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2 ASPECTOS DA RESPONSABILIDADE CIVIL DO ESTADO

2.2 FUNDAMENTOS PARA A RESPONSABILIZAÇÃO DO

2.2.1 A soberania do Poder Judiciário e a soberania do

A irresponsabilidade do Estado por danos ocasionados por atos dos magistrados é, por muitos, justificada pela soberania do Poder Judiciário. Soberania, no célebre conceito de Jean Bodin292, deve ser entendida como o poder absoluto e perpétuo que não sofre limitação de nenhuma outra manifestação de força.

O Judiciário, então, seria soberano em virtude do monopólio que detém sobre a função jurisdicional, detendo poder supremo frente ao múnus de dizer o direito e à coerção na aplicação das leis. De acordo com José de Aguiar Dias, justificar-se-ia a irresponsabilidade como

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SERRANO JÚNIOR, 1996, p. 145. 291

Se os argumentos para rechaçar a presente tese não bastarem mesmo com a elevação da responsabilidade a princípio constitucional específico (art. 5.º, inc. LXXV) e com a sua ampla previsão na legislação, ainda assim se poderia suscitar o fato de que o julgador não pode usar a ausência de texto legal como fundamento para a formação do seu livre convencimento. O art. 126 do CPC, seguindo a orientação do art. 4.º da LINDB, estatui, categoricamente, que: “Art. 126, CPC. O juiz não se exime de sentenciar ou despachar alegando lacuna ou obscuridade da lei. No julgamento da lide caber-lhe-á aplicar as normas legais; não as havendo, recorrerá à analogia, aos costumes e aos princípios gerais de direito”.

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BODIN, Jean. Os seis livros da República: Livro primeiro. 1.ª Ed. São Paulo: Ícone Editora, 2011.

regral geral, sobretudo pelo argumento de que os atos jurisdicionais emanam da soberania do Judiciário, sendo esse conceito “incompatível com a noção de responsabilidade” 293294

.

Tal supremacia serviria para justificar a blindagem total do Estado em face de eventuais prejuízos causados por erros ou pela má prestação jurisdicional, fazendo-se presumir que todos os atos por ele praticados estariam corretos. Essa presunção decorreria do fato de que tais atos foram produzidos justamente pelo legítimo detentor dessa situação jurídica privilegiada, o Estado, na figura dos magistrados integrantes do Judiciário.

Esse argumento, todavia, é inexitoso para amparar a manutenção do entendimento pela imunidade estatal, não encontrando suporte na doutrina atual, nem havendo maiores dificuldades em afastar a sua incidência, sendo possível reconhecer seu caráter meramente histórico.

Com efeito, alega-se que a soberania é característica própria do Estado, enquanto unidade, e não das funções a ele atribuídas individualmente. Soberano é o Estado como um todo, e não o Executivo, o Legislativo ou o Judiciário, aos quais cabe exclusivamente exercer parcelas da soberania estatal, respeitados os limites constitucionais atribuídos às respectivas funções295.

Associar o poder soberano ao Poder Judiciário seria “uma falácia de autoridade”, forjada para proteger o poder público e minar o direito dos administrados prejudicados296. Cada um dos Poderes é, no máximo, independente, e seus órgãos são autônomos, devendo as funções por eles desempenhadas – como a jurisdicional – ser submetidas ao império da lei e às consequências de sua incidência297.

A soberania do Estado, essa sim verdadeira, da mesma forma não autorizaria, por extensão, a proteção isolada e irrestrita dos atos praticados pelo Judiciário. Primeiro, pois retirar o ente público da

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AGUIAR DIAS, 2006, p. 850-852. Note-se que Aguiar Dias não se posiciona favoravelmente à irresponsabilidade, dizendo, apenas, que a doutrina costuma assim entender.

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Nessa mesma toada, destacando a imunidade do poder público por atos dos juízes, Carlos Eduardo Thompson Flores Lenz invoca a soberania do Poder Judiciário, além de outros argumentos. LENZ, Carlos Eduardo Thompson Flores. Responsabilidade do estado por atos judiciais. Revista de Informação

Legislativa. Brasília: Não determinada, vol. 138, abr. 1998, p. 55-63.

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DERGINT, 1994, p. 131. 296

SOUZA, 1991, p. 33. 297

SILVA FILHO, Arthur Marques da. Juízes irresponsáveis? Uma indagação sempre presente. Revista dos Tribunais. São Paulo: vol. 674, dez. 1991, p. 75.

submissão ao ordenamento jurídico é elemento próprio de Estados autocráticos, nos quais vigora a máxima the king can do no wrong, e nos quais o elemento humano é elevado ao patamar de verdadeira deidade. Modelos de Estado dessa estirpe encontram-se na contramão da tendência democrática que impera na contemporaneidade, não podendo ser admitidos, ainda que limitados a apenas uma das funções estatais.

Em segundo lugar, justamente porque não se deve tratar de forma diferente os Poderes do Estado, cada uma dessas funções deve receber o mesmo tratamento, em nome do princípio da isonomia. Nem a doutrina, nem a jurisprudência tem dificuldades em reconhecer a responsabilidade estatal diante de danos ocasionados pela atividade do Executivo, e até mesmo do Legislativo. E ao Judiciário, não foi destinada parcela maior (do exercício) da soberania, não se justificando o tratamento diferenciado que se observa ao se tratar de atos dessa natureza298. Como bem sintetiza Léon Duguit, se a soberania não aparece de modo mais intenso no ato administrativo, e se ela não é utilizada como argumento para contrapor a responsabilidade do Estado-administrador, então não subsiste razão para se desacreditar a responsabilidade do Estado-juiz299.

O argumento da soberania, então, pode ser considerado para esses autores um verdadeiro “argumento de museu” 300

. A soberania do Poder Judiciário, visto que inexistente, não serve para irresponsabilizar o ente público. A soberania do Estado, por sua vez, não deve ser utilizada de escudo para a manutenção de privilégios.

A atividade de julgar não é atividade mecânica, envolvendo diversos outros fatores, inclusive subjetivos, que não podem ser desconsiderados. Com isso, eventuais desvios e prejuízos causados pelo Estado-Juiz não devem ser relevados em nome de uma soberania inexistente, sendo possível ensejarem a reparação civil, ainda que em casos excepcionais.

Diante disso, não cabe defender que o Estado ou o Poder Judiciário sejam considerados totalmente irresponsáveis, como propõe o argumento da soberania. A discussão pertinente deve partir do princípio de que há responsabilidade e deve recair sobre a aferição das hipóteses em que ela se manifesta, possuindo a defesa da imunidade caráter meramente histórico, e não mais pragmático.

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HENTZ, 1995, p. 83. 299

DUGUIT, Léon. Traité de droit constitutionnel: tome III. 2. ed. Paris: Ancienne Librairie Fontemoing & Cie, Éditeurs, 1923, p. 499.

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ARDANT, Philippe. a responsa ilit e l’État u fait e la fonction