CAPÍTULO II. A CRISE INTERNACIONAL DA DÉCADA DE SETENTA E A RUPTURA DO
2.2. A Crise Definitiva do Modelo Desenvolvimentista de Crescimento com Endividamento:
2.2.2. A Ruptura do financiamento externo e a crise da dívida latino-americana
A crise da dívida externa latino-americana é apresentada como resultado de uma série de acontecimentos, rupturas e estratégias de política econômica distintas. As percepções dos analistas, instituições e governos sobre a emergência da crise no ano de 1982 se distinguem sensivelmente no que diz respeito ao peso conferido aos fatores que conjuntamente teriam desencadeado a crise do sistema financeiro mundial e do modelo de desenvolvimento com endividamento dos países do terceiro-mundo, em especial da América Latina. É fato também que algumas análises ou leituras acerca desse processo acabam por desconsiderar alguns elementos ou mesmo a fazer generalizações pouco realistas, às vezes interessadas e até mesmo grosseiras. O final da década de setenta e os primeiros meses da década seguinte teriam dado início a um processo de crise 51 As transformações nos Estados, governos e nas ideologias por detrás dessas transformações serão mais detalhadas no capítulo 3.
1978 1979 1980 1981 1982 1983 1984
PIB países industrializados 4,0 3,1 1,2 1,5 -0,2 2,2 4,0
PIB países em desenvolvimento 4,1 5,0 3,2 1,6 0,5 0,0 3,5
econômica com impactos diretos nas economias mundiais. Por um lado, os países altamente industrializados iniciaram processos de recessão para amenizar o peso da conta petróleo, como discutido na seção anterior, enquanto, por outro, as economias altamente dependentes dos fluxos financeiros privados se depararam com o pior cenário imaginável: elevação dos preços do petróleo e dos juros, queda das exportações e dos preços das commodities e diminuição e ruptura do financiamento externo para rolagem das dívidas contraídas anteriormente.
A crise que acometeu as economias em desenvolvimento no ano de 1982 produziria efeitos generalizados nesses países, que se estenderiam dos níveis de crescimento econômico às taxas de desenvolvimento humano e social, passando pelos índices de inflação e déficit público. As visões sobre a emergência da crise da dívida latino-americana na década de oitenta pode ser dividida, basicamente, em torno de duas correntes, que enquadram respectivamente os entendimentos de credores e devedores52.
A primeira acentua a ineficiência das políticas econômicas implementadas por esses Estados e o desperdício de recursos em programas ineficientes e equivocados. Além de ressaltar a corrupção e a ineficácia dos governos – na sua maioria militares. A segunda corrente, representante dos grandes devedores, dá maior peso às transformações sistêmicas – elevação dos juros internacionais, quedo dos preços das commodities e estagnação comercial – e à política macroeconômica norte-americana (Sachs, 1989; Haggard e Kaufman, 1992).
Apesar das interpretações distintas acerca dos fatores que impulsionaram o desencadeamento da crise da dívida dos países latino-americanos, fatores sistêmicos se interconectaram e aliados às deficiências produzidas no seio da grande maioria das economias dos países em desenvolvimento detonaram a crise. Evidentemente, as 52 No grupo dos credores estão os bancos comerciais e os governos das economias avançadas, em especial aquelas que sediam esses bancos; e as instituições multilaterais. Entre os devedores estariam os governos com altas taxas de endividamento diante do circuito financeiro privado.
diferenças políticas e econômicas entre esses Estados implicaram resultados também distintos. Esse ponto é merecedor de destaque, uma vez que essas diferenciações seriam pouco retratadas nas análises generalistas – muitas vezes realizadas por autores estrangeiros – e, certamente, os processos de desenvolvimento produtivo diferenciado refletiram no tratamento interno à crise e nos resultados econômicos53.
Os choques globais pelos quais a economia internacional passou desde o final dos anos setenta que impactaram as relações econômicas dos países em desenvolvimento e contribuíram para a crise são na sua essência de natureza política. O encharcamento do mercado financeiro privado e a transferência desses recursos para as economias em desenvolvimento partem de uma premissa econômica clássica e da compreensão ortodoxa norte-america prévia. Trata-se da concepção de que os fluxos privados se transferem naturalmente para onde há escassez de capital – ou seja, para as economias em desenvolvimento carentes de poupança doméstica – e que esse capital privado pode e deve se encarregar da imensa maioria dos fluxos de capitais necessários às economias em desenvolvimento. Era natural e politicamente desejável que esses recursos se direcionassem para as economias em desenvolvimento, mesmo em momentos em que os juros reais se mantivessem abaixo da inflação. A não preocupação das grandes economias avançadas; do Fundo Monetário Internacional, responsável pela supervisão das contas externas dos países; e dos bancos privados em relação ao endividamento do terceiro-mundo parte de uma visão estratégica de financiar as importações do mundo em desenvolvimento provenientes dos excedentes produtivos do primeiro mundo, além de submetê-los às condições do mercado.
53 Esse ponto será melhor detalhado no capítulo 5, quando daremos mais destaque ao processo brasileiro. Os investimentos produtivos realizados pelo país durante a década de setenta teriam sido responsáveis por uma mudança no comércio brasileiro com resultados positivos na balança comercial. Diferentemente de outros países como Argentina e Chile.
O otimismo de inícios da década de setenta – resultado da baixa inflacionária, crescimento dos fluxos comerciais e expansão produtiva – se arrefeceu a partir de 1973, mas a opção pelo financiamento dos déficits do terceiro-mundo emergiu como solução viável. Entretanto, o segundo choque do petróleo, a política macroeconômica norte- americana e a queda drástica nos preços das commodities e dos fluxos comerciais complementariam os choques exógenos, acentuando a crise econômica mundial. Essas mudanças drásticas na direção da desinflação nas grandes economias e proteções da economia nacional com elevação das barreiras protecionistas, atreladas ao aumento vertiginoso dos custos de importação e da conta de serviços representaram o acirramento da crise na periferia (Kahler, 1985, Sachs, 1989).
A situação crítica da economia mundial, acentuada a partir de 1979, era nitidamente visualizada em alguns pontos. Na crise comercial, desencadeada pelo retorno das barreiras tarifárias e pela queda do valor e do volume das exportações dos países em desenvolvimento. Na deterioração vertiginosa das contas externas dos países em desenvolvimento não exportadores de petróleo, resultado combinado de crise na balança comercial e na conta de serviço de capitais54. E na deterioração da situação doméstica
com a aceleração da inflação e do déficit fiscal. (Kahler, 1985; Langoni, 1985; Sachs, 1989; Payer, 1999).
O desequilíbrio gerado pelas transformações nos anos oitenta dava sinais de uma crise emergente do modelo de crescimento via endividamento externo, que se tornava ainda mais enfático no ano de 1981 quando os juros reais no mercado financeiro privado alcançavam níveis inimagináveis, como se pode visualizar na tabela 3. Entretanto, o entendimento das autoridades monetárias, dos governos e instituições multilaterais55 era
54 O Brasil já em 1979, como resposta à crítica situação das contas externas, decretou a maxidesvalorização cambial de 30% com o objetivo de amenizar as perdas externas e de competitividade das exportações do país.
55 Durante a reunião do Fundo Monetário de 1982, realizada em Toronto no Canadá, entendia-se que não havia necessidade de estabelecer quaisquer ações especiais ou prover maior aporte de
de uma crise transitória. A economia mundial retornaria à plena funcionalidade e saúde dos anos setenta com a retomada dos níveis de liquidez disponíveis no mercado financeiro. Apesar da recuperação de algumas economias e da realização de ajustes para retomada dos superávits comerciais e pagamentos do serviço da dívida56, os países em
desenvolvimento foram surpreendidos pela definitiva ruptura do financiamento externo como resposta estratégica dos bancos de auto-proteção.
Tabela 3
Evolução da Taxa de juros nominal e real.
Ano Taxas de juros
Nominal (a) Real (b)
LIBOR PRIME RATE LIBOR PRIME RATE
1973 9,34 8,2 1,84 1,9 1974 11,17 10,8 -0,33 -0,2 1975 7,78 7,9 -3,32 -1,2 1976 6,24 6,9 -1,36 1,0 1977 6,43 6,9 -1,17 0,4 1978 9,16 9,2 1,66 1,5 1979 12,15 12,7 4,15 1,3 1980 13,99 15,5 4,89 1,7 1981 16,62 18,7 8,02 7,6 1982 13,58 14,6 6,48 8,0 1983 9,89 10,8 4,79 7,3 1984 11,21 12,0 6,71 7,4
(a) Média mensal da LIBOR – 6 meses, taxas anuais.
(b) Deflacionado pelo deflator do PNB dos países industrializados Fonte: Banco Central.
“A desaceleração nas exportações e o aumento dos juros representaram, desta forma, inversão total no comportamento dos parâmetros que apontavam inicialmente para a viabilidade do modelo de crescimento com endividamento (...). O que mais surpreendeu de certa forma foi o seu esgotamento abrupto: justamente quando, a partir de 1981, o ajustamento voluntário começa a ser implementado, inclusive com a geração de excedentes na balança comercial, os eventos polonês, recursos paras que as instituições financeiras multilaterais pudessem tratar da crise que se aproximava. Entendia-se que se tratava de uma crise passageira, na qual os Estados deficitários deveriam recorrer a ajustes recessivos. Relatórios do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial dos anos de 1981 e 1982 também apontavam nessa direção, uma vez que se referiam à necessidade de se esperar o retorno dos níveis de fluxo de financiamento dos anos pré-1979. 56 O Brasil, por exemplo, em 1981 iniciou um programa de ajuste após tentativas de manter o crescimento econômico através de políticas heterodoxas, como será retratado no capítulo 5.
argentino (Guerra das Malvinas) e, finalmente, mexicano abalaram o mercado financeiro, levando ao virtual fechamento para um grande número de países” (Langoni, 1985:20)
A completa ruptura do financiamento externo pelos bancos comerciais para os países em desenvolvimento se deu definitivamente após a crise mexicana de agosto de 1982, quando o governo do maior tomador de recursos perante o sistema bancário solicitou uma interrupção de 120 dias (estendida depois por mais 90) no pagamento de juros e amortizações de sua dívida. A quebra da Polônia e os impactos negativos da guerra das Malvinas somente acenderam as preocupações do sistema financeiro privado, mas a abrupta radicalização se deu com a bancarrota mexicana, que foi prontamente socorrido pelo governo norte-americano.
O fechamento do sistema bancário internacional indiscriminadamente para as economias terceiro-mundistas deu início à crise da dívida externa latino-americana. Isso se deveu ao fato de que a deterioração das contas externas desses países, desde a década de setenta, implicou o constante aumento da participação do refinanciamento de dívidas e rolagem de atrasados financeiros na captação de recursos internacionalmente. Se durante os primeiros momentos da formação do euromercado – finais dos anos cinqüenta e início da década de sessenta – os recursos captados eram destinados à formação de poupança externa para a realização de investimentos, com o decorrer dos anos e, principalmente, após o primeiro choque do petróleo esses recursos passariam a ser destinados à rolagem da dívida.
“Como as economias dos países desenvolvidos se estruturaram em torno das exportações de excedentes para ao terceiro mundo durante quatro décadas, e como os tomadores de empréstimos do terceiro mundo estruturaram suas economias em torno da expectativa de um influxo de capital líquido também durante longo tempo, quando foi definitivamente alcançado o ‘ponto de equilíbrio’, no início dos anos 80, e a transferência líquida tornou-se negativa, primeiro para a América Latina, depois para a África e finalmente para o terceiro mundo como um todo, parecia como se o mundo tivesse virado de ponta-cabeça e a água (o dinheiro é
sugestivamente chamada liquidez) estivesse subindo pela montanha (do terceiro mundo para os desenvolvidos” (Payer, 1989:64).
O trecho acima descreve exatamente o que viria a ocorrer nos anos seguintes à crise. Os países em desenvolvimento passariam da situação de tomadores de recursos para a de financiadores das economias avançadas através do pagamento de juros e amortizações. Esse processo de transferência de recursos ao exterior passaria a condicionar essas economias de forma definitiva, assim como a compeli-las a ajustes dolorosos para sustentar o pagamento do serviço de suas dívidas com recursos reais, provenientes de superávits comerciais às custas da diminuição do produto e do emprego57. A deterioração das relações econômicas externas e o processo de
transferência de recursos para o exterior durante os anos oitenta seriam os principais fatores que determinaram a crise generalizada das economias latino-americanas durante mais de uma década.
As opções de política econômica dos países em desenvolvimento altamente endividados não se restringiam à ampliação do superávit comercial para manter o pagamento integral do serviço da dívida. Em outros episódios de crise de pagamentos o alívio e a renegociação em termos menos onerosos ou mesmo a suspensão dos pagamentos quando não implementadas eram ao menos tomadas como opções viáveis. A crise da década de oitenta foi marcada, entretanto, pela intransigência negociadora dos bancos credores que contavam com o poder das instituições de Bretton Woods, com papel mais destacado nesse momento do Fundo Monetário Internacional como afirma Paulo Nogueira Batista Jr. (1987), na condução das políticas econômicas desses países para a manutenção dos pagamentos e das transferências de recursos para os credores.
57 Transferência de recursos financeiros: remessas de divisas associadas à diferença entre a renda
liquida enviada ao exterior (sob a forma de juros, lucros, etc) e a entrada de líquida de capitais (‘dinheiro novo’).Transferência de recursos reais: diferença entre o produto interno bruto e a absorção doméstica agregada, ou seja, à diferença entre as exportações e as importações de bens e serviços não-fatores. (Batista Jr, 1987; Payer, 1989)
As macro-transformações vivenciadas nos anos setenta e na década de oitenta marcariam definitivamente a economia mundial. Os processos de reestruturação do capitalismo com a ascensão do ideário neoliberal passariam a conformar as relações entre os principais Estados e, conseqüentemente, implicaria modificações nas próprias instituições internacionais. Essas passariam a desempenhar novo papel, condizente com os interesses das principais economias e do reordenamento do sistema capitalista. Esses interesses e ideais balizariam as relações dessas instituições com os países deficitários nos anos oitenta, assim como abriram espaço para a definitiva emergência das reformas orientadas para o mercado nos anos noventa.
Como buscamos destacar, a crise da dívida marcou uma nova fase nas relações dos países em desenvolvimento com o sistema financeiro internacional – agências privadas, instituições públicas e multilaterais – e deu início a um processo de reestruturação do sistema capitalista mundial. E nesse processo, as instituições de Bretton Woods desempenharam significativo na condução da adequação e sub-julgo da periferia, através da utilização de suas prerrogativas: o poder do dinheiro e do discurso. No capítulo seguinte buscaremos apresentar a atuação das instituições internacionais, tanto no que diz respeito à condução de uma agenda de reformas liberalizantes, que se basearia no interesse de manter o pagamento integral dos serviços das dívidas contratadas e na reconfiguração do modelo capitalista latino-americano, como formatação de um discurso condizente com as reformas orientadas para o mercado.
CAPÍTULO III. REORGANIZAÇÃO DO SISTEMA CAPITALISTA E AS INSTITUIÇÕES