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4 UM CALENDÁRIO CÍVICO – HISTÓRICO NACIONAL NA COLEÇÃO

4.4 ABORDAGEM INTERPRETATIVA

4.4.3 A S SIMPLIFICAÇÕES EXPLICATIVAS NA DIDATIZAÇÃO E SEUS PROBLEMAS

Neste tópico, buscamos refletir sobre a didatização que se efetiva com o conhecimento histórico até ser transformado em quadrinhos. Por didatizar, compreendemos ser um ato de simplificar, mas não apenas isso. Refere-se, também, a uma transposição didática, no sentido de tornar o conhecimento e a narrativa mais palatáveis, ao utilizar uma linguagem assumidamente acessível ao aluno-leitor.

Já a simplificação explicativa, quando ocorre, impossibilita a compreensão, ou a distorce de modo a gerar um entendimento contrário ao sentido original do conteúdo – ou seja, é uma simplificação que falsifica, fazendo incorrer, por exemplo, em pré-conceitos através de generalizações não apropriadas. No episódio sobre a Abolição dos escravos, afirma-se: “Pior ainda é o fato de que negros vendem negros!”. Nesse caso, não se explicitam as questões étnicas e sócio-culturais que estão na base dos conflitos entre as comunidades políticas africanas daquele período, o que pode gerar um equívoco na compreensão de como se estabelecia o tráfico negreiro, por acreditar ser

“culpa”, também, dos próprios negros. Assim, conflitos étnicos e sócio-culturais parecem exclusividades dos “exóticos” povos africanos, colocando, em segundo plano, conflitos de natureza similar ocorridos na Europa, como perseguições aos judeus e confrontos sangrentos entre católicos e protestantes.

A necessidade de simplificar e passar várias informações com poucos textos e páginas, pode ser um dos fatores responsáveis pela produção de deformações significativas de interpretação. De qualquer forma, seja em função de um problema comunicativo gerado pela escolha de determinadas palavras, como “negros vendem negros”, seja como resultado de uma simplificação, ou mesmo uma visão prévia sobre os eventos, acaba-se por oferecer ao leitor uma determinada concepção histórica (ou um pré-conceito) sobre as relações entre os negros e o escravismo que se estabelecia naquele contexto. O leitor desavisado pode concluir, apressadamente, que os negros também seriam responsáveis pela escravidão, o que é uma visão simplista. Primeiro, porque o sistema escravista não dependia dos conflitos militares e culturais internos à África, mas era dotado de uma lógica econômica própria65 e, em segundo lugar, a escravidão entre povos africanos tinha um significado e uma conseqüência distinta das que assumia

Ainda no fascículo sobre a Abolição, o fim da escravidão efetiva-se com a assinatura da Lei pelas mãos da princesa Isabel. Essa simplificação, todavia, não é típica dos quadrinhos, mas copiada de um modelo de ensino de História episódico, estanque, organizado a partir de datas cívicas e personagens ilustres como agentes privilegiados ou únicos da História. Esse modelo, notadamente, é anterior às reflexões e às mudanças curriculares contemporâneas, ainda que não se encontre totalmente excluído das atuais práticas escolares.

65 Essa tese – e não a de que os africanos foram escravizados porque a mão-de-obra indígena não se adaptava ao tipo de trabalho das fazendas coloniais – é predominante nos estudos atuais sobre escravidão, tendo em Novais um dos seus mais importantes formuladores, por exemplo, na obra Portugal e Brasil na crise do antigo sistema colonial ou Estrutura e dinâmica do antigo sistema colonial.

No fascículo que trata da Proclamação da República, o mapa do Brasil é personificado com as mãos na cintura e um sorriso tranqüilo, enquanto uma faixa com a palavra “República” cruza seu peito. Como a obra não apresenta uma intenção “intelectual” ou “rigorosamente didática”, o mapa apresenta os contornos atuais, com a inserção do estado do Acre, o que só viria a acontecer a partir da assinatura do Tratado de Petrópolis em 1903. A efetiva incorporação do Acre ao território brasileiro, entretanto, só ocorreria no ano seguinte. A falta de exatidão dos contornos e limites do Brasil acaba por ser justificável, em nosso ponto de vista: a intenção da obra não deixa de ser afetiva e, por isso, faz referência a um mapa que o aluno conhece, não a um outro que possa lhe causar estranhamento e falta de empatia. O que parece destacar-se aqui é a questão da subjetividade e identificação com o conjunto da obra produzida. É o que garante a atenção do leitor, com um conhecimento que, em termos temporais, soa muito distante de sua realidade. Nessa perspectiva, afirma Maurício de SOUSA:

A intenção não é ser professoral ou didático (em relação a temas como meio ambiente, por exemplo); é esbarrar no assunto. A história deve ser antes de tudo leve, gostosa, divertida. Mas a turma não está alienada, pois vive num mundo repleto de ação66.

Com essa argumentação, evidencia-se o fato de que a preocupação central das histórias é a de divertir, não a de transmitir um conteúdo exato do conhecimento. Dessa forma, não cabe a crítica de ausência de exatidão histórica da obra de arte, quando seu objetivo primeiro não é pedagógico, mas de

66 O PAI DA MÔNICA. Entrevista citada.

A imaginação, a ficção, o humor, convivem lado a lado com o resgate da nacionalidade. Essa conotação encontra-se presente, também, em outros meios e veículos. Como destaca GARCÍA (1998, p.285):

Cualquier presentación en el cine, la televisión, el teatro, la literatura y también en la historiografía de todos los niveles, por más autenticidad histórica que se pretenda, contiene ficciones. Pero la pregunta por el grado de ficción que pueda asimilar la conciencia histórica sin perder su relación con la realidad no está bien hecha. Al parecer, la conciencia histórica puede aguantar bastante ficción. Lo importante es reconocer esta ficción como algo construido y por ende deconstruible...

A autora destaca a importância de elementos como a imaginação, a criatividade, a ficção e a subjetividade no trato com a História. Esses recursos, longe de afastar ou perturbar a exatidão histórica, são potenciais motivadores de curiosidade e aprendizagem histórica.