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A SIGNIFICATIVIDADE INFORMACIONAL E COGNITIVA

4 ENTRADA LEXICAL E DISTINÇÃO ENTRE UNIDADES LEXICAIS E LEXEMAS

4.3 A SIGNIFICATIVIDADE INFORMACIONAL E COGNITIVA

A significatividade informacional nos permite dizer coisas sobre o mundo, veicular mensagens de uma pessoa para outra, sobre nós mesmos, e sobre as coisas que nos circulam, ressaltando, sobretudo, formas e fatos das coisas.

Quais seriam as propriedades da língua e seus usos abarcando essas formas e fatos? Como uma língua nos permite saber das coisas e nos servir como guias no mundo e nos permitir também apreender o que os outros nos falam, o que ouvimos, sentimos, cheiramos, comemos, sem haver duplicidade em nossas formas perceptuais de sentido? Em outras palavras, quando pedimos a alguém que pegue o vaso amarelo, por que alguém pega o vaso amarelo e não o azul (ressalvados os casos de patologia ocularou cerebral)?

Não há uma relação concreta entre a cor azul e o azul de um objeto, sabemos que isso é uma convenção linguística, faz parte do acordo semântico de uma comunidade de fala. A significatividade informacional não requer necessariamente que a língua se refira ao mundo de maneira predeterminada pela estrutura física do nosso meio-ambiente, e isso é um aprendizado bem cedo na vida de quem adquire uma língua.

Mas podemos constatar o seguinte: se designamos o céu de azul, e se mais tarde encontramos um objeto nunca visto antes, e esse objeto é azul, é evidente que existe uma predeterminação no meio ambiente físico para isso, filtrado pelo domínio do léxico. Quando Gagarin disse certa vez “A Terra é azul”, ele nunca tinha visto a Terra daquele ângulo, mas identificou o azul com o qual já estava acostumado, o qual provavelmente aprendeu por convenção.

A significatividade informacional, portanto, dá-se por convenção, num primeiro momento, mas se amplia para, de fato, predeterminar as coisas num meio ambiente humano. Em primeira instância, segundo Chierchia (2004, p.13)

não se exige apenas que a informação do meio-ambiente seja simplesmente registrada ou percebida sem ativar um input da percepção e do pensamento da mente humana. Ainda, isso provavelmente exija uma correspondência regular e sistemática entre a língua e o meio-ambiente que compartilhamos, que é publicamente acessível de muitas maneiras diferentes pelas mentes humanas. Assim, a semântica da significatividade informacional inclui não somente a relação entre fenômenos concretos ou físicos, mas também mentais ou abstratos. Há questões filosoficamente mais profundas que podem surgir da configuração de tipos diferentes de fenômenos, mas o fato relevante é que, para a semântica, a informação que temos sobre as coisas nos permite falar sobre elas como se fossem dogmas. Permite que as mesmas coisas sejam azuis para todas as pessoas numa comunidade de fala, e ao mesmo tempo.

Em outros recortes semânticos, a significatividade informacional compõe um quadro teórico de algo chamado teorias da referência. Uma semântica das condições de verdade é um tipo particular de teoria da referência. Remetemos o leitor para o trabalho de Katz (1996).

Grande parte das questões de significatividade das línguas tem sido tratada sob uma perspectiva cognitiva. A idéia básica e geral é que temos maneiras de representar mentalmente, e isso significa assumir que o que temos a dizer e a ouvir dos outros fazemos por padrões mentais semelhantes aos que os outros utilizam para nos dizer algo e nos entender também. Há algo na mente humana que nos indica que uma frase como:

(20)[O carro está limpo]

Aprendemos nos parágrafos anteriores que há uma convenção que nos indica o que é uma coisa chamada [carro] e um processo chamado [limpeza], mas relacionar essa coisa a um processo ultrapassa as noções da convenção e se desloca para algo na mente que nos permite juntar [carro] e [limpeza] na sentença [o carro está limpo].

Em outros termos, estamos centrando o foco aqui na capacidade das pessoas em fazer julgamentos sobre as coisas e os processos, no entrelaçamento entre coisas, relações, fatores linguísticos e não linguísticos. Como pontuamos constantemente aqui, conhecer o léxico simplesmente não basta. Conhecê-lo significa relacioná-lo de tal forma que ele seja apenas o ponto de partida para se construir sentenças numa língua. O sucesso da comunicação se abre em duas frentes: fazer links entre o mundo das palavras e o mundo das situações, como também saber que estamos constantemente em processo de representação.

Ter-se intuições sobre as propriedades semânticas das entradas e expressões não basta, pois podemos possuir essas intuições mas elas talvez não façam parte das mentes das outras pessoas: as mesmas entradas que estão na minha mente podem não fazer parte da mente de uma outra pessoa.

Contudo, muito seguramente, os mesmos processos de relacionar palavras e cumprir regras podem ser comuns a todas as pessoas. Por exemplo, talvez não saibamos o que significa uma palavra como [linguística], mas todos os falantes nativos sabemos que uma frase como [o carro está limpo] faz parte da língua portuguesa.

Com certa segurança é possível dizer que ninguém domina ou conhece todos os lexemas de uma língua, mas que todos os falantes nativos do português sabem como lidar com a estrutura da língua portuguesa, e isso é um processo mental, como se pudéssemos lidar com uma significatividade cognitiva que é parte inerente à mente humana. Ou seja, pensar o sentido nesses termos é pensar como os conteúdos são mentalmente representados. Uma dada configuração de símbolos só teria sentido para nós se conseguíssemos penetrar no seu conteúdo – e tê-lo para nós como se ele nos pertencesse – e isso envolve representações mentais, e tais representações são internalizadas e cruciais na mediação entre os símbolos e os conteúdos. A questão que assombra as teorias psico cognitivas é mapear ou deduzir essas propriedades da mente, o que foge ao escopo de nossas investigações sobre entrada lexical.

Num capítulo intitulado Mentalês, Steven Pinker (1994, p.61) tenta fazer isso e levanta uma questão que nos é cara aqui:

O pensamento depende das palavras? As pessoas pensam literalmente em inglês, cherokee, kivunjo (...)? Ou será que nossos pensamentos se expressam por algum

meio de comunicação silencioso do cérebro – uma linguagem do pensamento, ou ‘mentalês’ – e só se revestem de palavras quando temos de comunicá-lo a um ouvinte? Não há questão mais central para compreender o instinto da linguagem.

E por extensão, podemos propor essa rede de relações que estamos discutindo aqui, qual seja, uma semântica das coisificações e uma semântica das representações. Essa é uma discussão que faz história em linguística, e tem repercussão direta no conceito de entrada lexical que estamos fundamentando em nosso trabalho, ao retornamos à proposta do determinismo linguístico: a linguagem determina o pensamento ou o pensamento determina a linguagem? Em outras palavras, atribuímos sentido às entradas ou os sentidos atribuídos a elas já nos chegam relativamente prontos e os utilizamos conforme as convenções?

Pinker radicaliza e tenta desmontar o determinismo linguístico, mas não consegue nos fazer crer que exista algo a que ele atribui o nome de mentalês – estamos sempre numa corda bamba semântica, como já apontamos acima: determinamos a linguagem e somos determinados por ela, ou seja, as coisas podem ser representadas como também podem ser coisificadas por intermédio das entradas.

O que queremos estabelecer aqui é a relação indissociável entre uma teoria das representações das palavras e uma teoria da significatividade informacional que conjugam pensamento, coisificação, cognição e representação.

Segundo Austin (1962, p.30), “dizer algo pode significar fazer algo”. Isso quer dizer que, ao mesmo tempo em que pronunciamos frases e sentenças, em verdade estamos fazendo coisas ao mesmo tempo em que estamos dizendo coisas. Nesse caso, separar representação de coisificação é algo extremamente problemático. Pontuamos, entretanto, que essas coisas interessam sobremaneira à semântica lexical, simplesmente porque o léxico permeia todo esse debate e é pelo léxico que esse debate é possível.

A criatividade lexical é similar à criatividade gramatical. De um número limitado de entradas do dicionário mental, o falante pode produzir um número ilimitado de sentidos em termos funcionais quando faz a passagem do lexema à unidade lexical. Portanto, a unidade do léxico mental, que varia de falante para falante, mas pode ser quantificado em termos de entradas lexicais, submetidas a regras combinatórias, pode permitir a produção de um número possivelmente ilimitado de novas unidades, não especificamente quantificáveis.

Quem poderia admitir que [tábua de passar roupa] se transformasse em um qualificativo, ‘de uma hora para outra’? Acima, deduzimos que os itens são relativamente estáveis e discretos. Eles são estáveis em termos de lexema, num dicionário mental; e discretos em termos de produção semântica máxima a partir de um número reduzido, em

termos quantificáveis, de entradas lexicais. As entradas em um dicionário podem ser até contadas. Isso serve até de propaganda para um dicionário: como “Essa edição do Aurélio vem com sessenta mil verbetes”.

Certa vez, já ouvi falar em pesquisas inúteis do tipo: um analfabeto possui um vocabulário reduzido a X entradas, enquanto uma pessoa altamente escolarizada pode conter um número maior de entradas, como se o léxico mental fosse reduzido a um cálculo matemático.

Conclusão provisória 2: As entradas lexicais, construto hipotético submetido a verificações em termos mentalistas e em termos públicos (visualizados em dicionários como o Aurélio e o Houaiss), se associam a possibilidades de concatenação do léxico para fins cognitivos e funcionais.