, diametralmente oposta, Arruda Alvim defende que:

[...] A mais natural delas é o caso das sentenças desfavorável, isto é, a decisão prolatada em sentido contrário a tutela antecipada ( art. 302, I). O mesmo ocorre se, ainda antes da sentença, cessar a eficácia da medida ( art. 302, III). Fica aqui claro que a efetivação da tutela ocorre por conta e risco do requerente.69

Somente o tempo demonstrará qual dessas correntes prevalecerá. Entretanto, certo é que a responsabilidade prevista no artigo 302 do CPC é genérica, aplicando- se, tanto as tutelas antecipatórias antecedentes como nas incidentais, bem como na tutela cautelar, não estando, ainda, o terceiro que sofrer dano em decorrência da efetivação da tutela, favorecido por esse dispositivo, devendo-se socorrer do regime geral da responsabilidade civil. Nesse sentido, esclarece Luiz Guilherme Marioni.

Tratando-se de hipótese especialmente regulada em lei, a responsabilidade objetiva está limitada aos danos causados á parte pela efetivação da tutela. Assim, está excluída a hipótese de danos causados a terceiros. Esses danos estarão sujeitos ao regime geral da responsabilidade civil, não podendo socorrer-se da previsão excepcional do art.302.70

Ponto interessante a ser abordado é o ensinamento de Ovídio A. Baptista da Silva, sobre a aplicação do princípio da isonomia, no que tange a responsabilidade do autor quanto à efetivação da tutela antecipada. O referido autor, assim, dispõe:

Se quiséssemos respeitar a doutrina de Chiovenda dando-lhe inteira efetividade, para tornar realidade o principio segundo o qual o processo não deve resultar em prejuízo de quem tenha razão, então deveríamos aplicá-lo também contra o demandado, atribuindo-lhe a mesma responsabilidade objetiva que o sistema cobra do autor, independentemente de culpa, por todos os danos porventura decorrentes da simples demora do processo e, em virtude, exclusivamente, da sucumbência, uma vez que a verdadeira isonomia, neste ponto, haverá de corresponder à equação segundo a qual tanto quem acelera quanto quem retarda o reconhecimento do direito deve responder pelos prejuízos que sua conduta venha a causar ao adversário, tenham eles agido com ou senza la normale

prudenza. Essa seria a expressão acabada e inteiramente isonômica

do principio chiovendiano que, todavia, jamais teve expressão legislativa, seja nos sistemas europeus, seja no direito brasileiro. Só

Tribunais, 2017, p. 397.

69 Novo Contencioso Civil no CPC/2015. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2016, p. 176. 70 Tutela de Urgência e Tutela de Evidência. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2017, p.

assim o processo não resultaria em prejuízo de quem tivesse razão.71

No olhar de Ovídio A. Baptista da Silva, com base no princípio da isonomia, o autor do pedido de tutela antecipada não deveria ser responsabilizado objetivamente pelos danos causados ao réu, posto que o réu não responde objetivamente pela demora que pode causar no processo, através da prática de atos ou da omissão desses atos. Entretanto, a legislação só aplica responsabilidade objetiva àquele que aparentemente tem um direito, o qual foi, inclusive, deferido de forma provisória pelo juízo, e não aplica a mesma responsabilidade para aquele que causa a demora do processo, gerando grande prejuízo, também, ao autor e ferindo o principio da isonomia.

Leonardo Ferres da Silva Ribeiro menciona a posição de Ovídio A. Baptista da Silva, mas não concorda totalmente com o entendimento do doutrinador, afirmando que só assiste razão ao referido autor no que tange ao tipo de responsabilidade, uma vez que também entende que a responsabilidade deveria ser subjetiva e não objetiva como ensina a doutrina. Aduz que:

[...] a regra imposta pela lei (responsabilidade objetiva), no plano da execução fundada em titulo provisório – como sói ocorre na tutela de urgência -, tratou diferentemente autor e réu, e o fez porque, ao menos em princípio, parece que, realmente, está-se diante de dois pesos e duas medidas, ou seja, de situações que devem ser tratadas diferentemente. Assiste razão, contudo, a Ovido A. Baptista da Silva na critica que faz à regra da responsabilidade objetiva que é imposta, sem maiores cuidados, ao autor beneficiário da tutela de urgência. Talvez a situação ficasse, de fato, melhor acomodada diante da figura da responsabilidade subjetiva.72

A doutrina trabalhista é uníssona quanto à aplicação desse disposto ao processo do trabalho, em razão dos princípios da lealdade processual: boa-fé objetiva e tantos outros. Contudo, José Antônio Ribeiro de Oliveira Silva defende que o inciso II que trata da citação do réu, no caso de deferida a tutela antecedente, não

71 Antecipação de Tutela e Responsabilidade Objetiva. Da sentença liminar a nulidade da

sentença - Ensaios e pareceres. Rio de Janeiro: Editora Forense, 2001, p. 206.

72 Tutela Provisória: tutela de urgência e tutela de evidência. Do CPC/1973 ao CPC/2015. São

se aplica ao processo do trabalho, haja vista que, nesse ramo processual a citação é ato da secretaria da Vara do Trabalho.

Na Justiça do Trabalho a citação do réu não precisa ser requerida e nem sequer determinada pelo juiz, pois é ato da secretaria, nos moldes do artigo 841 da CLT. Ademais, no processo do trabalho há integral gratuidade do processo, pelo menos na propositura da ação, de modo que o trabalhador não precisa antecipar quaisquer despesas para a realização da citação.73