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A singularidade do psicólogo no cotidiano escolar

3.1 COMPLEXIDADE HUMANA E EMANCIPAÇÃO

3.1.2 A singularidade do psicólogo no cotidiano escolar

Há de se perceber, quando se trata de compreender as ações do sujeito profissional que se reconhece no papel de psicólogo escolar, a importância do fator identitário - identidade com identificações de diversos personagens sociais quando os desempenha, construidos imaginariamente e concretamente. O sujeito compõe, dessa forma, a identidade social e pessoal, hologramática e singular.

A identidade, segundo o princípio aristotélico, é o princípio da diferenciação do eu. Este "eu mesmo" é o resultado da objetivação do eu, ou seja, como ele se apresenta, como é reconhecido. A diferença entre o eu e o eu mesmo é a identificação deste eu no processo de identidade, e é o que garante o acontecimento do computo. A identidade corporal, autocentrada, faz parte do princípio informativo (logiciel). Princípio este, básico para os seres vivos, incluindo as bactérias.

A identidade do princípio informativo exige uma auto-exo-organização - a auto- organização como sistema dependente do mundo externo (MORIN, 1996).

O diferencial da identidade humana é o que vai além da auto-eco-organização: é a auto-eco-noo-psico-sócio-antropo-organização construída na relação do sujeito da espécie humana, espiritual e psicológico, com determinada linguagem e cultura.

O reconhecimento da configuração da construção da identidade humana é o processo de objetivação do sujeito pelo próprio sujeito, é quando este sujeito é ao mesmo tempo sujeito e objeto. Ele se reconhece ao longo de sua própria história como um ponto singular de um holograma. Este reconhecimento é o EU diferente do outro eu, no que se mantém ao longo da sua historicidade; traduz-se no pronome EU algo que mais ninguém, além do próprio sujeito, pode pronunciar por ele.

Cada sujeito é singular em sua existência no mundo e assim deveria ser reconhecido, tanto quanto a singularidade da sua profissão. A necessária especificidade da atuação psicológica no âmbito escolar educacional é uma questão instigante para este estudo, assim como para profissionais e pesquisadores da área, como Marinho-Araujo e Almeida (2005a). As autoras, pautadas em levantamentos de revisões bibliográficas a respeito, acusam como problema recorrente a falta de consistência e clareza sobre a identidade profissional do psicólogo escolar e defendem o reconhecimento de uma especificidade de competências necessárias para sua prática. Segundo elas, essa atuação deve ser engajada e compromissada socialmente, promovendo-se ações intencionais e lúcidas dentro do contexto histórico- cultural:

Para tal, há que se refletir sobre a natureza e constituição da identidade profissional do psicólogo escolar, que se configura como uma questão complexa, relacionada e influenciada por muitos aspectos, especialmente pela história pessoal do psicólogo e pelo reconhecimento social da profissão. (MARINHO-ARAUJO; ALMEIDA, 2005a, p. 245)

Já para Morin (2007a, p. 94), o conceito de identidade está indissociado de subjetividade e de personalidade. Estes três conceitos se referem ao sujeito, que representa a singularidade cósmica e hologramática, um ponto singular, um microcosmo complexo, contraditório. A contradição, na relação dialógica da identidade, é estabelecida pelo autor quando se remete a Hegel, ao dizer que "a identidade é a união da identidade e da não identidade".

A identidade individual imbricada na identidade coletiva compõe a subjetividade que por sua vez compõe sua identidade profissional.

O sujeito é composto pelo que Morin denomina dualidade interior, mecanismo que o capacita para a auto-objetivação, que é a possibilidade do diálogo mental consigo mesmo. No

momento da auto-objetivação o EGO se distingue do EU automaticamente no anel reflexivo. Tendo-se fixado esta distinção, no momento seguinte há a identificação EGO-EU.

Em sua autobiografia, Morin se refere ao seu próprio duplo, dialogicamente percebido: "Às vezes, sinto a presença muito próxima de meu duplo, estranho a mim mesmo e que, no entanto, sou eu mesmo". (MORIN, 2010, p. 11)

Ciampa, ao considerar a ideia de identidade coletiva referindo-a sempre a personagens, afirma:

Utilizando uma linguagem dramatúrgica, pode-se dizer que a política de identidade de um grupo ou coletividade refere-se de fato a uma 'personagem' coletiva; fala-se tanto de um 'branco' ou um 'negro', quanto se pode falar de um 'judeu', um 'psicanalista', um 'velho', um 'jovem', um 'corintiano', um 'trabalhador', um 'vagabundo', etc. (CIAMPA, 2002, p. 5)

Os binômios humanos que se interpenetram dialogicamente - opostos e complementares - no processo de desenvolvimento - realidade, imaginário, consciência, inconsciência, sapiens, demens, são como que ingredientes das múltiplas personalidades que vivenciam papéis identitários. Sociais, subjetivos e objetivos ao mesmo tempo, tais papéis compõem as identificações no processo mimético, construindo a identidade do sujeito.

A identidade humana é una e plural, pessoal e social, temporal e atemporal; cada um é composto pelo presente e passado de sua história pessoal, com todas as idades que já teve, ainda que se manifestem conforme a cirscunstância. De maneira análoga, estão presentes também não só seus pais como ancestrais com todo seu mundo concreto e simbólico, de várias épocas e lugares. Há, inseridos na identidade do sujeito, mimetismos inconscientes dos seus ancestrais. Afirma Morin (2007a, p. 87): "[...] nossos pais e nossos ascendentes estão em nós; suas marcas, estreitamente associadas em nossos genomas, ressuscitam sem parar a presença deles em nós. Carregamos, de maneira confusa, indistinta, essa multiplicidade de seres que sobrevivem, assim, além da morte".

Ao se considerar que a subjetividade humana é o complexo universo de fatores inter- relacionados de cada ser, sua identidade provem do processo de autoidentificação, como sujeito que é.

O processo de identificação EGO-EU (MOI-JE) constroi a identidade humana. Construção descontínua, antagônica, cuja "personalidade dominante pode estar sujeita a eclipses e dar lugar a uma das personalidades, que se cristaliza atualizando-se". (MORIN, 2007a, p. 94). Vale chamar a atenção para se compreender a construção metafórica de eclipses relativa ao princípio da transitoriedade da vida humana.

O complexo EGO-EU funciona como o átomo: uno e múltiplo quando decomposto. É uma unidade múltipla, representada pelo eu e pelo ego, respectivamente. O eu é o indivíduo - indivisível - , que se mantém, unindo a heterogeneidade dos vários egos. Nas palavras de Morin (2007a, p. 94), um "unificador de uma multiplicidade formidável e de uma totalidade multidimensional".

A noção de sujeito implica os princípios de exclusão e inclusão, em que são indissociáveis e interdependentes o Eu e o eu. O Eu aponta para a exclusão, que é o afastamento do outro quando se considera a singularidade do Eu, no sentido egocêntrico, diferenciado, pois é o centro, e ninguém pode pronunciá-lo em meu lugar.

Conforme Morin :

[...] diria que há um princípio 'logístico' de identidade, que pode ser resumido na fórmula: 'Eu [je] sou eu [moi]'34. 'Eu [je] sou eu [moi]' é o princípio que permite estabelecer, a um só tempo, a diferença entre o 'Eu' (subjetivo) e o 'eu' (sujeito objetivado), e sua indissolúvel identidade. (MORIN, 2003, p. 120 grifos do autor)

O eu é quando se diz: Eu sou eu. Este eu, conforme Dias (2008), se define quando o outro se inscreve em mim, tornando-se presente, e esta presença dá a possibilidade de alteridade, o que permite a comunicação entre pares.

3.2 A PSICOLOGIA ESCOLAR NAS BRECHAS DO (IM)POSSÍVEL: IMPRINTING E