CAPÍTULO II – A IMPORTÂNCIA DA QUESTÃO COLONIAL
1. A Revisão Constitucional de 1951
A política colonial do Governo de Salazar, segundo o historiador Fernando Martins, baseou-se no princípio contraditório, mas não inexplicável, da existência e criação de uma “totalidade portuguesa”115. Foi no seguimento desta linha filosófica que o Acto
Colonial116, parte integrante da constituição 1933117, bem como a revisão desta matéria constitucional no ano de 1951, criou, primeiro (e manteve inalterável depois) o carácter unitário dos vários territórios ultramarinos que compunham a nação118.
Nos termos desta revisão todo o território português ficava abrangido pela mesma lei fundamental. Para melhor concretizar esta integração desaparecia o conceito de colónia
113 OLIVEIRA, César, A Evolução Política. In SERRÃO; MARQUES, Nova História de Portugal – Portugal e o
Estado Novo (1930-1960), p. 69.
114 Esta revisão foi antecipada e convocada, sobretudo, para acabar com o acto colónia, por causa da «onda de descolonização» que começara a varrer no mundo. ROSAS, Fernando; BRITO, Brandão, Dicionário do Estado
Novo, vol. I, Dicionário do Estado Novo, p. 22.
115 Expressão utilizada por Franco Nogueira na sua História de Portugal, 1933-1944, II Suplemento, p. 235. 116 A Viragem nacionalizante e centralizadora operada pela política colonial do Estado Novo teve como expressão institucional o Acto Colonial de 1930 publicado durante a interinidade de Salazar no Ministério das Colónias. O Acto Colonial foi aprovado pelo Decreto nº18570 de 8 de Julho de 1930, e a sua redacção definitiva pouco divergia do projecto inicial. Salazar destacou quatro traços fundamentais do Acto Colonial: a ideia de império, a maior concentração de poderes (quer no governo central, quer nos governos ultramarinos), a forte reivindicação de ordem nacional e a integração das colónias e metrópole «na unidade pluriforme da Nação Portuguesa». (…) O Acto Colonial abriu uma nova fase na história colonial portuguesa, identificada pela promoção da política imperial e a implantação de um modelo nacionalista e centralista, subordinando os interesses das colónias aos da Metrópole. ROSAS; BRITO, Dicionário do Estado Novo, vol I, p. 20.
117 Efectivamente após o plebiscito de 1933, o Acto Colonial será republicado, passando a integrar o texto constitucional com o seu título VII («Do império colonial português»). ROSAS; BRITO, Dicionário do Estado
Novo, vol I, p. 203.
que era substituído pelo de província119, extinguindo-se, assim, a designação de Império
Colonial Português, surgindo a de Ultramar Português. Era a adopção de uma política colonial integrista em substituição do esquema colonial clássico120.
Em virtude das pressões internacionais, os anos 50 representam o início de uma nova fase da política colonial do regime, marcado por várias medidas inovadoras tanto institucionalmente como economicamente. Esse esforço integracionista conduziria a um reforço drástico, e sem precedentes, da viragem para África, facto este que começou antes do desencadear da guerra colonial a partir de 1961121.
Relativamente às mudanças de conteúdo, deve-se assinalar as sucessivas reformas no regime de trabalho indígena122, tentando-se pôr cobro, no plano legal, ao recrutamento
compulsivo daquelas populações (…). Pretendia-se, desta forma, proporcionar aos indígenas um conjunto de condições jurídico-formais que permitissem a estes comportarem-se como a maioria branca123. No entanto, o fim da descriminação apenas se
concretizou com as reformas de Adriano Moreira, enquanto Ministro do Ultramar124. Estas
serviram essencialmente, para, na cena internacional, o regime passar uma imagem de reformador relativamente à integração dos então designados indígenas125.
No entanto as principais mudanças fizeram-se sentir na esfera económica. O entendimento das colónias como extensões naturais do território metropolitano tinha, forçosamente, de levar o Governo de Salazar a autorizar a instalação das primeiras industrias como alternativa económica à exploração do trabalho negro nas grandes fazendas agrícolas. Era importante demonstrar à comunidade internacional que o Governo Central empenhava-se no fomento económico das suas “províncias ultramarinas” como forma de as legitimar. Acrescia ainda que a industrialização dos territórios ultramarinos era
119 A designação de província corresponde à necessidade de afirmar a unidade nacional perante a comunidade das nações, como à mesma preocupação corresponde o desaparecimento da expressão «Império Colonial». MOREIRA, Política Ultramarina, p. 290.
120 OLIVEIRA, César, A Evolução Política. In SERRÃO; MARQUES, Nova História de Portugal – Portugal e o
Estado Novo (1930-1960), p. 71.
121 Cit. por. ROSAS, História de Portugal, O Estado Novo (1926-1974), p.486.
122 Desde a data de Elaboração do Estatuto dos indígenas, pelo Comandante João Belo, a evolução do próprio Estatuto requeria uma avaliação urgente. O Estatuto apoiava a imagem da discriminação e servia de argumento em ataques desferidos contra Portugal na ONU e na imprensa internacional, no sentido que em Portugal também havia descriminação. GARCIA, Análise Global de uma Guerra, p. 83.
123 Já em 1956, Adriano Moreira, na sua obra Politica Ultramarina, relativamente a esta questão, escrevia o seguinte: «A faculdade que o indígena tem de, voluntariamente e logo que tenha adquirido os usos e costumes pressupostos pela
aplicação do direito público e privado português, optar pela lei portuguesa comum, ficando assim assimilado aos cidadãos originários, mostra como a igualdade do género humano continua a inspirar o nosso direito.» MOREIRA, Política Ultramarina, p. 295.
124 Cit. por. ROSAS, História de Portugal, O Estado Novo (1926-1974), p.486.
125 Uma das reformas que se deve destacar foi a abolição do «estatuto de indigenato». NOGUEIRA, Salazar,
cada vez mais entendida como um factor determinante do desenvolvimento da economia da metrópole. Por conseguinte, os sucessivos planos de fomento126 previam também para os territórios africanos, em especial para a Angola e Moçambique, medidas impulsionadoras do seu desenvolvimento paralelas às implementadas na metrópole. Assim, com o primeiro plano, em 1953127, Angola e Moçambique foram contempladas com
avultados investimentos para a criação de infra-estruturas, sobretudo ligadas à produção de energia eléctrica e de cimento128.
A modernização do sector agrícola, por outro lado, tendo como objectivo uma grande produção de produtos tropicais e a extracção de matérias-primas, direccionadas para os mercados internacionais, foram também preocupações do 1º Plano de Fomento. Associado a este fomento económico, esteve o lançamento de projectos de colonização intensiva com população branca, materializando a política de colonização/povoamento agrícola do ultramar com populações brancas vindas da metrópole consolidando, dessa forma, a presença portuguesa em África129. Este fomento económico das colónias, a que se
assistiu a partir dos anos 50, intensificou-se mais tarde, com a ideia de Salazar em construir um Espaço Económico Português (EEP)130. É com esta crença que se assiste nas décadas
de 50 e 60, até 1974, à beneficiação de vias de comunicação, à construção de escolas, hospitais e, sobretudo, ao lançamento de obras grandiosas131.
Como é fácil de constatar o duplo carácter, ideológico e económico, contribuiu, de uma forma decisiva, para a recusa do Estado Novo em discutir a questão colonial. Esta convicção podia-se ler de forma explícita num dos discursos da época de Oliveira Salazar, dedicado ao tema «Portugal e Campanha anti colonialista», feito na Assembleia Nacional, em Novembro de 1960, onde ele expõe a sua tese: “Quando a Nação portuguesa se foi
estruturando e estendendo pelos outros continentes, em geral por espaços livres ou desaproveitados, levou consigo e pretendeu imprimir aos povos com quem entrara em contacto conceitos muito diversos dos que mais
126 Os traços fundamentais do modelo de desenvolvimento do Estado Novo, das suas preocupações adaptações e insuficiências podem ser detectados a partir da leitura das propostas de lei e projectos dos planos de fomento que enquadram o período em análise. SERRÃO; MARQUES, Portugal e o Estado Novo, p. 323.
127 Aprovado pela Lei n.º 2058, de 29 de Dezembro de 1952, representou um conjunto de investimentos públicos a que foram afectados recursos financeiros, tratando-se, portanto, de um somatório de planos parciais. NUNES, Ana Bela; BRITO, José Maria Brandão, Política Económica, Industrialização e Crescimento. In SERRÃO; MARQUES, Nova História de Portugal – Portugal e o Estado Novo (1930-1960), p. 323.
128 Cit. por. ROSAS, História de Portugal, vol VII, O Estado Novo, p. 487. 129 Cit. por. ROSAS, História de Portugal, vol VII, O Estado Novo, p. 486.
130 O EEP constituiu um processo de procura de um maior inter-relacionamento dos diferentes espaços económicos nacionais (Metrópole e províncias ultramarinas), processo este que decorrerá entre 1962 e1974 e que assenta no instrumento legislativo fundamental que foi o DL 44016 de 8-11-1961. ROSAS e BRITO,
Dicionário do Estado Novo, vol.I, p. 313.
tarde caracterizaram outras formas de colonização. Às populações que não tinham alcançado a noção de pátria, ofereceu-lhes uma; aos que se dispersavam e desentendiam em seus dialectos, punha-lhes ao alcance uma forma superior de expressão – a língua; aos que se degladiavam em mortíferas lutas, assegurava a paz, os estádios inferiores da pobreza iriam sendo progressivamente vencidos pela própria ordem e pela organização da economia, sem desarticular a sua forma peculiar de vida. A ideia de superioridade racial não é nossa; a da fraternidade humana, sim, bem como a da igualdade perante a lei, partindo da igualdade de méritos, como é próprio de sociedades progressivas”132
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