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1 SER ESTUDANTE, SER PROFISSIONAL

1.2 A saída da universidade e a iminência do desemprego

Antunes (2010) descreve, dando ênfase ao período compreendido a partir de 1980 no Brasil, mudanças intensas na promoção de novas configurações no que diz respeito à subjetividade do trabalhador brasileiro. Na década de 1990, tem-se o período neoliberal.

Juntamente à formatação desse novo modelo econômico, que não somente tomava forma no Brasil, mais na América Latina, observa-se uma reestruturação produtiva. Essa emerge intimamente vinculada ao advento das tecnologias, robótica, microeletrônica.

Nesse sentido, configurou-se um panorama de exigência de qualificação, comprometimento do trabalhador ao seu vínculo, numa contrapartida de entrega, mas na iminência da “máquina” em breve ocupar o posto do trabalho. É por isso que se vem discutindo a possibilidade do fim da centralidade do trabalho na vida humana após o surgimento da microeletrônica, pois, a partir do momento que se passa a questionar a necessidade da existência do trabalhador em detrimento da inserção da máquina, possibilita-se a indagação sobre qual o lugar que será ocupado pelo sujeito nessa nova configuração.

Novas vinculações configuram-se nas ligações empregatícias. No advento da flexibilidade, além dos contratos de trabalho, também se veem flexibilizadas os vínculos de trabalho de uma maneira geral. Nesse sentido, na contemporaneidade, passa a existir congruência em estabelecer-se no significado do desemprego de maneira a concebê-lo circunscrito no panorama da instabilidade, ao mesmo em que tempo se percebem ausências de representatividades e meios de firmação ao sujeito. O lugar da ausência do ofício “não se trata apenas da falta de dinheiro, mas da sobra de frustrações e carências que envolve por inteiro como existentes, colocando em questão suas competências de um modo tão intenso que suspeitam da sua legitimidade para existir” (RIBEIRO; MANDELBAUM, 2017, p. 100). Ao descrever os sentimentos que se revelam ao sujeito do desemprego, personifica-se o estado da não existência mediante o não trabalho.

Frente à falta de vínculos estáveis e palpáveis devido aos ritos do desemprego, observa- se um crescimento da taxa da informalidade no país. Tal taxa busca mensurar a quantidade de pessoas no país que exercem uma ocupação sem qualquer vínculo empregatício, como por exemplo, carteira ou contrato de trabalho. Até janeiro de 2020 o Brasil alcançou a porcentagem de 40,7% das pessoas no mercado de trabalho sob a informalidade, o que representa 38,3 milhões de trabalhadores nessa posição (BRASIL, 2020).

Daí emerge o entendimento de enquanto seres-no-mundo busca-se o lugar de ser, através de ocupação do espaço daquele que trabalha. Assim, o trabalhar é existir e ocupar um lugar de reconhecimento. Reconhecimento este não no sentindo apenas econômico, mas de sujeito dotado de capacidade de produzir, e assim, ser reconhecido como tal, produtor e consumidor social. Na atitude de buscar o trabalho, o sujeito também busca uma constante produção de si mesmo. Nesse futuro, estabelece-se assim uma projeção da tentativa de tornar-se aquilo que escolheu enquanto ação em detrimento de outras (OLIVEIRA, 2018).

Dessa maneira, nota-se inoportuno discutir carreira e inserção profissional na atualidade sem antes vislumbrar o contexto de desenvolvimento do papel inerente à existência do homem, o ser para o trabalho. A afirmação desse ciclo já se inicia desde a entrada na universidade e torna-se mais forte ainda no período de saída. A preocupação sobre qual curso tem mais mercado para se inserir profissionalmente, quais áreas são as mais afetadas com a crise econômica, dentre outras questões já indicam a força preponderante do capital sobre a dimensão do querer.

A continuidade da caminhada pela trajetória de vida após entrada no ensino superior consiste em vivenciar um dos desafios desse nível de ensino, que é pensar a inserção profissional, ou seja, o caminho que é iniciado no ENEM atravessa toda uma formação universitária e chega à inserção no mercado de trabalho. Logo, se o jovem pensava em escolher sua profissão ao fazer o exame, no momento da graduação, ele pensará sobre como ser escolhido pelo mundo do trabalho. Há, dessa maneira, uma relação entre os significados do trabalho para o jovem e os comportamentos de busca de emprego (PAULINO, 2016).

Não há como negar os sentimentos que porventura surgem aos estudantes no período em análise neste trabalho. Múltiplos discursos são empregados no sentido de optar por escolhas que produzam retornos (financeiro, reconhecimento, status, ente outros) em nível de inserção, fazendo-os olhar, prioritariamente, ao mercado de trabalho como componente chave e, às vezes, único na compreensão de carreira. Tão essencial quanto reconhecer se a percepção sobre o mercado é percebida como uma fantasia ou não, é atentar que de fato este impacta consideravelmente aos sujeitos nas suas escolhas (DIAS, 2018).

Outro aspecto também a ser considerado faz relação ao desejo de tornar-se profissional, como também à dificuldade em perceber-se enquanto o profissional que será. As alternativas possíveis, ou seja, que surgem após a formatura, acabam sendo também as possibilidades que são aceitas, pois, novamente há o assombro, o medo do desemprego, ou o de nada surgir, dessa forma, opta-se pelo que aparece.

O medo do não-trabalho, em geral, representado socialmente como desemprego, segue sendo um fantasma potencial que assombraria à quase todos, relegando as pessoas a uma situação de instabilidade, insegurança, falta de referências seguras, desconfiança de padrões passados e desconhecimento do que fazer para o futuro (RIBEIRO, 2014, p. 61).

Em uma revisão integrativa Oliveira et al., (2018) concluíram que há uma tendência em estudar o desemprego visando explicá-lo numa relação de causa e efeito, ou seja, apontando a falta de trabalho ligada às questões sociais, econômicas e demais justificativas. As autoras não

perceberam, nos estudos encontrados, uma preocupação em descrever a realidade das pessoas a partir do próprio olhar delas sobre o que representa ocupar o lugar do desemprego enquanto sujeitos os quais o vivenciam.

Um ponto importante a ser compreendido relaciona-se ao entendimento sobre as diferenciações que permeiam os conceitos de mundo de trabalho e mercado de trabalho. De acordo com Hobsbawm (1987)2 apud Ribeiro (2014) há noções sobre o lugar ocupado pelas pessoas em seus trabalhos e a percepção de como elas se compreendem em espaços de inserção. O lugar, então, é o mercado de trabalho, “formado por aqueles que têm necessidade de mão de obra para produzir bens e por aqueles que têm sua força de trabalho para dispor” (RIBEIRO, 2014, p.31-2). Já o mundo do trabalho compõe as variadas formas que se abrigam nas relações do homem por meio do trabalho, “abrangendo tanto o trabalho reprodutivo e o de manutenção [...] quanto às produções culturais, desenvolvimento político e o trabalho produtivo” (p. 32).

A partir do Censo da Educação Superior de 2018 (BRASIL, 2019a), mais de um milhão e duzentos mil estudantes concluíram educação superior de graduação no Brasil, ou seja, esse grande contingente formado emerge em busca dos sentidos que os fizeram adentrar numa graduação. O trabalho constitui-se como uma urgência, elaborado enquanto uma atividade mais repleta de significados do que o próprio estudo em si (PAULINO, 2016). Além disso, o estar trabalhando, para a autora, foi associado a um sentimento de valorização social e utilidade, firmado numa concepção de exploração e de busca por resultados. Assim, torna-se claro que, na própria concepção capitalista, o papel do ensino superior é único e exclusivo para ocupação de um posto de trabalho, sendo os conhecimentos obtidos algo secundário, pois estes também devem estar à serviço da produção, e não assumirem o seu caráter emancipatório que é a própria aquisição do conhecimento (PAULINO, 2016).

As pressões do mercado do trabalho exigem uma sequência de experiências profissionais para adentrar numa ocupação, assim, requeresse daquele que acaba por se graduar, experiências, qualificações e currículos preenchidos. Além disso, o estudante acaba sendo preparando para uma única carreira durante sua formação universitária (DIAS; SOARES, 2012). Nesse sentido, Dias e Soares (2012, p. 59) ressaltam que ao planejar uma carreira o aluno também “ [...] pode buscar outras competências, disciplinas eletivas, optativas, ou cursos que lhes permitam ampliar sua área de atuação”.

No momento em que os universitários vão começar a trabalhar é que sentem mais angustiados; pois, ao serem questionados sobre o que você gostaria de

2 HOBSBAWM, Eric John. Mundos do trabalho: novos estudos sobre história operária. Rio de Janeiro: Paz e

fazer, respondem: “Tudo, qualquer coisa”. Já quando questionados sobre o que sabem fazer, retorna: nada! (DIAS; SOARES, 2009, p.16).

No 1º trimestre de 2020, a PNAD (IBGE, 2020) mostrou que dentre as pessoas desocupadas3 no país, 32% possuem entre 18 e 25 anos e 33,7% ente 25 a 39 anos. A questão que emerge no processo de conclusão do curso diz respeito, principalmente, à imprevisibilidade diante da existência do vínculo empregatício após cumprir o itinerário acadêmico. Assim, não há garantias, mesmo após o investimento de três, quatro, cinco anos e às vezes até mais tempo em uma universidade, de conquistar o lugar almejado enquanto profissional. Esses impasse e incerteza, dos quais padecem os recém-formados e concluintes das instituições de ensino superior, angustiam e promovem sofrimento.

“Toda existência é atravessada pela ontologia vigente, isto é, compreende e lida com a realidade e consigo mesmo do jeito que nesta época histórica se compreende e habita” (EVANGELISTA, 2016, p.35). Ao dizer isso, o autor explicita no que a contemporaneidade se traduz no existencial cotidiano. Ao que se acredita ser comumente compartilhado, na trama ensino médio – graduação – trabalho, ontologicamente, coloca-se e existe-se em um sentido socialmente construído. Mais que isso, compartilhamos esse ideal como o normal. Atingi-lo, por mais elementar que seja, é condição mínima obrigatória, uma crença comum e partilhada coletivamente.

Tal qual seres inseparáveis do mundo, não se busca distinguir o conhecimento aqui proposto diante do que é vivido na sociedade. Não se pode separar dessa realidade. Olhá-la distanciada do ser é uma questão que não é possível pela fenomenologia-existencial. O que emerge é a busca do sentido, que se torna possível através de um distanciamento do cotidiano generalizável, ou seja, do que é comum e impessoal. Há, nesse entendimento, uma quebra do que é esperado e uma via possibilitadora da compreensão do real sentido do que existe para além do que já é suposto.

Em face à realidade de conclusão acadêmica, quando se discute sobre a condição de abrigamento e desabrigamento do aluno na mudança de papel de estudante para sujeito formado, essa pesquisa leva em consideração também aspectos da própria história pessoal da pesquisadora. A UFRN oferece, dentre tantas qualidades que se manifestam enquanto centro

3 Conforme indicadores, pessoas ocupadas são identificadas como as que trabalharam pelo menos uma hora

completa em trabalho remunerado em dinheiro, produtos, mercadorias, entre outros, ou em trabalho sem remuneração direta. Já pessoas desocupadas são definidas pelo instituto como “pessoas sem trabalho em ocupação [...] que tomaram alguma providência efetiva para consegui-lo” (IBGE, 2019b, p 4).

formador e referência regional de ensino, inúmeras possibilidades para o jovem estudante. Há no ser aluno um mundo de descobertas.

Perece se constituir pesada a realidade de não se estar mais na universidade – percebe- se o que não será mais possível usufruir. Perde-se contato com professores, práticas, inovações, bolsas4, já que não há mais vínculo formal. Pude viver isso ao transitar pela instituição logo depois de formada. Tive a sensação de que havia perdido muito somente pelo fato de não estar mais ali enquanto aluna, apesar de finalmente psicóloga. É uma sensação de troca, na qual parece ser necessário perder algumas coisas para ganhar outras.

Para driblar esse sentimento, é visto um comportamento de prolongar a permanência na universidade. Alguns estudantes continuam a frequentar bases de pesquisa, mesmo sem interesse pela área acadêmica, mas, às vezes, como busca do enriquecimento intelectual e/ou ainda para diminuir a sensação de insegurança enquanto profissional recém-formado. Outros optam pela modalidade de pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado), e nessa oportunidade, ainda podem usufruir da bolsa de pesquisa5. Sem falar dos grupos, das amizades e confraternizações de turmas que se perpetuam anos a fio. Pode-se citar aqui diversos outros exemplos e ainda assim não se finalizariam, mas o que se deseja evidenciar é a diversidade de sentimentos que os estudantes desenvolvem com a sua instituição de ensino. Dei-me conta de tudo o que ela representava quando enfim saí dela. Como será que isso acontece para as outras pessoas?

São muitas as indagações aqui criadas. O movimento de questionar o que é dado na contemporaneidade é a alternativa diante da angústia situada nas restrições que se afirmam nos atuais imperativos. O que domina de alguma maneira impõe uma impessoalidade. Há algo como uma formatação, um molde que reproduz modelos padrões. Então, em que medida consumimos tais representações?

Em alguns momentos buscou-se falar neste tópico sobre trocas, perdas, ganhos, consumo, aquisições, mercado e capital. Nomes que pertencem ao conjunto capitalismo e nele situa-se e ordena-se o viver no ritmo posto pela competição e alternativas de sobrevivência. Por vezes, essa busca por se afirmar em um mundo que pede produção e resultados diminui a necessidade de se ver também sentido nas ações cotidianas. Buscar o que se gosta ou fazer o

4 O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) concede bolsas remuneradas e

voluntárias para estudantes para a formação de recursos humanos no campo da pesquisa científica tecnológica em IFES, tanto no Brasil como no exterior.

5A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Nível Superior (CAPES) desempenha papel importante na

que se quer parece que passou a se configurar, nos ritmos vigentes de produtividade e de resultados, sinônimo de romantismo.

Antes do verbo querer, sobrepõe-se o sobreviver. O ritmo é ditado pelo que oferta possibilidades de subsistência e não de ações de reconhecimento de si mesmo na ação produtiva. Gerar riqueza e produzir parece abarcar o significado das coisas no mundo atual. E sobre isso fica o vazio dos sentidos que não se percebem na representação de ser. Heidegger (2015) fala na palavra manifestação, enfatizando a ação enquanto “anunciar-se mediante algo que se mostra” (p.68). No manifestar, vê-se uma face do fenômeno – há muito que não é percebido, não visto. Assim, pergunta-se: para além do que se vê, o que é possível dizer? Como se pode viver em um mundo em que algumas possibilidades de manifestação são tolhidas?

A flexibilidade é uma resposta encontrada para lidar com as incertezas na atualidade. “A condição líquida moderna premia a flexibilidade; e, por bem ou por mal, nós obedecemos” (BAUMAN; RAUD, 2018, p. 79). Isso parece ser o que de fato ocorre. Ficam as reflexões sobre quais modos de ser são possíveis para além do que vivenciamos na era pós-moderna. Não há respostas prontas e pensa-se que se elas existissem, não pertenceriam ao sujeito em si, mas ao contexto existencial.

As inquietações, dúvidas e angústias compreendidas no período da vida do sujeito concluinte também se reverberam em suas práxis na posteridade e, assim, de alguma forma, composto de todas essas questões, acaba por ir se constituindo um profissional. Seja no mundo do trabalho, distante ou não do ambiente acadêmico ou inserido em sua profissão de formação ou não, o sujeito constitui-se repleto de sua historicidade e isso é o que o faz existente e singular. Ao mesmo tempo em que tal história o faz único, em ritmos de desempenho e produtividade, ela passa a ser tornar menos preponderante em vista dos números, pontuações, currículos e resultados. Estes acabam por preencher os olhos de quem vê, mas que por vezes não carregam em si a presença do sujeito que ali investiu sua vida. “Tudo aquilo que não é enumerável cessa de ser” (HAN, 2018, p.67).

Nesse sentido, pensar quais caminhos permitem aproximar-se ao sujeito em detrimento aos que já se mostram consolidados nos ideais pós-modernos de produção são formas de contemplar as historicidades em meio a impessoalidade característica da contemporaneidade.