• Nenhum resultado encontrado

No contexto do cuidado de enfermagem com o paciente oncológico do sexo masculino, a discussão do cuidado integral traz à tona as dimensões simbólicas e subjetivas dos saberes populares, dos valores pessoais e de gênero, presentes nas relações entre o profissional e o homem adoecido. O cuidado não é apenas um ato pontual, mas uma atitude de compreensão e preocupação, uma atitude interativa de respeito pelo sofrimento do outro e pelas suas histórias de vida, transcendendo as competências técnicas (LACERDA; VALLA, 2006).

Estudos mostram que os profissionais de saúde têm dificuldades em compreender as especificidades do homem adoecido, em virtude da visão estereotipada do homem que não sofre, não tem emoções e preocupa-se apenas com a sua virilidade. Nos serviços de saúde, a invisibilidade do ser homem é uma consequência da abordagem superficial dos profissionais aos seus problemas, não se atentando para as representações que possui acerca de seu corpo e de sua saúde (GOMES et al, 2011; PINHEIRO; COUTO; SILVA, 2011).

Essa carência no cuidado ao homem é histórica, visto que durante muitos anos os modelos de masculinidade hegemônica fizeram-se predominantes, caracterizando a mulher como algo especial e o homem universal, direcionando a maior parte dos estudos ao foco do gênero feminino. Este gênero permanece como centro das atenções, e o olhar para a saúde do homem teve leve crescimento com o advento da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS). Nesse contexto, percebe-se que há poucos estudos que subsidiam a atenção em saúde ao gênero masculino (AQUINO, 2006).

Assim, com este estudo buscamos contribuir com a Política Nacional de Atenção à Saúde do Homem (PNAISH), a qual tem como um dos seus objetivos, promover ações de cuidado que favoreçam a compreensão da realidade singular masculina, nos seus diversos contextos socioculturais, e que possibilitem a redução dos índices de morbimortalidade no grupo de adoecidos pelo câncer (BRASIL, 2008).

A PNAISH apresenta-se como um marco na tentativa de qualificar a atenção à saúde da população masculina, na perspectiva de linhas de cuidado que resguardem a integralidade da atenção, ou seja, pela atenção primária e secundária busca-se promover, prevenir e assistir aos homens dentro de suas particularidades socioculturais (BRASIL, 2008). A política apresenta-se contra a visão do homem dominante, do ser forte que não cuida de si, representante universal da espécie humana e não singularizado nas questões de gênero, visando romper com o paradigma da masculinidade paternalista (CARRARA; RUSSO; FARO, 2009).

No âmbito assistencial a PNAISH, ainda têm barreiras para se consolidar enquanto ferramenta política de saúde do homem, como constatado no estudo de Gomes et al. (2012), no qual foram identificados os sentidos empregados à PNAISH por 21 gestores e profissionais de saúde entrevistados, em cinco municípios brasileiros. A política foi vista como um importante referencial para o cuidado à saúde do homem, no entanto, foi também entendida por alguns participantes, apenas como um programa para reduzir problemas urológicos, como algo vago e sem detalhes para o que fazer no cuidado, ou como uma fundamentação para campanhas de saúde. Dessa forma, o estudo mostra que a relação entre a PNAISH e a assistência é um campo de divergência de ideias a ser consolidado.

No cuidado do homem com CP, a Enfermagem tem responsabilidades na prevenção e durante todo o período de tratamento, no preparo da sua alta hospitalar e do cuidado para a reabilitação, com intervenções baseadas em evidências das perspectivas biomédica e sociocultural.

Dois estudos de revisão (SOUZA et al., 2011; HELD-WARMKESSEL, 2012) demonstraram alguns aspectos que podem ser levados em conta para o cuidado de Enfermagem, e serão apresentados a seguir.

O estudo de Souza et al. (2011) foi uma revisão integrativa com o objetivo de identificar evidências para a prevenção do CP e do câncer de testículo. Considerou como evidências dados de estudos de revisão, coorte, opiniões de especialistas, série de casos e estudos quase experimentais. Como resultados relativos aos cuidados do homem com CP, os autores destacam duas abordagens estratégicas, uma direcionada ao paciente e outra à equipe de saúde, ambas realçando a importância da proteção sexual, do autoexame e dos hábitos de higiene, como:

 Melhora dos hábitos de higiene intima. Lavar o pênis, principalmente a glande, diariamente com água e sabão, em especial após as relações sexuais ou masturbação;

 Ensinar a criança, desde cedo, como fazer a higiene do pênis;  Utilizar preservativos nas relações sexuais;

 Realizar autoexame mensalmente: tracionar o prepúcio e fazer inspeção;  Orientar sobre o procedimento de realização de higiene intima eficaz;

 Realizar exame físico do órgão genital e avaliar as condições de higiene periodicamente;

 Sensibilizar o paciente sobre a importância do autoexame e do uso de preservativos. O estudo de revisão realizado por Held-Warmkessel (2012) não descreveu os aspectos metodológicos para a seleção dos artigos utilizados, mas trouxe importantes resultados para a enfermagem, destacando suas ações no cuidado relativo aos sinais e sintomas no pós- operatório, radioterapia e quimioterapia. A atividade educativa do enfermeiro proposta, teve um foco mais amplo do que no estudo anterior, sobretudo no preparo da alta e gestão do autocuidado. Outro resultado importante refere-se aos aspectos psicológicos citados nos artigos, demonstrando que a disfunção e a insatisfação sexual são as principais informações necessárias entre os adoecidos. Porém, revelou que há poucas evidências na área, que demonstrem o impacto da doença no cotidiano do indivíduo com CP.

Held-Warmkessel (2012) afirmou que as demandas do cuidado de enfermagem irão depender da terapêutica e da resposta psicológica do paciente, nos dando alguns indicativos para o cuidado do homem, descritos abaixo:

 Educar o paciente para identificar possíveis causas alérgicas relacionadas ao tratamento quimioterápico;

 Conhecer o histórico do paciente na manifestação de alergias e reações a drogas;  Avaliar possíveis problemas pulmonares e cardiológicos;

 Educar o paciente a identificar possíveis alterações cardíacas e informar a equipe;  Monitorar os sinais vitais do paciente, de 15 em 15 minutos a partir da primeira hora após a instalação do quimioterápico;

 Estar preparado para alguma situação de emergência;  Monitorar o hemograma;

 Educar o paciente para a identificação de algum sinal de infecção e hemorragia;  Avaliar o estado mental do paciente após a administração do quimioterápico;  Avaliar diurese com o objetivo de identificar possível hematúria;

 Educar o paciente a avaliar suas fezes e diurese antes que dê descarga;  Administrar antieméticos sempre que necessário;

 Educar o paciente para preservar suas energias, por meio de técnicas de conservação e seleção de prioridades, com o objetivo de reduzir a fadiga;

 Educar o paciente para o cuidado com o cabelo devido à possibilidade de alopecia;  Apresentar os benefícios e encaminhar (se for aceito pelo indivíduo) o paciente a terapia psicológica e a grupos de autoajuda;

 Facilitar a presença da família no processo saúde-doença.

Não há um protocolo de cuidados de enfermagem para o cuidado e prevenção do CP. O enfermeiro especialista em oncologia tem amplas possibilidades de atenção à saúde dos homens, em nível de prevenção, tratamento e sobrevivência ao câncer, por meio do cuidado e da educação.

Frente ao referido contexto, esta pesquisa busca ampliar o conhecimento sobre a experiência do homem adoecido pelo CP, na perspectiva da construção cultural e de gênero. E para tal proposta, elaboramos as seguintes questões de pesquisa: Qual é o modelo explicativo para a doença e os tratamentos que o homem elabora? Como ele lida com as dificuldades cotidianas? Que práticas de cuidado são realizadas com o corpo? O que o homem com CP pensa sobre o futuro? Como as questões de gênero repercutem na sua vida e no seguimento do tratamento?

Com base nessas questões, pretendo comprovar a tese de que a cultura influencia na forma como os sobreviventes do CP lidam com suas masculinidades.