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CAPÍTULO 3 A CRIANÇA, A FAMÍLIA E A ESCOLA NO BRASIL: HISTÓRIA DE DIFERENTES INFÂNCIAS

3.3 A roda dos expostos e a oficialização do abandono

O fenômeno de abandono dos filhos é tão antigo quanto a história da colonização brasileira. Antes da roda, os meninos precisavam ser assistidos pelas câmaras municipais, que alegavam falta de recursos e quase a totalidade das crianças expostas não chegava à idade adulta.

A roda de expostos foi uma das instituições brasileiras de mais longa vida. Sobreviveu aos três grandes regimes de nossa História. Criada na colônia, multiplicou-se no período imperial, conseguiu manter-se durante a República e só foi extinta definitivamente na recente década de 1950, embora o abandono de crianças não tenha desaparecido até os dias de hoje. É uma prática recorrente que expõe a tragédia na vida de crianças, além do drama e do sofrimento de mulheres-mães que, mesmo com todo o avanço do capitalismo globalizado, não veem outra alternativa que não seja se desfazer da sua criança na rua, nos mais diferentes locais.

Por quase meio século, a Roda dos Expostos foi praticamente a única instituição de assistência à criança abandonada em todo o Brasil. As rodas dos expostos tiveram origem na Idade Média, na Itália. Elas surgiram particularmente com a aparição das confrarias de caridade, no século XII, que se constituíram num espírito de sociedades de socorros mútuos, para a realização das Obras de Misericórdia.

A roda foi instituída para garantir o anonimato do expositor, evitando-se o “mal maior”, que seria o aborto e o infanticídio. Além disso, a roda poderia servir para defender a honra das famílias cujas filhas teriam engravidado fora do casamento. Alguns autores atuais, como Marcílio (2009), estão convencidos de que a roda serviu também de subterfúgio para se regular o tamanho das famílias, dado que na época não havia métodos

eficazes de controle da natalidade. A rigidez da pedagogia jesuítica ganha sofisticação com o disciplinamento militar considerado mais relevante que o atendimento das necessidades primárias vitais à sobrevivência das crianças:

(...) Para os meninos havia ainda a possibilidade de serem enviados para as Companhias de Aprendizes de Marinheiros ou de Aprendizes do Arsenal de Guerra, verdadeiras escolas profissionalizantes dos pequenos desvalidos, dentro de dura disciplina militar. (...) Sua alimentação era tão fraca, à base quase só de farinha de mandioca, que acabavam definhando e muitos morrendo. (MARCÍLIO, 2009, p. 76)

O nome da roda provém do dispositivo em que se colocavam os bebês que se queriam abandonar. Sua forma cilíndrica, dividida ao meio por uma divisória, era fixada no muro ou na janela da instituição e muitos pais que queriam abandonar um filho utilizaram a roda dos mosteiros para nela depositarem o bebê. Esperavam eles que o pequeno não só teria os cuidados dos monges, como seria batizado e poderia receber uma educação aprimorada.

Antes das rodas, as crianças abandonadas eram acolhidas por famílias que, posteriormente, utilizavam-nas como mão de obra. Com a roda, os mosteiros recebiam crianças doadas por seus pais para o “serviço de Deus”. A criança recolhida pela roda era logo batizada. Fazia-se um inventário de todos os eventuais pertences que trazia consigo, inscrevia-se no livro de entrada dos expostos cada uma das peças do vestuário e objetos que vestia ou foram colocados junto a si, mesmo sendo farrapos. Os nomes dados no batismo normalmente eram os nomes dos santos da Igreja católica.

Durante a época colonial, foram implantadas três rodas de expostos no Brasil em suas cidades mais importantes: a primeira em Salvador, logo a seguir outra no Rio de Janeiro e a última em Recife, todas no século XVIII. (MARCÍLIO, 2009, p. 54)

Com a criação da roda dos expostos nas Misericórdias e colocando-as a serviço do Estado, perdia-se o caráter caritativo da assistência, para inaugurar-se a fase filantrópica, associando-se o público e o particular. Pessoas abastadas, preocupadas com a salvação de suas almas, deixavam em seus testamentos heranças para as Misericórdias, para a ajuda na roda dos expostos.

Podemos depreender que a formação social das crianças direcionadas à roda dos expostos oscilava entre a violência explícita e violência implícita. O abandono da criança era revelado pelas precárias condições de vida das famílias pobres e de escravos

submetidos a condições desumanas, além da naturalização e cumplicidade dos que possuíam poder econômico e político.

Muitas mulheres negras escravas que davam à luz chegavam a ser alugadas como amas de leite para alimentar os filhos dos donos da Casagrande e para isso sacrificavam a sobrevivência do seu próprio filho. Sem contar as condições insalubres em que viviam as famílias com os recém-nascidos, na senzala, sem o arejamento adequado, as condições físicas e materiais propiciavam o agravamento das condições de saúde e o crescimento da mortalidade infantil.

Quanto aos filhos de negros escravos, a partir dos 7 anos, os donos já consideravam que eles podiam ser separados de seus pais e mães, e vendidos para outros donos, de diferentes lugares. O sofrimento era tanto, que muitas mulheres negras faziam de tudo para não engravidarem. O aborto era uma prática também utilizada por muitas mulheres, em grande parte as solteiras, mas também casadas e viúvas (DEL PRIORE, 2009, pp. 114-115, 119), prática que, diga-se de passagem, perdura até os dias de hoje.

Com o século XIX, chega a influência do iluminismo, do utilitarismo e da concepção higienista, com novas formas de se exercer a filantropia. Sob a ótica do liberalismo, diminuíram drasticamente as formas antigas de caridade e solidariedade para com os mais pobres e desvalidos e cresceram os questionamentos sobre a existência da roda.

Em meados do século XIX, seguindo os rumos da Europa liberal, que fundava cada vez mais sua fé no progresso, na ordem e na ciência, começou forte campanha para a abolição da roda dos expostos, que passou a ser considerada imoral e contra os interesses do Estado. (MARCÍLIO, 2009, p. 68)

Ainda dentro da discussão sobre a roda dos expostos e as formas de institucionalizá- la, é importante nos determos sobre as crianças nascidas da miscigenação entre brancos e negros, a fim de esclarecer os motivos pelos quais as “crianças negras ou mulatas” eram consideradas perturbadoras da ordem e/ou abandonadas.