A lei 8.080, de 19 de setembro de 1990, conforme seu preâmbulo, "dispõe sobre as condições para a promoção, proteção e recuperação da saúde, a organização e o funcionamento dos serviços correspondentes e dá outras providências". Os Artigos 15 desta lei federal e o artigo 23 da CF/88 tratam da Competência e das Atribuições comuns a todos os entes da Federação:
Art. 15. A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios exercerão, em seu âmbito administrativo, as seguintes atribuições: [...]
VII - participação de formulação da política e da execução das ações de saneamento básico e colaboração na proteção e recuperação do meio ambiente;
[...]
IX - participação na formulação e na execução da política de formação e desenvolvimento de recursos humanos para a saúde;
[...]
XIII - para atendimento de necessidades coletivas, urgentes e transitórias, decorrentes de situações de perigo iminente, de calamidade pública ou de irrupção de epidemias, a autoridade competente da esfera administrativa correspondente poderá requisitar bens e serviços, tanto de pessoas naturais como de jurídicas, sendo-lhes assegurada justa indenização;
XIV - implementar o Sistema Nacional de Sangue, Componentes e Derivados;
[...]
XXI - fomentar, coordenar e executar programas e projetos estratégicos e de atendimento emergencial.
Art. 23. É competência comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios:
[...]
II - cuidar da saúde e assistência pública, da proteção e garantia das pessoas portadoras de deficiência;
[...]
Parágrafo único. Leis complementares fixarão normas para a cooperação entre a União e os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, tendo em vista o equilíbrio do desenvolvimento e do bem-estar em âmbito nacional. (Redação dada pela Emenda n. 53/2006.)
5.1 OS GOVERNOS E O SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE
Os artigos 16 a 18 da lei federal 8.080/90 tratam das responsabilidades de cada uma das esferas de Governo em relação ao Sistema Único de Saúde, iniciando pela esfera Federal:
Art. 16. A direção nacional do Sistema Único da Saúde (SUS) compete: [...]
II - participar na formulação e na implementação das políticas: a) de controle das agressões ao meio ambiente;
b) de saneamento básico; e
c) relativas às condições e aos ambientes de trabalho; [...]
VI - coordenar e participar na execução das ações de vigilância epidemiológica;
[...]
VII - estabelecer normas e executar a vigilância sanitária de portos, aeroportos e fronteiras, podendo a execução ser complementada pelos Estados, Distrito Federal e Municípios;
Art. 17. À direção estadual do Sistema Único de Saúde (SUS) compete: I - promover a descentralização para os Municípios dos serviços e das ações de saúde;
[...]
III - prestar apoio técnico e financeiro aos Municípios e executar supletivamente ações e serviços de saúde;
[...]
IX - identificar estabelecimentos hospitalares de referência e gerir sistemas públicos de alta complexidade, de referência estadual e regional; Art. 18. À direção municipal do Sistema de Saúde (SUS) compete: I - planejar, organizar, controlar e avaliar as ações e os serviços de saúde e gerir e executar os serviços públicos de saúde;
II - participar do planejamento, programação e organização da rede regionalizada e hierarquizada do Sistema Único de Saúde (SUS), em articulação com sua direção estadual;
Por conta da responsabilidade solidária, qualquer um dos entes da Federação pode ser acionado, como também todos os três entes federativos (Município, Estado-membro e União) podem ser acionados ao mesmo tempo.
5.2 A RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA DOS ENTES FEDERATIVOS
O Preâmbulo de nossa Carta Magna já registra as formas de governo e estado adotados, ao se definir como República Federativa do Brasil, o que é reafirmado no caput do artigo 1º, que acrescenta ainda: "formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito".
Esta união indissolúvel institui alguns nexos de responsabilidade comum, entre os quais a de promover de forma solidária a saúde pública. Não se trata, neste caso, de classificação do direito fundamental à saúde como sendo de terceira geração, mas de obrigação solidária entre a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios.
Dentre os princípios fundamentais instituídos pela República Federativa do Brasil, além do artigo 1º já citado acima, apresenta-se o artigo 2º que costuma ser utilizado como argumento jurídico dos Poderes Executivos federal, estaduais e municipais para tentar fundamentar a suposta impossibilidade do Poder Judiciário em realizar o controle judicial das omissões do Poder Público, notadamente pela falta de efetividade das políticas sociais promovidas pelo Estado. O referido dispositivo constitucional expõe o seguinte: art. 2º "São Poderes da União, independentes e harmônicos entre si, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário". Desta forma, aparentemente, o Judiciário não poderia intervir no Executivo nem no Legislativo. O Poder Executivo alega violação ao princípio fundamental constitucional da Separação de Poderes, qual seja, a suposta interferência indevida do Poder Judiciário sobre o Executivo, em casos como o Ativismo Judicial ou Judicialização das Políticas Sociais. Porém, a harmonia prevista neste mesmo artigo pressupõe o equilíbrio da independência entre os Poderes, já que pelo sistema de freios e contrapesos, adotado pela nossa Carta Magna de 1988, cada Poder da República exerce tanto suas funções típicas, como também atípicas, além de exercerem fiscalização e cobrança de cumprimento de um Poder sobre as funções típicas do outro Poder; no caso específico, do Poder Judiciário sobre o Poder Executivo para que este não siga omisso e cumpra, efetivamente, as políticas públicas fundamentais de saúde que os cidadãos necessitem, como o fornecimento de medicamentos de alto custo.
O artigo 198 trata das ações e serviços públicos de saúde, que compõem um sistema único, instituído dois anos após sob a sigla SUS, sendo uma rede
regionalizada, hierarquizada e descentralizada, e prevê que seu financiamento será responsabilidade dos membros supracitados, além de contar com recursos do orçamento da seguridade social.
De modo geral, os magistrados têm alertado para esta responsabilidade solidária, a exemplo da jurisprudência do STF, nos autos do Recurso especial 834294/SC, que teve como relatora a Ministra Eliana Calmon:
PROCESSUAL CIVIL E ADMINISTRATIVO – FORNECIMENTO DE
MEDICAMENTOS – SUS – OFENSA AO ART. 535 DO CPC – SÚMULA
284/STF – RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA DOS ENTES
FEDERATIVOS – LEGITIMIDADE DA UNIÃO. 1. [...].
2. O funcionamento do Sistema Único de Saúde - SUS é de responsabilidade solidária da União, estados-membros e municípios, de modo que, qualquer dessas entidades têm legitimidade ad causam para figurar no pólo passivo de demanda que objetiva a garantia do acesso à medicação para pessoas desprovidas de recursos financeiros.
3. Recurso especial conhecido em parte e improvido.”
(STJ, 2ª Turma, REsp 834294/SC, Rel. Ministra ELIANA CALMON, DJ de 26.09.2006, p. 196).
Sobre o assunto, assim se manifestou Dirley da Cunha Júnior:
CONSTITUCIONAL. DIREITO À SAÚDE. FORNECIMENTO DE MEDICAMENTO.
[...]
A União, por seu turno, tem legitimidade para figurar no pólo passivo da demanda. Como se sabe, sendo o Sistema Único de Saúde - SUS composto pela União, Estados-Membros, Distrito Federal e Municípios, impõe-se o reconhecimento da responsabilidade solidária dos aludidos entes federativos, podendo qualquer deles figurar no pólo passivo das demandas que objetivam o fornecimento de medicamentos a quem deles precisa. TRF1, Proc. 2009.33.00.909786-3.
Assim, sendo a responsabilidade solidária, qualquer um dos entes federativos pode ser instado ao fornecimento de medicamento ou tratamento de saúde, sendo lícito ao cidadão, em caso de negativa de atendimento, demandar contra qualquer um deles, contra dois ou contra todos.
Uma rápida busca no portal eletrônico Jusbrasil permitiu constatar que o Estado
da Bahia e o Município de Salvador continuam tentando reverter a decisão que garantiu à paciente o fornecimento do medicamento de que necessitava.