• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO III – APRECIAÇÃO DO CONTRIBUTO DA OBRA DE FRANÇOISE MIES

3.1. A mudança de paradigma

3.1.2. A sabedoria do Justo

O cerne do livro de Job é a sabedoria, que responde às questões do envolvimento de Deus com o problema do sofrimento humano. Em Jb 28, acentua-se o sentido da sabedoria: Job, após ter reclamado a sua inocência e ter lançado a Deus o seu último desafio, verá, por seu turno, contestado o seu poder e a sua esperança208. A sabedoria tem a ver com o temor do Senhor, a veneração e a reverência diante de Deus. De facto, a sabedoria é dom de Deus. No

206

Há que fazer notar que a figura de Job é uma construção teórica, que nunca existiu fora da teoria que é, mas que Cristo é uma realidade histórica: à partida e em abstrato, de Job, pode narrar-se o que se quiser; de Cristo, há que respeitar o que a incarnação implica. Job, teórico, nunca esteve afastado de Deus, mesmo o afastamento de Deus relativamente a Job é ilusório (se bem que Job o não saiba); Cristo, de carne, ouviu na sua carne o silêncio total de Deus e sofreu o afastamento real que tal silêncio significou. Mas é o preço da grandeza humana: a soli- dão decisiva (cf. A. PEREIRA, A crise do bem reflexão sobre Job e o sofrimento, 120-121).

207

Cf. J. DUPLACY, Esperança in vocabulário de teologia bíblica, trad. Frei Simão Voigt, Petrópolis, Editora Vozes, 2002, 290; P. LAMELAS, “O homem que falou bem de Deus. Job na tradição patrística”, 154-155.

208

entanto, só Deus conhece o lugar da sabedoria, visto que a sabedoria reflete a experiência num horizonte de uma relação com Deus: o homem que procura e fala a Deus 209. Efetivamente, a sabedoria é a possibilidade de oferecer alguma resposta ou alguma paz para as inquietações (Jb 20; 28; 1 Rs 3, 7-12; Pr 8, 22-31; Sb 9, 1-18; Sir 1, 6; Br 3, 9; 4, 4)210. A sabedoria é algo que nos transcende, encarna o mistério dos caminhos de Deus, é personificada211.

Em Jb 28, o autor reconhece que o homem faz coisas fantásticas, sendo a primeira parte do poema um elogio da inteligência do homem. Contudo, mesmo diante desta sabedoria, sub- siste a questão sobre o lugar onde está a sabedoria: o homem faz muitas coisas, mas não conhece a sabedoria. Jb 28, 23 afirma que a questão é deslindada ao afirmar-se que só Deus conhece o caminho da sabedoria: Deus viu-a na criação e é o próprio Deus que a oferece ao homem, isto é, o homem não conhece a sabedoria, mas tem acesso a ela pelo temor de Deus. Assim sendo, Deus é o único que conhece o caminho e o lugar da sabedoria. É exatamente nesta perspetiva que se percebe o livro de Job: Job quer perceber a sua situação e para isso quer saber tanto quanto Deus, tal como Adão e Eva; neste sentido, Jb 28 é a resposta às inter- rogações de Job: por muito que Job queira respostas, a sabedoria só é conhecida por Deus. Neste poema, o verbo “conhecer” tem uma centralidade muito grande. Por isso, podemos dizer que Jb 28 surge da tensão da reflexão sapiencial presente no livro dos Provérbios com a realidade de Job: deste modo, os sábios fazem a experiência da sabedoria.

Por isso, a sabedoria do justo é a relação do homem com Deus. Esta relação requer a fidelidade a um laço interpessoal, diversificado segundo as circunstâncias da vida. Deus é justo para com o homem, não porque Ele se curve perante normas, mas porque permanece constante na relação que pretendeu estabelecer com o seu povo e com todo o crente. A justiça de Deus tem como finalidade a salvação, visto que Deus se mostra justo para com o homem,

209

Cf. CLEMENTE ALEXANDRINO, Strom. VIII, 12, 80, Ed. Bilingue preparada por Marcelo Merino Rodrí- guez, Vol. VIII, 12, 80, Editorial Cuidad Nueva, Madrid, 1996, 6-7.

210

Cf. BIBLIA SAGRADA, Livro de Job: Jb 20, 28.

211

que pode viver como justo diante de Deus, isto é, corresponder ao que Deus da aliança dele espera. Portanto, a justiça do homem é sempre uma justiça-resposta: viver como justo é, para o homem, ajustar-se a Deus. O drama, tal como Job o sente, é que Eloah quebrou a sua justi- ça. Consequentemente qualquer justiça-resposta se torna impossível. Como reatar os laços com Eloah, quando foi ele os rompeu212?

«Para aceitar deste modo o mistério de Deus na sua vida, Job deve desprender-se da sua própria sabedoria e deixar de ver no homem a norma última do mundo e da história. Renuncian- do a este excesso secreto, mais pecaminoso do que qualquer outro pecado, e do qual acabou de tomar consciência à luz da teofania; Job começa a reconstruir a sua verdade, e no ato da sua cura descobre aquilo em que deve ser curado. Perdendo-se, ele encontra-se segundo Deus»213.

Em suma, a sabedoria do sábio é viver a felicidade que o leva a voltar-se para Deus. Esta felicidade permite-lhe sofrer, para depois esperar Alguém que lhe dê a verdadeira felici- dade para contemplar a face de Deus. Em Jb 29, 18-20; 30, 26 seria normal esperar a felicida- de quando se vivia justamente214. Assim como a esperança é algo que vem de Deus, assim também a felicidade vem de Deus como resposta à conversão. Portanto, a verdadeira felicida- de tem a ver com esperar em Deus com um coração pobre215. A felicidade do justo consiste na abundância dos bens (Jb 29, 6; 20, 17), no respeito dos concidadãos (Jb 19, 8-11), na solida- riedade para com os pobres e desprotegidos (Jb 29, 12; 6, 16; Sl 72, 12), na esperança do futu- ro risonho (Jb 29, 18-20) e na importância do papel que Job desempenhava (Jb 29, 21-25). Por isso, a sabedoria de Job consiste em mostrar-nos que não há respostas teóricas cabais para as grandes perguntas da humanidade. As respostas são vislumbradas na vida de Job e na expe- riência de cada homem que sabe que não se encontra em condições de pedir contas, mas cai na conta da sua finitude orante216.

212

J. LEVEQUE, Job et son Dieu. Essai d’exégèse et de théologie biblique, 172-178.

213

J. LEVEQUE, Job: Le livre et le message, 64.

214

Cf. J. LEVEQUE, Job: Le livre et le message, 16.

215

Cf. J. LEVEQUE, Job: Le livre et le message, 18.

216