A Teoria Semiolinguística surgiu com os trabalhos de Charaudeau e tem como característica preponderante o fato de que, ao inserir o discurso em uma problemática comunicacional e pragmática, permite enfatizar a questão dos sujeitos da linguagem e suas respectivas intenções. A Semiolinguística define o ato de linguagem como o produto de um contexto que tem como participantes um emissor e um receptor, os quais atribuem diferentes interpretações ao discurso, dando às expressões linguísticas sentidos não previstos.
Todo o processo comunicacional está inserido, conforme o autor, em uma dinâmica particular: é realizado por meio da linguagem verbal; a construção do sentido se faz pelas formas verbais; e, além disso, depende das regras de ordenamento do verbal (na construção de um texto). Esta dissertação relaciona também os elementos não verbais (gráfico-visuais e imagéticos), considerando para isso, e em conjunto, pressupostos teóricos da Semiótica Social17.
“Semio”, de acordo com Charaudeau (2005), vem de semiosis, com destaque para o fato de que a construção do sentido e sua configuração são possíveis por meio de uma relação forma-sentido, a qual pode ocorrer em diferentes sistemas semiológicos. Essa construção incide sob a responsabilidade de um sujeito instigado por alguma intenção, isto é, movido por uma necessidade de influenciar o outro, dentro de um quadro de ação específico.
Já “linguística” reforça a forma, isto é, destaca as línguas naturais como a matéria principal da forma. É o que enfatiza Machado (2001, p. 47, grifo da autora): “[...] a presença de linguística no nome é para lembrar ou enfatizar que a forma de ação pretendida pelo sujeito comunicante é, sobretudo, constituída por um material linguageiro oriundo das línguas naturais”. As línguas naturais, dessa forma, conferem um particular “procedimento de semiotização do mundo” – a partir da combinação específica de suas unidades (nos níveis da palavra, da frase e do texto) e da dupla articulação possibilitada pelo material linguageiro (CHARAUDEAU, 2005).
O sentido, nesse contexto, é construído a partir de uma troca social e por meio de um duplo processo de semiotização do mundo: de transformação e de transação, como pode ser observado pela Figura 2, a seguir.
FIGURA 2 – Duplo processo de semiotização do mundo
Fonte: Charaudeau (2005).
O processo de transformação altera o status do “mundo a significar” para “mundo significado”, a partir da ação de um sujeito falante. Em tal processo, atuam as seguintes categorias: nomeação (identificação dos seres; identidades nominais), qualificação (aplicação de propriedades e características aos seres; identidades descritivas), narração (descrição das ações nas quais os seres estão inseridos; identidades narrativas), argumentação (fornecimento dos motivos das ações; relações de causalidade) e modalização (avaliação dos seres, propriedades, ações e motivos).
Já o processo de transação consiste em conceder ao “mundo significado” a posição de objeto de troca entre um sujeito emissor e um receptor, ou destinatário. Em outras palavras, possibilita ao sujeito produtor do ato de linguagem dar uma significação ao seu ato, atribuindo-lhe um objetivo.
O ato de informar participa desse processo fazendo circular um objeto de saber que, em princípio, um possui e o outro não, estando um deles encarregado de transmitir e o outro de receber, compreender, interpretar, sofrendo ao mesmo tempo uma modificação com relação a seu estado inicial de conhecimento. (CHARAUDEAU, 2013, p. 41).
Os parâmetros, ou princípios, envolvidos no processo de transação incluem:
a) identidade (hipóteses sobre a identidade do destinatário-receptor, como saberes sobre o mundo, posição social, estado psicológico, comportamentos, interesses etc.); b) efeito, ou influência que se pretende exercer no outro, já que todo sujeito objetiva atingir o destinatário em seu ato de linguagem;
c) tipo de relação promovida com o destinatário, uma vez que todo ato de linguagem pressupõe um fenômeno de troca entre dois parceiros (tal princípio é o fundamento da noção de contrato comunicacional, a ser abordado adiante);
d) tipo de regulação decorrente dos parâmetros anteriores, sobretudo ao princípio do efeito: todo sujeito que produz um ato de linguagem o faz de maneira a proporcionar um efeito, ou influência, no destinatário que, por consequência, também é munido de influências específicas. Nesse jogo ou troca (ou, ainda, contrato) cada um dos participantes do ato utiliza estratégias específicas (conceito que será visto a seguir) para ser compreendido e provocar uma reação no parceiro, ou seja, fazê-lo agir, orientar o pensamento ou afetá-lo emocionalmente, por exemplo.
É válido afirmar, como expõe Charaudeau (2013), que o processo de transformação é dependente do processo de transação: isso porque o homem, ao se pronunciar, tem como objetivo se colocar em relação ao outro, e não apenas delimitar, descrever e estruturar o mundo. “A linguagem nasce, vive e morre na intersubjetividade. É falando com o outro – isto é, falando o outro e se falando a si mesmo – que comenta o mundo, ou seja, descreve e estrutura o mundo” (CHARAUDEAU, 2013. p. 42).
O ato de linguagem é, também, resultado da ação de sujeitos inseridos em práticas sociais e representações imaginárias da comunidade à qual pertencem. Assim sendo, ele pode ser considerado como resultado de um jogo entre implícito e explícito, correlação que culmina na produção de sentido:
[...] está sempre voltado para outra coisa além das regras de uso da língua. Resulta da combinação das circunstâncias em que se fala ou escreve (a identidade daquele que fala e daquele a quem este se dirige, a relação de intencionalidade que os liga e as condições físicas de troca) com a maneira pela qual se fala. [...] Descrever sentido de discurso consiste, portanto, em proceder a uma correlação entre dois polos. (CHARAUDEAU, 2013, p. 40).
Nesse âmbito, é possível delimitar uma ponte entre a construção do sentido oriundo de trocas sociais e dos processos de transformação e transação, segundo Charaudeau (2013), e o que Halliday pressupõe na Linguística Sistêmico-Funcional (LSF), no âmbito da Semiótica Social. A língua, segundo esta teoria, tem como função primordial “[...] produzir significados, o que acontece a partir das escolhas dos usuários de uma língua ou outro sistema semiótico de acordo com o contexto social em que os usuários estão inseridos” (SILVA, 2016, p. 28). Percebe-se que a interação entre os sujeitos para a produção de significados (transformação do
“mundo a significar” em “mundo significado”) exerce influência preponderante nas duas concepções teóricas.
De acordo com a abordagem funcionalista da linguagem, de Halliday, existe uma relação íntima entre os usos da língua – também denominados “funções” na perspectiva da LSF – e o contexto social no qual ela está inserida. Para a produção de significados, são levadas em consideração tanto as funções, quanto as metafunções, quais sejam: “[...] representar e construir experiências externas e internas ao indivíduo – metafunção ideacional; relacionar-se com outras pessoas no meio social – metafunção interpessoal; e organizar a mensagem, para assim construir sentidos – metafunção textual” (SILVA, 2016, p. 33). As metafunções de Halliday, como será visto no capítulo 4, nortearam a criação da Gramática do Design Visual (GDV), de Kress e Van Leewen (2001), teoria que faz parte do escopo teórico- metodológico proposto nesta pesquisa para a análise das imagens presentes nas capas de revistas – a partir da abordagem da multimodalidade, na qual o sentido é resultado não só das produções verbais mas também das não verbais (nesse caso, imagéticas).
O fato de o ato de linguagem, segundo Charaudeau (2013), ser o resultado da ação de sujeitos inseridos em práticas sociais e representações imaginárias da comunidade a qual pertencem e de que o homem, ao se pronunciar, tem como objetivo colocar-se em relação ao outro tem estreita afinidade com as metafunções ideacional e interpessoal, de Halliday, respectivamente ligadas às formas de representar o mundo e de relacionamento entre os interlocutores. Isso tudo está relacionado, também, aos modos pelos quais os sujeitos se comunicam, tendo em vista, conforme Charaudeau, o jogo entre implícito e explícito mencionado anteriormente: este é exatamente o teor da metafunção textual, responsável por organizar a mensagem, o discurso. Destaca-se que esse percurso comparativo entre as abordagens de Halliday e Charaudeau é importante para que se justifique a adoção das duas abordagens teóricas de Análise do Discurso adotadas para essa pesquisa, anglo-saxônica e francesa, representadas pela Semiótica Social e pela Semiolinguística18.
A seguir, são listados e descritos os diversos sujeitos pertencentes ao ato de linguagem, bem como a noção de contrato de comunicação, estratégias discursivas e a inter- relação entre tais conceitos na perspectiva semiolinguística.
18 Detalhes sobre a utilização das duas teorias em conjunto podem ser vistos no capítulo 5, “Metodologia”, na Introdução dessa dissertação e, também, em apontamentos ao longo do trabalho.