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2 O SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE E A ATENÇÃO BÁSICA

2.3 A Saúde do Trabalhador no contexto do SUS

No Brasil, a emergência da Saúde do Trabalhador pode ser identificada no início dos anos 80, no contexto da transição democrática (MENDES; DIAS, 1991). Conforme a Lei nº 8.080/1990, o SUS passa a ter competência e atribuição legal sobre o processo saúde-doença relacionado ao trabalho, e essa relação passou a compor o elenco de atribuições da Atenção Básica. A Saúde do Trabalhador (ST) é um conjunto de atividades destinadas à promoção, proteção, recuperação e reabilitação da saúde dos trabalhadores submetidos aos riscos e agravos advindos das condições de trabalho (BRASIL, 1990). No âmbito da AB, e mais especificamente no bojo da ESF, devem ser concentrados esforços no sentido de garantir o acesso a uma atenção qualificada para estabelecer o nexo causal entre o quadro de morbimortalidade verificado na esfera dos processos de trabalho de um determinado território (BRASIL, 2006).

Saúde do Trabalhador configura um campo de saber e de práticas que demandam uma atuação sobre o trabalho e sobre as estruturas e processos que o organizam, a partir do locus dos serviços públicos de saúde. A Saúde Pública orienta programaticamente as ações em Saúde do Trabalhador. Além disso, a ST, enquanto política de Saúde Pública, não focaliza apenas a saúde dos trabalhadores com vínculos formais de trabalho. Ela se ocupa de qualquer tipo de atividade de trabalho, formal e informal, que ofereça riscos à saúde e à segurança dos trabalhadores (CREPOP, 2008). Devido à abrangência de seu campo de ação, a Saúde do Trabalhador apresenta caráter intrasetorial, envolvendo todos os níveis de atenção e esferas de governo do SUS, e intersetorial, abarcando a Previdência Social, Trabalho, Meio Ambiente, Justiça, Educação e demais setores relacionados com as políticas de desenvolvimento,

exigindo uma abordagem interdisciplinar e com a gestão participativa dos trabalhadores (BRASIL, 2006).

Segundo Lourenço e Bertani (2007), com a incorporação da Saúde do Trabalhador pelo SUS, houve o reconhecimento das condições para os eventos agressivos à saúde dos trabalhadores, incluindo a exposição de pessoas à insegurança. A Saúde Pública já presta o atendimento ao trabalhador vítima de doença ou de acidente relacionado ao trabalho, conta com serviços especializados de vigilância sanitária e epidemiológica e caminha para as ações mais integradas na assistência à saúde do trabalhador. Neste sentido, a inclusão das ações relativas aos agravos à saúde dos trabalhadores no contexto do SUS situa o processo de adoecimento no trabalho como uma questão de saúde coletiva, fruto das condições e da organização do trabalho; jamais como resultado de suscetibilidade individual. O campo ampliado da Saúde do Trabalhador no SUS constitui um novo paradigma de atenção à saúde, transcende a abordagem individual curativa tradicional e propõe abordagens interdisciplinares, intersetoriais e de fortalecimento da sociedade rumo a mudanças eficazes para a promoção da saúde de quem trabalha.

Assim, é necessário que a rede de serviços públicos de saúde se qualifique e se estruture para atender as demandas de saúde do trabalhador de forma integral. Nas últimas décadas, várias iniciativas da sociedade brasileira vêm procurando consolidar avanços nas políticas públicas de atenção integral em saúde do trabalhador (LACAZ, 2010). A partir da publicação da Portaria nº 1.679/2002, por exemplo, foi possível a estruturação da Rede Nacional de Atenção Integral à Saúde do Trabalhador (RENAST), que implica em ações na rede de Atenção Básica e no Programa Saúde da Família; na rede de Centros de Referência em Saúde do Trabalhador (CEREST); e em ações na rede assistencial de média e alta complexidade do SUS. O principal objetivo da RENAST é integrar a rede de serviços do SUS voltados à assistência e à vigilância, a fim de desenvolver as ações de saúde do trabalhador, por meio da criação de centros coordenadores de saúde do trabalhador nos estados e regiões, de forma articulada entre o Ministério da Saúde, as Secretarias de Saúde dos Estados, do Distrito Federal e dos municípios (BRASIL, 2005; LEÃO; VASCONCELLOS, 2011).

A implantação do RENAST é uma das iniciativas importantes, sobretudo do Ministério da Saúde, que tem multiplicado centros de atenção à saúde do trabalhador e vem formando profissionais em diversos pontos do país. O CEREST foi criado no intuito de fortalecer as ações relacionadas à saúde dos trabalhadores no país e visa atender as questões relativas à saúde dos trabalhadores, por meio de ações de promoção, prevenção, vigilância, assistência e reabilitação em saúde dos trabalhadores urbanos e rurais, independentemente do

vínculo empregatício e do tipo de inserção no mercado de trabalho (BRASIL, 2005; MINAYO-GOMEZ; LACAZ, 2005). Os CERESTs devem desempenhar a função de suporte técnico, de coordenação de projetos e de educação em saúde para a rede do SUS da sua área de abrangência. A estratégia de implementação de uma rede regionalizada de CERESTs pressupõe que estes não sejam portas de entrada do sistema de Saúde Pública, devendo constituir centros articuladores e organizadores no seu território de abrangência de ações intra e intersetoriais de saúde do trabalhador (CREPOP, 2008).

A institucionalização das ações de Saúde do Trabalhador no âmbito do SUS, em número crescente, representa um avanço, mas ainda tem pouco êxito em relação à proposta inicial quanto à articulação com a rede básica e ao suporte técnico e especializado oferecido pelos CERESTs. Tais falhas no estabelecimento de ações eficazes no campo Saúde do Trabalhador são resultantes das dificuldades culturais, ideológicas e políticas, além das mudanças do mundo do trabalho e a opção do Estado pelo projeto neoliberal de governo, que abrange os efeitos mais nefastos do movimento mundial de reestruturação produtiva, que impactam fortemente na vida e na saúde dos trabalhadores, na informalidade que atuam em condições inseguras, precárias ou simplesmente estão desempregados. Além disso, muitos serviços funcionam com graves problemas estruturais quanto a recursos materiais, profissionais, salariais, dentre outros fatores; e há falta de iniciativas e de articulação dos serviços públicos, especialmente aqueles relacionados aos Ministérios do Trabalho, da Saúde e da Previdência (LACAZ, 2010; LOURENÇO; BERTANI, 2007; MINAYO-GOMEZ; LACAZ, 2005).

Embora tenha sido concebida como rede de informação, vigilância, capacitação, assistência, investigação, pesquisa, controle social, comunicação e educação em saúde do trabalhador, e apesar do aumento de número e avanços do CEREST no Brasil, a RENAST obteve resultados aquém das expectativas iniciais e sua trajetória vem denotando impasses e obstáculos para sua efetiva implementação. A falta de comunicação entre os CERESTs; a tendência dos profissionais dos CEREST estabelecerem estratégias de acolhimento individualizado dos trabalhadores, similar à assistência ambulatorial comum; as poucas articulações intra e intersetoriais e o predomínio da concepção assistencialista em saúde do trabalhador evidenciam o embasamento mecanicista e fragmentado da RENAST. Observa-se um conjunto de serviços de saúde do trabalhador desarticulados, sem efetividade e sem constituir uma rede, sob a perspectiva sistêmica (LEÃO; VASCONCELLOS, 2011).

Em Uberlândia, o CEREST foi inaugurado em setembro de 2005 e representa suporte para ações relacionadas à saúde do trabalhador, como vigilância, cuidados, estabelecimento

de nexo causal, encaminhamentos indicados a cada caso e, ainda, com educação permanente para trabalhadores da saúde que lidam diretamente com o trabalhador adoecido ou em risco de adoecimento. As ações abrangem medidas de prevenção de agravos causados por condições adversas de trabalho em todos os segmentos. Tem como um dos atributos desenvolver indicadores epidemiológicos nesta área, que permitam estabelecer prioridades de ações de intervenção nos ambientes de trabalho, como prevê a legislação brasileira, estadual e municipal (UBERLÂNDIA, 2014b).

De acordo com estudo recente de Almeida, Pereira e Viana (2017), o CEREST Regional de Uberlândia atende também 30 municípios próximos. A equipe contava, inicialmente, com uma fisioterapeuta, um engenheiro do trabalho, um técnico em segurança do trabalho e uma dentista, organizada sob a responsabilidade da Secretaria Municipal de Saúde (SMS). Posteriormente, outros profissionais foram ampliando a composição da equipe, como assistentes sociais, psicólogos, médicos do trabalho. Desde a criação do CEREST, a formação em Saúde do Trabalhador desses profissionais foi sendo construída por meio de esforços individuais e da própria equipe. Atualmente, o CEREST de Uberlândia trabalha em parceria e ações conjuntas com outros órgãos como Ministério Público, Delegacia Regional do Trabalho, sindicatos, Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), instituições de ensino e pesquisa e com as políticas públicas de saúde, com acompanhamento do Conselho Municipal de Saúde representando a sociedade (UBERLÂNDIA, 2014b).

Em articulação com a AB e em parceria com a Universidade Federal de Uberlândia (UFU), têm sido desenvolvidas diversas ações de vigilância, promoção e educação em saúde junto ao Instituto de Psicologia como, por exemplo, cursos de extensão em Saúde do Trabalhador, pesquisas realizadas por acadêmicos e professores da UFU sobre a temática. Tais ações não findam o alcance do CEREST, mas marcam profundamente a história da Saúde do Trabalhador em Uberlândia (ALMEIDA; PEREIRA; VIANA, 2017).

A Vigilância em Saúde do Trabalhador (VISAT), segundo Machado (2005, p. 990), constitui-se na “[...] análise da relação da saúde com o processo de trabalho – contextualizando as situações de risco técnico com as relações de trabalho e com as formas de resistência e desgaste da saúde dos trabalhadores”. Com isso, a VISAT é uma prática voltada, principalmente, para a ‘prevenção’, que na sua concepção, só pode ser executada com a participação dos próprios trabalhadores e de suas organizações sindicais.

Dessa forma, o trabalho da VISAT é feito a partir de diferentes demandas, como: denúncias, pedidos do Ministério Público, notificações de acidentes de trabalho, dentre outras, que geram inspeções realizadas por equipe multidisciplinar, produzindo um Relatório de

Inspeção Sanitária de Vigilância em Saúde do Trabalhador, em que constam inúmeros dados a respeito da empresa, a descrição do ambiente de trabalho, condições sanitárias e de conforto, descrição do processo produtivo e aspectos da organização do trabalho, riscos, irregularidades e dispositivos legais infringidos, providências tomadas, futuras providências (como convocação da empresa para audiência para firmar termo de ajuste de compromisso de adequação das irregularidades, e outros), situação do local, grau de risco e, portanto, os indicativos de intervenção, conforme enfatiza Menezes (2012). Segundo a autora:

O conjunto de ações da VISAT tem como pressuposto a articulação das ações de atenção básica, da atenção especializada e hospitalar, assim como às práticas de programas específicos ou estruturantes como saúde da mulher, saúde da criança e do adolescente, do idoso, saúde mental, redução da violência, programa de saúde da família, dentre outros, além dos demais setores externos à área da saúde, mas de interesse do campo do trabalho como, por exemplo, os setores da previdência, meio ambiente, educação e ministério público1.

Como bem ressaltam Lourenço e Bertani (2007), não se trata apenas de apontar situações intoleráveis, do ponto de vista da saúde, capazes de causar danos físicos e psíquicos, mas de situar no âmbito da exploração do trabalho e das ordens social, econômica e política vigente e, portanto, passíveis de transformação.

Diante dos apontamentos sobre a relação existente entre SUS, Atenção Básica e políticas públicas no campo Saúde do Trabalhador, e considerando que esta pesquisa será realizada com psicólogos da AB do município de Uberlândia-MG, torna-se necessário e importante abordar as especificidades dessa classe de trabalhadores e, para tanto, reservamos o próximo capítulo.

1 Cf. Manual de Normas e Procedimentos Técnicos para a Vigilância da Saúde do Trabalhador