3 A SAI – Produção açucareira em Moçambique e os interesses
3.3 A SAI e o Poder
3.3.5 A SAI na correspondência de Salazar
Não existe na correspondência oficial de Salazar qualquer menção específica à SAI. Uma pretensão da IEL, apresentada em 1936, motivou o envio de uma comunicação por parte do Ministério das Colónias, à semelhança do que aconteceu relativamente a questões relacionadas com a actividade de várias outras companhias moçambicanas – Companhia do Niassa, Companhia de Moçambique, Sociedade Agrícola-Industrial Monteiro de Barros, Companhia Agrícola do Mucojo, Companhia de Petróleo de Moçambique, Sociedade
Moatize, Companhia do Porto da Beira e Societé Minière et Geologique du Zambeze.410 Os
assuntos relativos à SSE, por seu lado, foram muitas vezes abordados e a respectiva
documentação encontra-se compilada em 3 caixas.411
Ricardo Espírito Santo correspondeu-se com Salazar durante vários anos tendo sido raras as referências aos negócios. A SACOR, certamente porque o Estado detinha um terço do capital,
foi motivo para três cartas entre Agosto de 1949 e Junho de 1950.412 Uma única vez Ricardo
Espírito Santo abordou questões relacionadas com a produção de açúcar. Sem quaisquer comentários, enviou a Salazar as conclusões da reunião, por si presidida, do Grémio dos Produtores de Açúcar Colonial onde, por solicitação do Ministério da Economia, foi debatida a política açucareira. Anexou as conclusões autónomas da SSE sobre o tema por esta última não se ter feito representar na reunião do Grémio.413
Supico Pinto tinha com Salazar uma relação de proximidade, foi seu Ministro da Economia entre 1944 e 1947 e, depois de ter cessado funções, escreveu a Salazar dando-lhe conhecimento de que tinha aceite o convite para integrar a administração da moçambicana Sagal – Sociedade Agrícola Algodoeira, feito pelo seu maior accionista. Quando, poucos meses depois, Manuel Espírito Santo o convidou, em nome de todos os administradores, para o Conselho de Administração da seguradora Bonança, informou Salazar não deixando de esclarecer que a posição acionista da família Espírito Santo na Bonança era suficientemente forte para poderem sugerir um nome que, nas circunstâncias do momento, deveria ocupar a presidência do Grémio das Seguradoras. Dias depois, manteve Salazar ao corrente da decisão de recusar o convite e adiar para uma oportunidade futura a possibilidade de integrar os corpos sociais da seguradora.
410 PT/TT/AOS/D-N/18, in Arquivo Nacional da Torre do Tombo - Arquivo Oliveira Salazar 411 PT/TT/AOS/D-N/22, in Arquivo Nacional da Torre do Tombo - Arquivo Oliveira Salazar
412 Cartas de Ricardo Espírito Santo para Salazar, 28/8/1949, 10/4/1950 e 19/6/1950, in Arquivo Oliveira Salazar,
cota AOS CP-257
Durante anos, as cartas que dirigiu a Salazar referiram-se, principal, mas não exclusivamente, a questões relacionadas com a Câmara Corporativa, para onde foi designado em 1950 e eleito presidente em 1957. O açúcar e a SAI também foram tratados.
No início da década de 1960, o Ministro da Economia Ferreira Dias promoveu a formação de uma Comissão para avaliar a possibilidade de o consumo de açúcar em Portugal passar a ser partilhado entre a produção ultramarina e o açúcar de beterraba, situação que alteraria radicalmente o paradigma do regime açucareiro vigente nas últimas décadas. As empresas produtoras enviaram, a título particular, uma exposição ao Ministro do Ultramar que se comprometeu a estudar o assunto. Quando tomou conhecimento da posição das açucareiras, desagradado, o Ministro da Economia pediu ao seu colega do Ultramar que usasse a sua influência para convencer os produtores ultramarinos da bondade da alteração proposta. Supico Pinto escreveu a Salazar pedindo-lhe uma audiência para falar sobre o assunto desde logo adiantando que lamentava que a Comissão não contasse com nenhum representante do Ministério das Finanças, responsável último pela administração do regime açucareiro. Segundo defendia, a Comissão deveria debruçar-se sobre as medidas necessárias para intensificar a produção de açúcar ultramarino e assegurar, dessa forma, as necessidades de consumo futuras. Sem querer questionar a política do governo sentia-se obrigado a transmitir a inquietação com que no ultramar tinham sido recebidas as notícias vindas a lume – uma tão radical mudança de política era, talvez, ditada pelo facto de a metrópole não acreditar na sobrevivência de Portugal em África, necessitando, desde logo, de lançar as bases para uma nova estrutura de produção que garantisse o seu abastecimento futuro. Foi mais longe perguntando se não seria vantajoso esperar até que o norte de Angola estivesse pacificado pois, sendo o regime açucareiro válido até 1967, outro qualquer só poderia entrar em vigor em 1968.
A mudança de política representaria perdas de oportunidade para criar novas empresas com o consequente impacto negativo sobre a política de fixação de colonos europeus.
O problema, segundo argumentava, transcendia o Ministério da Economia que não podia, por si só, aprovar uma orientação que obrigasse o sector. Caso o governo partilhasse as ideias de Ferreira Dias, então, as empresas ver-se-iam forçadas a adoptar a posição que melhor as defendesse, conciliando os desejos do governo e as suas conveniências particulares.414
414 Cartas de Supico Pinto para Salazar, 25/11/1960, 9/2/1961 e 7/7/1961, in Arquivo Oliveira Salazar, cota AOS
A produção de açúcar de beterraba continuou proibida em Portugal metropolitano.
Se, na situação acabada de descrever, Supico Pinto usou a sua influência junto de Salazar para defender os interesses não só da SAI como das restantes produtoras coloniais de açúcar, também não teve qualquer hesitação em denunciar uma concorrente. Em 1967, a Maragra informou o Grémio dos Produtores de Açúcar do Ultramar que não tinha condições para cumprir com a quota de açúcar que estava obrigada a enviar para o continente – tratando-se da sua primeira campanha tinha um carácter experimental cujos resultados tinham sido afectados pelas cheias ocorridas. Salientando algumas inconsistências nas datas das comunicações da nova açucareira, Supico Pinto revelou que a sua concorrente tinha optado por comprar, no estrangeiro, matéria prima a muito baixo preço, para posteriormente a transformar e vender ao preço oficial do açúcar ultramarino obtendo avultados lucros. Rematava a denúncia chamando a atenção para o facto desta operação, embora lucrativa, não ser permitida pelo regime açucareiro em vigor.415
Não se encontraram evidências de que a Maragra Marracunene tenha sofrido alguma penalização.