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A semântica sob a perspectiva da discursividade

No documento Semântica, enunciação e ensino (páginas 43-48)

No Curso de linguística geral de Ferdinand de Saussure, preconi- za-se o estudo da língua por si e em si: “a linguística tem por único e verdadeiro objetivo a língua considerada em si mesma e por si mesma” (1972, p. 271). Devido à importância desse livro na constituição da linguística como ciência, quando define seu objeto de estudo, a “lín- gua”, o estudo da linguagem passa a ser desenvolvido sem que se levasse em conta aquele que fala ou as condições histórico-sociais desse ser que se articula em linguagem. A língua é separada do homem.

A linguística encontrou seu objeto de estudo ao separar a linguagem do homem. Era preciso observar, formular hi-

póteses, examinar sistematicamente essas hipóteses de tal modo que se esboçassem classificações, semelhanças, dis- tinções. A linguagem, com o estruturalismo, foi percebida como um sistema de funcionamento regular, previsível e passível de descrição sistemática. Assim foi percebida tam- bém a movimentação dos astros de Newton; os organismos vivos, na biologia; a estrutura da sociedade, em sociologia (HENRY, 1994, p. 36).

Ainda que, segundo Calvet (1977), o trecho “a língua conside- rada em si mesma e por si mesma” tenha sido acrescido pelos com- piladores do livro, pois não constava dos manuscritos dos alunos de Saussure, esse recorte proposto ao objeto de estudo da linguística constitui, para a semântica, uma limitação nas possibilidades de se observar a significação.

Ao priorizar o significado, a semântica erige-se como um campo de estudos autônomo, vinculado às ciências da linguagem, pois o significado pode ser medido, é estável e é a base da língua de um povo, do seu léxico. O signo é considerado assemelhando-se ao vocábulo, sem que se leve em conta o seu uso. O signo é, portanto, instância da langue e não da parole. Excluem-se, assim, dos estudos semânticos os fatores ligados à enunciação.

No entanto, essa postura presente no Curso de linguística geral pare- ce ser frontalmente divergente daquela presente nos Escritos de Saussure (2004), que são uma compilação de anotações do próprio Saussure, encontradas no porão de sua residência. Para o Saussure dos Escritos, a língua é um sistema de signos e são os discursos que governam o fun- cionamento desses signos a partir do sistema de valores que os fazem existir enquanto signos.

[...] toda espécie de valor, mesmo usando elementos muito diferentes, só se baseia no meio social e na força social. É a coletividade que cria o valor, o que significa que ele não existe antes e fora dela, nem em seus elementos decompos- tos e nem nos indivíduos (SAUSSURE, 2004, p. 250). No entanto, historicamente, a semântica formal antecede a vertente estruturalista em semântica, apesar de esta ter recebido enorme influ- ência daquela. Aristóteles e depois o alemão Frege (1848-1925) são

pioneiros ao lidarem com o significado a partir de postulados lógicos. Sua herança para os estudos semânticos foi enorme e até hoje as aborda- gens giram em torno de frases ou proposições, tal qual faziam. Segundo Pires de Oliveira (2001, p. 19): “Há muitos estudos sobre fenômenos do português brasileiro que adotam a perspectiva formal”. Evidente- mente, essa abordagem traz para os estudos semânticos um estatuto de cientificidade, além de possibilitar a sua inserção sistemática dentro da linguística, conferindo à semântica um campo de investigação próprio, diferente da sintaxe ou da morfologia. Um nome relevante no Brasil, dentro dessa tendência, é o de Rodolfo Ilari, com suas obras, e uma obra de referência seria a de Kempson (1980).

Oswald Ducrot situa seus estudos dentro da perspectiva estrutura- lista, e o faz dialogando com a semântica formal. Esta coloca o referente em destaque ao examinar o significado, ou seja, a linguagem aponta para o seu exterior, nomeando-o. Diferentemente, para a semântica da enunciação ou semântica argumentativa, a linguagem institui realida- des e instaura a subjetividade.

A semântica ocupa-se das questões de significação em uma língua natural. Obviamente, essas questões relativas à significação, ou, mais propriamente, à produção de sentidos, perpassam diferentes áreas do conhecimento humano, pois a reflexão sobre os diversos sentidos produzidos em uma sociedade leva, sem dúvida, a uma melhor com- preensão dessa mesma sociedade, bem como dos sujeitos que dela participam. Entendemos, desse modo, que as questões semânticas recobrem tanto fatores sintáticos, morfológicos e pragmáticos como também fatores da ordem do filosófico, do antropológico, do socio- lógico, entre tantos campos com ela imbricados.

Sob essa perspectiva, a linguagem é entendida como constituidora de saberes e sujeitos. Trata-se de uma perspectiva que considera o senti-

do como sendo de natureza conjuntural, dependente de fatores variados

para se constituir.

Desse modo, não só o discurso é da ordem da história ou da ordem da ideologia, mas também o sistema linguístico, enquanto sistema de relações obrigadas, de imposições sociais e culturais, que varia segundo a comunidade, é da ordem da história, claramente.

Por exemplo, sob o prisma da discursividade, o presente do indica- tivo não é simplesmente um quadro dentro do paradigma das conju-

gações verbais. A cada situação discursiva, as construções de presente adquirem valores inusitados, atualizando fatos passados, ao substituí- rem as formas do pretérito: “Em 1964 ocorre o golpe militar no Brasil”; presentificando o futuro, em lugar das formas de futuro, como quando se diz “Vou amanhã”; estabelecendo uma ideia de contemporaneidade coletiva: “Hoje é primavera”; ou de verdade permanente, como quando se diz que “A terra é redonda”; ou, ainda, transportando os fatos para uma situação de presente estendido: “Moro em Vitória”. Portanto, es- sas construções fazem parte não apenas de estratégias argumentativas, mas de organizações sistêmicas que estruturam os discursos de um tempo, de um local, que estruturam, enfim, “formas de vida”, como diria Wittgenstein (1984).

Já em 1977 o professor Milton José Pinto, em seu livro Análise se-

mântica de línguas naturais: caminhos e obstáculos, apontava para a inter-

disciplinaridade do fato semântico:

Tal projeto, pelo recurso à interdisciplinaridade, tem o que as- sustar os linguistas mais conservadores, mas traz de volta aos estudos de linguagem uma certa tradição humanística hoje abandonada. O fato é que a significação está na raiz de todos os fenômenos de que o ser humano é participante, e nenhuma ciência humana poderá se constituir sem levar isso em conta (PINTO, 1977, p. 13).

Ao final desse mesmo livro, o autor acrescenta, como uma das pers- pectivas de desenvolvimento na área da semântica: “uma semântica discursiva, baseada no desenvolvimento de uma teoria dos discursos” (1977, p. 90).

Quanta diferença não faria treinar nos alunos um olhar sobre as es- truturações discursivas? Isso implicaria um novo entendimento da com- plexidade na relação do homem com a linguagem, considerando esta não só como instrumento, mas como fenômeno complexo e nem por isso inabordável. Uma linguagem viva, pulsante, que reflete em si os mo- dos de existência, e não meros paradigmas verbais, frios de gente. Lem- brando o cantor e compositor Gonzaguinha na canção “Redescobrin- do”, uma linguagem que se faz “jogo do trabalho na dança das mãos”.

Assim, sob essa perspectiva da cientificidade então vigente, podemos até dizer que a disciplina semântica encontrava-se bastante estruturada e com certa homogeneidade, possuindo muitas obras que sustentavam a sua condição de uma semântica linguística.

Ainda que tenha separado o homem da linguagem ao estudar os sig- nificados socialmente produzidos, essa disciplina estruturou-se como um campo de estudos próprio, dentro da linguística. Resta-nos, pesqui- sadores da área, fazer com que ela incorpore as discussões mais recentes e caminhe de retorno ao homem, fonte inesgotável do sentido.

Contudo, como nos lembra Pavel (1990, p. 64): “é tão vão propor à linguística abrir-se à plenitude do sentido [...] quanto esperar da anato- mia que ela se espiritualize através do estudo do coração ou do cérebro.”

“Como se fora brincadeira de roda, memória. Jogo do trabalho na dança das mãos, macias. O suor dos corpos na canção da vida, história.

O suor da vida no calor de irmãos, magia.” (Gonzaguinha, “Redescobrindo”)

Capítulo II

A produção de sentidos

No documento Semântica, enunciação e ensino (páginas 43-48)