O Professor Arno Bento Mussoi relata que “os primeiros conquistadores das terras da nossa região, eram provenientes da chamada área de ocupação histórico- cultural de Paraná tradicional” (MUSSOI, 2002: p. 53) e, citando Wachowicz (1987: p. 268), salienta que:
Esta área cultural depois de ocupar o litoral, o planalto de Curitiba e os Campos Gerais até os fins do Século XVIII, expandiu-se no Século XIX para os Campos de Guarapuava e Palmas. No Século XX atingiu sua expansão até Cascavel, Pitanga, Ortigueira, Faxinal, Ibaiti, etc., abrindo um verdadeiro leque em direção ao interior (WACHOWICZ, 1987 apud MUSSOI, 2002: p. 53).
Já Pires (1999) destaca que as primeiras pessoas brancas a se fixarem na região após a família de José Nogueira do Amaral o “Nogueirinha” vieram do Estado de São Paulo e eram parentes de Nogueirinha. Outros teriam vindo de Paranaguá, de Tibagi e de Castro. Várias famílias vieram nessa época, saindo da capital paulista e de Piracicaba-SP e se estabeleceram no atual município de Porto Barreiro, numa localidade em que denominaram de “Guarani” em referência aos indígenas que habitavam a região. Essa comunidade mais tarde chamou-se “Guarani dos Pobres”. Muito antes da criação do Território Federal do Iguaçu como estratégia do governo brasileiro de ocupação dos “espaços vazios” com a chamada “Marcha para o Oeste” em 1943, por volta de 1860, se iniciava a povoação branca em alguns espaços que hoje compõem o Território como municípios do Cantuquiriguaçu:
No caso específico de Porto Barreiro, o primeiro povoamento de não-índios começou pela Comunidade de Guarani dos Pobres, hoje Guarani do Cristo Rei. Em entrevista com um dos mais antigos moradores de Porto Barreiro foi possível identificar alguns dos primeiros habitantes da região.
Os primeiros habitantes que se estabeleceram na nossa região por volta de 1860 foram: Maria Gonçalves da Costa e seu marido José Gonçalves da Costa; Catarina da Costa e seu marido Joaquim da Costa. Dona Maria Gonçalves falecida, em 1915, criou um neto chamado Joaquim Gonçalves nascido em 1900” (PIRES, 1999: p.41).
Oliveira, L. G. (2008) destaca que “logo depois chegaram as outras famílias, Paulista e Gonçalves que se instalaram no local chamado Faxinal Grande hoje município de Laranjeiras do Sul”. Após um período nesse lugar, prosseguiram para o interior: “dali vieram abrindo caminhos até a região do Guarani, a qual recebeu esse nome por ser totalmente Terras Indígenas da tribo Guarani, considerada muito brava e resistente” (OLIVEIRA, L. G. 2008: p. 21). Segundo a autora, Bento Gonçalves da
Costa casou-se com Gertrudinha Nogueira filha de José Nogueira do Amaral. Joaquim Carreiro dos Santos casado com Luisa Maria da Conceição também vieram nessa mesma leva. Luisa da Conceição, filha deste casal, casou-se com Pedro José de Ambrózio, neto de Nogueirinha. Outras pessoas (entre outras) chegaram à região como Pedra Maria da Conceição, Antônio Caetano Nogueira e Manoel Machado, alguns vindos de Guarapuava (OLIVEIRA, L. G. 2008: p. 21).
Portanto, possivelmente, mais de uma leva de brancos se estabeleceram em diferentes espaços do Território em épocas próximas às décadas de 1840 e 1860, tendo como origem o Estado de São Paulo, o Paraná Tradicional e o Rio Grande do Sul (a partir do conflito da Revolução Farroupilha naquele estado), como apontado em conversa com o autor o senhor José Bueno de Oliveira, em setembro de 2002.
José Bueno de Oliveira, nascido em 1914 é citado também por PIRES (1999: p. 45) ao referir-se ao modo de produção no início da povoação branca: “’até mais ou menos 1935 a terra aqui era de uso comum, assim como as plantações e a colheita. Todos plantavam para viver e morar e a criação era de todo mundo.” Para o autor citado, “essa afirmação comprova a existência dos faxinais”, confirmada também por outro morador entrevistado por Pires (1999), chamado Pedro Ferreira Josefi que afirma: “Eu lembro que era ainda menino, na Água do Boi, quando meus pais e parentes viviam no sistema de Faxinais. Eles faziam cercas em volta das plantas de cada família e os animais eram de uso comum” (PIRES, 1999: p. 45).
Segundo relatos: CAMARGO (1999); PIRES (1999); MUSSOI (2002), o modo de produção da população branca que primeiro se instalou e iniciou a ocupação da maior parte do Território hoje denominado Cantuquiriguaçu, “era uma produção voltada à subsistência devido às dificuldades de transporte e comunicação que inviabilizavam o comércio com outras regiões”, limitando-o a poucos itens. Faziam pequenas roças sobre queimadas onde cultivavam mandioca, milho, arroz, feijão, e criavam vacas, galinha, cavalo e porco (extensivamente). Eram quase auto- suficientes, pois quase tudo se produzia no local, num modo de vida caboclo, sertanejo. “A auto-suficiência destas famílias era tão grande que eram mínimas as necessidades de compra no comércio. Os principais produtos que se comprava na venda era sal, querosene, ferramentas, utensílios de cozinha e tecidos” (CAMARGO, 1999: p. 57).
Neste rápido relato do processo de ocupação branca do território, desde seu início, nota-se que apesar de a população local viver por um período considerável
numa condição de isolamento em relação às demais regiões do estado e do país, sua presença nos sertões do Território deu-se prioritariamente a partir dos interesses colonialistas de Portugal em disputa com Espanha (embora tais limites já estivessem estabelecidas pelo Tratado de Santo Ildefonso10 de 1777) e seu atraso relativo à ocupação dos Campos de Guarapuava, somente aconteceu devido às dificuldades impostas pela presença de índios hostis e de mata extremamente densa, além da distância em relação aos povoados de então. A vegetação típica de campo teria facilitado à criação de gado em Guarapuava, que por sua vez atendia às necessidades da sociedade da época “e a criação extensiva de gado era uma atividade em franca expansão” (CAMARGO, 1999: p. 50), pois não exigia grande evolução tecnológica, ao contrário da derrubada da floresta que, segundo um relato de 1926, era milenar: “[...] pelo poente, desvendando-se os ferozes sertões de “Far- West” com suas florestas milenares e robles seculares, de onde destacam os esbeltos palmares e o agreste “taquarussú” [...]” (relato de um viajante, citado por CORREIA, Leocário e OLIVEIRO, Mário apud MUSSOI, 2002: p. 42).
Por tratar-se de um ponto estratégico devido à distância entre Guarapuava e Foz do Iguaçu e, devido à importância que esta última assumiu logo após o final da Guerra do Paraguai na ocupação do Oeste, os governos local, estadual e federal empreenderam esforços para tornar a região mais habitada e atraente.
Dentre esses esforços destacam-se: em 1892 a criação pela Câmara Municipal de Guarapuava, do Distrito de Cavernoso e Laranjeiras, com a eleição de três juízes para o local já no ano seguinte; criação em 1898, pelo governo do Estado
10 Conforme informações do portal Wikipédia, “o Tratado de Santo Ildefonso foi o acordo assinado em 1 de outubro de 1777 na cidade espanhola de San Ildefonso, na província espanhola de Segóvia, na Comunidade Autônoma de Castela e Leão, com o objetivo de encerrar a disputa entre Portugal e Espanha pela posse da colônia sul-americana do Sacramento, situação que se prolongava desde a Paz de Utrecht e a guerra de 1735-1737. O tratado foi intermediado pela Inglaterra e pela França, que tinham interesses políticos internacionais na pacificação das relações entre Portugal e Espanha.
Com a assinatura do tratado, a rainha de Portugal, D. Maria I, e o rei da Espanha, Carlos III, praticamente revalidaram o Tratado de Madrid (1750) e concederam fundamento jurídico a uma situação de fato: os espanhóis mantiveram a colônia e a região dos Sete Povos das Missões, que depois passou a compor grande parte do estado do Rio Grande do Sul e do Uruguai; em troca, reconheceram a soberania dos portugueses sobre a margem esquerda do rio da Prata, cederam pequenas faixas fronteiriças para compensar as vantagens obtidas no sul e devolveram a ilha de Santa Catarina, ocupada poucos meses antes”.
(Cf. http://pt.wikipedia.org/wiki/San_Ildefonso_(Espanha).
do Paraná do Distrito Policial de Laranjeiras; criação da Colônia Militar “Mallet” em março de 2011 e do Distrito Judiciário de Laranjeiras em agosto de 1911; presença do Batalhão de Engenharia para a construção da Linha Telegráfica a Foz do Iguaçu. Deu-se ainda a construção da primeira capela de Santa Ana em 1910, o início da medição da Fazenda Laranjeiras em 1913 e a abertura e construção da Estrada de Rodagem no trecho Lagoa Seca a Catanduvas a partir de 1914 e, em 1919 a construção da Estrada de Rodagem Guarapuava – Foz do Iguaçu o que fez com que o comércio se desenvolvesse e o estado instalasse a Coletoria Estadual em 1913 para a arrecadação de impostos. O fisco já funcionava de forma precária devido à dificuldade de se encontrar alguém com disposição “para se internar nesses sertões e levar adiante os serviços de fiscalização”, a Mesa de Rendas do Governo Federal desde 1904 conforme aponta Mussoi (2015: p. 27), citando Colodel, 2003.
4.1.3 A Formação da Agricultura Tradicional e o isolamento da região
A primeira vocação econômica da região, a exploração extrativista tanto da erva-mate num primeiro momento, quanto da madeira num segundo, correspondiam a interesses capitalistas das oligarquias paranaenses que controlavam o comércio da erva-mate com o Paraguai e a Argentina e a madeira, até a década de 1940, era serrada para o uso na própria região. Somente com a melhora das estradas após a criação do Território Federal do Iguaçu em 1943, é que o comércio da madeira teve maior desenvolvimento. Já a criação de porco por safristas, atendia ao comércio de Ponta Grossa para onde as tropas eram tocadas a pé e se desenvolveu com os primeiros povoadores, os caboclos vindos de São Paulo, mas teve novo impulso com a chegada de um “número significativo de famílias vindas da Frente Colonizadora do Paraná Tradicional, principalmente da região de Guarapuava. Estas famílias eram constituídas de colonos, fazendeiros e safristas.” (MUSSOI, 2002: p. 70-71). As várias levas de imigrantes que chegaram ao Brasil, inclusive ao Paraná, e que dentre os quais alguns vieram para a região depois de passarem por Irati e Guarapuava, coincidentemente, também atendiam uma necessidade premente das oligarquias em substituir a mão de obra escrava por colonos ou assalariados.
Até mesmo a criação e dissolução do Território Federal do Iguaçu (1943- 1946) ocorrem em função dos interesses do governo central, no período nacionalista e autoritário do Estado Novo comando pelo presidente Getúlio Vargas visando
garantir a unidade do território nacional, uma vez que, a partir do atual município de Catanduvas para o oeste, a língua dominante era o espanhol e a moeda era o peso argentino:
Havia uma grande desnacionalização regional. Por exemplo, as línguas mais faladas eram a guarani e a espanhola; o dinheiro era o peso argentino e a navegação no rio Paraná era controlada pela Argentina. O Estado do Paraná se fazia presente de duas formas consideradas negativas, o fisco e a polícia. Getúlio Vargas, ao assumir o governo federal em 1930, nomeou como interventor no Paraná, o general Mário Tourinho, que tomou várias medidas com o objetivo de restabelecer a confiança no país, da população do Oeste e do Sudoeste do Estado (ACILS, 2013: p. 37).
Além disso, havia uma pressão de gaúchos que pretendiam utilizar-se das terras do oeste para a especulação imobiliária, a exploração da madeira e principalmente, o desenvolvimento da agricultura que no Rio Grande do Sul já vivia o enfraquecimento da fertilidade de seus solos. O curto período de existência não propiciou que fossem atingidos todos os objetivos almejados, mas, conseguiu fazer com que o território fosse assegurado pelos brasileiros e a especulação capitalista pudesse se desenvolver mais rapidamente com a construção de estradas, titulação de terras, fortalecimento do comércio e da agricultura, melhoria nas comunicações e o deslocamento da estrutura administrativa para o interior, numa região que fora palco de campanhas militares como na Revolução Federalista ainda nos anos 1893- 1894 e na Revolução Tenentista 1924-1925.
O Território Federal do Iguaçu foi extinto após o fim do período do Estado Novo a partir da aprovação da nova e democrática Constituição Federal de 1946, em que, por interesse de políticos paranaenses, ligados à antiga estrutura administrativa do estado, fez-se a extinção. Laranjeiras do Sul, que havia sido a capital do Território Federal do Iguaçu, por um curto espaço de tempo volta a ser Distrito de Guarapuava, até sua emancipação em Novembro de 1946. Antes da criação do
Território, prevalecia o isolamento da região, caracterizando-a como
desnacionalizada a ponto de chamar a atenção de governantes políticos nacionalistas como Getúlio Vargas. Após a extinção do Território Federal, a região volta a cair no isolamento somente voltando à cena estadual, com a construção das Hidrelétricas no rio Iguaçu, já na década de 1970 (ACILS, 2013: p. 39).
A agricultura no Território Cantuquiriguaçu teve desenvolvimento similar nos vários municípios com destaque para dois sistemas de produção: o tradicional e o
convencional (ou comercial). O sistema tradicional tem seu desenvolvimento desde os primeiros povoadores brancos e até anterior a eles com as práticas de alguns grupos indígenas que praticavam a coivara, técnica de cultivo de várias culturas, cujo manejo é bastante rudimentar. Embora tenha perdido força devido à implantação da agricultura comercial, a agricultura tradicional ou de subsistência ainda é praticada por pequena parcela da população do campo depois de ser, durante longo período, o principal modo de produção agrícola. Segundo Mussoi: “a atividade agrícola caracterizava-se pela: policultura de subsistência [...]; utilização de mão de obra familiar [...]; utilização de instrumentos rudimentares [...]; utilização de técnicas tradicionais [...], e, agricultura associada à criação de animais” (MUSSOI, 2002, p. 113). Esse modelo de agricultura era muito sustentável, pois, era bastante adequado ao meio ambiente, devido ao fato de não se utilizar fertilizantes químicos o que levava à adoção de técnicas como o sistema de pousio, de consórcio de culturas no mesmo espaço e o uso de ferramentas menos agressivas ao solo.
Socialmente, essa agricultura garantia trabalho e ocupação aos numerosos membros da família, onde as tarefas eram divididas conforme a capacidade e as habilidades de cada membro. Eram comuns os mutirões, grandes reuniões de trabalhadores vizinhos que se juntavam em ajuda mútua na execução do trabalho braçal por ocasião de doença ou mesmo na medida em que as roças atingiam o ponto ótimo para a colheita em cada propriedade. A agricultura tradicional era praticada, sobretudo, nas várzeas de rios e áreas dobradas de solo fértil aonde o uso de agroquímicos era dispensável. Um dos elementos que garantia a fertilidade era o descanso dado a terra por períodos que variavam entre 4 a 7 anos, fazendo com que as condições orgânicas da terra fosse restabelecida nas áreas em que não se arava antes do plantio.
As primeiras atividades econômicas do Território Cantuquiriguaçu após a chegada de não-índios, bem como a formação da agricultura tradicional e o isolamento da região são fatos que estão imbricados em sua gênese. Recebendo apenas o estrito necessário da Capital e das regiões que compunham o Paraná Tradicional, para a vida no sertão, e, fornecendo pouca mercadoria, a relação entre essas regiões era frágil. Mussoi (2015) recorre a vários escritores para relatar essa situação. Na exploração da erva-mate e da madeira, o trabalho comandado por paraguaios e argentinos no final do século XIX e início do século XX era denominado obrages “e os trabalhadores na sua quase totalidade paraguaios que se
dedicavam ao trabalho braçal nas obrages eram conhecidos como mensus” (Mussoi, 2015: p. 25). Os mensus, conforme explica o autor eram:
[O] que Darcy Ribeiro denomina de guarani modernos, por serem descendentes de guaranis aldeados pelos jesuítas, nas reduções de Mato grosso, Paraguai e Paraná que miscigenados com as populações rurais, formavam mão de obra braçal, abundante e barata para trabalhos semi- escravos realizados nas obrages, cujo salário quando não faltava, dava apenas para cobrir o débito da conta do armazém (Mussoi, 2015: p. 26). Mussoi cita ainda um levantamento populacional na segunda metade do século XIX em que “foi constatada a presença de 212 paraguaios, 95 argentinos, 9 brasileiros, 5 franceses, 2 espanhóis e 1 inglês. A maioria deles trabalhava nas obrages colhendo, cortando e transportando erva-mate e madeira até a Argentina através do s Portos do rio Paraná”. Quem percorria os sertões do Oeste a partir de Guarapuava sempre se deparava ao pedir informações, com pessoas que as fornecia em espanhol. O abandono por parte dos Estados do Paraná e de Sant Catarina era também uma das queixas da população local conforme Wachowicz, citado por Mussoi. Segundo o historiador, o estado de abandono é revelado pelo fato de “os revolucionários de 1924, comandados por Isidoro Dias Lopes refugiarem-se no Oeste paranaense” (MUSSOI, 2015: p. 28).
O autor aponta diversos problemas que contribuíam para com essa situação de desnacionalização e abandono como as invasões de propriedades de colonos que tentavam se estabelecer no Oeste, por obrageros, a omissão do governo no atendimento às necessidades básicas, falta de escolas, atendimento à saúde, estradas precárias entre outros. A dificuldade com comércio também não viabilizava a lavoura e outras atividades relacionadas à permanência na região. Aqueles que permaneciam produziam basicamente para a subsistência.
4.2 O AGRAVAMENTO DA PRESSÃO SOBRE O CANTUQUIRIGUAÇU
Com o passar dos anos, sobretudo a partir da instalação do Território Federal do Iguassú11 o Território vai se tornando mais populoso, a infraestrutura melhorando e as atividades econômicas se intensificando. A agricultura também sofre mudanças. Com o desgaste dos solos pelas queimadas, mais áreas tiveram que sofrer a ação
11 Essa era a grafia adotada à época.
dos arados, pois, a terra necessitava ser virada para que pudesse melhor ser explorada sua fertilidade e a população de camponeses havia crescido ao mesmo tempo em que a economia cada vez mais adquiria um caráter monetário. Primeiro com tração animal e mais tarde com a mecanização mediante a inserção de tratores e outros implementos agrícolas. A terra antes protegida pela vegetação e explorada apenas de tempo em tempo, passa ser cultivada todos os anos com uma ou mais safras por ano, com a variação dos cultivares.
A intensificação do uso do solo trouxe constantes perdas por erosão. Toneladas de solo foram arrastadas pelas águas das chuvas levando ao assoreamento de rios e lagos. O empobrecimento dos solos aliado a outros fatores fez com que o agricultor fosse forçado a utilizar o pacote tecnológico baseado em agroquímicos e agrotóxicos. Esse conjunto de práticas ampliou os impactos sobre o meio ambiente e sobre a própria sociedade. É o que veremos nos próximos tópicos.
4.2.1 A transformação da Agricultura Tradicional em Convencional (agronegócio) e desterritorialização de Camponeses (pequenos produtores)
Após a década de 1970 com a ampla migração de agricultores rio-grandenses e catarinenses para região, houve a introdução da mecanização agrícola, conforme Gubert Filho (2010), da monocultura de soja ou de milho, do crédito facilitado pelos bancos com investimento governamental, das sementes melhoradas, dos agrotóxicos e agroquímicos, forçando o desemprego no campo e o consequente êxodo rural. Esse processo ficou conhecido como “revolução verde”, prometia aumentar a produtividade para acabar com a fome no mundo e passou a produzir para atender aos interesses da indústria ou agroindústria, dos bancos, e, aos interesses dos governos e empresas agroexportadoras.
A agricultura moderna, aos poucos vem avançando sobre os territórios camponeses, pois, sua matriz tecnológica não é compatível à pequena propriedade e sua adoção por agricultores familiares e camponeses os tem levado ao endividamento com a venda compulsória das terras aos fazendeiros e latifundiários mais consolidados financeira e tecnologicamente. Duas fortes características da região têm convivido desde o início da presença branca: o latifúndio, originário das sesmarias, sistema de partilha da terra implantado pelo estado com o intuito de
incentivar a colonização e o povoamento branco do território indígena, dado a famílias tradicionais ou que prestassem relevantes serviços a essa estratégia colonizadora e, o minifúndio constituído por posseiros que obtiveram ou não o reconhecimento e a titulação do estado a partir da ocupação por longos períodos de pequenas porções de terras, sobretudo nas áreas menos favoráveis a prática da agricultura moderna devido ao relevo acidentado. Ainda hoje, o Cantuquiriguaçu conta com mais de 21 mil pequenas propriedades de um total de 23,1 mil (CONDETEC, 2009: p. 47).
Porém, o avanço do agribusiness sobre as pequenas propriedades, só não tem sido maior devido aos assentamentos de reforma agrária conquistados mediante lutas empreendidas pelos movimentos sociais ligados a Via Campesina internacional, destacadamente pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra - MST. Esses assentamentos já contam com quase cinco mil famílias assentadas. Atualmente, vem se fazendo grande esforço para a implantação e a prática da agroecologia como modo produtivo.
Uma das consequências da agricultura intensiva é a degradação dos solos,