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A Saúde no Sistema Regional (Americano) de Proteção dos Direitos

1.1 A SAUDE COMO FENÔMENO E SUA PREVISÃO COMO DIREITO

1.1.2 A Saúde no Sistema Regional (Americano) de Proteção dos Direitos

Além do Sistema Global de Proteção dos Direitos Humanos, concentrado no âmbito da Organização das Nações Unidas, foram criados sistemas regionais de proteção, de abrangência continental. Existem três importantes sistemas jurídicos de proteção de direitos humanos de caráter regional: o europeu, o americano e o africano. Devido ao recorte de pesquisa proposto neste trabalho, será realizada a abordagem apenas do sistema americano, o qual se concentra na Organização dos Estados Americanos – OEA, criada pela Carta da Organização dos Estados Americanos, possuindo como principais documentos a Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem, de 1948, a Convenção Americana sobre Direitos Humanos – Pacto de São José da Costa Rica, de 1969 e o Protocolo Adicional à Convenção Americana sobre Direitos Humanos em Matéria de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais - Protocolo de San Salvador, de 1988.

A Carta da OEA tratou de instituir a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, órgão que não possui competência judicial, ao passo em que a Convenção Americana sobre Direitos Humanos – Pacto de São José da Costa Rica, instituiu a Corte Interamericana de Direitos Humanos, a qual possui competência judicial para atuar em casos que envolvam os seus Estados-Partes. Entretanto, para se submeter a competência da Corte Interamericana o Estado deve se manifestar acerca da aceitação da cláusula facultativa de sua jurisdição. Desta maneira, um Estado pode ser signatário da Carta da OEA, mas não da Convenção, como também pode ser signatário tanto da Carta como da Convenção, mas não aceitar a jurisdição da Corte Interamericana, mas só da Comissão. O Brasil atualmente é signatário tanto da Carta da OEA, como

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também da Convenção, tendo reconhecido formalmente, no ano de 2002, a jurisdição da Corte.10

1.1.2.1 Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem

A Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem foi aprovada em 1948 na IX Conferência Internacional Americana realizada em Bogotá, tendo a mesma previsto no seu artigo XI o direito à preservação da saúde e ao bem-estar, ao dispor que:

Toda pessoa tem direito a que sua saúde seja resguardada por medidas sanitárias e sociais relativas à alimentação, roupas, habitação e cuidados médicos correspondentes ao nível permitido pelos recursos públicos e os da coletividade. (OEA, 1948)

A Declaração Americana também resguarda o direito à maternidade e à infância, ao dispor em seu artigo VII “que Toda mulher em estado de gravidez ou em época de lactação, assim como toda criança, têm direito à proteção, cuidados e auxílios especiais. ”(OEA, 1948)

Torronteguy (2010) afirma que na Declaração Universal, contemporânea a Declaração Americana, o direito à saúde é apenas indireto. Nesta, diferentemente, a saúde é expressamente reconhecida como um direito de toda pessoa, havendo a referência inclusive a alguns dos principais fatores condicionantes da saúde, como a alimentação e habitação.

Pode-se observar a declaração de direitos a todos os seres humanos no documento americano desde o seu preâmbulo, ao afirmar que os Estados americanos reconheceram em diversas ocasiões que os direitos essenciais do homem não derivam do fato de ser ele cidadão de determinado Estado, mas sim do fato dos direitos terem como base os atributos da pessoa humana.

53 1.1.2.2 Convenção Americana sobre Direitos Humanos – Pacto de São José da Costa Rica

A Convenção Americana sobre Direitos Humanos – Pacto de São José da Costa Rica reproduz a maior parte das declarações de direitos constantes do Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos de 1966, como afirma Comparato (2003), contudo, o Pacto de São José da Costa Rica apresenta novidades em relação aos Pactos de 1966, tendo em vista que a partir de então se aplica o princípio da prevalência dos direitos mais vantajosos para a pessoa humana, ou seja, na vigência simultânea de vários sistemas normativos - o nacional e o internacional - ou na de vários tratados internacionais, em matéria de direitos humanos. Deve ser aplicado aquele que melhor protege o ser humano.

A Convenção Americana sobre Direitos Humanos foi tímida em relação aos direitos sociais, entretanto, previu em seu artigo 5º, §1º que “toda pessoa tem o direito de que se respeite sua integridade física, psíquica e moral”. (OEA, 1969).

Percebe-se que a Convenção Americana sobre Direitos Humanos acautela o direito à saúde neste dispositivo, como também impõe a saúde como limites ao exercício de outros direitos, como por exemplo, a liberdade de religião, a liberdade de pensamento e de expressão, o direito de reunião, a liberdade de associação e o direito de circulação e residência, na medida em que o documento assegura a fruição de tais direitos, entretanto assevera que poderão ser limitados pelas restrições previstas pela lei que sejam necessárias, numa sociedade democrática, no interesse da segurança nacional, da segurança ou da ordem públicas, ou para proteger a saúde ou a moral públicas ou os direitos e liberdades das demais pessoas.

1.1.2.3 Protocolo de San Salvador

A fim de obter a adesão dos Estados Unidos à Convenção Americana sobre Direitos Humanos, a Conferência de São José da Costa Rica decidiu deixar para um Protocolo à parte a declaração de direitos econômicos, sociais e

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culturais, o qual foi aprovado na Conferência Interamericana de San Salvador, em 17 de novembro de 1988 (COMPARATO, 2003).

O Protocolo de San Salvador, logo em seu preâmbulo promove a indissociabilidade dos direitos econômicos, sociais e culturais e a dos direitos civis e políticos, os quais formam um todo com base no reconhecimento da dignidade da pessoa humana. Em seu artigo 10 resguarda o direito à saúde a toda pessoa, conceituando tal direito como o gozo do mais alto nível de bem‑ estar físico, mental e social. Vide o texto do aludido dispositivo ipsis litteris:

Artigo 10 Direito à saúde

1. Toda pessoa tem direito à saúde, entendida como o gozo do mais alto nível de bem‑estar físico, mental e social.

2. A fim de tornar efetivo o direito à saúde, os Estados Partes comprometem‑se a reconhecer a saúde como bem público e, especialmente, a adotar as seguintes medidas para garantir este direito:

a. Atendimento primário de saúde, entendendo‑se como tal a assistência médica essencial colocada ao alcance de todas as pessoas e famílias da comunidade;

b. Extensão dos benefícios dos serviços de saúde a todas as pessoas sujeitas à jurisdição do Estado;

c. Total imunização contra as principais doenças infecciosas; d. Prevenção e tratamento das doenças endêmicas, profissionais e de outra natureza;

e. Educação da população sobre prevenção e tratamento dos problemas da saúde; e

f. Satisfação das necessidades de saúde dos grupos de mais alto risco e que, por sua situação de pobreza, sejam mais vulneráveis.

Desta maneira, percebe-se que o texto do Protocolo de San Salvador tratou a saúde como um bem público, a ser garantida não só por meio da assistência médica, mas também por meio de práticas preventivas, com o saneamento de ambientes, por meio da imunização e educação da população. Além das disposições do artigo 10, o Protocolo trata da saúde em outros dispositivos, como assevera Torronteguy (2010, p. 105),

Além disso, a saúde é reconhecida como um direito com a proibição de trabalho que possa colocar em risco a saúde de menores de dezoito anos, bem como com o direito a segurança e higiene no trabalho. Igualmente, o Protocolo reconhece o

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direito à previdência social, abrangendo direito a atendimento médico e a auxílio em caso de acidente de trabalho ou doença profissional, bem como a licença maternidade. O direito à saúde está implícito ao direito a um meio ambiente sadio e ao direito à alimentação, uma vez que “toda pessoa tem o direito a uma nutrição adequada que assegure a possibilidade de gozar do mais alto nível de desenvolvimento físico, emocional e intelectual. Outrossim, no que concerne ao à proteção das pessoas idosas, os Estados se comprometem a proporcionar-lhes alimentação e assistência médica especializada. Enfim, há a obrigação de promover a inclusão social das pessoas deficientes.

Portanto, o Protocolo de San Salvador tratou de consolidar os direitos econômicos, sociais e culturais no âmbito do sistema americano de proteção dos direitos humanos, inclusive o direito à saúde pública e individual, como um direito de toda a comunidade, independentemente da cidadania. Um direito social à ser prestado por todos os Estados-Partes da OEA, como uma obrigação e não como uma mera faculdade.