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PARTE I: Desmanchando pontos

1. A reviravolta de Lamalonga

As mulheres que em respeitável distância ao redor da Povoação observavam o seu incêndio, contavam, como lhes sugeria a sua imaginação exaltada pelo maravilhoso, os diferentes episódios e a peripécia ‘daquele drama horroroso.

Lourenço da Silva Araújo e Amazonas1

Em 1757 uma sublevação engendrada por chefias indígenas colocou entraves aos projetos pombalinos durante a conquista do oeste amazônico. O conflito teve início quando o Principal Domingos, líder Manaó, exasperado com o empenho de um missionário carmelita em separá-lo do convívio com uma concubina, arregimentou os principais João Damasceno, Ambrósio e Manoel a uma caçada pelo missionário no intuito de matá-lo. Em 1º de junho os quatro foram à casa do padre e, encontrando-a vazia, furtaram o que interessava e destruíram o restante. Se dirigiram então para a igreja, onde “(...) derramarão os santos óleos por terra, roubarão os ornamentos e vasos sagrados, arruinarão a capella mór, e finalmente botarão fogo à povoação.”2

Até 24 de setembro os rebeldes conseguiram a adesão de muitos outros indígenas, além dos Principais Manacaçari3 e Mabé, do lugar de Poiares. Nesse dia, foram até o lugar de

1 AMAZONAS, Lourenço da Silva Araújo e. Simá, romance histórico do Alto Amazonas. Pernambuco: Typ.

de F. C. de Lemos e Silva, 1857. Disponível em:

http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_obrasraras/or1328753/or1328753.pdf. Último acesso em maio/2022, p.

232.

2 SAMPAIO, Francisco Xavier Ribeiro. Diario da viagem que em visita, e correição das povoações da capitania de S. Joze do Rio Negro fez o ouvidor, e intendente geral da mesma Francisco Xavier Ribeiro de Sampaio, no anno de 1774 e 1775, exornado com algumas noticias geograficas, e hydrograficas da dita capitania, com outras concernentes á historia civil, politica, e natural della, aos uzos, e costumes, e diversidade de nações de indios seus habitadores, e á sua população, agricultura, e commercio: vindica-se occasionalmente o direito dos seus verdadeiros limites pela parte do Perú, nova Granada, e Guyana, e trata-se a questão da existencia das Amazonas americanas, e do famoso lago dourado. Lisboa: Typografia da Academia, 1825, p. 106.

3 No final de 1755, Manacaçari havia oferecido muita resistência a descimentos no rio Marié. Após se reunir com outras lideranças na capital da recém fundada Capitania do Rio Negro e ter concordado em auxiliar nos descimentos, o principal, além de não se apresentar na ocasião de uma expedição, acabou matando um cabo de esquadra e quatro de seus acompanhantes. Manacaçari era temido na região do Rio Negro e quando Mendonça Furtado estava prestes a expedir tropa para puni-lo, Domingos iniciou a sublevação de que tratamos. Cf. APEP, Códice 67, Página 237; SAMPAIO, Patrícia. “Aleivosos e rebeldes”: Lideranças indígenas no Rio Negro, século XVIII. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH, São Paulo, 2011, p. 1 e 2; WRIGHT, Robin.

Moreira, onde finalmente mataram “(...) o missionário Fr. Raymundo de S. Eliseu Carmelita, o principal Cabuquéna (...) e outras pessoas, roubarão, e queimarão a igreja.”4 Dois dias depois, chegaram à vila de Tomar e lá havia um destacamento com 20 homens, mas seu comandante acabou fugindo. Em Tomar, os rebeldes entraram na igreja, novamente furtaram alguns móveis e depredaram o local, o que incluiu decapitar a imagem de santa Rosa, queimar seu corpo no altar e adornar a proa de um de seus barcos com a cabeça. Findaram ateando fogo à maior parte da aldeia.

A caminho da ilha de Timoni, o grupo de Domingos matou mais dois soldados e provocou muitas fugas. Na ilha, conseguiram por aliados outros muitos indígenas das cachoeiras da região e pretendiam conquistar a sede da Capitania do Rio Negro, Barcelos, onde acabara de ocorrer uma sublevação contra o sargento mor e boa parte do destacamento desertara para o lado de Castella. Alguém foi à capital e informou ao sargento mor da articulação para a tomada da cidade pelos revoltosos e o oficial prontamente recorreu a Mendonça Furtado, que para lá enviou o capitão Miguel de Siqueira, seguido por um corpo de infantaria. Experiente em redução indígena, o capitão logo se dirigiu a uma ilha de localização estratégica no rio Apeaná, onde aguardou a passagem dos rebeldes, que iriam em direção a Barcelos. Ao amanhecer, o grupo de Domingos foi surpreendido e uma sangrenta batalha foi travada, com vantagem bélica e vitória dos portugueses.

Em novembro de 1757 Mendonça Furtado avisou ao rei de sua ida até o Rio Negro

“(...) pela segunda e última vez”5 para “pacificar os povos”, 6 o que significou instaurar, na companhia do ouvidor geral do Estado, o processo legal que colocaria fim à conjuração. Três lideranças terminaram pública e exemplarmente enforcadas no lugar de Moreira.

A narrativa dessa sucessão de acontecimentos, além de constar na correspondência entre Mendonça Furtado e Carvalho e Melo,7 foi mais detalhadamente feita pelo ouvidor Xavier Ribeiro Sampaio e retomada, quase com as mesmas palavras de Ribeiro Sampaio, nas anotações iniciais de Alexandre Rodrigues Ferreira, no seu diário de viagem pelo Rio Negro.8 Segundo o ouvidor geral, este “(...) voracíssimo incêndio (...) chegaria a reduzir a cinzas todas as colônias

História Indígena e do Indigenismo no Alto Rio Negro. Campinas: Mercado das Letras e São Paulo: Instituto Socioambiental, 2005, p. 36.

4 SAMPAIO, Francisco Xavier Ribeiro. Op. Cit., 1825, p. 106.

5 Ibidem, p. 108.

6 A expressão consta em ofício enviado a Mendonça Furtado, avisando da visita ao Rio Negro. Cf. OFÍCIO do [governador e capitão general do Estado do Pará e Maranhão], Francisco Xavier de Mendonça Furtado, para o [secretário de estado da Marinha e Ultramar], Tomé Joaquim da Costa Corte Real, sobre sua ida ao Rio Negro para pacificar os povos. AHU_ACL_CU_013, Cx. 43, D. 3898.

7 APEP, Códice 67, Página 237 a 242.

8 UGARTE, A. S.; SANTOS, Francisco Jorge dos (Org.) ; COIMBRA, Mateus (Org.) . Viagem Filosófica ao Rio Negro. 2ª Ed. Manaus: EDUA, 2007.

portuguesas do Rio Negro se não fosse brevemente atalhado”.9 O episódio ficou conhecido como a Rebelião de Lamalonga e foi tema do primeiro romance literário publicado em português tendo por pano de fundo a Amazônia.

O baiano Lourenço da Silva Araújo10 foi comandante militar na Amazônia em meados do século XIX, atuando em comissões nas províncias do Pará e em pesquisas na região do Amazonas por cerca de 5 anos. Sobre a Amazônia, Araújo escreveu dois livros, além de vários artigos para o Jornal do Comércio, na década de 1850. O primeiro livro (1852), publicado nos anais do IHGB, reúne suas impressões etnográficas, informações geográficas e histórias reunidas sobre o Alto Amazonas. O segundo livro (1857) é um romance literário e foi publicado no centenário da Rebelião de Lamalonga, tendo esta por tema. Em “Simá: Romance histórico do Alto Amazonas”, Lourenço da Silva Araújo conta a saga da liderança Manaó Domingos e sua amada Simá, por quem travou a maior guerra do Alto Rio Negro. O autor descreve Simá como uma belíssima mameluca, educada desde os 9 anos por Frei Raimundo de Santo Eliseu, um missionário carmelita. A moça tinha uma conduta pura e bondosa; o autor a chama de Helena do Rio Negro, região que compara ao Éden. 11

Antes de contar a paixão vivida por Domingos e Simá, Araújo apresenta uma longa contextualização histórica das disputas entre portugueses e espanhóis pelo domínio da região, que antecediam ao Tratado de Madri. Sobre essa disputa, o Principal Domingos entendia ser melhor negociar com os espanhóis do que ser escravo dos portugueses, como alertava vir ocorrendo. Educados pelo mesmo missionário, Domingos e Simá se apaixonaram e chegaram a noivar. Entretanto, no intuito de instigar uma guerra, alguns espanhóis espalharam que os dois viviam amancebados e que os portugueses viriam separá-los. A guerra foi então deflagrada e Simá morreu tentando defender Frei Raimundo de uma flechada.

Em paralelo com a Guerra de Tróia, a Rebelião de Lamalonga teve por estopim a paixão de Domingos por Simá, que era “meio espanhola e meio indígena”. No entanto, o autor faz questão de frisar que a mameluca não era adúltera, tal como Helena. Para Lourenço da Silva Araújo, o dito concubinato não passava de um boato maldoso, que visava promover o confronto

9 SAMPAIO, Francisco Xavier Ribeiro. Op. Cit., 1825, p. 106.

10 A epígrafe que abre este capítulo é dele, que acrescentou o “Amazonas” em seu nome quando publicou o romance que se passa no Alto Rio Negro.

11 Sobre a trajetória literária de Lourenço da Silva Araújo, Cf. COSTA, Daniel Padilha Pacheco da. Mito e história no “romance épico” Simá de Lourenço da Silva Araújo e Amazonas. DPP Costa, v.23, n.2, 2019, p. 101 a 122.

Disponível em: https://periodicos.uem.br/ojs/index.php/Dialogos/article/view/46096/pdf. Último acesso em maio/2022. A obra de Araújo pode ser lida online: AMAZONAS, Lourenço da Silva Araújo e. Simá, romance histórico do Alto Amazonas. Pernambuco : Typ. de F. C. de Lemos e Silva, 1857.

Disponível em: http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_obrasraras/or1328753/or1328753.pdf. Último acesso em maio/2022.

definitivo entre indígenas do Alto Rio Negro e portugueses. Tal fabulação enriquece o episódio enquanto romance e poderia guardar alguma relação com a realidade, não fosse por informações presentes na correspondência trocada entre o governador da Capitania do Rio Negro, Tinoco Valente e o governador geral do Estado, Fernando da Costa de Ataíde Teive.12

Dentre as várias notícias e solicitações de Tinoco Valente na sua gestão (1763-1779), uma se constitui como peça-chave neste enredo, se considerarmos a narrativa até então elaborada pela historiografia. Em 1764, Dona Anna Maria de Ataíde requeria, por meio do diretor de Lamalonga, um vigário que servisse a povoação. Dias depois, ela requisitava que uma filha sua de onze anos de idade, que estava trabalhando em casa de Francisco Rabelo, retornasse para a sua casa.13

Intercedendo por Anna Maria, Tinoco Valente pedia ao governador geral celeridade no cumprimento dessas solicitações, alegando que “(...) a essa mulher se lhe devem fazer todas as vontades”. Segundo ele, Dona Anna Maria de Ataíde era a índia mais leal aos portugueses e isso havia testemunhado o próprio Mendonça Furtado, durante a Rebelião de Lamalonga.

Naquele episódio, ela teria denunciado a traição e as intenções dos levantados, permitindo que as autoridades do Estado pudessem articular a retaliação à revolta. A correspondência não traz maiores detalhes, mas é possível inferir ter sido ela quem chegou a Barcelos e avisou ao capitão mor sobre plano dos levantados de dominar a capital. Consta no documento que Anna Maria havia conseguido fugir de seu marido para entregá-lo; ele seria o “cabeça do dito levantamento”.

Aqui temos uma personagem importante para o desenlace do levante. O que se sabe de certo é que Dona Anna Maria era esposa de um dos cabeças, não necessariamente de Domingos. Nas palavras de Tinoco Valente, Maria “(...) foi a que no tempo do levantamento deu os avisos da traição que os Índios intentavam; fugindo a seu marido e entregando-o pelo concluir cabeça do dito levantamento”.14 O uso de “cabeça”, no singular e não, por exemplo, um dos “cabeças” leva a crer que Dona Anna Maria era a esposa de Domingos, conhecido por todos como o principal líder. Sendo assim, ela, portanto, estaria contrariada com a situação de concubinato, sobre a qual não restaria dúvidas. De todo modo, seu marido fazia parte do grupo articulador, do qual ela decidiu liquidar os propósitos.

12 APEP, Códice 133, Páginas 275 e 287.

13 Ibidem.

14 APEP, Códice 133, Página 287.

A gratidão, expressada pelo governador, não se restringia ao papel decisivo da índia para que os portugueses pudessem se antecipar aos rebeldes e conter a sublevação. De acordo com Tinoco Valente, ela

[...] não só foi às Povoações das Cachoeiras, ou vizinhas a elas, a praticar algumas Almas, que andavam refugiadas cujas conserva no dito lugar de Lamalonga; e aproximadamente depois de mas vir apresentar, me pediu Licença para ir buscar todas as que estavam nas Povoações de Castella, pois estes a avisavam os fosse buscar, que não tinham dúvida nenhuma descer para a sua Povoação; e logo que teve a minha Licença imediatamente se pôs a caminho, a fazer a dita diligência.15

Anna Maria resolveu de forma inequívoca o conflito que teve potencial de assumir caráter internacional na fronteira oeste da Amazônia e, sem dúvida, vingou-se de seu marido.

Não encontramos seu nome em nenhum dos relatos sobre a rebelião, possivelmente pela correspondência onde ela aparece não ter sido analisada até então, ou não ter sido associada à esta rebelião. Não obstante, sua participação elucida pontos importantes, como a possível veracidade da condição de concubinato, sobre a qual se lançou dúvidas (ainda que na literatura) ou foi subestimada, além da aliança imprescindível com nativos para o sucesso de qualquer empreitada, seja lá qual for a barganha.

Maria de Ataíde seguiu por anos contribuindo para a fixação de pessoas que ela ajudava a descer, por isso requeria para a povoação um vigário e também vestimentas.

Esses motivos me obrigaram a premia-la como pude, ficando-me o sentimento de não ter com que lhe vestir tantos nus, como me apresentou, e espero apresente; aonde suplico a V. Ex. me remedeie, porque quando obro, é debaixo de promessas, e não tem em mim enganos.16

A índia aparece ainda na relação de pessoas que viviam em Lamalonga, no ano de 1770. Mauro César Coelho apontou que as lideranças indígenas assumiram tal importância que mantinham um considerável número de pessoas sob seu controle. Dentre as lideranças de Lamalonga, estava Anna Maria de Ataíde, com um grupo de 20 pessoas. É um número razoável, se comparado às demais lideranças da mesma localidade. Aproveitando a contagem de Mauro Cezar: “(...) o Principal Miguel Azevedo controlava cento e dezoito pessoas; Manoel da Silva, setenta; Joaquim Tinoco Valente, dezoito, Anna Maria de Ataíde, vinte; Ignácio de Castro, quinze e o Principal Jaguaracy, quatorze.”17

15 Ibidem.

16 Ibidem.

17COELHO, Mauro Cezar. De Guerreiro a Principal: integração das chefias indígenas à estrutura de poder colonial, sob o Diretório dos Índios (1758-1798). Actas do Congresso Internacional Espaço Atlântico de Antigo Regime: poderes e sociedades. Instituto Camões: Lisboa, 2008, p. 8. Acesso à relação geral de pessoas estabelecidas em Lamalonga: APEP, Códice 217, Página 143. Anna Maria de Ataide consta na página 152 desse códice.

Pela decisiva informação sobre a revolta e pela assente condução a descimentos, Donna Anna Maria assumiu por anos a posição de liderança em Lamalonga. Sua participação no conflito, visto como um dos maiores do Rio Negro, permite refletir sobre o modo como as tramas familiares podem ser decisivas em questões públicas e diplomáticas. Além disso, ao deixar de ser esposa de Principal e se tornar Principalesa, Anna Maria mostrou habilidades que extrapolaram um auxílio pontual; ela persuadia grupos a descerem para aldeamentos portugueses.

Sobre a provável contrariedade quanto ao concubinato, Maria faz coro com outras mulheres que viviam nos núcleos coloniais. Nos capítulos que seguem veremos pelo menos mais dois exemplos de completa vexação com tal situação; uma índia que mandou uma moça pela qual seu marido se interessara assada à mesa e outra que arrancou as genitais do companheiro, ambas por serem ciumentas, ou zelosas, como disse o bispo Queirós.18

Temos ainda mais algumas questões que por certo atravessam a dualidade índios versus portugueses, que poderia ser acionada a partir da sublevação descrita. Se Maria de Ataíde, bem como outras lideranças, obtinha sucesso nos descimentos a que se propunha, é válido reiterar que os grupos desciam pelas afinidades, fossem linguísticas ou por outros costumes similares e reconhecíveis de quem partilhava o mesmo território. Seja como for, a persuasão com vistas a colonizar contava com uma sorte de elementos, dentre eles, a imprescindível aliança com nativos.

Em tempo, o levante que partiu de Lamalonga inicialmente foi tomado pelas autoridades portuguesas mais como um entrave aos descimentos do que uma possível ameaça diplomática. Em 17 de junho de 1757, Mendonça Furtado escreveu para seu meio irmão, Sebastião José de Carvalho e Melo – o conhecido Marquês de Pombal –, avisando da necessidade de enviar recursos para conter os rebeldes, que naquele momento haviam feito saques em três povoações. Ele começa sua carta reclamando que ainda se ocupava da punição ao Principal Manacaçari quando o sargento mor o informou deste novo movimento rebelde. O documento está muito danificado e quase inteiramente corroído nas laterais, mas é possível inferir que os revoltosos haviam se dirigido à parte espanhola após os assaltos. Segundo Furtado:

Como estes homens não só tiveram o atrevimento de derrubarem os armazéns mas roubarem igual, mais uns poucos de particulares, julgo que estão [ilegível] de os eu reclamar na parte da Concordata das duas Coroas, e me parece que devo escrever assim ao Capitão mor, ou Tenente de Rei de Omágua e a Real liderança de Quito, para

18 Cf. QUEIROZ, Bispo João de São José. “Viagem e visita do sertão em o Bispado do GramPará em 1762 e 1763”, In: Revista do Instituto Histórico de Geográfico Brasileiro: IHGB, 9, 1847, p. 43-107; 179-227; 328-375; 476-527, p. 63 e 224-225.

que se me restituam os ditos réus [...] e que aquelas tropas estavam destinadas para as Demarcações dos Domínios que as duas Coroas tem efetuado.19

Mendonça Furtado manifesta a intenção de negociar a captura dos rebeldes com os castelhanos sem considerar que tal movimento pudesse ser um obstáculo, demonstrando não associar o levante a uma ameaça à demarcações. Ainda que a definição de fronteiras estivesse em plena configuração, a revolta de Lamalonga não foi vista como uma associação à outra Coroa, ao menos não antes de se ter ciência do plano de tomar a capital, como consta na explanação de Mendonça Furtado à Lisboa. De todo modo, o levante demandou a requisição de armamentos mais eficazes e atenção redobrada naquelas cachoeiras.

Contudo, o processo de demarcação era delicado e qualquer contratempo nas fronteiras deixava as autoridades inquietas. Em 15 de janeiro de 1761, por exemplo, um ofício do governador interino do Rio Negro, Valério Correia Botelho de Andrada a Sebastião José de Carvalho e Melo informava sobre uma tensa negociação de limites entre o alferes Miguel de Siqueira Chaves20 e o sargento espanhol Francisco Fernandes de Bovadilha no que dizia respeito à jurisdição das cachoeiras. Miguel de Siqueira solicitava imediatamente “(...) reforçar o destacamento das Cachoeiras (...) com as munições de Guerra que me parecem necessárias”.21

Não é de nosso interesse incorrer pelas questões diplomáticas entre Portugal e Espanha, referentes às disputas nas fronteiras. Quanto ao espaço físico ocupado por Portugal, nos propusemos a pensar mais detidamente acerca dos espaços coloniais, com foco nas variáveis que interferiam na sua formação, fixação ou desaparecimento. Também não realizamos um estudo sistemático sobre demografia, mas tentaremos delinear o espaço português na Amazônia, no sentido de melhor situar a mobilidade de populações em contato e seu estabelecimento nos núcleos coloniais.

Finalmente, ao considerar a delação de dona Anna Maria como movida pela vingança, o que ela fez com esse possível sentimento é precisamente o que interessa à historiografia. É possível dizer que o afeto seja um potente motor inerente a agência e é impreciso tentar ordenar o conjunto de elementos levaram a uma decisão tão categórica quanto entregar um marido a

19 APEP, Códice 67, Página 241.

20 Provavelmente o mesmo Miguel de Siqueira que comandou a repressão à Revolta de Lamalonga, uma vez que este Miguel aparece ligado ao comando de tropas no Rio Negro desde 1736 e Xavier Ribeiro Sampaio sugere que o capitão havia sido enviado ao Rio Negro com a finalidade de cuidar das demarcações.

21 OFÍCIO do [governador interino do rio Negro, tenente-coronel] Valério Correia Botelho de Andrada ao [secretário de estado dos Negócios do Reino], (Conde de Oeiras), [Sebastião José de Carvalho e Melo] enviando a correspondência trocada com D. José Iturriaga acerca da anulação do Tratado de Limites da América, e entre o alferes Miguel de Siqueira Chave e o sargento Francisco Fernandes de Bovadilha sobre a jurisdição das cachoeiras.

AHU_ACL_CU_020, Cx. 2, D. 111.

seus inimigos. Pode ser que ela estivesse em busca do poder e da liderança que efetivamente conquistou posteriormente. Ou ainda, que estivesse agindo inicialmente por vingança e depois considerou a recompensa; ou que apenas quisesse se livrar de seu marido ou que ela respeitasse e tivesse boas relações com os portugueses. Além dessas hipóteses poderem ser combinadas de diversas maneiras, pode ser também que haja mais uma parte dessa história não registrada na documentação pertinente. O que podemos afirmar com bastante segurança é que a história de Anna Maria de Ataíde é atravessada por muitos dos caminhos que pudemos percorrer nesta tese ao remontar outras histórias. Buscaremos explorá-los com a maior atenção possível.

Abrimos nosso estudo com a Rebelião de Lamalonga porque esse episódio possibilita algumas reflexões sobre a constituição dos espaços na Amazônia colonial, sobre os arranjos coletivos nessa constituição, a retaliação aos povos indígenas, alianças diversas, escravização e, principalmente, a participação da mulher em meio a tudo isso, com seus afetos, desafetos, conquista de lugares na hierarquia, atuação como esposa, amante, liderança. Esses aspectos não dão conta da agência feminina nos núcleos coloniais, mas fornecem poderosas pistas para investigação.

O modo como as mulheres indígenas eram vistas pelo colonizador é também parte crucial para a compreensão desse universo de relações. O juízo acerca dos costumes indígenas mobilizou políticas diversas, que se alteraram com o passar do tempo, mas que mantiveram como pilar a certeza de que era preciso reprimir costumes considerados nocivos à civilização.

Com isso em mente, antes de partirmos para uma analise documental do cotidiano que conseguimos acessar dessas mulheres, consideramos fundamental trazer para o debate alguns dos estereótipos que recaíram sobre elas, um deles chegando a se transformar no mais destacado topônimo da região, as amazonas.