Nesse cotidiano devocional, a Senhora da Berlinda, que ganhou feições amazônidas, muito adequadas, aliás, à sua condição de Padroeira do Estado do Pará e Rainha da Amazônia56, tornou-se a Senhora do povo paraense, a sua Grande Mãe57. Não apenas uma padroeira, mas verdadeiramente uma mãe. Pelikan (2000) analisou as várias identidades atribuídas a Maria ao longo dos séculos, na trajetória das culturas, desde o papel de Segunda Eva até o de Rainha assunta ao céu. Desses papéis destaco três como fundamentais na lógica da veneração à Senhora de Nazaré: mulier fortis, mater dolorosa e mediadora, e mãe de Deus58. Realmente, há uma ênfase no seu papel, na sua condição de mãe – de Deus e da humanidade. E é essa ênfase que permeia e delineia o culto à Virgem de Nazaré.
No catolicismo popular paraense, o papel do Espírito Santo é absolutamente secundário, conforme demonstrou a investigação realizada no campo e que exponho nos próximos capítulos. Por ora, apenas afirmo que a mediação, proteção e inspiração que ele poderia trazer aos fiéis, são dispensadas, porque estes preferem buscar auxílio em Nossa Senhora de Nazaré59. Desse modo, a função do Espírito Santo é pouco definida, quase nada lhe é atribuído. A Virgem é a medianeira, a intercessora. Aparenta mesmo possuir um status de divindade como o pai ou o filho. Embora tal declaração possa escandalizar a ortodoxia, é livre e corrente no imaginário popular. Tanto Pelikan (2000) quanto Boff (2003) apontaram nesse sentido.
56 Isto foi disposto na Lei nº 4.371, de 15 de dezembro de 1971.
57 Apesar de Nossa Senhora de Nazaré ser a Padroeira de todo o Estado do Pará, por razões de delimitação do
campo, somente me reportarei aos paraenses da capital, Belém. É importante registrar que os demais municípios do Pará também a veneram, inclusive com a celebração de Círios, cujos calendários nunca coincidem com o da capital, para não prejudicar a ida dos munícipes ao Círio de Belém.
58 Mater dolorosa e mediadora são duas partes de um mesmo papel, ou seja o papel de mediadora que só pode
ser exercido por uma mãe que sofreu, e por conseguinte pode intervir solidariamente no sofrimento dos seus filhos.
59 A exceção óbvia é os católicos pertencentes aos grupos de renovação carismática católica, porque estes
Pelikan, ao referir-se a uma iconografia bizantina de Maria – uma placa em que Maria repousa nos braços de Cristo – analisou o que estava presente no imaginário popular ao conceber aquele quadro:
“Maria adulta repousa tranqüilamente, como se estivesse à espera de ser recebida no Céu – aparentemente em corpo e alma, como o Oriente e finalmente o Ocidente terminaram por afirmar –, completando o processo pelo qual sua humanidade fora tornada divina” (2000:281). Em outro ponto de seu texto, ao tratar da transcendência Divina em um redemoinho no Livro de Jó, escreveu
“Mas pela doutrina da encarnação e, de modo mais efetivo, pelo modo como considerava a Virgem Maria, a cristandade católica havia suavizado a austeridade dessa transcendência [divina] tornando a Divindade mais branda e acessível” (2000:278).
Boff analisou o fenômeno da encarnação de Jesus, como um evento através do qual “Maria é elevada ao nível de Deus para poder gerar Deus; só o divino pode gerar o Divino” (2003:114). Para ele, tal fato está presente na religiosidade popular:
“Esta realidade misteriosa da divinização de Maria não passou desapercebida pelo inconsciente coletivo (sensus fidelium) da Igreja. (...) O povo simples em sua fé inocente e desarticulada do discurso da ortodoxia oficial, sempre prestou adoração a Maria. Relaciona-se com ela como alguém, face ao qual nos encontramos absolutamente atingidos; ela emerge como uma última instância de consolo, graça e salvação” (2003:116)
Por causa da idéia da divinização de Maria, na devoção à Senhora da Berlinda, a imagem da Santíssima Trindade é reconcebida para incluir a pessoa da Mãe de Deus. O mais comum é a pessoa dela substituir completamente a do Espírito Santo. Para alguns fiéis mais carismáticos, ela não o substitui, mas se sobressai muito mais, pois é ela a mediadora na preferência popular.
Logicamente, esse não é o discurso oficial da Igreja, que tampouco aprova tais licenças da religiosidade popular, muito embora haja um incentivo velado. Transcrevo abaixo um trecho de um comentário de um clérigo, o monsenhor Aderson Neder que revela ao mesmo tempo um estímulo a um pensamento fixo em Nossa Senhora de Nazaré e um recuo ao afirmar a quase onipotência dela. O artigo foi publicado em O Liberal60
, no dia 13 de outubro de 2002, dia do Círio de Nazaré
“(...) só o amor por Ti [Nossa Senhora de Nazaré] ajuda a superar qualquer pensamento negativo que possa abater o coração. Socorre- nos, ó Mãe! Tu és a maior intercessora junto do Pai e teu pedido a Ele tem um poder quase onipotente (...)” – Caderno Cartaz, p.4.
O capítulo 3 lança um olhar sobre essa elaboração extra-oficial do culto, a partir dos fiéis que colocam como principal expoente desse sistema religioso uma senhora, mãe de todos, com ilimitado grau de influência junto a Deus e a Cristo. Essa elaboração popular traz nuanças diferentes para as representações sociais. Partindo desses pontos, surgem diversas questões, como por exemplo: Quais as implicações sociais da crença em uma divindade feminina? Que modelos essa crença pode trazer para as mulheres devotas? Quais as conseqüências disso para as relações familiares? Vamos retomar o Círio para trazer elementos que evidenciam o valor dado pelos paraenses católicos a Nossa Senhora de Nazaré, para compreender melhor esses processos..