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CAPÍTULO II – RENASCE A REPÚBLICA

2. A Revolução de 1930

As propostas da Aliança Liberal sensibilizaram os grupos urbanos, inclusive os tenentes, mas não foi suficiente para garantir a vitória. Mesmo os tenentes, no entanto, mantiveram-se em dúvida sobre se aderiam ou não à Aliança Liberal, visto que alguns de seus velhos inimigos integravam aquele agrupamento político (MARIZ, 1984, p. 25). A adesão da facção centrista dos tenentes à Aliança Liberal fraturou o tenentismo. Luís Carlos Prestes, figura de proa do tenentismo, recusou- se a participar de qualquer movimento que contasse com a presença de lideranças políticas que ele classificava como oligárquicas. Ao romper com seus antigos companheiros, Prestes lançou um manifesto de orientação comunista, conclamando o povo a uma revolução “nos moldes bolchevistas.” A posição do maior líder tenentista chocava-se frontalmente com a proposta de outro grande tenente, Juarez Távora, para quem as forças militares deveriam estar presentes “como elemento disciplinar e responsável pela organização nacional” (MARIZ, 1984, p. 26).

O que todos aguardavam se confirmou. A chapa governista, formada por Júlio Prestes e Vital Soares, venceu a oposicionista, formada por Getúlio Vargas e João Pessoa. Mais uma vez funcionava a máquina eleitoral do governo federal, azeitada pelas fraudes e pelo voto de cabresto. Na verdade, houve fraude dos dois lados. Ganhou, porém, quem fraudou mais.

A derrota da Aliança Liberal frustrou a população. Cresceu a agitação popular. A oposição, a princípio, aceitou o resultado, mas o descontentamento da população chegou a um ponto tal que escapou ao controle dos membros da Aliança Liberal, muitos deles já acomodados e desejosos de lançar pontes em direção aos vitoriosos na eleição de 1º de março de 1930. Articulava-se a

Revolução. Lideranças políticas e militares emergentes, como Osvaldo Aranha, João Neves da Fontoura, Juarez Távora e outros, demonstravam abertamente o inconformismo, como apontam duas estudiosas da temática:

Era clara no interior da Aliança Liberal uma diferenciação mais explicável em termos de geração do que de ideologia. Lado a lado no movimento estavam quadros tradicionais e jovens que haviam iniciado carreira política à sombra de velhos oligarcas da Primeira República. No Rio Grande do Sul esta força jovem, conhecida como “geração de 1907” (ano relativo ao término de sua formação universitária), era representada por Vargas, Flores da Cunha, Osvaldo Aranha, Lindolfo Collor, João Neves, Maurício Cardoso e Paim Filho; já em Minas, Virgílio de Mello Franco e Francisco Campos, ambos descendentes de famílias tradicionais da região, eram seus principais representantes. Esses políticos mais jovens, alguns dos quais se haviam destacado na luta contra o tenentismo, estavam dispostos a seguir o caminho dos tenentes (FERREIRA e PINTO, 2003, p. 407).

Penna (1999, p. 165) argumenta que a principal característica da Aliança Liberal era a de representar os estados “cujos interesses não estavam vinculados ao café”. A Aliança Liberal foi uma frente política que alcançou dimensão nacional, ao contrário do PD paulista, “que nascera de uma disputa em torno de postos no Instituto do Café – o conselheiro Antônio Prado tinha interesses na área do café, mas se opunha à política de valorização do governo –,” e tinha convicções políticas até certo ponto densas, sem ser radical.Isso ocorria porque a Aliança continha “os elementos típicos da conciliação e do compromisso, já que seus quadros provinham dos mesmos segmentos de classe”. Da geração mais nova, mas formando no time dos tradicionais, Getúlio Vargas representava à perfeição o que está acima exposto. Desde o início mostrava-se reticente quanto aos projetos revolucionários dos seus companheiros, até que o assassinato de João Pessoa (26 de julho de 1930) por João Dantas, em Recife, precipitou as coisas, pois o crime ganhou conotação política em virtude da ligação entre o assassino e correntes políticas adversárias de João Pessoa, na Paraíba. Mesmo tendo ocorrido por questões pessoais, o assassinato de João Pessoa foi tratado de forma a parecer um atentado político, permitindo a criação de um clima de tensão e de enfrentamento necessário aos aliancistas para desencadear o levante armado contra as oligarquias tradicionais.

A 03 de outubro de 1930 irrompeu a Revolução no Rio Grande do Sul, em Minas Gerais e na Paraíba. O movimento conseguiu rápidas vitórias no Sul e no Nordeste, mas enfrentou séria resistência em São Paulo. Para evitar uma guerra civil, uma Junta Militar (Junta Pacificadora), formada por Tasso Fragoso, Mena Barreto e Isaías Noronha que, a 24 de outubro, depôs o Presidente Washington Luís. Pretendia permanecer no poder, “mas a pressão das forças revolucionárias vindas do Sul e das manifestações populares obrigaram-na a entregar” (FERREIRA e PINTO, 2003, p. 407) a Presidência da República a Getúlio Vargas no dia 03 de novembro.

A Revolução de 1930 eclodiu quando Juvenal Lamartine governava o Rio Grande do Norte. Apesar de um hábil administrador e um homem de letras, Juvenal Lamartine caracterizou-se também pela intolerância política em relação aos seus adversários. Fechara os sindicatos operários e a imprensa de oposição era controlada com mão-de-ferro, quando não proibida.

Quando foi formada a chapa da Aliança Liberal (Getúlio Vargas e João Pessoa), que concorreu contra a candidatura governista (Júlio Prestes e Vital Soares), os principais líderes políticos no estado, Juvenal Lamartine e José Augusto, apoiaram Júlio Prestes. O apoio de Juvenal Lamartine e de José Augusto à candidatura de Júlio Prestes foi de fundamental importância para a vitória aqui no estado dos candidatos do governo. A campanha sucessória para chefiar o Executivo estadual foi deflagrada num contexto de instabilidade política. O nome que a oposição acalentava

era do desembargador Silvino Bezerra, irmão de José Augusto, que havia rompido, em 1929, com o governador Juvenal Lamartine.

A historiadora Marlene Mariz escreveu um texto seminal sobre como se desenvolveu o processo revolucionário no Rio Grande do Norte, no qual aponta a carência de dados como elemento que dificulta uma análise mais pormenorizada. Foram dois, conforme ela relata, os comícios realizados pela Aliança Liberal no Rio Grande do Norte com a presença de líderes nacionais – um em Natal e outro em Mossoró (MARIZ, 1984, p. 52).

A instabilidade econômica internacional e nacional repercutiu de forma intensa no Rio Grande do Norte, derrubando as receitas públicas. Sindicatos e imprensa oposicionistas foram silenciados. É nesse ambiente que grupos políticos ligados ao partido do governador Juvenal Lamartine antecipam os acordos, “tentando prevenir a imposição de um nome a ele ligado”. Incontinenti, Juvenal Lamartine tentou reorganizar o Partido Republicano Federal do Rio Grande do Norte (PRF) buscando “dar-lhe um programa, estatutos, eleger a Comissão Executiva e diretórios em cada município”. Para implementar suas pretensões, o governador “convocou uma assembléia partidária para o dia 12 de outubro de 1930”, que não se reuniu porque ele foi deposto no dia 8 do mesmo mês. Lamartine buscava “controlar o partido (ele detinha o governo, mas não a chefia do partido que continuava em mãos do senador José Augusto desde 1923) e conduzir o processo sucessório impondo o nome de seu sobrinho e ex-auxiliar de governo, deputado federal Cristóvão Dantas.” A pretensão do governador esbarrou no lançamento da “candidatura dissidente do desembargador Silvino Bezerra Neto, irmão do senador José Augusto”, que, mesmo tendo um irmão candidato a governador, apoiou o candidato lançado por Lamartine (SPINELLI, 19996, p. 23-24). A deflagração do movimento revolucionário de 1930, porém, interrompeu a campanha e criou, temporariamente, um quadro de incertezas.

As principais lideranças políticas que apoiavam a Aliança Liberal no estado eram João Café Filho, advogado e jornalista ligado às atividades sindicais, defensor apaixonado do movimento revolucionário e um dos muitos perseguidos pelo governador do estado18, e o coronel Dinarte

Mariz, liderança emergente na região do Seridó, berço político de Juvenal Lamartine. Esse arranjo criou tensões no interior da Aliança Liberal, principalmente entre 1930-34, quando os cafeístas e os “decaídos” estiveram envolvidos numa forte disputa pelo poder (FERREIRA, 1989, p. 64). As facções cafeísta e dinartista receberam, no momento pré-revolucionário, o apoio do capitão Abelardo de Castro, enviado por Juarez Távora com a missão de sublevar a guarnição de Natal.19

A adesão à Aliança Liberal, porém, circunscrevia-se a setores da classe média, pequenos comerciantes e jornalistas, grupos que gravitavam em torno de Café Filho. Mas mesmo de maneira tímida, a campanha progride, inclusive recebendo a “Caravana Luzardo”, que percorria o Brasil fazendo proselitismo político.

Realizadas as eleições e abertas as urnas, confirmou-se o que já se sabia – a fragilidade política e eleitoral da Aliança Liberal no Rio Grande do Norte. A chapa lançada e apoiada pelo governo estadual foi a grande vitoriosa por uma margem absurda de votos. Diz Marlene Mariz:

18 Em 1928, num ato de repressão típico dos grupos oligárquicos contra as lideranças dos trabalhadores, a polícia invadiu

o Sindicato Geral dos Trabalhadores de Natal, chefiado pelo jornalista Sandoval Wanderley. Na ocasião os policiais promoveram um quebra-quebra e surraram alguns operários. O então candidato a vereador João Café Filho e o próprio Sandoval Wanderley foram perseguidos e obrigados a abandonar o estado.

19 Dinarte Mariz era fazendeiro e comerciante no Seridó, e mantinha estreitas ligações com sargentos que também

conspiravam. Tinha “sob seu controle 200 fuzis (...) e dispunha de jagunços e caminhões para eventualmente apoiar o levante”, e estava, também, em contato com lideranças liberais da Aliança Liberal em Natal. Já os cafeístas estavam bem organizados em Natal, Mossoró e Areia Branca (SPINELLI, 1996, p. 25).

Foram eleitos Rafael Fernandes Gurjão, Dioclécio Duarte, Cristovam Dantas e Eloy de Souza para deputados federais e José Augusto Bezerra de Medeiros para o Senado. Júlio Prestes e Vital Soares tiveram uma grande maioria eleitoral contra seus opositores que, dos 23.864 eleitores registrados nesse ano, obtiveram apenas 472 votos. 17.499 eleitores sufragaram os candidatos oficiais para a presidência (MARIZ, 1984, p. 53).

A professora e pesquisadora Brasília Carlos Ferreira (1989) afirma que o resultado da eleição não deixa dúvidas acerca da inexpressividade da Aliança Liberal no estado. Para ela, a Aliança sobressaía-se

apenas na região oeste, Mossoró e arredores, e era formada e apoiada por “elementos de pouca projeção política fora do Estado, sem qualquer mandato, oriundos da classe média, a maioria dedicando-se a atividade jornalística. Café Filho, a figura de maior densidade política como oposição, era conhecido como “comunista”, o que lhe valeu a desconfiança dos próceres da Aliança, extensiva a todos quantos dele se aproximassem. As elites souberam trabalhar o fantasma do anticomunismo muito bem (FERREIRA, 1989, p. 68).

Terminado o pleito, não havia qualquer sinal aparente de agitação revolucionária. O Rio Grande do Norte parecia estar à margem dos acontecimentos nacionais. Aqui parecia não haver agitação nem conspiração. Um mês após as eleições, o governador Juvenal Lamartine viajou ao Rio de Janeiro “em busca de auxílio prometido pelo Governo Federal em troca dos votos recebidos” (MARIZ, 1984, p. 53).

O movimento revolucionário foi deflagrado no dia 3 de outubro e rapidamente se alastrou. No Nordeste, Juarez Távora, Juraci Magalhães e Jurandir Bizarria Mamede articularam a sublevação dos quartéis e a organização dos movimentos que depuseram os governadores. Dois dias depois, “o 29º Batalhão de Caçadores marchou sobre Natal e efetivou a deposição sem resistência do governador Juvenal Lamartine que, sabendo ser impossível resistir, fugiu, de forma alucinada, tão apressadamente que arrancou parte do cais Tavares de Lira onde estava a embarcação encostada” (FURTADO, 1976, p. 71). Comandava as forças revolucionárias que invadiram o estado o major Luís Tavares Guerreiro.

Adauto Câmara (1992), em suas memórias, descreve o inusitado da fuga de governador Lamartine. A citação é longa, mas vale a pena conferir:

No dia 20 de outubro, o sr. Juvenal Lamartine chegava ao Rio, a bordo do Flândria. (...) Chegando ao Rio, o sr. Lamartine, guardando o incógnito (sic) tanto quanto o possível, hospedou-se no Hotel Tijuca, distante da cidade, com o sr. Omar O’Grady.20 Dois dias depois passou-se para o Colégio dos Padres Maristas a cuja

comunidade pertencia aquele hotel. (...) No Colégio, o presidente potiguar não tomou o hábito religioso, mas, oficialmente, era irmão Antônio Felipe. Sucedeu, porém, que os alunos desconfiaram daquele novo Irmão e, para maior segurança deste, foi deliberado transferi-lo para a rua Haddock Lobo, 206. Fizeram-lhe companhia ali os srs. Omar O’Grady e o deputado Cristóvão Dantas. Na noite de 20 de outubro, tendo o sr. José Augusto sido avisado de que o movimento revolucionário rebentaria, no Rio, na manhã seguinte, providenciou, pelas 23 horas, a mudança do sr. Lamartine, que foi para o Hotel Vera Cruz, à praça Tiradentes, onde ele foi confiado a um amigo. Na manhã de 24, já o movimento sedicioso 20 Omar O’Grady era o prefeito de Natal em 1930. Foi deposto pela Revolução.

declarado no Rio, o deputado Álvaro de Vasconcelos foi buscá-lo e o acompanhou até a casa do sr. Vicente Sabóia, à avenida Pasteur. A polícia o procurava por toda a parte. A residência da “Doutora” Berta Lutz esteve guardada três dias, por se suspeitar que ele ali estivesse. A residência do ex-senador José Augusto foi varejada por soldados embalados (...).

A situação do sr. Lamartine era difícil, porque os políticos paraibanos o detestavam por lhe atribuírem participação no levante de Princesa.

Urgia pô-lo a salvo de qualquer desacato ou humilhação. (...)

O sr. José Augusto conseguiu que o ex-chanceler Otávio Mangabeira obtivesse para ele um asilo diplomático (...) (CÂMARA, 1992, 129-130).

O processo que resultou na deflagração da Revolução de 1930 teve pouca significação no estado, mesmo tendo sido o Rio Grande do Norte o quarto estado a aderir ao movimento. Isso parece indicar que o estado pode ter abraçado “causas e princípios da Revolução”. Os únicos revolucionários do estado eram Café Filho e seus aliados e alguns poucos militares. E o então líder sindical e advogado estava na Paraíba nos momentos que antecederam o movimento revolucionário, só vindo para o Rio Grande do Norte no dia anterior à entrada das tropas na capital do estado. Analisando mais criteriosamente, Marlene Mariz faz algumas considerações pertinentes. Dos estados nordestinos, aquele que concentrava o maior e mais agitado número de revolucionários talvez tenha sido a Paraíba. E era lá onde “se encontrava o praticamente o único revolucionário do Estado, Café Filho, que se antecipou as tropas revolucionárias, para fazer-lhe a recepção. Assim é que estas entraram em Natal no dia 6 de outubro e Café chegara no dia anterior” (MARIZ, 1884, p. 60).

Outros elementos podem ser elencados para explicar a insignificante participação do Rio Grande do Norte no movimento revolucionário de 3 de outubro. Segundo Mariz (1984, p. 60), não se via nas ruas das cidades norte-rio-grandenses nada que pudesse indicar “clima de agitação e reação contra a oligarquia local”. Há, ainda, outros elementos que podem se apontados como fatores que justifiquem a ausência de conspirações: a crise da economia local, o que tornava o governo estadual refém do governo federal, a unidade política de uma oligarquia extremamente autoritária e integrada ao poder central, uma população predominantemente rural e muito dependente dos proprietários de terra e uma classe média incipiente e pouco expressiva.

Ademais, não existia no estado, no final da década de 1920, um núcleo oposicionista bem articulado que pudesse se rebelar contra o governo no momento em que a Revolução fosse deflagrada. Não havia registro que revelasse por aqui um clima de agitação e reação contra o governo estadual. A força do governo e a debilidade da oposição pode ser atestada pela insignificante votação da chapa de oposição com Getúlio Vargas e João Pessoa, que “recebeu apenas 472 votos de um total de 23.000 eleitores inscritos” (MARIZ E SUASSUNA, 2002, p. 251-252).

Com a fuga de Juvenal Lamartine, imediatamente surgiu uma disputa por espaços políticos. Os cafeístas (ala mais ativa do movimento revolucionário) queriam empossar Café Filho como governador provisório; os liberais e alguns oficiais militares pretendiam alçar o desembargador Silvino Bezerra à governança estadual. Aconselhado pelos seus pares do Tribunal de Justiça, Silvino Bezerra recusou o convite para governar o estado. Concomitantemente, Café Filho, insatisfeito com os rumos da revolução aqui no estado e temeroso de o poder ser empalmado pelos seus adversários, na figura do desembargador Silvino Bezerra, dirigiu-se com seus liderados, principalmente estivadores, “ao palácio para assumir o governo, em nome do povo, por se considerar o candidato natural do governo revolucionário”. Porém, o núcleo revolucionário nordestino, comandado por Juarez Távora, não tinha o mesmo pensamento de Café Filho e através do coronel Júlio Perouse e do tenente Jônatas Luciano impediram a manobra cafeísta. Vale lembrar o desgaste da imagem de Café Filho, frequentemente apresentado como comunista, junto às principais lideranças da Aliança Liberal. Foi

por isso que Café Filho teve dificuldades, mesmo sendo o principal líder do movimento revolucionário aqui no Rio Grande do Norte, de consolidar-se junto aos próceres da Aliança. E as elites políticas do estado foram eficazes no manejo dessa situação, “aproximaram-se dos Interventores, influíram em suas administrações” ao mesmo tempo que mantinham “sempre muita reserva para com Café Filho e seus seguidores” (FERREIRA, 1989, p. 68). Esses fatos, segundo Furtado (1976), marcaram

a separação de tendências, que assinalariam, de então em diante, a vida pública potiguar, na profunda radicalização de atitudes que a marcariam por muitos anos: de um lado o progressismo idealista de uma geração então apenas despontante (...) sob a liderança ostensiva ou não de Café Filho e no lado oposto, a reação mais acentuada contra todas as veleidades de mudanças, políticas ou administrativas, a princípio sob orientação oculta e depois pública do ex-governador José Augusto B. de Medeiros, oligarca e papa do conservantismo, sob um mal disfarçado liberalismo (FURTADO, 1976, p. 72-73).

A recusa de Silvino Bezerra e o impedimento de Café Filho fez surgir uma saída conciliatória, com a formação de uma Junta Governativa Militar Provisória, composta pelo major Luís Tavares Guerreiro (Presidente), pelo capitão Abelardo Torres da Silva Castro e pelo tenente Júlio Perouse Pontes, “enquanto se esperava pela chegada de Juarez Távora, comandante da Revolução no Norte e Nordeste, para solucionar o problema” (MARIZ E SUASSUNA, 2002, p. 255).

A Junta, nos seis dias de administração, de 06 a 12 de outubro, procurou manter a ordem, refreando o entusiasmo popular que, em alguns momentos, resultou em baderna e vandalismo. Entre os dias 6 e 8, a vida administrativa da capital do estado ficou paralisada, os comerciantes recusaram- se a abrir os seus estabelecimentos e as escolas suspenderam as aulas. No dia 8, quando as forças revolucionárias assumiram efetivamente o poder, a cidade começou a voltar à normalidade (MARIZ, 1984, p. 61). Entre as medidas tomadas pelo governo revolucionário, chefiado por Getúlio Vargas, estavam a demissão de todos os governadores de estado e a dissolução do Congresso Nacional e das Assembléia Legislativas. Paralelamente, a Junta “expediu circulares às prefeituras do interior, recomendando garantias à vida e propriedade dos adversários políticos” e procedeu a nomeação de aliados para postos-chaves na administração estadual, tentando contemplar as correntes que compunham a Aliança Liberal. Dessa forma, foram nomeados, da corrente cafeísta, Café Filho (Chefe de Polícia), Pedro Dias Guimarães (Prefeito de Natal), Sandoval Wanderley (redator do jornal A República) e o “coronel” Francisco Sólon Sobrinho (Prefeito de Areia Branca); da corrente liberal foram nomeados Dr. José Tavares (Diretor de Saúde Pública), Dr. Luís Antônio (Diretoria de Instrução), Joaquim de Fontes Galvão (Diretor da Imprensa Oficial) cônego Amâncio Ramalho (Prefeito de Mossoró), Gentil Ferreira de Souza (Prefeito de Santa Cruz) e Dinarte Mariz (Prefeito de Caicó) (SPINELLI, 1996, p. 27).

No dia 12, Juarez Távora veio a Natal acompanhado de José Américo de Almeida, Irineu Joffily e outros líderes da Aliança Liberal. Na oportunidade foi discutida a indicação do governador provisório do Rio Grande do Norte. Segundo Spinelli (1996, p. 28), Távora e José Américo tinham inclinação pelo nome de Silvino Bezerra. Como este recusou, alegando parentesco com José Augusto e Juvenal Lamartine, o líder tenentista expôs uma lista com outros nomes, que foram sucessivamente vetados pelas duas mais importantes correntes revolucionárias. A escolha “recaiu na pessoa do Dr. João Lindolfo Câmara, ex-deputado federal pelo estado” e que então “exercia altas funções no ministério da Fazenda”.21 Como Lindolfo Câmara não poderia vir imediatamente, Irineu

Jofilly foi escolhido para exercer o cargo interinamente, indicação que

21 O nome de Lindolfo Câmara foi posteriormente “descartado, em virtude da divulgação de telegramas trocados entre ele e

contou com o apoio ostensivo da corrente cafeísta que articulou o nome de Jofilly nas ruas, em passeatas e comícios.

A solução Jofilly antecipou de certa forma uma norma que o futuro governo provisório de Vargas adotaria na indicação dos interventores nos Estados: a serem “estrangeiros”, pessoas alheias às facções políticas locais, condição considerada indispensável à execução das diretrizes centralizadoras do governo da República. A esta condição, com o tempo, se acrescentaria uma outra: a de que o escolhido fosse militar, recrutado entre os quadros do tenentismo. Estes requisitos garantiriam a suposta “neutralidade” política do interventor, imprimindo