1.1. A O RIGEM DO C ONCEITO DE C OSMOPOLITISMO Ao se refletir sobre o surgimento do conceito de
1.1.2. A S DUAS R EPÚBLICAS DO ESTOICISMO ROMANO
O estoicismo romano alargou o nome ‘cosmopolita’ para todo aquele que levasse uma vida de acordo com as
59 Cf. SCHOFIELD, M. The Stoic Idea of the City. p. 57ss. 60 GAZOLLA, R. O ofício do filósofo estóico. p. 70.
61 Cf. DYSON, H. What Kind of Cosmopolitans were the Stoics? p. 190. 62 Cf. SCHOFIELD, M. The Stoic Idea of City. p. 102.
regras divinas do universo, pois todos os homens merecem ser chamados de ‘cosmopolitas’ em virtude de sua racionalidade.
Se a capacidade de pensar nos é comum, então, a razão, através da qual nós somos racionais, também nos é comum. Se isso está certo, então, também a razão que determina o que se deve fazer ou não é comum a nós todos. Se assim for, então, também a lei nos é comum. Se isso é certo, então, nós todos somos cidadãos. Nesse caso, nós temos parte em um tipo de sistema político. Se isso está certo, então o cosmos é, de certo modo, um Estado.63
Uma análise objetiva da natureza humana mostra que a sua peculiaridade e singularidade está, propriamente, em ser dotado de razão. Assim, o conceito ganha em extensão, mas perde em profundidade, pois tal característica torna mais flexível o critério de pertencimento à categoria ‘cosmopolita’. “A cosmopolis é cidade comum aos seres racionais, deuses e homens, regida pela lei comum e própria de cada um desses seres, razão e natureza, precisamente porque a sua natureza é racional”.64 Além disso, o estoicismo
romano não se colocava contra a virtude de honrar a sua própria pátria natal, de modo que restringia a sua concepção de cosmopolitismo ao respeito das leis do Império Romano. Assim, a filosofia estoica começava a se espalhar entre os círculos do Império Romano. Ela não era mais a radical filosofia de Zenão e Crisipo, mas o estoicismo conservador de Panécio e Posidônio que logo se tornara no estoicismo dos estoicos imperiais com mínimas diferenças. Eles falavam sobre a comunidade humana, sobre a verdadeira república que, para Sêneca, compreende os deuses e os homens e cujos limites são medidos pelo sol.
63 AUREL, M. Wege zu sich selbst. IV, 4. 64 HADOT, P. La citadelle intérieure. p. 59.
Essa república não é, no entanto, a utopia de um mundo melhor, mas a imagem edificante do mundo como ele é, com todas as suas injustiças e desigualdades.
Eles sugeriam que se pensasse em si mesmo, não como livre de todas as filiações locais, mas como se estivesse cercado por uma série de círculos concêntricos. O primeiro círculo estaria em torno do meu próprio eu, o círculo seguinte compreenderia a família, o próximo se estenderia sobre os amigos e os familiares mais distantes, sobre os vizinhos e assim por diante, até abranger toda a humanidade. Desse modo, se pode facilmente acrescentar a essa lista, grupos de acordo com a identidade étnica, linguística, histórica, profissional e sexual, entre outros possíveis. Para além de todos esses círculos ou grupos está um círculo maior, aquele da humanidade como um todo. Assim, o cosmopolitismo estoico terá como tarefa a formação de um círculo, no qual ele considera todos os homens como cidadãos e concidadãos. Dito em outras palavras, não se deve dar nenhuma identidade especial se a cidadania está fundamentada em aspectos étnicos, sexuais ou religiosos. Também não se deve pensar que ela seria superficial. Poder- se-ia e se deveria, contudo, dedicar especial atenção à educação. É isso, no entanto, o que Sêneca diz:
Imaginemo-nos dois Estados, o primeiro, grande e verdadeiramente universal, que compreende os deuses e os homens, no qual nós não olhamos para esse ou aquele canto, mas os limites desse Estado são medidos com o sol, o segundo, nos distingue pelo lugar do nascimento; esse pode ser de Atenas ou Cartago, ou de qualquer outra cidade, ele não diz respeito a todos os homens, mas a apenas alguns. Alguns, se dedicam, ao mesmo tempo, a ambos os Estados, ao maior e ao menor; alguns apenas ao menor, outros apenas ao maior.65
Os estoicos enfatizavam que para ser um cosmopolita, não é necessário enfatizar a identificação local, embora ela possa frequentemente ser a fonte de riqueza da vida. De acordo com a concepção estoica, não pertence apenas ao indivíduo uma concreta cidadania, mas ele também sempre é considerado como um cidadão do cosmos, enquanto que ele é considerado como um ser espiritual com todos os outros que participam da razão cósmica. Eles também afirmavam que o lugar de nascimento é apenas uma casualidade e que por isso todo homem poderia ter nascido em outra cidade.
Para o estoicismo, a convicção de que todo ser humano – seja ele grego ou bárbaro, isso aqui tanto faz – participa do logos divino era central. A essa concepção, acrescenta-se ainda outro pensamento estoico fundamental: a doutrina da oikeiosis.66 De acordo com isso, por
conseguinte, todo homem está cercado por círculos concêntricos, que se iniciam com a própria pessoa, passando pela família até chegar ao maior dos círculos: toda a humanidade. A tarefa de cada ser humano é, então, a de aproximar cada próximo círculo exterior ao seu próprio círculo, para torná-los o seu próprio. De modo que ele se sinta responsável pelo círculo exterior do mesmo modo como com os seus parentes mais próximos.
A concepção estoica do universo é cósmica, predominantemente em toda a antiguidade. Do globo terrestre até o firmamento, há apenas um mundo fechado em si e em contínua atividade. O universo é a grande polis que abrange os deuses e os homens juntos por apenas uma lei racional que se liga a todos igualmente. O fundamento
66 Oikeiosis é o processo pelo qual um ser vivo é se familiariza com o seu
próprio interior e, assim, consigo mesmo (cf. FORSCHNER, M. Oikeiosis. In: NEYMEYR, B.; SCHMIDT, J.; ZIMMERMANN, B. (Hg.). Stoizismus in der
para a apresentação de tal afirmação é a tese sobre o parentesco entre os deuses e os homens. Desse modo, o cosmopolitismo estoico é um sistema do céu e da terra, e, por isso um sistema dos deuses, dos homens e dos seres racionais criados por eles. Dessa forma, os estoicos foram capazes de pôr em prática o lema de sua filosofia: a vida deve ser vivida em harmonia com a natureza. Assim, os estoicos sabiam, de modo diferente do que outras escolas filosóficas, organizar o logos como fundamento e unir as três partes da filosofia: o logos é o princípio da verdade, na lógica; o logos é o princípio criador do cosmos, na física; e, o logos é o princípio normativo da vida e do mundo, na ética. Desse modo, o lema estoico dependia de uma estreita relação entre a física e a ética, enquanto a unidade e o fechamento do cosmos são mantidos através da razão divina onipresente, pois essa razão governa o universo.
Por isso, o sábio não é somente cidadão de uma cidade, onde ele nasceu ou onde ele vive. A sua cidadania é fundamentada através da natureza, de modo que também Marco Aurélio – o sábio imperador romano – mencionará que “como Antônio, eu tenho a minha cidade e a minha pátria em Roma; como homem, no mundo”.67 O imperador
Marco Aurélio – o filósofo no principado – resolveu o dilema entre a sua cidadania romana, cidadania por nascimento, e o cosmopolitismo estoico, contexto, no qual ele foi educado. Pela indicação do mundo como pátria, Marco Aurélio introduzia o conceito de cidadão do mundo. Desse modo, a tarefa de tal cidadania é a observação da teoria: ele deveria provar tudo o que se encontra na vida e ter em consideração a que tipo de universo cada coisa pertence, a que tipo de função cada coisa conduz, que valor ele tem para o universo como um todo e para os homens.
67 AUREL, M. Wege zu sich selbst. VI, 44. Além disso, veja-se, também:
CAVALLAR, G. The Rights of Strangers. p. 61; HADOT, P. La citadelle
“Ser estoico significa ter a consciência de que nenhum ser está sozinho, de que nós somos parte de um todo que é a totalidade dos seres racionais e a totalidade que é o cosmos”.68
1.2.ESTOICISMO,CRISTIANISMO E MODERNIDADE