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2. APORTE TEÓRICO DA PESQUISA

2.3 A ANÁLISE TEXTUAL DOS DISCURSOS

2.3.3 A sequência narrativa

Segundo Adam (2019, p. 114), “para que haja narrativa é necessária uma sucessão mínima de acontecimentos ocorrendo em um tempo t + n”. A característica temporal é, portanto, o que marca o ato de narrar, já que tudo o que é narrado acontece em determinado tempo. O narrador segue assim uma dimensão temporal (t), uma cronologia que organiza os acontecimentos que estão dispostos em seu texto em um determinado número de sequências (n). Pode-se definir narrativa como “um discurso que integra uma sucessão de acontecimentos de interesse humano na unidade de uma mesma ação” (BREMOND, 1966, p. 62 apud ADAM, 2019, p. 114). Só existe narrativa se existir essa sucessão de acontecimentos cronologicamente organizados, não havendo isto, tem-se outro tipo de texto.

Como visto no tópico anterior, a proposição-enunciado diz respeito a uma menor unidade elementar do texto. Na constituição textual, estas unidades se unem, formando períodos e sequências, sendo estas últimas unidades mais complexas quando comparadas aos períodos. As sequências são unidades textuais maiores, não simplesmente em volume, mas em complexidade na organização das ideias do texto (ADAM, 2008). Nas sequências, as proposições se organizam hierarquicamente, uma organização interna e autônoma. Para uma melhor definição, consideramos Adam (2008, p. 204):

As sequências são unidades textuais complexas, compostas de um número limitado de conjuntos de proposições-enunciados: as macroproposições. A macroproposição é uma espécie de período cuja propriedade principal é a de ser uma unidade ligada a outras macroproposições, ocupando posições precisas dentro do todo ordenado da sequência. Cada macroproposição adquire seu sentido em relação às outras, na unidade hierárquica complexa da sequência.

Portanto, o encadeamento das proposições de um texto forma estruturas sequenciais, como a sequência narrativa, e isto é promovido pelo plano do texto, que pode ser um plano fixo, de acordo com a configuração padrão que um determinado gênero pede, ou um plano ocasional, que pode ter ou não um padrão de segmentação (ADAM, 2019). A sequência narrativa tem como característica principal a exposição de eventos e ações promovidas por um determinado agente (ADAM, 2008). Sobre ela, tem-se a seguinte citação:

35 Toda narrativa consiste em um discurso que integra uma sucessão de acontecimentos de interesse humano na unidade de uma mesma ação. Onde não há sucessão, não há narrativa, mas por exemplo, descrição [...]; dedução [...]; efusão lírica [...] etc. Onde não há integração na unidade de uma mesma ação, não há mais narrativa, mas somente cronologia, uma enunciação de fatos não coordenados. Onde, enfim, não há implicação de interesse humano (onde os eventos reportados não são nem produzidos por agentes nem vividos por pacientes antropomórficos), não pode haver narrativa, porque é apenas em relação a um projeto humano que os acontecimentos tomam sentido e se organizam em uma série temporal estruturada (BREMOND, 1966, p. 62 apud ADAM, 2019, p. 114).

O trabalho com a narrativa é pautado na compreensão de que esta sequência textual obedece a uma sucessão de acontecimentos, requer uma unidade temática e pelo menos um sujeito atuante (ADAM, 2019). Os momentos em uma narrativa são hierarquizados em um processo que, como visto em Adam (2019, p. 124), leva em conta uma situação inicial [MPn1], um nó (abertura de um processo) [MPn2], uma (re)ação ou avaliação (uma ação de transformação do processo) [MPn3], um desfecho [MPn4] e uma situação final [MPn5]. Pode também incluir uma avaliação moral explícita ou implícita. Exemplifica-se esse esquema quinário no quadro a seguir:

Quadro 1 – Esquema quinário da narrativa3

MPn1 E mandaram-lhe alguns fariseus e partidários de Herodes, a fim de o caçarem em alguma palavra.

MPn2

E aproximando-se, dizem-lhe: “Mestre, sabemos que és verdadeiro e que não te importas com [a opinião de] ninguém. Pois não olhas para o aspecto das pessoas, mas ensinas segundo a verdade o caminho de Deus. Devemos ou não pagar tributo a César? Pagamos ou não pagamos?”

MPn3

Jesus, conhecendo-lhes a hipocrisia, disse-lhes: “Por que me pondes à prova? Trazei-me um denário para eu ver”. Eles trouxeram-lho e ele diz-lhes: “De quem é esta efígie e esta inscrição?”. Eles disseram-lhe: “De César”.

MPn4 Jesus disse-lhes: “As coisas de César pagai a César; e as de Deus, a Deus”.

MPn5 E eles espantavam-se com ele.

Fonte: elaboração própria

Esse modo de organização envolve um conjunto de macroproposições que se articulam entre si, ou seja, partes com proposições maiores que estruturam a sequência textual. Em MPn1,

36 o leitor é situado com a referenciação de tempo, espaço, pessoas, estados etc.; em MPn2 a trama se desenvolve, sendo uma parte importante para a progressão dos acontecimentos; em MPn3 há uma valorização do narrador sobre aquilo que está sendo contado; em MPn4 vê-se o desfecho dos acontecimentos narrados; por último, em MPn5 tem-se o fim da narrativa, que pode ser seguido de uma moral (MOREIRA, 2007).

Outra característica importante da sequência narrativa diz respeito ao uso de verbos no pretérito e organizadores temporais (aí, então, e, depois...) que “orientam o reagrupamento interpretativo das proposições” (ADAM 2019, p. 119). Segundo Moreira (2007, p. 206), “o uso do pretérito se dá no texto narrativo, não simplesmente porque apresenta fatos no passado, mas sobretudo porque conduz os interlocutores para uma atitude de contração”. O uso desses mecanismos ajuda na sucessão dos acontecimentos narrados.

A sucessão de acontecimentos na narrativa funciona a partir de uma progressão de temas. Tem-se na narrativa, e não apenas nesse tipo de sequência, uma relação tema-rema, importante de ser citada neste estudo. “A informação temática é normalmente dada, enquanto a remática constitui, em geral, informação nova” (KOCH, 2015, p. 94). A observação da progressão temática da narrativa é importante porque é um dos mecanismos que permitem a identificação de uma mudança de PDV, conforme observa Rabatel (2016).

Para o trabalho com as sequências narrativas selecionadas para esta pesquisa, unir-se-ão duas perspectivas dentro da análise do texto, a noção de ponto de vista [PDV] de Rabatel (2016) e a noção de representação discursiva [Rd] de Adam (2008). Ao tratar o PDV, Rabatel (2016) formula algumas adaptações no conceito de PdV de Adam (2008), as quais poderão ser vistas logo adiante. A escolha de se ancorar aos conceitos de ponto de vista entendidos por Rabatel (2016) foi feita a fim de trazer uma perspectiva de trabalho mais ampla, tendo em vista, principalmente, o fato de o autor trabalhar especificamente com uma noção que amplia o nível de interpretabilidade dos enunciados e amplia o acesso às narrativas. Após a compreensão de um pouco dessa abordagem, conclui-se esta seção com a questão das representações discursivas.

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