5. O legado Judaico
5.2 A Simbologia da luz no judaísmo
A negação da imagem esculpida ou pintada circunscreve a representação a objectos simbolicamente sagrados, conforme as transcrições detalhadas inscritas na Tora e reproduzindo os elementos constitutivos do Primeiro Templo de Jerusalém.
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Estas representações podem ser observadas nos oito painéis que adornam a porta da Arca Santa da Sinagoga de Vercelli, em Itália: as Tábuas da Aliança (Êxodo, 24, 12- 18); a Arca da Aliança (Êxodo, 15, 1020); o Candelabro de Sete Braços (Êxodo, 25, 31- 40); a Mesa dos doze Pães da Preposição das duas pilhas de seis Pães (Êxodo, 25, 23- 30) as doze colunas de bronze (Reis, 7, 15-21); o Altar de ouro para o incenso (Êxodo, 30, 1-10); o Altar de bronze para os sacrifícios (Êxodo 27, 1-8); as duas colunas colocadas à entrada do Santuário (Reis 7, 15-21); a pia das abluções dos sacerdotes (Êxodo, 30, 17-28). Entre os elementos decorativos, além do manto da Tora em seda, aparecem bordados a ouro ou a ouro e prata, símbolos representando os atributos divinos: o ceptro e/ou coroa simbolizando o Poder, a espada símbolo de Poder e Justiça.
Como Deus se revelou a Moisés e a outros profetas na sarça-ardente, surgem o fogo, a chama, a Luz. Entre os vários símbolos, a utilização/representação da luz adquiriu uma importância especial, mas continuar-se-ia apesar de tudo confinada à presença divina na chama das lamparinas de azeite e dos memorah (candelabros de sete braços) ou de candelabros com mais braços (oito para a festa do Hamukkah), também com motivos decorativos da simbologia judaica tradicional. As lâmpadas a azeite, hoje em dia frequentemente trocadas por velas, evocam o milagre do azeite que permite a nova consagração do templo após a sua profanação pelos sírios. O Midrach relata que Antíoco instara os seus soldados a destruir todos os recipientes de azeite sagrado necessários para alumiar a chama eterna. Quando os Macabeus vitoriosos o procuraram, encontraram apenas um frasco, que não daria para mais de um dia. Por milagre, este azeite durou oito dias, o tempo necessário para que os sacerdotes preparassem outro.
A lamparina de azeite sempre colocada no interior do templo e cuja chama se dirige para o céu, deve ser mantida sempre acesa para acentuar a presença constante de Deus, Luz Eterna: uma Luz Criadora, Presencial apesar de oculta porque Vigilante e Sustentadora do(s) mundo(s) e Perene. Trata-se do contraponto dicotómico pacificador de medos assente entre uma realidade humana confrontada com a impermanência e a morte e a esperança num devir numa supra-realidade não contingente, conceitos que a escatologia cristã valorizará.
Os santuários seguem a tradição dos templos antigos. Nas origens, o sacrifício de alguns animais fazia parte do culto que se desenvolvia no Santuário. Diariamente, ao
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nascer e ao pôr-do-sol, faziam-se as oferendas e os sacrifícios complementares do shabbat, do primeiro dia do mês e das festas, representavam, no plano colectivo e individual, a realização da Aliança entre o povo de Israel e Deus.
Os sacerdotes obedeciam a um conjunto de indumentárias já usadas por Aarão e pelos filhos, quando entravam na tenda da Aliança ou se aproximavam do altar. As vestes dos sacerdotes (quatro para os sacerdotes e oito para o sumo-sacerdote) eram e são as vestes tidas como apropriadas para actos ritualistas e minuciosamente descritas na Tora, a saber: o ephod (uma espécie de colete), um peitoral, uma capa, uma túnica, um turbante e um cinto. O ephod é feito de ouro e de lã azul, púrpura ou escarlate, e ainda de linho retorcido. As alças do ephod levam duas pedras de ónix, cada uma com seis nomes das doze tribos. Quatro filas de pedras preciosas (cada uma como nome da tribo que representa gravado) adornam o peitoral, em linho bordado com fios de ouro e lã azul, púrpuras e escarlate, como o ephod. Nele toma forma uma espécie de bolsa, onde se inserem, à altura do coração os urim e os tumim (literalmente, “esplendor” e “conclusão”), consultados como oráculos porque a mensagem divina ilumina as letras gravadas sobre as pedras do peitoral. O conjunto de vestes era usado por Aarão e os seus filhos entravam na tenda da Aliança ou se aproximavam do altar. Os sacerdotes ordinários usavam quatro vestes e o sumo-sacerdote oito vestes.
A presença divina era simbolizada pela chama das lamparinas (fig. 18)67, cujo direccionamento vertical simboliza o encaminhamento na direcção do Céu. O conceito metafórico de verticalidade também está patente no eixo vertical da Árvore da Vida, nas dez Sefirot. A mediatriz que simboliza o equilíbrio, através do qual o Homem caminha da base da árvore sefirótica na direcção da copa, o topo da sefirot onde se presume o local do Céu, o Reino da Luz.
O judeu não deve imaginar o divino, mas apenas fixar-se nos atributos de Deus, o Senhor-Todo-Poderoso, Aquele que é como um Pai para o povo judeu, (não forçosamente um pai no sentido literal do termo, porque o pai gera/engendra e o Homem é um ser criado), pelo respeito ao seu nome sagrado de Inominável, o «Nome que está acima de todos os nomes» e pode ser escrito mas pronunciado só uma vez por
67 vd. Anexo, p. 15.
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ano. Carece de forma, só tendo emanação luminosa, apresentou-se a Moisés na sarça- ardente do fogo, cuja melhor simbologia traduzia a chama/fonte de luz da lamparina.
A simbologia referente à representação da luz é escassa. Ainda assim a representação simbólica presente nos objectos do Santuário, nas vestes sacerdotais ou nas que usavam os leigos, são portadoras de uma vasta e interessante simbologia, algumas das quais reverterão para outros cultos ritualistas.
Os candelabros diferentes consoante a festividade, o início ou final de uma festividade, sendo o de sete suportes a tradução simbólica da profecia de Zacarias e que alude à vinda do Messias « […] Vejo um candelabro todo de ouro […] que tem um reservatório no alto, sete lâmpadas em redor e ainda sete bicos para as lâmpadas […] Estes sete olhos são os olhos do Senhor, que discorrem por toda a terra […] as duas oliveiras são os dois ungidos do Senhor que prestam serviço ao Senhor de toda a terra. As mãos de Zorobabel lançaram o fundamento desta casa; as suas mãos levaram a bom termo a sua construção. Assim saberás que fui enviado a vós o Senhor dos exércitos […]» (Zacarias 4, 2-14).
As tábuas da aliança a recordar os mandamentos entregues a Moisés, a arca da aliança, excertos dos textos sagrados, a estrela de David, as Sefirot, o tefellin e os filactérios são colocados para a oração e servem para que o devoto preserve e reforce o elo à palavra e à raiz cultural do seu povo, rumo a um encontro com Deus.