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CAPÍTULO I – QUADRO TEÓRICO DE REFERÊNCIA

1.1 A(S) ORIGEM(NS) DA(S) TEORIA(S) CRÍTICA(S) NA

A crítica sempre fora uma característica do ser humano, pois diferente dos outros animais pertencentes ao meio natural, o homem não se conteve em apenas viver na natureza e sim buscou, desde a pré- história, dominá-la para melhorar o seu modo de vida. Mas antes, o que significa crítica?

A palavra crítica vem do grego e possui três sentidos principais: 1) “capacidade para julgar, discernir e decidir corretamente”; 2) “exame racional de todas as coisas sem preconceito e sem pré-julgamento”; 3) “atividade de examinar e avaliar detalhadamente uma ideia, um valor, um costume, um comportamento, uma obra artística ou cientifica” (CHAUI, 2012, p. 22).

A gênese do comportamento crítico do ser humano, e de suas teorias, podemos assim dizer, remonta a Idade Moderna, no período do “Iluminismo”, também conhecido como “Ilustração” ou “Esclarecimento”. Pois foi o momento em que o ser humano deixou de ter o Cosmocentrismo (crença no Cosmos e mitos da Idade Antiga) e o Teocentrismo (crença na Religiosidade predominante e imposta na Idade Média) como o seu pensamento predominante e, a partir daí, com um viés Antropocêntrico, começou a buscar explicações para os seus inúmeros questionamentos, por meio da Razão dos homens, com a qual a ciência buscava fornecer explicações racionais de todos os fenômenos. “Esta centralidade do homem é o tema-chave do movimento renascentista, do racionalismo (René Descartes – 1596-1650), do empirismo (John Locke – 1632-1704) e da ciência galileana (Galileo Galilei – 1564-1642)” (FENSTERSEIFER, 2008, p. 165).

Desde então o ser humano, aparentemente “livre” de crenças (processo de desmitologização), pôde se tornar mais esclarecido, mais

cético e questionador, características essas que se aproximam do que acreditamos que seja hoje a “consciência crítica”.

Na filosofia antiga encontramos registros anteriores de certas “atitudes críticas”, como é o caso de Sócrates, que foi um filósofo grego que defendia o autoconhecimento, é dele a lendária frase “conhece-te a ti mesmo”, portanto era um filósofo muito à frente de sua época, possuía uma atitude crítica, tanto que provocava a “arte da dúvida”. Era comum ele responder as perguntas com outras perguntas, instaurava a dúvida e não dava as respostas, que era o que queriam e sim os deixavam com mais dúvidas e incertezas. Portanto, por ser um crítico em um “tempo errado”, fora condenado à morte. Não tentou se defender e aceitou a condenação de morte, pois não trairia seus princípios, seus ideais (PLATÃO, 1999).

Como podemos observar, o pensamento crítico, tanto na antiguidade como no contemporâneo, confronta com os pensamentos (pre)dominantes, causando repúdio aos detentores do poder vigente (opressores, burgueses, nobres, ditadores, empresários, entre outros nomes que se enquadram com o período histórico-social). No contemporâneo ainda é possível observar que qualquer indivíduo que se comporte de maneira diferente de um determinado padrão estabelecido pela sociedade em que vive, também sofre repúdio. Ou seja, mesmo sendo sujeitos da mesma classe ou grupo social, independente do capital econômico e/ou cultural (BORDIEU, 2007), o sujeito com posicionamento crítico é visto com “maus olhos”.

Mas mesmo com esse preconceito enraizado do “pensamento diferente”, hoje podemos ser sujeitos críticos, que ao menos não seremos “queimados vivos” como fora na Idade Média. Um sujeito crítico naquela época era tido como feiticeiro, pois esta era a ideologia dominante, imposta pela “Santa Inquisição”. Quando então que o ser humano pôde começar a questionar o mundo? Quando pensar diferente tornou-se possível?

Buscando responder a essas indagações, demarcamos que foi a partir do período do Iluminismo/Ilustração que o ser humano então pode se “emancipar” do pensamento Teocêntrico, em que todos os fenômenos se explicavam com base nos ensinamentos da bíblia cristã, para um pensamento antropocêntrico, que buscava as respostas dos fenômenos através do próprio ser humano, pela “razão humana”. Tanto que esse período histórico também é conhecido como o período do “Esclarecimento”, uma expressão que julgamos com mais adequada, pois “Iluminação” pode nos remeter num sentido de “iluminação religiosa”.

Dentre os inúmeros pensadores desse período, destacamos Immanuel Kant (1724-1804). Esse é, nas palavras de Fensterseifer (2008, p. 166):

[...] sem dúvida o pensador central do Esclarecimento e seu texto “Resposta à Pergunta:

Que é Esclarecimento?” [Aufklärung9

] tornou-se uma espécie de manifesto do espírito crítico e emancipatório que caracterizou/caracteriza a modernidade.

O conceito de Esclarecimento não é simples de pontuar; remontamos então a ideia de Kant, citado por Kunz (1999, p. 35):

Esclarecimento é o processo de saída do homem de sua menoridade, da qual é o próprio culpado. A menoridade é a incapacidade de se servir de seu entendimento sem a direção/condução de outrem. O homem, ou a razão humana, é o próprio culpado desta menoridade, se a causa dela não se encontra na falta de entendimento, mas na falta de decisão e coragem de servir-se de sua própria capacidade racional. Sapere Aude! Tenha a

coragem de fazer uso de seu próprio

entendimento, este deve ser o lema do Esclarecimento, conclui Kant.

Compreendemos que esta referência kantiana ao Esclarecimento nos transmite essa ideia de instigar a coragem, que acreditamos como um dos primeiros passos à emancipação dos homens. Sabemos que esse período histórico coincide com o avanço da ciência e consequentemente com o surgimento do pensamento positivista. Mas, compreendemos que a partir do momento em que o homem conseguiu desvelar as suas condições, distanciar-se e contemplar sua realidade e com sua “atitude crítica”, a qual Foucault (1990) atribui como uma “virtude”, buscou o seu esclarecimento, que o tornará mais “emancipado e autônomo”. A esse momento histórico especifico podemos fazer uma analogia com o mito da “abertura da caixa de pandora”. Ou seja, após o homem ter aberto a sua “caixa de pandora” e de lá saiu a “atitude crítica”, ele não

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Expressão alemã que tem sido traduzida tanto por Iluminismo quanto por Esclarecimento.

conseguiu mais trancá-la, o que causou uma “eterna crítica”! Crítica sobre a crítica, isso não cessou e não cessará, e quando quiserem brecar os homens de pensarem de forma crítica, de negarem o acesso a sua libertação, só o farão pelo uso das forças (físicas e ideológicas), jamais no campo das “ideias autênticas” da “ética da justiça humana”.

É interessante a definição que Foucault (1990) faz sobre a “crítica”, baseando-se inicialmente no conceito de Aufklärung, de Kant. Para tal, ele nos remete a questão da governamentalização, que vai ser um modo de controle da sociedade civil ocidental. Então, afirma que a “crítica” seria um movimento de resistência, a esse governamento, mas não de forma absoluta, e sim dentro de um nível “seguro”, pois com a negação absoluta não seria possível manter o convívio social. Nas palavras de Foucault (1990, p. 3): “como não ser governado assim, por isso, em nome desses princípios, em vista de tais objetivos e por meio de tais procedimentos, não dessa forma, não para isso, não por eles”.

Portanto, existe certa dialética na crítica, que pode, com sua compreensão, prevalecer aos dominantes opressores ou a libertação dos homens, e isso tudo de uma maneira menos agressiva fisicamente e mais subjetivamente.

A crítica dirá, em suma, que está menos no que nós empreendemos, com mais ou menos coragem, do que na ideia que nós fazemos do nosso conhecimento e dos seus limites, que aí vai a nossa liberdade, e que, por consequência, ao invés de deixar dizer por um outro "obedeça", é nesse momento, quando se terá feito do seu próprio conhecimento uma ideia justa, que se poderá descobrir o princípio da autonomia e que não se terá mais que escutar o obedeça; ou antes que o obedeça estará fundado sobre a autonomia mesma (FOUCAULT, 1990, p. 6, grifos no original). Tanto na Alemanha como na França, nos séculos XIX e XX, os estudos filosóficos que possuíam um caráter crítico seguiram suas trajetórias, com certa proximidade, direcionando uma “crítica a própria racionalidade”. Na França, os caminhos levaram à criação da “Fenomenologia”10

e na Alemanha, mais delimitado a um grupo de

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Aqui Foucault parece referir-se à Fenomenologia apenas a partir do francês Maurice Merleau-Ponty, sem considerar as bases “alemãs” dessa corrente, como

estudos conhecidos como a “escola de Frankfurt”, que formularam uma “Teoria Crítica” da sociedade (FOUCAULT, 1990). Essa escola de pensamento surgiu em 192411 na cidade de Frankfurt na Alemanha por pensadores que questionavam o marxismo entre outras teorias, buscando a emancipação da sociedade. Diversos trabalhos desta escola vão fundamentar os discursos críticos da modernidade. Destacamos aqui dois desses frankfurtianos, Adorno e Horkheimer, que foram pioneiros dessa escola de pensadores e que, entre outros temas, dedicaram-se ao estudo do “empobrecimento” no conceito de “emancipação”. Para tais autores, citados por Fensterseifer (2008, p. 166):

[...] a “razão” todo-poderosa é colocada no banco dos réus, afinal ela traiu seu ideal emancipatório ao dirigir seu domínio não somente à natureza, mas também sobre os homens. O esclarecimento, segundo estes autores, “comporta-se com as coisas como o ditador se comporta com os homens”.

E isso fica claro nos dizeres de Kunz (1999, p. 36): “O esclarecimento como saída da humanidade da menoridade, se encaminhou rapidamente, porém, para o caminho oposto, ou seja, o da autodestruição do esclarecimento”. No mesmo artigo de Kunz ainda temos uma definição do que se espera do Esclarecimento, já o vendo como uma possível forma de emancipação nas instituições escolares.

Enfim, a escola deve ser aquela instância em que os Esclarecimentos de Mundo possam ser esclarecidos. Só isto pode conduzir a uma prática pedagógica emancipatória. E esta possibilidade só

pode ser oferecida pela reflexão ou

metacomunicação, nas palavras de P. Demo (1994), saber pensar e aprender a aprender, ou seja, quando se é capaz de sair da mera cópia ou incorporação de informações para construir conhecimentos. Pela reflexão comunicativa e crítica transcende-se os limites das informações

como forma de esclarecimento ou, do

seu fundador, o austro-húngaro Edmundo Husserl, e o alemão Martin Heidegger.

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Ainda sem essa denominação, que só vai ocorrer quase 15 anos depois, em um texto-manifesto de um dos seus líderes, Max Horkheimer, referido a seguir.

conhecimento científico como verdades evidentes e inquestionáveis e somente com esta forma de esclarecimento se pode intencionar a emancipação humana e social, significando a superação das dependências e da menoridade (KUNZ, 1999, p. 38).

Preocupado com essa busca de emancipação humana a “Teoria Crítica” foi aprofundada por estudiosos desse instituto de pesquisa social:

O termo “teoria crítica” se consagrou a partir do artigo de Max Horkheimer, em 1937 “Teoria tradicional e teoria crítica”, em que o autor prefere utilizar essa expressão para fugir da terminologia “materialismo histórico” utilizada pelo marxismo ortodoxo, hegemônico na época, e por querer mostrar que a teoria marxiana era atual, mas devia se importar em suas reflexões com outros aspectos críticos presentes na abordagem da realidade: o filosófico, o cultural, o político, o psicológico e não se deixar conduzir predominantemente pelo economicismo determinista (PUCCI, 2001, p. 3). É essa base teórica, inspirada nos ideais emancipatórios da Teoria Crítica, que vão sustentar toda uma geração de pensadores, chegando a todas as áreas da ciência, entre essas a Pedagogia, que vai culminar em movimentos de resistência à forma conservadora e antidemocrática com que a Educação vem sendo utilizada na sociedade burguesa.

Também reconhecemos a grande influência do próprio marxismo ortodoxo que influenciou muitos estudiosos de diversas áreas do conhecimento entre elas a Educação. A exemplo, aqui no Brasil tivemos: na área da educação Saviani e Libâneo, entre outros que se baseiam no marxismo para criticar o modelo de escola tradicional; e na própria Educação Física essa corrente teórica foi uma das primeiras que permearam as denúncias do Movimento Renovador da Educação Física nos anos 80 do século XX e que ainda, nos dias de hoje, é bem representativa entre alguns grupos de pesquisa vinculados a universidades e grupos de movimento estudantil como a Executiva Nacional dos estudantes de Educação Física (EXNEEF).