• Nenhum resultado encontrado

Revisão da Literatura

RANCHARIA POLO SUMARÉ

2.4 Políticas públicas de saúde para os povos indígenas do Brasil

2.4.1 Políticas de alimentação e nutrição para os povos indígenas do Brasil

2.4.1.1 A Segurança Alimentar e Nutricional (SAN)

Segurança alimentar e nutricional, segundo a Lei nº 11.346/2006, consiste na realização do direito de todos ao acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais, tendo como base práticas alimentares promotoras de saúde, que respeitem a diversidade cultural que sejam ambiental, cultural, econômica e socialmente sustentáveis (BRASIL, 2006c).

O tema SAN é bastante amplo, envolvendo aspectos tanto de oferta (produção, desenvolvimento sustentável, abastecimento e comercialização), quanto de demanda (aproveitamento e aquisição) de alimentos. O tema pode ser analisado sob o ponto de vista micro ou macroeconômico (CUSTÓDIO et al., 2011). O componente “nutricional” no conceito de Segurança Alimentar ganhou força no final dos anos 1980.

Na década de 1990, observou-se grandes avanços na construção da SAN no país. Em 1993 o governo federal lançou o primeiro programa de combate à fome e se instalou pela primeira vez o Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional - CONSEA. Mas foi em 1996, que diversos países, inclusive o Brasil, em reunião internacional conhecida por “Cúpula Mundial da Alimentação”, reconheceram a sua obrigação em realizar a SAN da população e se comprometeram a promover esforços para a erradicação da fome e a diminuição dos alarmantes números de desnutrição humana até o ano de 2015 (BEURLEN, 2008). Em 1999, o estado de Minas Gerais já contava com o Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável de Minas Gerais - CONSEA-MG, que tem por objetivo, deliberar, propor e monitorar ações e políticas de segurança alimentar e nutricional sustentável (CONSEA/MG, 2010; BRASIL, 2009).

Em 2001, o Instituto Cidadania lançou o Programa Fome Zero, que se transformou em política pública com a posse do presidente Lula (BELIK, 2010). Neste ano, foi também lançado o programa Bolsa Alimentação e realizada a 3ª Conferência Nacional de Saúde Indígena, tendo como eixo temático a segurança alimentar e auto-sustentação (GUGELMIN, 2007).

Na busca de soluções para a insegurança alimentar dos povos indígenas, a Coordenação Geral de Política de Alimentação e Nutrição do Ministério da Saúde – CGPAN/MS construiu, de forma coletiva, e lançou segundo a Portaria nº 2.405, de 27 de dezembro de 2002, o Programa de Promoção da Alimentação Saudável em Comunidades

aquisição (BRASIL, 2002b). Mas a Portaria foi aprovada sob os moldes de um programa de repasse de renda direto à mulher, contrariando a proposta coletiva e a lógica da organização social de muitos povos indígenas. Esta portaria foi revogada com a implantação, em 2003, do Programa Bolsa-Família - PBF e do projeto VigiSUS II, cujo objetivo final é a melhoria das condições de saúde dos povos indígenas. (GUGELMIN, 2007; ENGSTRON, 2007).

O Programa Bolsa Família - PBF, criado pela Lei no 10.836de 9 de janeiro de 2004 e regulamentada, pelo Decreto no 5.209 de 17 de setembro de 2004 (BRASIL, 2004b) e mais recentemente pelo Decreto nº 7.332 de 19 de outubro de 2010, atende atualmente, mais de 13 milhões de famílias em todo o território nacional. O PBF promove acesso à alimentação por meio da garantia de uma renda mínima mensal às famílias. Ele transfere renda direta às famílias, condicionando essa transferência ao cumprimento de ações básicas de saúde e educação (LEÃO; CASTRO, 2007). A depender da renda familiar por pessoa (limitada a R$ 140), do número e da idade dos filhos, o valor do benefício recebido pela família pode variar entre R$ 32,00 a R$ 306,00 (BRASIL, 2011b).

Em 2006, foi aprovada no Congresso Nacional a Lei Orgânica de Segurança

Alimentar e Nutricional – LOSAN (BELIK, 2010) e a Lei n. 11.346, que criou o Sistema

Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional – SISAN, que garante o Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA) (CONSEA/MG, 2010; BRASIL, 2006c; VALENTE, 2002) . Nesta lei, o tema diversidade étnica parece estar subentendido no artigo segundo, parágrafo primeiro: “a adoção dessas políticas e ações deverá levar em conta as dimensões ambientais, culturais, econômicas, regionais e sociais” (GUGELMIN, 2007; SILVA; BARROS, 2007)..

O Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA) está associado não só à garantia do acesso diário a alimentos em quantidade e qualidade suficiente para atender as necessidades nutricionais para a manutenção da saúde, como também ao direito de acesso aos recursos e meios para produzir ou adquirir alimentos seguros e saudáveis que respeite os hábitos e a cultura inerente do ser humano (VALENTE, 2002).

Ainda em 2006, na IV Conferência Nacional de Saúde Indígena, discutiu-se o tema “Segurança Alimentar e Nutricional e Desenvolvimento Sustentável”, surgindo, dentre outras, as propostas de implantação da política de vigilância nutricional para os povos indígenas, pesquisas e diagnósticos e a formulação de uma Política Nacional de Segurança

Entretanto, as estratégias correntes no país representam primordialmente a oferta de cestas básicas. No caso das populações indígenas, tal alternativa não somente contribui para a desvalorização das práticas alimentares tradicionais, como também amplia as relações de dependência inter-étnica. Para os grupos indígenas desprovidos de terras, a distribuição de alimentos pode ser algo inevitável. Porém, para as populações que contam com terras demarcadas e lidam com a temática do desenvolvimento sustentável, a busca de uma dieta equilibrada e saudável pode se dar pela via autônoma e criativa da revitalização de práticas alimentares ancestrais, em regime de soberania alimentar (GARNELO; BARÉ, 2009; ENGSTRON, 2007).

Outro aspecto importante para a construção de uma Política Nacional de SAN foi o estímulo e a realização das II e III Conferências Nacionais de Segurança Alimentar e

Nutricional (CNSAN), sendo a II CNSAN em Olinda/PE, em 2004, e a III CNSAN, em Fortaleza/CE, em 2008, esta com a presença de quase 2.000 delegados e convidados de todos os Estados brasileiros e do Distrito Federal, apoiadas por conferências em nível municipal e estadual (CUSTÓDIO et al., 2011).

Em novembro de 2011, foi realizada a IV Conferência Nacional de Segurança

Alimentar e Nutricional, da qual participaram mais de 1.600 agricultores familiares, mães de família, trabalhadores rurais, educadores, nutricionistas, líderes de organizações urbanas e comunidades tradicionais, com ampla participação dos povos indígenas (CONSEA, 2011). Um tema amplamente discutido foi a Proposta de Emenda Constitucional 047/2003 (BRASIL, 2003b), aprovada em 03 de fevereiro de 2010, que incluiu a alimentação entre os direitos sociais da Constituição Federal, uma vez que esta prevê como direitos sociais (artigo 6º) a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, e a assistência aos desamparados, sem mencionar, até então, o direito social do povo brasileiro, à alimentação. Segundo o presidente do Consea, Renato S. Maluf, “assegurar o direito à alimentação e, com ele, a soberania e a segurança alimentar e nutricional, passa a ser um dever de Estado, e não apenas deste ou daquele governo” (CONSEA, 2011).

2.4.1.2 O Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional para a Saúde