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N. º de capitanias exercidas por cada capitão

3. O ESTATUTO SOCIAL DOS CAPITÃES DAS A RMADAS DA Í NDIA

3.2 A S O RDENS M ILITARES E OS COMANDOS DAS ARMADAS

O estudo das Ordens Militares e os comandos das Armadas justifica-se na medida em que contribuiu para a avaliação do diferente peso que as Ordens de Santiago e de Cristo tiveram no processo expansionista, mais precisamente na Índia. Para compreendermos a natureza dessas diferenças, caso elas existam, temos que traçar um breve esboço da história destas instituições em Portugal.

Como é sobejamente conhecido, as Ordens Militares foram introduzidas na Península Ibérica no âmbito do processo da Reconquista, o que se compreende pelo seu cariz cruzadístico, que pressuponha o confronto militar com o infiel, a libertação da Terra Santa e o incentivo à peregrinação392. Tratavam-se, portanto, de instituições monástico-militares. Aquando da definição das actuais fronteiras

nacionais, as Ordens possuíam vastos territórios que a Coroa, mais propriamente a dinastia de Avis, começou a integrar nos bens da família real. Este é o primeiro passo de um processo que termina com D. João III, em 1551, com a anexação dos mestrados de Avis, Cristo e Santiago na Coroa. Em consequência, nas palavras de Luís Adão da Fonseca, “o poder das Ordens perde a sua autonomia, preparando-se, desta forma, a sua futura evolução enquanto instituição de integração e projecção social subordinadas à organização do estado moderno ”393. A expulsão dos muçulmanos do território nacional obrigou a que se assistissem a várias transformações nas Ordens, diminuindo-se o carácter militar e acentuando-se o senhorial, abandonando-se o carácter monástico em favor de uma maior laicização.

Luís Adão da Fonseca, cujos trabalhos temos vindo a seguir, analisa os domínios territoriais das Ordens e discorre sobre a possibilidade destes terem condicionado a natureza de cada uma destas instituições. Deste modo, a Ordem de Avis que concentrava a maioria dos seus domínios no interior norte alentejano parece estar mais vocacionado para o diálogo com a vizinha Espanha. A Ordem de Santiago, com importantes comendas junto à costa e com rendimentos provenientes das rotas oceânicas com o norte da Europa e com o Mediterrâneo, assim como do comércio do sal, pode justificar porque tantos dos seus membros estiveram associados à expansão marítima. A Ordem de Cristo é menos marcada pela sua geografia, pois o que parece ter sido determinante foi a sua ligação ao poder real desde o momento da sua fundação, “também não terá sido menos forte a constante actualização da sua vocação cruzadística, associada à componente de guerra marítima”394.

Outro aspecto que não pode ser descurado relaciona-se com os indivíduos que estiveram à frente das Ordens. As suas personalidades e as suas opções políticas marcaram fortemente os destinos das milícias. Se tivermos em conta que a Ordem de Cristo teve como administradores o infante D. Henrique, o infante D. Fernando e D. Manuel I, podemos facilmente perceber porque razão

393 Ibidem, p. 326. 394 Ibidem, p. 331.

foi a mais empenhada no processo expansionista. Para o nosso estudo é pertinente referir a influência manuelina na Ordem de Cristo, nomeadamente, a hipótese de propagação das ideias imperiais e, em consequência, a recuperação da dimensão cruzadística.

Quando expusemos a problemática sobre a escolha de Vasco da Gama, tivemos oportunidade de abordar as di visões na sociedade portuguesa, assim como definir o papel que as Ordens desempenharam. Apesar das reticências que se podem colocar às clivagens entre os apoiantes e os opositores ao «plano da Índia» de D. Manuel, é inegável que, por todas as razões apontadas, é a Ordem de Cristo a mais influenciada pela personalidade do rei. É dentro deste contexto que devemos compreender a transferência da milícia de Santiago para a de Cristo de D. Francisco de Almeida e D. Duarte de Meneses, às vésperas de partirem para o Oriente.

As ligações de D. Francisco de Almeida a D. Jorge e à Ordem que este havia de administrar são bastante evidentes, pois fora aos Almeidas que, após a morte da sua irmã, a infanta D. Joana, D. João II confiara a tutoria do filho395. A ligação de D. Francisco a esta milícia data de 17 de Janeiro de 1478, altura em que recebeu um padrão de D. João II com 40.000 reis de tença pelos serviços prestados a D. João e à Ordem de Santiago de que então o príncipe era administrador396.

D. Duarte de Meneses, que antes de partir para Índia como governador fora capitão de Tânger, era comendador de Sesimbra na Ordem de Santiago, pelo menos, desde 1516. Em 1521, D. Manuel transferiu-o para a milícia que governava397. “Nessa década de vinte, a muito maior distância do reino, sentiu D. Manuel a necessidade de aproximar mais directamente D. Duarte de Meneses da

395 Sobre a infância do príncipe veja -se as páginas que Maria Cristina Gomes Pimenta lhe dedica na sua

obra As Ordens de Avis e de Santiago a Baixa Idade Média. O governo de D. Jorge, separata n.º 5 da Revista Militarium Ordium Anacleta, Palmela, pp. 74-79.

396 IAN/TT, Conventos Diversos, Chancelaria da Ordem de Santiago, liv. 1, fl. 106 v. pub. em Joaquim

Candeias Silva, O fundador…, op. Cit., p. 257.

397 Cf. Isabel Morgado S. e Silva e Maria Cristina Pimenta, “As Ordens de Santiago e de Cristo e a

sua pessoa, pelo que este ingressa na Ordem de Cristo?”398. Não obstante, a 15 de Março de 1534, D. Duarte ainda mantinha a administração da comenda da Ordem de Santiago399.

É curioso notar que Afonso de Albuquerque foi o único governador cavaleiro da Ordem de Santiago que não foi transferido para Cristo. Como interpretar este facto? O rei não tivera ocasião de dar ordem a esta permuta, Albuquerque fora o único capitão-geral da Índia a não partir de Lisboa com essa nomeação, a transição de poderes fora de tal forma complicada que D. Manuel se vira obrigado a enviar o marechal D. Fernando Coutinho para executar a outorga de poderes no Leão dos Mares. No entanto, podemos aventar que o monarca estava de tal forma certo da fidelidade de Albuquerque que não seria necessário outro laço de vassalagem. O mesmo tipo de raciocínio pode-se aplicar a Tristão da Cunha pois, apesar de não existir prova documental, seria cavaleiro da Ordem

de Santiago, conhecendo-se as ligações da sua família a esta milícia400. O

argumento da fidelidade reforça-se se pensarmos no exemplo de D. Francisco de Almeida tido como figura impostas ao Oriente pela oposição ao «projecto manuelino». Porém, seguindo as últimas produções historiográficas, D. Duarte de Meneses não se enquadrava neste grupo de homens, pelo contrário, o seu envio como governador deu-se num momento em que o monarca restaurava a confiança nas ideias imperiais. É possível que, no tempo que D. Duarte partiu para a Índia, fosse pouco lógico que um governador não pertencesse à milícia que o rei administrava.

É ainda de referir o caso de Vasco da Gama que “algures durante a primeira metade de 1507, decidira seguir o exemplo de D. Francisco de Almeida tendo abandonado definitivamente a Ordem de Santiago pela Ordem de Cristo”401. Desde os fins de 1495 que Vasco da Gama era cavaleiro da Ordem de Santiago, dispondo das comendas de Mouguelas e da Chouparia. Segundo Maria Cristina Gomes Pimenta, mesmo depois da sua passagem para a milícia de

398 Ibidem, p. 358.

399 Cf. Maria Cristina Gomes Pimenta, As Ordens de Avis e de Santiago…, op. Cit., p. 394. 400 Cf. Andreia Martins de Carvalho, “Tristão da Cunha…”, op. Cit., p. 208.

Cristo, Vasco da Gama manteve ligações à sua Ordem original402. Entre muitos outros factores, esta atitude do Almirante pode ser compreendida devido às fortes ligações que a sua família tinha a Santiago, nomeadamente, o seu pai Estêvão da Gama403 e o seu parente João da Gama, fidalgo da Casa de D. Jorge e seu vedor da fazenda404.

À semelhança do que escrevemos para o Conselho Régio, são muito poucos os capitães das Armadas da Índia que pertenciam ou vieram a ingressar Ordens Militares, apenas 25%. Não obstante, trata-se de um fenómeno embrionário que importa analisar, pois no decorrer no século XVI e sobretudo no

XVII e XVIII toma outras proporções405. A criação das comendas novas,

outorgadas pela Santa Sé, em 1514 e 1517, salienta a vocação expansionista da Ordem de Cristo. A bula que aprovou esta iniciativa previa que fossem retirados rendimentos de mosteiros, priorados e igrejas paroquiais para a erigir comendas reservadas a indivíduos com serviços no ultramar, entenda-se Norte de África, que englobassem a luta contra os infiéis406.

Apesar de não ser a questão central da nossa dissertação de mestrado, o estudo da temática das Ordens Militares impôs-se devido à existência de duas obras, uma referente a Cristo e a outra a Santiago407, que abrangem o período cronológico observado. O levantamento exaustivo dos nomes que estes trabalhos tratam em dicionários biográficos ou em quadros/sínteses, constitui um manancial de informações que não poderia ser ignorado e que nos permite ter um conhecimento mais aprofundado da nobreza portuguesa que sulcou o Atlântico e o Índico no comando de navios.

Quadro 5 – Os capitães das Armadas da Índia Cavaleiros de

402 Maria Cristina Gomes Pimenta, As Ordens de Avis e de Santiago…, op. Cit.,, p. 593. 403 Cf. Sanjay Subrahmanyam, A Carreira e a Lenda…, op. Cit., p. 46

404 Cf. Luís Adão da Fonseca, “ As Ordens Militares e a Expansão”, in A Alta Nobreza…, op. Cit., p. 342. 405 Para os séculos XVII e XVIII veja-se o trabalho de Fernanda Olival, As Ordens Militares e o Estado

Moderno – Honra, Mercê e Venalidade em Portugal (1641-1789), Lisboa, Estar Editora, 2001.

406 Cf. Isabel L. Morgado de Sousa e Silva, A Ordem de Cristo (1417-1521), separata n.º 6 da Militarium

Analeta, Porto, Fundação Eng. António de Almeida, 2002, p. 41.

407 Referimo -nos às obras já citadas de Maria Cristina Gomes Pimenta (nota 395) e de Isabel L. Morgado

Ordens Militares

(1497-1521)

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