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1: AS CONDIÇÕES DE PRODUÇÃO DO DISCURSO

1.2. A semântica formal e a semântica discursiva

A linguística saussuriana inaugurou uma forma de compreender e abordar a linguagem que possibilitou uma ruptura epistemológica nos estudos linguísticos. Isto em grande parte se deveu à concepção de signo apresentada por Saussure (2006). Segundo ele, o signo é imotivado e arbitrário, de modo que seu funcionamento não pode ser considerado senão a partir de sua posição dentro do sistema semiológico que ele forma junto com os outros signos linguísticos. Este entendimento delineia o modo como Saussure concebe a dimensão semântica da linguagem, pois, para ele, o significado de

um significante é determinado unicamente pelas relações diferenciais que os signos estabelecem entre si. Essas relações são referidas pela da noção de valor. O valor de um signo é entendido como estruturador de suas duas dimensões: a do significado e a do significante. Por um lado, o valor dos sons e dos sinais gráficos comportados por um sistema linguístico estruturam os diversos significantes que compõem tal sistema. Por outro, os significantes elaborados mediante tais relações diferenciais estabelecem novas relações diferenciais que determinam o plano conceitual de uma língua, ou seja: sua dimensão semântica:

Quer se considere o significado, quer o significante, a língua não comporta nem ideias nem sons preexistentes ao sistema linguístico, mas somente diferenças conceituais e diferenças fônicas resultantes desse sistema. O que haja de ideia ou de matéria fônica num signo importa menos que o que existe ao redor dele nos outros signos” (SAUSSURE 2006, p.139).

Desse modo, o significado encontra-se subordinado ao valor que os termos linguísticos e os seus conceitos possuem no sistema. Segundo Saussure (2006, p.140), quando a evolução fonética leva à confusão de dois significantes originalmente distintos, as ideias que eles representam tendem também a se confundir. Inversamente, quando uma diferença entre duas ideias é percebida, o sistema espontaneamente fornece significantes distintos para cada uma, ou, quando se reconhece uma identidade entre duas ideias uma vez tomadas como diferentes, o sistema unirá essas duas ideias em um único significante. Tal entendimento coloca o sistema linguístico como completamente autônomo em relação a fatores externos, o que faz com que ele seja concebido como a única força dinamizadora da língua. Em um artigo escrito em conjunto, Claudine Haroche, Michel Pêcheux e Paul Henry apontam que a relação de dependência entre significação e a noção de valor no pensamento de Saussure repousa sobre um postulado realista. (HAROCHE 2007, p.23). A ideia de autonomia do sistema linguístico, no que diz respeito ao modo como a dimensão semântica da linguagem é entendida, apresenta a língua como se ela fosse um sistema dotado de elementos semânticos

universais capazes de se sobrepor ao real tal qual uma rede. Esses universais aparentam funcionar como se fossem uma "cópia matriz" (HAROCHE 2007, p.23) da realidade desvinculada do plano histórico. Do modo como Saussure apresenta o sistema linguístico, seus estados sincrônicos e a dinâmica de sua evolução aparecem como completamente fortuitos e arbitrários, imunes a quaisquer determinações de natureza histórica e social. Isso, segundo os autores acima mencionados, torna-se responsável por uma postura idealista, pois promove a anulação da distinção entre o conhecimento objetivo produzido pela ciência e os produtos das relações sociais inscritas em práticas históricas. Isto ocorreria porque os pressupostos idealistas produzem o mito de uma ciência universal ou de uma “teoria universal das ideias" (PÊCHEUX 2009, p.69) a partir do momento em que a linguagem passa a ser tida como capaz de dar conta da realidade de modo total e imperfectível.

Outro ponto da teoria de Saussure que, segundo os mesmos autores, deveria ser reconsiderado é a concepção de parole que ela apresenta. Se a língua é tida como um sistema semiótico portador das combinações capazes de atender a todas as necessidades comunicativas de seus usuários, a fala torna-se a escolha realizada por um indivíduo particular dentro do universo de possibilidades do sistema em uma utilização efetiva. Ou seja: o universo de possibilidades expressivas de um usuário da língua coincide com todas as possibilidades previstas em seu sistema semiótico, dentro do qual o falante circula a partir de suas idiossincrasias. Daí Saussure (2006, p.144) caracterizar a fala como “a liberdade das combinações”. Essa caracterização oferece margem para a instauração de um subjetivismo idealista, que, por sua vez, torna-se responsável pela instauração da ideia de universalidade do espírito humano, já que todos os indivíduos falantes são concebidos como inseridos dentro de um único e mesmo universo de possibilidades linguísticas. Os conceitos, contraparte psicológica do signo linguístico, existiriam de modo idêntico no espírito de uma massa falante que a eles se refere por intermédio do sistema que coloca todos os elementos dessa massa dentro de um único e homogêneo universo expressivo.

Saussure não enveredou pela especulação da dinâmica da fala, pois por sua teoria não há como prever o modo como as escolhas individuais são processadas. A constituição da análise do discurso foi responsável por uma

teoria da linguagem que incide sobre este ponto. Por ela afirma-se que o uso efetivo da língua não depende simplesmente de uma relação simples e direta entre uma consciência e todo o universo de possibilidades do sistema linguístico. Entre uma consciência e o sistema há uma série de mediações que pré-condicionam o comportamento dos signos. Essas mediações ocorrem a partir dos discursos gerados pelos posicionamentos ideológicos disponíveis em uma determinada conjuntura social. Entre o falante e o sistema da língua interpõe-se uma série de processos discursivos que limitam e condicionam o universo de possibilidades expressivas. Na reflexão criada pela teoria do discurso, as possibilidades geradas pelo sistema formal da língua são filtradas por conjuntos menores de possibilidades, denominados de formações discursivas.

Se é necessário admitir que as reflexões de Saussure foram e ainda são importantes ao entendimento do que pode ser o fenômeno linguístico, é preciso também reconhecer que a teoria do mestre genebrino depende de um limite imposto pela ideia de autonomia total do sistema linguístico em relação às condições de natureza sócio-histórica ou de parole como par dicotômico para a língua8. A noção de parole implica a ideia de uma subjetividade psicologicamente orientada dotada de total liberdade quando decide se apropriar da língua para satisfazer suas necessidades expressivas. A teoria do discurso permite reconsiderar esses limites à medida que passa a entender a utilização efetiva da língua não mais pela noção de parole, mas pela de discurso. A língua não é um sistema semiológico cujas possibilidades se apresentam de forma total e idêntica a todos os seus usuários. A sua apropriação pelos falantes é mediada e orientada pelos diferentes discursos que circulam em uma determinada formação social. Tais discursos são formulados a partir de condições históricas específicas, de modo que se pode concluir que a língua se estabelece numa “dualidade radical” (cf. MAINGUENEAU 1997, p.12), derivada de sua inscrição tanto em um universo formal como em um universo discursivo. Tal dualidade relativiza sua independência em relação a elementos externos ao seu sistema, pois ao mesmo tempo que possui uma natureza formal relativamente autônoma, seu

8 Isto não significa necessariamente que a teoria possua falhas. Toda e qualquer teoria depende da postulação de limites para possibilitar a reflexão.

funcionamento efetivo, ao ser mediado pelos processos discursivos, é atravessado por determinações sócio-históricas.

Caso a linguagem fosse de fato uma cópia matriz da realidade, para cada objeto teríamos um único termo equivalente e a relação entre a linguagem e a realidade estaria estabilizada pela transparência da língua em relação àquilo que ela comunica. Se a postura idealista correspondesse aos fatos linguísticos observáveis, não haveria flutuação entre a linguagem e o real e as palavras significariam sempre a mesma coisa. Por não considerar a imperfeição inerente à linguagem, Afrânio Coutinho não soube relativizar seu entendimento do que seria o nacionalismo literário e foi levado a acreditar que Machado referia-se ao mesmo objeto presente no entendimento produzido por sua perspectiva ideológica unicamente por utilizar palavras (nacionalismo e instinto) que aparecem com frequência em seu posicionamento teórico. O que efetivamente ocorre em sua leitura do artigo de Machado é um enviesamento discursivo que o leva a ler no texto do outro aquilo que poderia ser encontrado em seu próprio texto ou em qualquer outra produção de sentido alinhada à ideologia do nacionalismo literário romântico.

Quando lemos algo, conectamos as palavras e as frases que compõem um texto a formações de sentido estabilizadas dentro de um universo relativo de possibilidades semânticas. A depender de como este procedimento ocorra, é possível que ocorram ruídos linguísticos e a compreensão fique comprometida. Os signos não existem de modo idêntico para todas as pessoas, eles podem significar diferentemente para cada uma delas a depender do universo discursivo no qual cada uma encontra-se inserida. Aquilo que Machado significava a partir do termo nacionalismo constituía-se como um objeto diferente do produzido pelo entendimento do nacionalismo romântico. A cooptação discursiva do artigo de Machado feita por Afrânio Coutinho é consequência da força de um conceito de nacionalismo literário gerado nas primeiras décadas do século XIX e continuado ao longo dos anos em função de condicionamentos de ordem sócio histórica.

1.3. AS CONDIÇÕES DE PRODUÇÃO DA CRÍTICA ROMÂNTICA (I): A