Tiago 3.13-18
A. Sa b e d o r i a É o q u e a S a b e d o r i a F a z, 3.13
Essa seção tem somente uma conexão vaga com os versículos precedentes. Tal vez o sábio (v. 13) pode ser comparado à fonte de água doce, não misturada com a amarga (v. 11), ou à árvore cuja natureza é tal que produz “bons frutos” (vv. 12, 17). Mas fundamentalmente, o pensamento do autor tem conexão com os versículos 1- 2a em que apresenta conselhos aos mestres cristãos — ou pretendentes a mestres — na Igreja. O sempre prático Tiago aplica o teste da bondade aos líderes cristãos e mais amplamente a todos que se chamam cristãos. Sêneca disse: “A sabedoria nos
ensina a fazer, bem como a falar”. The New English Bible reflete de forma correta o
significado do versículo 13: “Quem entre vós é sábio ou inteligente? Que o demons tre por sua conduta correta, mediante obras práticas, com modéstia que provém da sabedoria”.
O verdadeiramente sábio e inteligente (epistemon) é aquele que conhece a Deus.
O sábio do Antigo Testamento escreveu: “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria, e a ciência do Santo, a prudência” (Pv 9.10). Este é o significado que Tiago emprega aqui (cf. 1.5). O bom trato é “seu bom procedimento” (NVI). Suas obras seriam os resulta dos específicos ou ações que brotam da sua vida reta. Todas essas ações devem ser reali zadas em mansidão de sabedoria, i.e., com a humildade que é decorrente de ser seme lhante a Cristo.
A Sabedoriade Deus Tiago 3.14-17
B. Sa b e d o r i a C a r n a l, 3.14-16
A transição para o versículo 14 pode ser encontrada na idéia da “mansidão” (v. 13). Aqueles que têm amarga inveja e sentimento faccioso no coração (v. 14) não são humildes. Essa falha indica que eles não têm a sabedoria de Deus da qual brota a mansidão. Essa “inveja amarga e ambição egoísta” (NVI) está em vosso coração — o âmago da pessoa, de onde se originam as ações (cf. Mt 15.19). Tiago diz: Se você encon trar esse tipo de espírito, “não se glorie disso e dessa forma esteja em rebeldia e contrá rio à Verdade” (NT AmpL). O apóstolo pode estar usando a verdade no seu sentido costumeiro. No entanto, em vista do significado específico que ele dá a esse termo em
1.18 e 5.19, ele pode ser entendido como sendo sinônimo da palavra evangelho. Assim
“as pessoas são advertidas contra expressões e ações que contradizem ‘a fé do nosso Senhor Jesus Cristo’” (2.1).1
Essa [...] sabedoria (v. 15) — o espírito errado que Tiago descreve no versículo 14
— não vem do alto. Inveja e ambição egoísta não são os frutos de uma vida cheia de Deus. Há uma progressão decrescente na descrição do apóstolo acerca da origem dessas atitudes. Essa sabedoria é terrena em contraste com a celestial. Ela reflete uma preocu pação com os valores passageiros em vez da preocupação com as coisas de Deus (cf. Jo
8.23; Fp 3.19). Esse espírito é animal. A KJV traz “sensual” e a ASV traz “natural” na
margem. “O grego é psychikos, que descreve o homem como ele é em Adão (i.e., ‘natural’)
em contraste compneumatikos (‘espiritual’)”.2 O termo é, às vezes, entendido como quase
equivalente a “carnal” ou “mundano”.3 Tiago alcança o grau máximo na descrição das
atitudes más de egoísmo e discórdia quando as chama de diabólica[s] (daimoniodes),
i.e., procedendo de Satanás e assemelhando-se ao espírito de demônios.
Paulo declara que “Deus não é Deus de confusão” (1 Co 14.33). Tiago confirma essa verdade ao destacar que onde as forças satânicas estão agindo, aí há perturbação (v.
16). Inveja e espírito faccioso confundem o homem que os abriga, até que não conse
gue mais pensar claramente, nem agir com inteligência. Esses dois males também cor rompem e confundem todos os relacionamentos, as atitudes e ações dos homens. Phillips traduz esse versículo da seguinte maneira: “Porque onde você encontrar inveja e rivali dade, também encontrará desarmonia e todo tipo de mal”.
C . S a b e d o r i a d o A l t o, 3.17,18
Tiago agora retorna à descrição da sabedoria que ele recomenda aos seus leitores no versículo 13. A sabedoria que vem do alto (v. 17) é uma expressão encontrada nos escritos rabínicos, mas Tiago a adotou e acrescentou sua própria interpretação a ela. Ela é mais uma palavra para a vida com Deus na alma do homem. Adam Clarke a chama de “a religião pura do Senhor Jesus, comprada com o seu sangue e inspirada pelo seu Espírito”.4
Os oito elementos da sabedoria enumeradas no versículo 17 podem ser comparados aos nove aspectos do fruto do Espírito (G1 5.22-23). Tiago cita a pureza em primeiro lugar, provavelmente porque o dom vem do santo Deus. Tal sabedoria é pura, “não mis turada com o mal”. Essa pureza divina (cf. 1 Pe 1.22) é, às vezes, entendida como o
Tiago 3.17,18 A Sabedoriade Deus
equivalente da sinceridade, que excluiria toda inconstância, todo coração dividido (1.8; 4.8) e os olhos maus (Mt 6.22).5 Como resultado dessa purificação, a natureza do homem torna-se semelhante à natureza de Deus, da mesma forma com que o finito se assemelhe ao infinito. Pacífica olha para o lado de dentro da vida cheia do Espírito; ela descreve o estado mental do cristão, enquanto os traços característicos que se seguem descrevem o que os de fora podem observar.
A primeira dessas manifestações da sabedoria é moderada (“amável”, NVI). Não se trata tanto de ternura e sim de um espírito de integridade e imparcialidade contrastan do com a irracionalidade. Tratável é uma virtude intimamente ligada à moderação; é estar aberto para a persuasão e, conseqüentemente, pronto para ser guiado. No entanto, alguns vêem nessa manifestação um aspecto muito mais positivo, descrevendo o homem que consegue as coisas por meio da bondade. A pessoa de Deus genuína é cheia de
misericórdia e de bons frutos (v. 17) em contraste com “toda obra perversa” (v. 16)
que vem da sabedoria carnal.
Os últimos dois aspectos são negativos em forma. O termo traduzido sem parciali
dade (adiakritos) não ocorre em nenhum outro lugar do Novo Testamento. Ele significa “sem ambigüidade” (Moffatt), “sem incerteza” (NVI), “franco” (NEB), “imparcial” (ARA). Em nosso relacionamento com os outros precisamos ser sinceros, sem uma alusão de desonestidade e sem o encobrimento de fatos. Esse aspecto é parecido ao significado da próxima declaração de Tiago, de que o povo de Deus deve ser sem hipocrisia.
No versículo 18, o autor promete uma bênção final àqueles que servem a Deus e à sua causa sem egoísmo e sentimento faccioso. A linguagem é difícil e a tradução varia, mas Moffatt apresenta uma interpretação exata e clara: “Os pacificadores que semeiam em paz colherão a justiça”. Justiça é o fruto da semente que semeia-se na paz. O espírito do nosso testemunho cristão é quase tão importante para o progresso do Reino quanto a verdade que proclamamos. O autor aqui ecoa o ensinamento do nosso Senhor quando Ele disse: “Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus” (Mt 5.9).