• Nenhum resultado encontrado

5.2 A BABEL DA VIOLÊNCIA

5.2.1 A semiótica do poder

São múltiplos os fatores que podem gerar interferências no entendimento da linguagem entre os indivíduos. Levando isso em conta, Mosé (2005) elucida o motivo pelo qual a comunicação perfeita entre as pessoas pode ser impossível. O processo de tal comunicação se inicia com a construção do signo linguístico pelo indivíduo e este signo desenvolve a função de representar os fenômenos (KOSSOVITCH, 2004). Estes podem ser observados sob duas faces, uma relativa ao significante e outra ao significado (SAUSSURE, 2012). Neste caso, entende-se por significante o conceito que se forma com embasamento sensorial ou físico, já o significado tem bases psíquicas. No momento em que se juntam em um só signo, adquirem um caráter semiótico e suas propriedades físicas, sensoriais e psíquicas se reúnem em um sentido só, dando o valor ao signo (FONTANILLE, 2012).

Este processo é realizado o tempo todo e a junção dos diversos signos de forma sistematizada estrutura a linguagem do indivíduo e a forma como observa o mundo. O problema aparece quando se compreende o signo como uma verdade, ou como a própria representação do fenômeno, que em si pode nada representar. Neste caso é necessário desembaraçar a linguagem da ontologia, abandonando o signo como representação para estruturá-lo no âmbito da significação (BALEN, 1999). Neste sentido, as linguagens se desvelam inundadas de uma subjetividade, construída por meio da vivência de cada indivíduo. Assim, o mesmo fenômeno pode se desvelar em toda a sua multiplicidade, gerando sentidos, e assimaumentando a possibilidade de mal-entendidos e violências.

Dentro do ambiente escolar, conforme constatou esta pesquisa, esse processo de desvelamento da multiplicidade dos sentidos gerou formas de representação do mundo a cada ser humano, preso em seu solipsismo. Podemos tomar como exemplo o fenômeno das violências, interpretado das mais diversas formas dependendo do olhar que as observa. Muitas contradições na perspectiva da violência brotaram no discurso de uma professora de maneira diferente em dois momentos, quando a mesma se referiu ao ato de empurrar, neste círculo hermenêutico (GADAMER, 2008): “...agora, covardia, igual, alguns colegas chegam por trás e empurram, dão rasteira, sem motivo nenhum. Teve um outro dia que um menino empurrou o outro ele caiu de queixo, e quase quebrou. Então assim... a agressividade é muito grande...”. Já no segundo momento, o ato de empurrar teve outro significado: “Entrevistador: As brincadeiras aqui são violentas? Professora : Algumas sim, mas a maioria não... é de empurrar, de pegar... de correr atrás... brincadeira normal de crianças...”. Ficou nítido no discurso da professora que o ato de empurrar ora é uma violência enorme ora apenas uma brincadeira inofensiva.

O abismo interpretativo pode se tornar maior quando o uso da linguagem é feito entre dois ou mais indivíduos. A carga de subjetividade que envolve o desvelar dos fenômenos pode ficar mais latente quando a distância é intergeracional, podendo acentuar a babel da linguagem no ambiente escolar. Essa confusão linguística pode ocorrer na formação dos limites do mundo (FOUCAULT, 2007) de professores e alunos, levando em consideração que os professores, principalmente os mais velhos, tendem a enxergar os fenômenos de maneira estática, petrificada, enquanto os adolescentes e professores mais novos geralmente percebem a multiplicidade e relatividade que brotam das disputas de perspectivas na luta pela construção do fenômeno em meio ao mar de subjetividade (HEGEL, 2003). Assim, a presente

pesquisa constatou que a formação dos limites do mundo no caso dos professores mais velhos se dá de forma rígida, ao contrário dos limites do mundo dos estudantes que se forma de maneira mais flexível.

Este fato dificulta ainda mais a comunicação entre alunos e professores, pois usando a linguagem de forma diferente fica difícil substituir a Torre de Babel pela torre da educação. Isto é praticamente impossível. Com o foco ainda voltado para a violência, ao comparar a perspectiva de um estudante e um professor ficou bem clara a diferença da composição que cada um faz do fenômeno. Assim, quando uma professora foi indagada se socos, chutes e xingamentos eram violências, a mesma respondeu: “... A violência aqui acontece o tempo todo, esses meninos não têm educação, se xingam, se batem a toda hora (...) Acho sim, que soco, chute e xingamento é violência sempre e é o que eles mais fazem, eles se tratam de forma violenta...”. Quando a mesma pergunta foi feita a uma estudante, foi nítida a diferença na interpretação do fenômeno:

“... Não, tem muitos meninos e meninas que brincam de dá soco e chute, mas é só brincadeira ninguém fica com raiva (...) tem até uma brincadeira que chama porrada

ball, que os meninos chutam a bola, se pegar acima da cintura, lascamos a bolacha

até ele chegar no pique (...) Às vezes vamos vou falar com minhas amigas e digo: E ai piranha! Mas é só de brincadeirinha ...”.

A rigidez na composição do mundo dos adultos pode se construir na falta de multiplicidade interpretativa ao ler os fenômenos, ou seja, o soco e o chute são sempre violências, enquanto para boa parte dos adolescentes isso depende do contexto em que as ações são realizadas, ora sendo realmente violências, ora sendo brincadeiras, o que também não exclui a possibilidade das brincadeiras terminarem em brigas. Com o abismo linguístico aumentando cada vez mais, a dificuldade de comunicação dentro da escola pode ser um dos principais motores para o avanço das violências e do péssimo desempenho escolar.

Este fato mostra que dentro do mesmo ambiente podemos ter dois ou mais mundos diferentes, com linguagens e perspectivas distintas, deixando um enorme hiato nos pátios escolares. Neste limbo ocorre um jogo de dominação que se inicia na linguagem como forma de controle e pode terminar em violências verbais, físicas e/ou psicológicas. Nietzsche (2008) esclarece que, com a vida na sociedade racional, a linguagem adquiriu um caráter metafórico

e gregário, transformando aqueles que conseguem dominar e impor seus signos em líderes dos rebanhos (NIETZSCHE, 2004; KOSSOVITCH, 2004).

O instinto gregário que a linguagem impõe no social tem seus arquétipos estruturados a mais ou menos sessenta mil anos. A saga da linguagem como instrumento de dominação é descrita por Chomsky (2014) a partir dos hominídeos africanos distantes do tempo atual dez milhões de anos no tempo evolucionário. As pequenas sociedades se afastaram e passaram a ocupar os mais diferentes lugares no mundo. Estas comunidades eram chamadas de “povos primitivos”, que geneticamente, são para todos os efeitos, idênticos aos seres humanos dos dias de hoje. Entretanto, por volta de dez milhões de anos atrás, houve um “salto para frente” na capacidade do homem de interpretar o mundo e se comunicar, observado por meio da arte simbólica criada por cada comunidade, e, muitos cientistas atribuem esta capacidade a uma minúscula reconfiguração genética no cérebro. Fato este que possibilitou o ser humano planejar, interpretar, pensar e se comunicar de forma aparentemente mais eficaz. Levando em consideração que tais mudanças genéticas não acontecem em um grupo por inteiro, e, sim no indivíduo, com isso, este “salto para frente” pode ter acontecido somente em algumas pessoas. Este fenômeno gerou benefícios para aqueles que melhor se comunicavam, e estas benfeitorias eram passadas de pai para filho estruturando uma vantagem seletiva para este grupo que conseguia interpretar com maior variedade o mundo, podendo planejar e organizar e gerando uma diversidade infinita de expressões e pensamentos hierarquicamente estruturados.

Neste jogo da dominação linguística, a força que impõe seu ponto de vista é sempre o senhor da relação (KOSSOVITCH, 2004), gerando uma cultura onde a submissão é vista como uma virtude, fortalecendo o instinto gregário (NIETZSCHE, 2007). O escravo serve ao senhor, pois tem um desejo enorme de poder, e quando tem a oportunidade de ser o senhor se torna um tirano bastante opressor, muitas vezes mais violento que seu algoz. Sob este prisma, cabe apresentar um fato que ilustrou muito bem esta disputa de poder na escola pesquisada. Certa feita, alguns jovens jogavam futebol na quadra, quando o aluno Carlos resolveu atravessar o local durante a partida. Mesmo sem atrapalhar a partida, um garoto alto e magro gritou do fundo: “Sai daí, não tá vendo que estamos jogando, animal?”. Carlos se apressou em sair, mas já era tarde, foi agredido com um soco no rosto. Os jovens trocaram alguns socos e caíram no chão, os gritos e aplausos soavam alto e motivavam ainda mais a briga. Logo alguns professores chegaram para separa a briga e o acontecido poderia ter terminado com

apenas alguns arranhões, hematomas e uma suspenção. Entretanto, Carlos, cansado de ser vítima mudou os acontecimentos quando, cego de fúria e sedento por vingança, escapou das mãos de um dos professores que tentava separar a briga e pisou na cabeça de seu algoz enquanto tentava se levantar. O jovem desmaiou, teve convulsões e bastante sangue escorreu pelas orelhas e nariz, assustando a todos que observavam o fato. O jovem agressor, foi encaminhado a Delegacia da Criança e Adolescente tendo respondido por ato infracional análogo a lesão corporal grave. O aluno agredido foi levado de ambulância para o hospital, tendo ficado dois dias internado na terapia de unidade intensiva, mais dois em observação na ala comum e liberado com um coágulo inoperável na cabeça.

Estas evidências comprovaram que, a servidão voluntária premia aqueles que sabem obedecer, como o bom aluno que nunca contesta e sempre aceita, o bom motorista que não leva multa ou o bom cidadão que não desrespeita a lei. O indivíduo em sociedade é reconhecido e valorizado pela habilidade de se submeter (CHAUI, 2014; DORES, 2012). Este processo de submissão como virtude pode ser estruturado de maneira tão arraigada, pois tem suas origens na linguagem e na relação com seu aprendizado.

O professor Filho (1999) esclarece que o aprendizado da linguagem pode ser o primeiro contato com esta servidão. Um exemplo bastante comum é quando o filho aprende a linguagem ensinada pelos pais. Isolando a situação de uma questão moral, o aprendizado da linguagem faz com que a criança já vivencie o jogo da dominação. Podemos observar este fato quando os educadores da criança ensinam o “Não”. Imaginemos a seguinte situação: uma criança vai correndo em direção a uma panela com água fervendo em cima da pia, ela estica o braço e a alcança com as pequenas mãos. Antes que a panela vire, alguém grita “não” e a criança larga a panela. Em uma primeira leitura, podemos entender que esse “não” é apenas uma questão de proteção em relação à criança, mas pode ir além. É fato que aprender a relacionar a palavra “não” com algum perigo iminente pode ter evitado o acidente, mas tudo isso só aconteceu porque com o “não” o comportamento da criança foi controlado, ou seja, o indivíduo que disse o “não” exerce um poder de controle sobre o outro.

Este fato pode parecer corriqueiro e irrelevante, contudo, muitas vezes tem grandes desdobramentos no interior das escolas. Ao observar o comportamento dos líderes do bondes4 ficou claro que os mesmos se articulavam de maneira muito fluente, tinham uma boa comunicação com os outros alunos, professores, coordenadores e o diretor. Estes adolescentes

4

Grupos de jovens que se reúnem em prol da cultura do funk, principalmente a vertente do funk ostentação.

também impõem as gírias, a forma de se vestir e quais as tendências a seguir, como afirmou Carlos, um dos líderes do bondes no seguinte fragmento da entrevista:

“Entrevistador: Você acha que os meninos que andam no seu grupo imitam você? Aluno: Sim... e muito! Sei lá... se eu vir com um tênis novo eles querem... se eu vim com um colar novo eles querem. Tudo que eu tiver novo eles vão querer. Entrevistador: Eles imitam o jeito que você fala também? Aluno: Ahahahah, Sim. Muito! Entrevistador: as gírias... as músicas...Aluno: Sim, tudo!”.

Com efeito, é inegável a influência da linguagem verbal, corporal e comportamental no processo de dominação entre os alunos, levando em consideração que o indivíduo dominante impõe os signos, passa a ser o senhor das relações e ainda é considerado popular entre seus pares. Este processo cria no ambiente escolar um espírito gregário e a linguagem quase unânime imposta pelos líderes dos bondes é a da violência e da ostentação de bens materiais e mulheres. Este emaranhado linguístico constrói dramas diários dentro do ambiente escolar, gerando desentendimentos, intolerâncias e violências e deixando os alunos cada vez mais longe do sonho prometido pelo ideário moderno de educação.