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A responsabilidade social empresarial (RSE)

No documento Luxo e Sustentabilidade Michelle Reis (páginas 61-64)

Capítulo 2: A sustentabilidade

2.2. As três dimensões da sustentabilidade

2.2.4. A responsabilidade social empresarial (RSE)

Como referimos, uma crescente preocupação com a dimensão social — e uma tomada de consciência relativamente a questões relacionadas com aspetos como a qualidade de vida das populações, a pobreza e os direitos humanos — é cada vez mais notória na dinâmica das metodologias empresariais.

Num contexto de constante mudança, a responsabilidade social empresarial (RSE), traduzida em boas ações de ética praticadas pelas empresas, deve conseguir um retorno económico positivo e, consequentemente, resultar num desenvolvimento sustentável a longo prazo. É notável observar que, em virtude das transformações e dos impactos ambientais que marcaram as últimas décadas e que sensibilizaram a sociedade globalmente, temos, hoje, consumidores mais informados, registando-se alterações de comportamento muito positivas.

Para Almeida (2002), a RSE está relacionada com a preservação da Natureza e é uma questão de sobrevivência, seja da espécie humana, seja das diferentes sociedades humanas ou, em última instância, do próprio funcionamento e da rentabilidade das empresas. Para que esta sobrevivência a longo prazo se verifique, é necessário delinear medidas destinadas a responsáveis e gestores de indústrias e empresas que permitam dar continuidade a estratégias de negócio que ultrapassem interesses individuais. Ser socialmente responsável implica não só o cumprimento de obrigações legais, como pressupõe um maior investimento em capital humano, no Ambiente e nas relações com os stakeholders.

(Responsabilidade, saúde e segurança, princípio do poluidor-pagador (impostos) e prestar contas aos

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Faria (2015) lembra que:

«A idéia de conceito de responsabilidade social começou a ser tratada através da monografia de Clark, em 1926, com as noções das obrigações das empresas para com a sociedade, mas deve-se a Bowen a primeira tentativa de definição de responsabilidade social, encarada com um conjunto de obrigações que os dirigentes empresariais acumulavam para com a sociedade em que se inseriram» (Faria, 2015: p. 45).

Um contributo sistemático e de grande relevo para a evolução do desenvolvimento do conceito de RSC é o de Archie Carroll, um dos autores mais mencionados na literatura da especialidade no que concerne este conceito.

Caroll (1979: pp. 497-505) assume a responsabilidade social como uma dinâmica empresarial a quatro níveis: económico, legal, ético e filantrópico. Mais tarde, R. Edward Freeman (1984) introduz a Teoria dos Stakeholders, segundo a qual quanto mais forte forem os relacionamentos das empresas com os seus stakeholders externos, mais fácil será de atingir os objetivos empresariais externos e vice-versa. Trata-se de uma gestão estratégica para construir um maior e mais duradouro relacionamento entre partes interessadas numa vantagem competitiva, sendo que, para tal, essas mesmas partes interessadas devem trabalhar em conjunto para atingirem metas estabelecidas para um desenvolvimento sustentável.

Contudo, segundo Carroll (1991: pp. 39-48), a RSE é um conceito de difícil definição por ser variável e por estar relacionado com o fenómeno de tempo. É um conceito que está em constante evolução e, segundo David Henderson (2001), ainda não existe um consenso único e bem desenvolvido que forneça uma base de ação. Nesse sentido, Santos (2012: pp. 81-92) afirma que as responsabilidades sociais e a as realidades empresariais evoluem e tornam-se mais ricas com o tempo, mas também estão ligadas a questões de natureza operacional que ainda estão por resolver.

Para Dyllick & Hockerts (2002: pp. 130-141), a RSE pode definir-se como uma forma de atender às necessidades das partes interessadas, diretas ou indiretas, de uma empresa (como stakeholders, trabalhadores, clientes, grupos de pressão, comunidades, etc.) sem comprometer as necessidades futuras dos seus stakeholders. Nesse sentido, as empresas devem aumentar a sua base de capital ambiental, económico e social, o que, paralelamente, contribui para uma sustentabilidade no domínio político.

Segundo a literatura corrente, atualmente, a RSE deve incluir-se na perspetiva dos negócios do denominado triple-bottom-line, de Elkington (1997), e, para que os resultados sejam positivos e viáveis a longo prazo em termos de sustentabilidade, é necessário que as

empresas atuem e desenvolvam a sua estratégia suportando-se nas três dimensões anteriormente referidas, indo ao encontro do conceito de “triple-bottom-line”.

Na sequência da World Commission on Environment and Development (WCED, 1987), Elkington (2011) vem defender que o desafio do desenvolvimento sustentável é o de desenvolver uma economia global que seja sustentável, uma economia que possa ser sustentada pelo planeta. Elkington (2011: pp. 108-109) cita Stuart L. Hart, que afirma que «aqueles que pensam ser a sustentabilidade somente uma questão de controle de poluição, não estão vendo o quadro completo». Segundo Hart, os problemas não são apenas económicos e ambientais, nem como se originam ou qual a natureza respetiva, mas geram questões sociais, éticas e políticas. Em suma, o autor expõe um paradoxo: «Se as raízes da crise são políticas e sociais, estas excedem a ordem e a capacidade de qualquer empresa, mas, simultaneamente, são estas empresas as únicas organizações com recursos, tecnologia, alcance global e motivação para alcançar a sustentabilidade.» Segundo conceito de profit-planet-people, de Elkington (2012: p. 109), é necessário que haja uma transição para um capitalismo sustentável, envolvido numa revolução cultural e cujos objetivos são: people, ou seja, igualdade e justiça social; profit, prosperidade económica; e planet, proteção dos recursos naturais e qualidade ambiental. Contudo, «o capitalismo sustentável necessitará de mais do que tecnologia e mercados que promovem ativamente a desmaterialização. Necessitará, também, de definir radicalmente as novas versões do significado de igualdade social, de justiça ambiental e de ética empresarial. Isso exigirá um melhor entendimento não somente das formas financeiras e física do capital, mas também do capital social, humano e natural».

2.2.4.1. Profit (o lucro)

O pilar económico é o lucro positivo de uma empresa através de uma análise de dados numéricos. É necessário perceber que o significado de capital económico é o valor total do ativo de uma empresa menos as obrigações da mesma. Temporalmente, a longo prazo e para que haja uma avaliação das atividades economicamente sustentáveis, é crucial o conhecimento de capital natural e capital social.

2.2.4.2. Planet (o planeta)

O pilar ambiental representa o capital natural. É um conceito de riqueza natural e é complexo. O capital natural pode ser válido como “capital natural crítico” e capital natural renovável, ou substituível. A primeira perceção abrange o capital essencial para a

manutenção da vida e da integridade do ecossistema e a segunda engloba o que pode ser renovável, como a realocação de ecossistemas, o recuperado, cujas são as alternativas viváveis ao uso dos recursos naturais agregados às tecnologias desenvolvidas pelo homem. O pilar ambiental é a correlação das empresas com a Natureza e é necessário saber qual o resultado oriundo das ações e do comportamento em relação ao capital natural por parte destas organizações para que consigam alcançar um futuro que seja tanto sustentável, como justo.

2.2.4.3. People (as pessoas)

O pilar social assenta no capital social e considera o capital humano, que corresponde à saúde da sociedade e do seu potencial de criação de riqueza. As questões sociais, políticas e éticas são cruciais para que não ocorra um colapso na área ambiental.

Mais recentemente, a Comissão Europeia, na sua Carta dos Direitos Fundamentais, afirma que as empresas necessitam de identificar as suas ações de responsabilidade social. Em 2001, a publicação do Livro Verde, introduz um outro conceito, o da «integração voluntária, por parte das empresas, das preocupações sociais e ambientais nas suas operações comerciais e nas suas relações com os seus interlocutores», tratando-se de um comportamento adotado, voluntário, articulado entre as preocupações ambientais, económicas e sociais presentes na estratégia adotada por uma empresa. Assim, o envolvimento das empresas na RSE deve ser voluntário, as medidas de estratégia do seu modelo de negócio devem ser aplicadas tanto aos níveis ambiental e social, como a nível do seu relacionamento com os seus stakeholders.

No documento Luxo e Sustentabilidade Michelle Reis (páginas 61-64)