CAPÍTULO IV: O CASO “MENSALÃO” NA PAUTA DE TEORIA E DEBATE
4.1.3 A ressaca petista e as reflexões sobre a crise
Na edição 64, a última de 2005, Teoria e Debate, agora com 18 anos de criação, manteve o assunto na pauta e dedicou 30% do espaço editorial para a discussão da crise, 10 pontos percentuais acima do reservado no número anterior. O debate foi empreendido por intelectuais, lideranças partidárias, inclusive, as que disputaram a presidência do partido em 2005. Entre os autores estão Ricardo Berzoini (presidente do PT eleito em 2005), Raul Pont, Valter Pomar, Maria do Rosário, Tarso Genro, Sérgio Cardoso e Wladimir Pomar.
Em 2006, o assunto perdeu fôlego, mas continuou na pauta. O foco principal eram os efeitos da crise e os rumos do PT com a reeleição de Lula. Com base nestas informações, este subitem da dissertação discutirá o caso “mensalão” do ponto de vista da sua raiz, dos discursos forjados para alimentá-lo, dos efeitos que provocou no partido e o que as lideranças vislumbram para o futuro.
Da raiz aos efeitos da crise
Na edição 64, distribuída em dezembro de 2005, Wladimir Pomar elaborou um texto em que tenta mostrar que a raiz da crise não deveria ser procurada apenas no PT, pois ela também estaria fincada na sociedade civil, onde subsistem velhos valores ideológicos. Admite, porém, que parte dos problemas estão no partido, que passou a dar mais importância à tática do que à estratégia, valorizar mais o marketing político que a política e de tomar qualquer um como amigo, como fez com Delúbio Soares.
Sugeriu que, historicamente, os financiamentos “nebulosos” de campanhas eleitorais são práticas das classes dominantes. Portanto, não era possível aceitar que a direita sustentasse
que este tipo de atitude havia sido introduzido na sociedade pela esquerda. Wladimir Pomar argumentou que o PT não passou por cima dos seus princípios por ter feito alianças com o PL, PTB, PP e PMDB, pois este tipo de acordo pode ser feito, desde que sejam preservados os métodos e objetivos principais do partido. Contudo, o PT teria mostrado que não estava preparado para administrar o país numa coalizão com organizações burguesas.
Seis meses depois, na edição 66, o autor publicou um novo artigo em que reclama da ausência de autocrítica por parte das lideranças partidárias. No texto, ele se mostra insatisfeito com o fato de o PT ter concentrado suas forças na disputa eleitoral e deixado de lado importantes debates, como o da crise política de 2005. O partido, em sua avaliação, recusou- se a admitir a existência da crise, criou dificuldades para impedir sua investigação, tratou o assunto como se ele tivesse chegado ao fim e não investigou os filiados acusados de envolvimento, o que o levou a ser visto pela sociedade como uma organização que não adota medidas contra seus integrantes, quando eles estão envolvidos em irregularidades.
Wladimir Pomar ressaltou que, naquele momento, a crise não havia chegado ao fim e que o partido ainda tinha muito o que esclarecer. Disse que as lideranças políticas precisam explicar qual é o envolvimento do PT e do governo no esquema, qual a relação entre o caso Waldomiro Diniz e o governo Lula, e se não há provas contra ninguém, como é que os adversários conseguiram estruturar uma crise de tal envergadura?
“Não adianta, pois, conclamar que se trata de um festival de hipocrisia, ou que o caixa dois e corrupção sempre foram marcas dos partidos e governo burgueses. O governo do PT, ou alguns dos seus dirigentes (...) não tem o direito de fazer igual, de imitá-los”, pois o prejuízo da crise ficaria de herança para o partido, a principal vítima de toda essa ofensiva (REVISTA TEORIA E DEBATE, ed. 66, 2006, p.18).
O interessante no texto é que, ao mesmo tempo em que o autor reclama da falta de debate interno e da necessidade do partido e de seus dirigentes fazerem uma autocrítica em relação à crise, ele defende que, em função da agenda eleitoral, essa avaliação profunda deve ser adiada para o período pós-eleitoral. Naquele momento, a tarefa fundamental e prioritária era a reeleição de Lula.
Na edição anterior (65), Valter Pomar já havia se manifestado sobre o assunto e defendido que era melhor protelar a discussão para o período pós-eleitoral. Com a proximidade do XIII Encontro Nacional do PT, programado para abril de 2006, ele disse que havia uma expectativa entre os petistas de que a crise seria discutida durante o evento.
Contudo, ponderou que o melhor seria tratar do assunto com a coerência, uma vez que o estava em fase pré-eleitoral. “Falando claro: não será agora que faremos o necessário acerto de contas com as concepções estratégicas que vigoram no PT entre 1995-2005. Essa é uma tarefa a ser perseguida depois da vitória. A tarefa da hora é impedir que a coligação neoliberal (PSDB-PFL) reconquiste o governo” (REVISTA TEORIA E DEBATE, ed. 65, 2006, p.22).
As turbulências derivadas da denúncia do “mensalão” se mantiveram fortes na pauta nacional por muito tempo, com períodos de cobertura mais intensa e outros não. Na mesma edição do texto de Valter Pomar (65), Marco Aurélio Garcia observa que a crise política foi maior do que deveria ser porque teria faltado competência ao PT e ao governo para dar publicidade às realizações da administração federal. Falharam a comunicação e a coordenação política. Ao mesmo tempo, diz que parte dessa omissão pode ser explicada pela necessidade de o governo não agravar mais a situação econômica em que o país se encontrava.
Para Sérgio Cardoso (edição 64), a sustentação da crise foi garantida pela formação e disseminação de três discursos na sociedade: o moral, o economicista e o pseudopolítico. Todos assinalam um processo de desqualificação de qualquer fala que foge do diagnóstico- padrão em relação ao governo Lula e ao PT.
No discurso moral, demonstra-se que o poder é, tradicionalmente, arrogante, predatório e promíscuo, independente de filiação ideológica. Na crise, os adversários políticos aproveitaram para ressaltar que todos, inclusive os petistas, podem ser corrompidos por mordomias palacianas, jatinhos milionários, Romanée-Contis, charutos cubanos ou jipes baianos. Sempre cedem à tentação de se perpetuar no cargo ou de se apropriar do Estado via “crimes eleitorais, alianças espúrias, corrupção da administração, mensalões, achaques. Enfim, a tal corrupção sistêmica” (REVISTA TEORIA E DEBATE, ed. 64, 2005, p.25).
O discurso economicista sustenta que a crise teria sido desencadeada pelo caráter ambivalente do governo, que optou por uma política econômica ortodoxa, neoliberal e antipopular e estruturou um terreno fértil à corrupção. Lula faria uma gestão ambivalente porque enquanto bancava uma política econômica restritiva, com ajustes macroeconômicos, o “neorevolucionarismo stalinista agia à socapa para a realização de seus objetivos totalitários” (REVISTA TEORIA E DEBATE, ed. 64, 2005, p.25-26).
Já o discurso pseudopolítico passa à sociedade a idéia de que ela estaria sendo induzida a acreditar que, em outras palavras, comprou “gato por lebre”, pois o PT havia cultivado uma imagem enganosa. Passava à sociedade a ilusão de que se pautava apenas pela
política e estaria isento de qualquer tipo de politicagem, como o blefe, a simulação e a dissimulação. “Vendeu-se” como paladino da transparência e da ética na política, mas, com o passar do tempo, rendeu-se, como qualquer outro, à corrupção sistêmica. No poder, assim como tantas outras, a legenda teria manobrado, manipulado e se utilizado do marketing ilusionista e de práticas ilegais, como o “caixa dois”.
Sérgio Cardoso reconhece que os discursos não são responsáveis pela crise. Entretanto, destaca que ela só se desencadeia quando, juntos, esses discursos produzem conseqüências políticas, como ocorreu em 2005. Para que haja crise, é preciso que eles sejam sustentados pela classe média, cultivados e explorados pela mídia. Enquanto atuam separadamente, há críticas, denúncias, decepções, mas não há crise.
A partir da descoberta do caso “mensalão”, a “caixa preta” do PT foi aberta e trouxe ao conhecimento do público, entre outras informações, o valor das dívidas contraídas pelo partido e o aval dado a elas por Marcos Valério. A revelação das ações paralelas na área financeira derrubou lideranças partidárias e acabou contaminando a disputa interna no Processo de Eleições Diretas (PED), realizado em outubro de 2005.
A polarização dos debates dividiu o PT entre “éticos” e “não éticos”. Vale lembrar que, antes mesmo da crise, já havia divergências entre correntes que compõem o PT, principalmente, no que diz respeito às políticas econômica, monetária e de alianças e, também, em relação à autonomia do partido frente ao governo Lula.
Com 52% dos votos, Ricardo Berzoini (Campo Majoritário) venceu o segundo turno da disputa pela presidência do PT contra Raul Pont (Democracia Socialista). Mas o Campo Majoritário não conseguiu fazer valer sua força como ocorria em anos anteriores. Teve que dividir os cargos de direção nacional com a esquerda do partido. Participaram do PED 315 mil filiados no primeiro turno e 230 mil no segundo, o que foi considerado pelas lideranças petistas como um sinal de resistência do partido ao caso “mensalão”.
Para Tarso Genro (edição 64), o novo núcleo dirigente deveria se apoiar num programa mínimo de refundação e reconstrução partidária. As relações internas não deveriam mais ser pautadas pela arrogância nem pelo autoritarismo, de forma a garantir mais qualidade de vida no interior do partido e mais respeito mútuo.
A opinião de Tarso Genro é compartilhada por Maria do Rosário, que disputou a presidência do PT pela corrente Movimento PT. Ela pondera que a direção recém-empossada deveria recuperar a democracia interna, eliminando “as maiorias prévias” e quebrando a
“rigidez de blocos irremovíveis”. Segundo a petista, “basta de iluminados dando a linha, dando o tom e distribuindo afagos, reprimendas e indiferenças, de acordo com o matiz de cada interlocutor” (REVISTA TEORIA E DEBATE, ed. 64, 2005, p. 15).
Raul Pont (edição 64), que também é favorável à tese de refundação, considera que a nova gestão precisa discutir a crise de ética partidária. Deve, sobretudo, dialogar com o conjunto de filiados e informá-los, bem como à opinião pública, que os problemas enfrentados não são de origem nem de programa, mas de sua negação por alguns dirigentes e parlamentares “que quebraram a confiança, a lealdade e a ética partidária, jogando o PT e o seu governo na pior crise de identidade enfrentada nesses 25 anos” (REVISTA TEORIA E DEBATE, ed. 64, 2005, p.10).
O petista avalia que a nova direção do PT não pode “vacilar” nem “conciliar” com a crise. Os envolvidos no escândalo devem ser investigados pela comissão de ética do PT para que, depois, seja possível deliberar sobre cada um deles.
Com a vitória de Berzoini, a tese de refundação do PT foi enterrada. O novo presidente disse ser inviável zerar o cronômetro, sob alegação de que não é possível dissociar a história recente da história do PT. Em relação à definição da crise política de 2005 como uma questão ética, ele pondera que o assunto deve ser avaliado para evitar que qualquer desvio cometido seja empurrado para o campo ético.
Berzoini sustenta que o combate à corrupção e acompanhamento da coisa pública, com mecanismos de participação popular e de controle social, sempre estiveram na pauta do partido e, portanto, na contramão dos adjetivos que a oposição, leia-se elite econômica e a mídia, tenta colar à imagem do PT. Por trás das denúncias que provocaram e alimentaram a crise, afirma que estariam interesses distantes da ética.
Qual é, então, a versão do novo presidente sobre o caso “mensalão”? Ele conta que, em 2005, teria ocorrido um processo de degeneração dos procedimentos na área financeira do PT, tanto em relação à campanha quanto em relação à gestão do partido. Algumas lideranças acumularam muito poder, fizeram mau uso dele e estenderam ao partido um clima de desconfiança. Mas nem tudo deve ser tratado como uma questão ética. “Para mim, a ética se situa no campo da confiança, que é diferente do conceito de honestidade. Essa crise foi resultado de um processo de erros, mas sua amplificação decorre da luta política” (REVISTA TEORIA E DEBATE, ed. 64, 2005, p. 7).
Sobre a recomendação de Raul Pont de que a nova direção do PT não pode “vacilar” nem “conciliar” com a crise, Berzoini avisou que nenhum filiado escapará de uma avaliação ética, mas que o PT iria tomar cuidado, para não complicar quem já estava se defendendo no Congresso Nacional.
Em relação a José Dirceu, a quem havia dado apoio, disse considerar “genérica” a acusação de que o ex-ministro seria o idealizador do sistema de compra de votos e que não havia nenhuma prova concreta contra ele. Havia um senso comum de que a sua cassação limparia a imagem do Congresso. Excluindo Dirceu, os outros parlamentares investigados estariam envolvidos em “caixa dois” de campanha.
Na mesma edição, Berzoini disse considerar que a crise não tinha acabado e que seu fim só poderia ser proclamado com o encerramento das CPIs (a dos Bingos e a dos Correios estavam em andamento) e com a comprovação de que o partido não havia montado nenhum esquema de corrupção. O que teria acontecido é que o PT havia cometido “erros operacionais” na condução das alianças no Congresso Nacional.
Seis meses depois, em entrevista concedida a Hamilton Pereira e que foi publicada na edição 66, o presidente do PT sugeriu que a crise havia acabado. Disse a Teoria e Debate que o partido havia sobrevivido ao que chamou de “crise de crescimento”, resultado de um crescimento vigoroso acompanhado da incorporação de hábitos da política tradicional brasileira. A gênese do problema estaria no sistema de financiamento eleitoral, que contaminou todos os partidos, até o PT. Naquele momento (junho de 2006), ponderou que não havia uma versão sobre a crise, pois o assunto estava em processo de discussão interna.
No “olho do furacão”, José Dirceu falou a Teoria e Debate. A entrevista concedida à editora Rose Spina e publicada na edição 65 traz uma avaliação do ex-parlamentar em relação à sua cassação, acertos do governo Lula, política de alianças e sucessão presidencial.
Assim como os outros textos, não há uma explicação sobre o que aconteceu em 2005 ou que “crime” o PT teria cometido no caso “mensalão”. No texto, ele se defende e afirma que o mais importante, naquele momento, era a reeleição do presidente.
Em sua defesa, sustentou que nunca autorizou ou foi conivente com qualquer ação ilícita, que não há provas do seu envolvimento com Waldomiro Diniz em atitudes que possam ser consideradas ilegais, assim como não há provas de que o governo Lula e seus ministros tenham envolvimento em casos de corrupção. Também não haveria provas de que há outras fontes de recursos de “financiamentos nebulosos” (grifo nosso), além Banco Rural e do BMG.
Não há uma versão sobre a crise de 2005. Dirceu se limita a dizer que “a questão do caixa dois do PT está resolvida. O partido está respondendo por isso na Justiça comum e eleitoral” (REVISTA TEORIA E DEBATE, ed. 65, 2006, p.60). Ele argumenta que o que estaria por trás de tudo isso é uma tentativa dos adversários políticos e da mídia de associar a imagem do PT ao crime e à corrupção, que ele é o chefe do “mensalão” e o governo Lula é o mais corrupto da história.
Sobre a forma como o partido enfrentou a crise, Dirceu disse que o PT demorou muito para se defender. A primeira nota oficial só teria sido divulgada no dia 19 de setembro, setenta dias depois da renúncia de Genoino da presidência do PT. A nota dizia que a crise em andamento tinha como pretextos o combate à corrupção no governo federal e a denúncia de “caixa dois” no partido, mas que o propósito real era destruir o PT, inviabilizar o governo e provocar o impeachment de Lula.
Em relação à política de alianças, apontada como o espaço onde se desenhou a crise política, o parlamentar cassado argumenta que o fato de terem surgido problemas de corrupção e éticos não quer dizer que ela foi errada, pois não foi construída com base em nada ilícito. Nesta questão, Dirceu aponta como erro, apenas, a não consolidação da aliança com o PMDB desde o início.
Por fim, ao ser questionado sobre os impactos da crise no governo Lula, declarou que nada deixou de ser feito por causa da crise. Pelo tamanho do problema, considera, inclusive, que o Executivo funcionou de forma regular. Diante da proximidade das eleições, Dirceu recomendou que o partido deveria se reorganizar, reconstruir-se e se preparar para reeleger Lula. Mais uma vez, a importância eleitoral se sobrepõe a qualquer outra discussão.
A edição de Teoria e Debate, edição nº 68, último número investigado nesta dissertação, discute a relação entre a reeleição de Lula e a crise política.
Para Marco Aurélio Garcia, a crise só não chegou ao fim por causa do “escândalo do dossiê” o que, inclusive, teria impedido que o partido elegesse um número maior de deputados e senadores31. Ele assegurou que nunca existiu “mensalão”, mas admitiu que o partido alimentou uma prática de financiamento de campanhas eleitorais de outros partidos
31 Duas semanas antes das eleições de 2006, o PT se envolveu num novo escândalo. A mídia noticiou que
integrantes do partido haviam encomendado ao empresário Luiz Antonio Trevisan Vedoin um dossiê que mostraria a relação entre o candidato ao governo do estado de São Paulo pelo PSDB, José Serra, com a máfia as sanguessugas (esquema que fraudava a venda de ambulâncias para prefeituras). A crise provocou o afastamento de Ricardo Berzoini da presidência do PT e tambem de outros petistas que ocupavam cargo no governo. Marco Aurélio Garcia, vice-presidente, assumiu interinamento a presidência do partido.
como forma de mantê-los na base do governo. Isto teria ocorrido de forma irregular (não houve mensalidade) e os parlamentares petistas não teriam participado, pois isto seria uma incongruência, considerando que eles pertencem ao partido do governo.
Para Newton de Meneses Albuquerque, o bom resultado das urnas não deve encobrir a verdade, sob pena de o partido perder a disputa pela hegemonia ético-politica da sociedade brasileira. Ele defendeu a renovação das concepções burocráticas do partido, para melhorar a relação do PT com as bases, e a punição, inclusive com expulsão, de alguns quadros do partido. Porém, não cita nomes.
Não é possível apostarmos na ruptura com as condutas particularistas, e com a cadeia de lealdades estamentais que marcam o Estado no Brasil, na medida em que alguns dos dirigentes do PT se deixam captar pelos mecanismos sigilosos e antidemocráticos de cooptação e de distribuição de prebendas e favores que conformam historicamente o “nosso” Estado (REVISTA TEORIA E DEBATE, ed. 68, 2006, p.23).
É importante lembrar que essa discussão ocorreu cerca de um ano e meio depois que Roberto Jefferson denunciou a existência do “mensalão”, o que leva a crer que Dirceu, Wladimir e Valter Pomar não eram os únicos que consideravam o período pós-eleitoral como o melhor momento para se discutir a crise política de 2005.
Perspectivas para o futuro
Finalizado mais um período eleitoral, todos parecem querer mudanças no PT. Este seria o melhor momento não apenas para refletir a crise política de 2005, mas para promover os ajustes considerados necessários ao programa, rever o socialismo petista, o rumo das tendências e discutir a profissionalização da burocracia partidária. Estes pontos foram levantados, superficialmente, na edição 68 de Teoria e Debate.
Para Marco Aurélio Garcia, quando uma liderança partidária vence uma disputa eleitoral, torna-se praticamente inviável sua permanência na direção de uma organização, por não ser possível compatibilizar as duas funções. Portanto, não valeria à pena apostar em alguém que irá apenas emprestar o nome ao partido e colocar no comando do PT um assessor
que não foi eleito pelos filiados. Neste caso, seria melhor “criar uma espécie de conselho de notáveis, que enfeite o partido” (REVISTA TEORIA E DEBATE, ed. 68, 2006, p.6).
O presidente interino do PT comenta que não tem uma visão idílica de que o partido voltará a ter as características de 1980, quando as pessoas trabalhavam gratuitamente nos diretórios, pois a política não é mais a mesma e há níveis de profissionalização que precisam funcionar. Não há um novo modelo pronto e acabado, mas o dirigente [padrão] deveria ter uma visão dos problemas e saber conduzir os intelectuais, parlamentares e governadores.
Sobre o mesmo assunto, o secretário-geral da Presidência, Luiz Dulci, pondera que é preciso evitar as soluções demagógicas, pois há cargos dentro do partido que exigem dedicação integral, profissionalismo e, portanto, devem ser remunerados. Valter Pomar, que em muitos momentos faz um contraponto aos membros do Campo Majoritário, também é da opinião que não se pode construir um partido de massas sem uma estrutura de quadros profissionalizada.
Se o PT viesse a ser dirigido por pessoas que recebem votos nas urnas, ele optaria por uma política que já não deu certo. No PT não deu certo porque, nos últimos anos, grande parte das direções foi loteada por quadros que ocupavam postos em governos e por parlamentares. Dois protagonistas das crises que vivemos recentemente – Palocci e José Dirceu – foram eleitos com muitos votos. Conceitualmente é errado porque transforma a disputa do aparelho do Estado em via de acesso à direção do partido (REVISTA