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A sexualidade

No documento ANDRÉIA SILVEIRA (páginas 52-54)

O projeto de Foucault não foi descrever os diferentes comportamentos relacionados ao sexo, nem perscrutar o que a ciência ou o jurídico diziam a respeito desses comportamentos; para o filósofo, importava fazer uma história da sexualidade enquanto experiência, correlacionando-a com os campos do saber, os tipos de normatividade e as formas de subjetividade.

Os estudos de Foucault sobre o dispositivo da sexualidade apontam que, a partir do séc. XIX, a sexualidade foi explicada e analisada de forma detalhada desde a infância até a morte. No que se refere ao corpo das mulheres, ele foi relacionado diretamente à sexualidade e tornou-se sinônimo de imoralidade e devassidão. Todos esses elementos fazem parte de procedimentos de controle ou de regulação da sexualidade investida por um poder que a incita e também a proíbe. A regulação se dá por meio dos discursos que visam à coletividade, na maioria das vezes, discursos médicos que relacionam as questões de saúde e epidemias à sexualidade e, algumas vezes, aos discursos religiosos que associam a sexualidade à salvação das almas. Logo, produziram-se verdades em relação ao corpo que impuseram às mulheres obediência às regras da moral e da medicina; não caso de desobediência, elas seriam as responsáveis por condenarem seus filhos às doenças, a sua família à extinção e a sociedade à perdição das almas. Há também o poder regulador que é investido individualmente no caso do controle da natalidade e das perversões. Para Foucault (1999, p.138).

Estamos em uma sociedade do ‘sexo’, ou melhor, ‘de sexualidade’: os mecanismos de poder se dirigem ao corpo, à vida, ao que nos faz proliferar, ao que reforça a espécie, seu vigor, sua capacidade de dominar, ou sua aptidão para ser utilizada. Saúde, progenitura, raça, futuro da espécie, vitalidade do corpo social, o poder fala da sexualidade e para sexualidade; quanto a esta, não é marca ou símbolo, é objeto e alvo.

O poder direcionado à sexualidade possibilitou que se falasse muito mais sobre ele do que em outros tempos. A relação, ao mesmo tempo com o temor e com o

desejo, colocou a sexualidade na ordem discursiva nas sociedades modernas. Longe de haver uma repressão do discurso da sexualidade, há o estímulo e, a princípio, é esse o interesse de Foucault que percebe que o sexo substitui o sangue, no sentido que este era dotado de toda uma simbologia e a sexualidade, tratada de forma analítica, logo passou-se de uma “simbólica do sangue para uma analítica da

sexualidade” (FOUCAULT, 1999, p.139). Entretanto, não podemos dizer que um

sucedeu o outro, mas que ambos se imbricam, havendo correspondência, por exemplo, no racismo em que as relações de casamento, de família e de educação envolviam os discursos sobre uma raça que deveria ser preservada. O Nazismo é, nesse sentido, o que de forma “ardilosa e ingênua”, para usar as palavras de Foucault, propiciou os controles disciplinares dos corpos com relação ao sangue e à sexualidade.

Foucault se propõe a analisar, em seus estudos sobre a sexualidade, os modos pelos quais os corpos foram tomados como objeto do poder. Esse poder que age sobre o que ele tem de mais vivo, sua sexualidade. O autor explica como o sexo seria o ponto de apoio de manifestações da sexualidade.

A partir do século XIX, vemos elaborar-se essa ideia de que existe algo mais do que corpos, órgãos, localizações somáticas, funções, sistemas anátomo- fisiológicos, sensações, prazeres; algo diferente e a mais, que possui suas propriedades intrínsecas e suas leis próprias: o ‘sexo’. (FOUCAULT, 1999, p.143).

Dessa forma, o sexo aparece sob as formas da histeria, do onanismo, do fetichismo, do coito interrompido e, decorrente disso, pode-se criar uma teoria geral do sexo que agrupava, ao mesmo tempo, “elementos da anatomia, funções biológicas, condutas, sensações, prazer” (p.144), o que fez com que o sexo passasse a ser o segredo a ser descoberto, o mais atraente dos assuntos. O sexo também foi visto como instrumento de inteligibilidade. Por muito tempo permaneceu oculto, obscuro, transformado em pecado pelos discursos cristãos e, mesmo nesse período, buscava- se entender no sexo a constituição de uma identidade, da completude do corpo. “O dispositivo da sexualidade suscitou um de seus princípios internos de funcionamento mais essenciais: o desejo do sexo- o desejo de tê-lo, de aceder a ele, de descobri-lo, liberá-lo, articulá-lo em discurso, formulá-lo em verdade” (FOUCAULT, 1999, p.146).

Desse modo, com o dispositivo da sexualidade foi possível que se chegasse ao conhecimento do próprio corpo, dos seus desejos, do prazer, transformando-o em

objeto de saber. Através dele muito se descobriu sobre o corpo das mulheres, das crianças, dos adultos e da relação entre os médicos e as crianças, os jovens e os anciãos, os adultos e as mulheres. Entretanto, toda essa discussão sobre a sexualidade passou por fortes momentos de repressão, instituídos a partir do séc. XVII, dada a implantação do capitalismo, pois na medida que a força de trabalho era reivindicada não se poderia ceder aos prazeres do corpo, mas discipliná-lo para utilidade ao trabalho.

Assim, a atividade sexual fora reduzida para os momentos íntimos do quarto do casal como função reprodutora e, ainda, com finalidade lucrativa nas casas de tolerância. As crianças eram proibidas de falar, ver, pensar, sobre qualquer assunto com relação à sexualidade, pois elas eram consideradas seres sem sexo. Diante da repressão da sexualidade, o ato de falar sobre ela poderia ser considerado um ato de transgressão ao poder. Dessa forma, psicólogos, médicos, pessoas vinculadas ao direito ou à religião, ao proferir palavras sobre sexo, desculpavam-se com seu público como uma certa solenidade. Para Foucault (1999), essa censura das palavras, do discurso sobre o sexo, produziu o efeito contrário, pois quanto mais se proibia, mais se falava.

Nessa linha, o estudo que Foucault empreende sobre a sexualidade evidencia a positividade do sexo entre os gregos e a negatividade a ele ligada, na idade média, pois estava relacionada à carne e, por isso, ao pecado; depois, para uma regulação fruto do capitalismo, o que culminou na repressão do discurso sobre a sexualidade e na censura das práticas sexuais periféricas. Como práticas sexuais periféricas, Foucault (1999) entende a sexualidade das crianças, dos loucos, dos criminosos e daqueles que não sentem prazer com o sexo oposto. Nossa atenção se volta, nesse sentido, nas descrições de Foucault no que se refere à homossexualidade, para assim entendermos como se dá essa história de repressão e lutas em busca da aceitação (normalidade). Retornar à História, na perspectiva teórica deste estudo, é fundamental para analisarmos os discursos que possibilitam a emergência do enunciado “Basta homofobia-GLBT” (Figura 1).

No documento ANDRÉIA SILVEIRA (páginas 52-54)