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3 - EÇA E OS CRISTOS

3.4 A santidade expressa na última fase

Decerto, então, servir aos homens no mundo, seria mais apreciável no céu do que servir a Jesus na solidão... (Santo Onofre, p. 231-232)

A partir de 1890, o tema religioso que, sem dúvidas, irá ocupar a imaginação de Eça, além, é claro, de Jesus Cristo, será a santidade. É essa problemática que estará sendo veiculada insistentemente em obras como as Vidas dos santos e em outros contos e crônicas nos quais elementos concernentes à esfera da religião estão presentes.

Para Jaime CORTESÃO (1949, p. 118), a temática idealista acerca das vidas dos santos já era um projeto de Eça muito antes do que se poderia pensar. De fato, já em 1884, em carta a Oliveira Martins, Eça revelava: “por probidade de artista eu tenho uma idéia de me limitar a escrever contos para crianças e vidas de grandes santos” (QUEIRÓS, 1967, p. 65).

Porém, como sabemos, é somente a partir de 1890 que as primeiras hagiografias começaram a ser desenvolvidas e a opção não foi feita pelas “vidas de grandes santos”, mas o interesse do escritor pairou exatamente sobre santos desconhecidos, cujas vidas são pouco ou nada notórias na galeria dos famosos santos católicos, mas que, todavia, estão inscritos no devocionário popular. Essa opção pelos santos desconhecidos também proporcionou mais liberdade para o autor criar suas histórias, além do que, nos remete à incessante preferência de Eça por temas da religiosidade popular, já referida.

Jaime Batalha Reis, no final da introdução das Prosas bárbaras, expõe a seguinte confissão que Eça teria feito em um dia de verão de 1891 em uma clareira da floresta de Saint - Cloud, perto de Paris:

- Saberás, porventura com satisfação, que estou seguindo o teu antigo conselho:

Enevoei-me outra vez, totalmente, ao fantástico da “G azeta de Portugal” , feito agora com menos “abutres” e em “prosa menos bárbara” que a desses longínquos tempos (PB , p. 52).

Notemos que a citação acima, retirada de uma afirmação que teria sido feita pelo próprio escritor, é exemplar para notarmos que a temática religiosa expressa nas obras queirosianas não deve ser analisada como sinal de ruptura ou mudança, mas sim de permanência com oscilações, inseridas na dialética temática presente nos escritos do autor, como vimos defendendo. O fato de enevoar-se outra vez no fantástico não quer dizer que ele tenha suplantado de uma vez por todas os escritos primeiros, mas, simplesmente, tenha

procurado um tom mais realista, por assim dizer, e agora nos idos de 1890, tenha decidido expressar novamente sua crítica sempre permanente sob os auspícios da fantasia.

Lembremos que é justamente nesse contexto que o escritor também expressava seus questionamentos sobre o positivismo e o idealismo. É durante o início da década de 90, como o próprio Eça afirma, que ele começa a desenvolver as vidas dos santos inspirado provavelmente pela leitura de hagiografias, segundo o que podemos depreender de um trecho da carta enviada a Eduardo Prado em 29 de Maio de 1892: “e à noite leio genealogias e hagiológicos” (QUEIRÓS, 1967, p. 258).

Ainda segundo Batalha Reis, Eça teria afirmado na conversa que tiveram em Saint- Cloud, que já estaria escrevendo a Vida de São Frei Gil. Jaime Cortesão, em sua pesquisa sobre a Vida dos santos, propõe que a escrita de São Frei Gil e Santo Onofre foi realizada entre 1891 e 1893. A vida de São Cristóvão54, por ter sido escrita mais lentamente, provavelmente fora desenvolvida entre 1894 e, mais tardar 1897 (cf. CORTESÃO, 1949, p.

119).

As datas propostas por Cortesão, mesmo sendo imprecisas, são as que até hoje figuram como mais procedentes, embora algumas críticas afirmem outras que acabam sendo muito próximas das defendidas pelo autor. Jaime Cortesão propõe que a publicação das vidas de Gil, Onofre e Cristóvão somente não teria acontecido porque Eça acreditava não tê-las concluído (cf. CORTESÃO, 1949, p. 124). De fato, a publicação somente se deu no volume póstumo coligido por Luís de Magalhães em 1912, intitulado Últimas páginas, de onde as conhecemos hoje.

O primeiro santo que teve sua vida relatada por Eça foi São Frei Gil55, contudo, o escritor não chegou a concluir a história, deixando apenas o manuscrito inicial e o plano de trabalho da obra que aponta para a conclusão do texto.

54 A partir daqui utilizaremos as seguintes siglas para as obras nas referências de citações: São fre i Gil (SFG), Santo Onofre (SO) e São Cristóvão (SC).

55 Segundo BERARDINELLI (2002, p. 243-244) São Frei Gil será o santo de Eça, do qual mais reminiscências históricas concretas podem-se encontrar. Para a autora, Eça inspirou-se na história de Gil Rodrigues de Valadares que nasceu em 1185 em Coimbra e morreu em 1265 em Santarém. Gil de Valadares estudou filosofia e teologia em Portugal e medicina em Paris. De acordo com a história portuguesa, o santo chegou a firmar um pacto com o demônio, mas, depois de duas visões, converteu-se ao Cristianismo, tornando-se frei dominicano.

D e fato, como poderemos notar, o Gil de Eça terá características do Gil histórico e, mesmo com a ficção inconclusa e com um plano de trabalho não muito linear, Eça aproveitou o tem a histórico para desenvolver o seu

“curioso” S. Frei Gil. Mister mencionar aqui que em 1904 Teófilo Braga também escreveria o seu S. Frei Gil de Santarém.

No pouco que temos da vida de Gil, podemos detectar elementos que estarão presentes não somente nas outras Vidas, mas também em todas as outras obras de Eça, das quais faz parte a temática religiosa. O ideal de santidade talvez poderia ser um exemplo disso.

Gil pertencia a uma família de senhores feudais muito religiosa. Seus pais são ilustrados como pessoas tementes a Deus e que tudo relegam à Providência divina, creditando ao Todo-Poderoso o seu reino e vivendo em uma atmosfera de sossego e paz.

A única agitação na ambientação inicial se dá somente na ocasião do nascimento do herdeiro. Cercado por alguns acontecimentos sobrenaturais, como os que acontecem no batizado e quando dá os primeiros passos, Gil possui elementos divinizantes desde o nascimento. Assim como acontecerá com Cristóvão, a natureza também o reverenciava. Ele cresce demonstrando uma personalidade sábia, caracterizando-se ora como curioso, ora como insatisfeito com a realidade que o cerca, ao que Frei Múnio, o abade do local, pressagia:

“Neste menino há maravilha (...) admiravelmente sensível e bom (...) Frei Múnio antes via nele os prenúncios de uma caridade que ilustraria a Igreja” (SFG, p. 292; 294).

A curiosidade irá configurar-se como grande motivo na vida de Gil. Ainda criança, sua descrição aponta para um intenso desejo de tudo conhecer, a começar pela “velha morada senhorial”, onde não havia “recanto que ele não tivesse rebuscado, no impulso irresistível de tudo saber” (SFG, p. 292). Além das descobertas práticas, Gil cresce descobrindo também um mundo ficcional advindo das histórias dos in-fólios do perspicaz Frei Múnio, seu alfabetizador.

Passada a fase da primeira infância, Gil, com oito anos, começa a aprender as primeiras letras, sempre desejando não somente acumular conhecimentos como também aprofundar suas descobertas, demonstrando uma “curiosidade temerária que tudo queira compreender, até a ordem da natureza” (SFG, p. 297). Ao contrário de Cristóvão, Gil não desenvolverá aversão à Igreja e à instituição religiosa de um modo geral, parece-nos que a crítica da narrativa está direcionada para outros fatores, como logo veremos. Por outro lado, muitas são as semelhanças que Gil tem com o último santo composto por Eça, principalmente no amor pela natureza e a referência que esta presta a ele.

A narração do incessante desejo de conhecer do protagonista, durante a infância e juventude, é interrompida apenas para o relato do episódio em que o jovem conhece a pobre pastora Solena, personagem que terá papel fundamental para o desenvolvimento de dois

pontos interessantes na personalidade de Gil. O primeiro, o sentimento da paixão e o segundo, o despertar da doação de Gil em favor dos fracos e oprimidos.

O amor de Solena e Gil é puro e romântico, mas, inusitadamente, ele é interrompido pelo desaparecimento misterioso da pastora. Gil, junto com cavaleiros de sua corte, sai em busca da amada sem sucesso. O fato de não encontrar Solena suscita no santo o desejo de tornar-se um “forte e destro cavaleiro” que lutasse pelos desamparados. A confirmação do desejo aconteceu depois de um visão em que Gil, após ver Solena em uma torre enclausurada,

“Vira Jesus Nosso Senhor, de repente, que sorrindo, lhe oferecia uma espada, mais clara que um diamante” (SFG, p. 315)

Embora muito rapidamente desista desse intento para, por mais um tempo, se dedicar aos estudos, esse episódio será interessante para notarmos o ideal de santidade de Gil que se aglutinará com o de Onofre e de Cristóvão, configurando o ideal de santidade de Eça, por assim dizer, qual seja, o da doação pelos mais necessitados e marginalizados e a decisão de lutar pelos oprimidos e uma sociedade mais justa.

A quietude do reino de Gomfalim faz Gil concluir que o local não comportaria as práticas justiceiras de um cavaleiro andante, porém, o desejo de dedicar-se aos mais necessitados continua, a partir desse episódio, como característica marcante do santo. Prova disso será a nova atividade a que Gil pretende se dedicar. Ao aproximar-se de Mestre Porcalho, velho conhecedor das práticas naturais que faz as vezes de médico do reino, Gil ficara “devorado” pelo conhecimento físico do homem, pois, “Nenhum poder humano lhe parecia mais alto do que aquele que suprime as dores, luta com a influência do invisível e vence a morte” (SFG, p. 321).

Impulsionado pela imensa curiosidade, Gil interessa-se em adquirir os conhecimentos de Porcalho, em dedicar-se ao estudo da medicina com um objetivo meritório, deseja colocar os conhecimentos aprendidos a serviço dos outros: “Se era belo e grande tomar armas e ir pelo mundo livrar os homens dos males que os homens lhes fazem, quanto maior e mais belo libertar o pobre corpo dos males infinitos que lhe faz a natureza!” (SFG, p. 321)

É também durante esta etapa que o interesse pelos homens começa a exceder os habitantes da sossegada Gonfalim para dirigir-se para os homens de todo o mundo, tal qual irá acontecer com Onofre e Cristóvão que também desejam “ajudar a todos”, como veremos.

Por outro lado, o leitor começa a perceber que Gil tem alguns atitudes que poderiam estar voltadas para uma espécie de miséria humana, que tal qual Onofre, irá acompanhá-lo em

sua caminhada de santidade. Como vimos notando, a curiosidade é a marca registrada de Gil e, por vezes, ela toma contornos de uma ambição desmedida que vai além de um simples desejo de conhecimento para o bem comum.

A partir da vontade de estudar medicina podemos perceber isso sobremaneira, ao mesmo tempo que o santo tem os objetivos louváveis de partilhar o seu saber, ele começa a revelar que a sua “fome” de saber também está ligada a uma satisfação própria e egoísta. O conhecimento físico e biológico do homem adquirido com Mestre Porcalho, levam-o a querer conhecer mais de tudo e todos, inclusive desvendar os mistérios de Deus:

Do homem, de quem o velho Físico lhe explicara os ossos, ele bem depressa quis conhecer a alma, e as leis múltiplas e maravilhosas que as regem... (...) E do homem, a sua curiosidade ascendia ao Deus que o criara. Qual era a sua essência, onde habitava, que cuidado tinha ele pela humanidade que criara? - E assim, este moço gentil, a quem a barba mal nascera, aspirava a percorrer todas as Ciências, a compreender todo o Ser (SFG, p. 325)

Na parte da história de Gil contida no manuscrito deixado por Eça, Deus não será percebido como verdade absoluta e inquestionável, como poderíamos esperar de um santo, pelo contrário, paira como uma inquietação, como algo a ser compreendido tal qual o homem, sua criação.

Neste ponto temos um outro elemento que corrobora a tensão dos escritos queirosianos com relação à figura do Todo Poderoso, mesmo os homens santos de Eça parecem destinar interpelações a Deus, questionando sobre a sua existência tal qual o discurso das Prosas bárbaras e a narração do irônico Teodorico. Será assim também com Santo Onofre e com São Cristóvão, como veremos. Essas inquietações e dúvidas cm relação a Deus, de um modo geral, poderiam ser circunscritas nas diversas inquietações do homem no final do século XIX, as mesmas inquietações transparecidas por Eça no texto “Positivismo e idealismo” e que já se faziam presentes nas ficções do escritor desde as Prosas.

O desejo de conhecer os mistérios da medicina começou a despertar em Gil a necessidade de sair do reino de Gonfalim em busca de novos lugares onde pudesse aprimorar seu conhecimento, pois o saber adquirido ali tinha chegado ao limite. A biblioteca dos beneditinos já não era suficiente com seus trinta e três livros já lidos, os mestres com os quais convivera também já não podiam contribuir para seu crescimento. Toda a impossibilidade de saciar o saber gera em Gil uma angústia que se estabelece por ele querer conhecer tudo,

colocar esse conhecimento em favor do próximo e estar impedido de “crescer” mais intelectualmente:

E o seu espírito recaía naquela ambição vaga que o torturava, a ambição de tudo saber, de se elevar, pela posse dessa ciência, acima dos homens, e exercer essa supremacia toda em favor e bem dos homens. Quereria ter um saber que lhe permitisse fazer as leis mais justas, curar todos os males do corpo, enriquecer as multidões, estabelecer a paz entre os Estados, e guiar os seres vivos pela larga estrada do céu. Para tal fim, só para ele valeria a pena viver. E, para o conseguir, não haveria trabalho a que não se sujeitasse, fadiga que não afrontasse (...) Mas esta ambição, como realizar? Onde, como adquirir esse saber benéfico? E quando o tivesse adquirido, de que modo fazer que ele aproveitasse aos homens, para se tornarem melhores, e serem aliviados dos males da vida? (SFG, p. 327)

Como transparece na citação, o desejo de crescer intelectualmente configura-se na vida de Gil como uma ambição. De fato, no ideal percebemos muitos elementos cristãos, seu anseio parece ser movido por isso. Gil, como primeiro santo, demonstra também primeiramente a mensagem da santidade queirosiana, entendida como ação e não contemplação, que será veiculada nas outras vidas de santos, nas crônicas e que já havia sido questionada na posição espiritualista do Cristo que gerou a frustração em Eliziel.

Diante desses questionamentos, Gil decide sair de Gonfalim em busca da ampliação de conhecimentos. Após esse ponto da narrativa os acontecimentos que se sucedem começam a ficar circunscritos ao campo da suposição, pois é a partir daqui que a personagem do diabo começa a figurar na narrativa, confundindo o leitor sobre os rumos da história de Gil.

Bem ao gosto medieval, Satanás aparece personalizado em pessoas que a narrativa sugere ser Satanás através de certas características pelas quais Lúcifer foi desde sempre conhecido. A primeira aparição se dá em uma montanha, quando Gil reflete sobre ir ou não em busca de novas terras para estudar. Um jovem muito pobre aparece ao santo e, coincidentemente, possui o mesmo desejo de ir em busca de novas terras para estudar. Seus discursos versam sobre as dificuldades que limitavam sua viagem, mas que o não fizeram desistir de seu sonho. Gil sente-se impulsionado a viajar depois da conversa, pois, diferentemente do rapaz, ele tinha tudo e não teria tantas dificuldades na viagem. O jovem fora para ele um exemplo.

O leitor somente percebe que há algo de errado com o jovem quando a narração trata da despedida dos dois: “A meio da encosta [o jovem] ainda se voltou, acenou com a mão a Gil - e subitamente desapareceu. No chão, em que os seus pés se tinham pousado, a erva secara toda” (SFG, p. 333). Em outra passagem, já quando Gil viaja em busca do seu ideal de ampliar conhecimentos, depois de uma longa caminhada, estafante, ele e seu escudeiro Pero Malho encontram uma floresta, uma espécie de oásis, onde podem descansar e se alimentar.

Neste ermo eles deparam-se com duas inusitadas figuras, um certo Harbrico e o seu amo Senhor de Astorga, os quais, pelas descrições, não fica difícil ao leitor saber quem sejam. Os detalhes são percebidos pelo companheiro de Gil, Pero Malho:

[Pero malho] considerava o Senhor de Astorga com assombro e desconfiança (...) Com os dedos gordos, que findavam em unhas muito agudas e curvas (...) Era sobretudo aquele tufo de cabelo erguido na testa, como uma crista flamante, que o inquietava. E que alforge era aquele que continha, na sua estreita bolsa, bacias de prata, bragais de linho fino, toda a hucharia de uma mesa real, e tapizes de rico samite? E onde houvera mais coruscante olhar, negro como fendas do inferno, do que aquele do estranho Harbrico? O bom Pero coçava o queixo, com um desejo, que o invadia, de gritar de repente, por sobre o fidalgo, o escudeiro e os alforges, o nome afugentador de Jesus, M aria e José. (SFG, p. 345 - 346)

A história de Gil termina inconclusa depois do encontro com esses seres, mais exatamente após o santo adormecer tão logo come o banquete previamente e luxuosamente ofertado pelo Senhor de Astorga, sonhar com uma luxuriosa mulher e acordar pronto para retornar à viagem56.

Dissemos que a compreensão da história do santo entra no campo da suposição após a decisão da viagem de Gil e o concomitante aparecimento da figura do diabo, além, é claro, pelo repentino fim do manuscrito. Essas suposições poderiam ser de dois sentidos. O primeiro, de que Gil de fato tomara uma decisão que muito mais favorecia seu orgulho que propriamente a coletividade a quem ele almejava servir, fazendo com que o diabo se

56 Segundo Jaime Batalha REIS (1945, p. 53), Eça teria dito na mesma conversa que tiveram na floresta de Saint- Cloud em que o amigo lhe falara da composição de S. Frei Gil, que teria deixado o santo “inconcluso” na floresta: “dir-to-ei agora aqui quando justamente nos achamos sob os arvoredos, - que a nossa riquíssima língua portuguesa me parece deficiente em cores com que se pintem selvas; - e também te confiarei que, tendo metido, por minhas próprias mãos o santo bruxo numa floresta, não sei como o hei-de tirar de lá” . Ainda em carta a Silva Pinto datada de 29 de maio de 1897 Eça faria a mesma afirmação acerca da história inconclusa de S. Frei Gil (cf. QUEIRÓS, 1961, p. 247)

deleitasse em tentá-lo, incentivando-o a partir e, logo depois, ajudando-o com prazeres alimentares e libertinos, durante a viagem. Uma segunda hipótese é de que verdadeiramente Gil estaria tomando uma decisão santa na busca pelo conhecimento em favor dos homens e que, justamente por isso, estava sendo tentado desde o momento em que se decidira pela empresa a dissuadir-se ou começar equivocadamente seu empenho.

Segundo o plano de trabalho, publicado geralmente em anexo nas várias edições das Últimas páginas e que, importante mencionar, possui diferenças daquilo que aponta como objetivo inicial com que realmente está apresentado como princípio da história de Gil no manuscrito, constituindo assim, um argumento não muito confiável para pensarmos o desenrolar da história, temos o que ocorreria com Gil logo após o episódio da floresta. O santo venderia a alma para o diabo, usufruiria todos os benefícios advindos de Satanás e depois, cansado e frustrado, decidiria desfazer o pacto, dedicando-se ao serviço de uma criança e de um velho. O pacto é desfeito com a ajuda da Virgem Maria. Gil morre santo, enclausurado em um convento conseguindo favores da Virgem Maria Reiteramos, entretanto, que esses apontamentos provêm de um plano de trabalho que já de início parece não ter sido seguido à risca.

De acordo com o que veremos ilustrado nas outras vidas de santos, ousamos inferir que sendo ou não tentado por Satanás, vendendo ou não sua alma para ele, a história de Gil está em sintonia com o ideal de santidade que Eça parece sugerir nos seus escritos derradeiros, como vislumbraremos mais explicitamente a partir da análise das outras ficções e artigos de jornais.

Eça teria abandonado a escrita de S. Frei Gil para dedicar-se à vida de Santo Onofre, o mais atormentado, por assim dizer, de todos os santos, o qual passamos a analisar agora. A principal característica de Onofre é o recorrente sofrimento que ele possui com relação ao incessante desejo de superação de seu elevado orgulho. É essa “luta contra a carne” que permeará sua história do início ao fim.

Pelas referências a Santo Antão, tudo indica que a narrativa de Onofre transcorre no Egito do século IV. A história principia mostrando a rotina diária que o solitário Onofre

Pelas referências a Santo Antão, tudo indica que a narrativa de Onofre transcorre no Egito do século IV. A história principia mostrando a rotina diária que o solitário Onofre

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