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A sobrevivência da arte da memória na Viagem

4. A VIAGEM RETÓRICA

4.3 As paisagens italianas no palácio goethiano da memória

4.3.2 A sobrevivência da arte da memória na Viagem

Uma das expressões mais frequentes no texto da Viagem à Itália para explicar a relação do sujeito percipiente – que inclusive escreve sua percepção – com aquilo que testemunha é “das Bild in der Seele”: a imagem na alma. Só o recurso a essa locução bastaria para incluir Goethe entre os pensadores que conceberam a memória no sentido que expusemos na primeira seção do presente capítulo. Um estudo mais detalhado do relato, porém, evidencia um conjunto de palavras mais extenso que pertence a esse campo semântico da impressão e da gravação, bem como pelo menos uma referência explícita ao palácio da memória. Além disso, nossa exploração, antecipando a última parte, tornará claro que um dos problemas centrais sobre o qual se debruça o autor quando tematiza a sublime imagem memorativa é justamente, como num gesto retórico, a impossibilidade de retê-la. Vejamos.

A primeira aparição de concepções mnemotécnicas na Viagem consta da entrada de 27 de setembro de 1786, em Pádua, na qual se descreve a sala de audiências da Câmara Municipal. Esta é “um gigantesco [ungeheuerste] recipiente fechado, tão gigantesco que é impossível imaginá-lo ou retê-lo na memória, ainda que na mais recente [in der nächsten Erinnerung

zurückrufen]” (GOETHE, 1999: 73; GOETHE, 2000c: 62). De maneira semelhante, em 11 de

novembro do mesmo ano, já na Cidade Eterna, o autor diz acerca do Coliseu que, ao vê-lo, “tudo o mais parece fazer-se pequeno outra vez; é tão grande [groß] que não se consegue reter [behalten] na alma a sua imagem; de novo, ele fica menor na memória, e, ao tornarmos a vê-lo, renova-se a impressão causada por seu tamanho” (GOETHE, 1999: 160; GOETHE, 2000c: 135). A dificuldade de recordar se deve às sublimes dimensões dos edifícios – lembre-se aqui da magnitude em Burke (2013: 101)! Por contraste, isso faz lembrar as específicas recomendações do anônimo autor da Rhetorica ad Herennium acerca da forma e do tamanho adequados dos loci a serem imprimidos na memória: não tão frequentados, nem tão vazios, dissímiles entre si, de extensão moderada e iluminação mediana (ANÔNIMO, 1964: 211-213). Apesar de desrespeitar tais regras, aparentemente impossibilitando a recordação, as duas construções sublimes se inscrevem na memória textual exatamente porque, como as raras e insólitas imagines agentes, põem o contemplador num estado de choque e confusão perplexa (o páthos).

Que o choque sublime, o primeiro momento de encontro com um objeto, seja propício à impressão anímica pode ser evidenciado a partir de outras passagens. Assim, escrevendo na

noite do dia 1º de março de 1787 acerca da viagem a Pozzuoli, situada nas imediações de Nápoles, Goethe (1999: 223), depois de evocar o tópos da indizibilidade, se pergunta:

Quem já não passou pela experiência de ler apressadamente um livro que o atrai de forma irresistível, e de essa leitura ter exercido influência decisiva sobre sua vida, de modo que uma releitura posterior e uma reflexão séria nada podem acrescentar à definitiva impressão inicial?

Um excesso violento que arrebata irresistivelmente – Goethe (2000c: 187) usa o verbo “fortreißen” – e afeta de tal maneira que nenhuma modificação se torna possível; uma experiência marcante, que deixa em sua memória marcas firmes, “uma impressão indelével [einen unauslöschlichen Eindruck]” (GOETHE, 1999: 222; GOETHE, 2000c: 186). Se a palavra escolhida filia o texto à retórica e imponente arte memorativa, a vivência intensa – que é, antes de tudo, de uma paisagem grandiosa – só pode ser gravada em fragmentos desconexos, quase uma coleção de substantivos, adjetivos e gerúndios177:

Viagem de barco até Pozzuoli, pequenas excursões de carruagem por terra, alegres passeios a pé pela região mais fabulosa do mundo. Sob o céu mais límpido, o mais inseguro dos solos. Ruínas de uma riqueza inimaginável, injuriadas e tristes. Águas ferventes, covas a exalar enxofre, montes de escória opondo-se a toda vida vegetal, áreas estéreis e repulsivas, e, no entanto, uma vegetação sempre exuberante, invasiva onde quer que consiga penetrar, erguendo-se acima de toda a morte, envolvendo lagos, ladeando riachos e mesmo impondo o mais magnífico bosque de carvalhos às paredes de uma antiga cratera (GOETHE, 1999: 223-224).

Sublime paisagem e impressão memorativa parecem se combinar muito bem via força patética e choque violento. Outro exemplo dessa conexão está na anotação feita em Roma, no dia de Reis, 6 de janeiro de 1787. Frequentando as igrejas latinas e gregas nesse período natalino, Goethe (1999: 185; 2000c: 156) lamenta estar velho demais para tudo o que não seja verdadeiro, ao que acrescenta: “[a]s cerimônias e as óperas, as procissões e os balés, tudo flui por mim feito água escorrendo por um encerado”. O recurso à água constitui tradicionalmente metáfora para o esquecimento, como já se viu, e para um autor que conhecia a língua grega, isso era significativo: he alétheia, a verdade, é o não-esquecimento. Que essa água escorra por um encerado (Wachstuchmantel) não deixa de ser irônico, uma vez que a cera é o “material anímico” da memória. Na continuação da passagem, entretanto, encontra-se o elemento-chave: “Uma manifestação da natureza [Wirkung der Natur] [...] como o pôr-do-sol visto de Villa Madama, ou uma obra de arte como a muito reverenciada Juno causam-me uma profunda e duradoura impressão” (GOETHE, 1999: 185; GOETHE, 2000c: 156). É uma paisagem –

Wirkung der Natur remete-nos à já citada Naturwirkung do Lago di Garda, constante de Goethe

177 O gerúndio e o infinitivo equivalente (p.ex. “a exalar”) traduzem o particípio presente do original, que também

tem função de presentificação. Para critérios de comparação entre texto e desenho goethianos, com especial ênfase no caráter conciso e fragmento, ver a imagem 3 no anexo da dissertação.

(2000c: 28) – que provoca a impressão profunda. O verdadeiro, o eminentemente memorável, é o sublime quadro do sol poente a partir da villa projetada por Rafael.178

A combinação das duas tradições – a do sublime paisagístico com a da memória como bloco de cera ou palácio – continua posteriormente no percurso siciliano. Na ilha ao Sul da Itália – que, sendo parte da Magna Grécia, “[o] remete à Ásia e à África” (GOETHE, 1999: 264) –, Goethe (1999: 299; 2000c: 252) encontra “a chave para o todo”, a possibilidade de se “forma[r] em [sua] alma um quadro completo [Bild in der Seele]”. Lá, onde observa suas mais detalhadas paisagens – como já pudemos perceber no capítulo anterior – e onde desfruta “da vista mais magnífica que essa viagem nos proporcionou” (GOETHE, 1999: 371): lá está o elemento que dá cabo à impressão da Itália em sua memória. O contato intenso com essas sublimes regiões faz com que as inscreva profundamente no espírito – ou no coração, se pensarmos na palavra decorar. É o próprio autor que o confessa na sua volta para Nápoles: o “fato de eu me ter agarrado e apegado [klebte und haftete] tanto aos objetos propicia-me agora uma inacreditável capacidade de, por assim dizer, tocar a música sem o auxílio da partitura [vom Blatt wegzuspielen]” (GOETHE, 1999: 378; GOETHE, 2000c: 322). Agarrar-se à vista permite firmar e fixar, para usar duas palavras típicas do retóricos latinos, (n)a lembrança, tornando supérfluo o aide-mémoire: a partitura na metáfora, o desenho na realidade.179 E Goethe (1999: 378; 2000c: 322) conclui: “me encontro bastante feliz por trazer clara e plena na alma uma grande, bela e incomparável imagem da Sicília [den großen, schönen,

unvergleichbaren Gedanken von Sizilien (...) in der Seele]”. O imenso e incomparável pode, sim, se abrigar no espaço da memória individual!

Os objetos aos quais o viajante se agarrou não se perdem porque estão ordenados e bem gravados, como as notas numa partitura. O que se constitui por esse duplo movimento – de escolha e colocação ordenadora – é, como se lê na entrada romana de 16 de fevereiro de 1787, o palácio da memória. Para aproveitar sua estada na “velha capital do mundo” e apre(e)nder o máximo que puder, Goethe (1999: 203; 2000c: 171) faz o seguinte:

Há duas semanas encontro-me em constante movimento, desde a manhã até tarde da noite: o que ainda não vi, vou visitar; o que há de mais magnífico [das Vorzüglichste], contemplo pela segunda ou terceira vez, e tudo vai, de certa forma, organizando-se [ordnet sich’s] em minha mente. Os principais objetos de arte vão decerto ocupando a posição que lhes cabe [ihre rechte Stelle], mas deixando entre eles lugar e espaço [Platz und Raum] também para muitas coisas menores. Minhas preferências vão se depurando e se resolvendo, e somente agora meu espírito logra contemplar com

178 Um quadro desse tipo é Roma vista da Villa Madama (1753), do pintor inglês Richard Wilson. Encontra-se na Paul Mellon Collection do Yale Center for British Art.

179 Os verbos kleben e haften ecoam muito fortemente o haerere que observamos, por exemplo, em Anônimo

interesse sereno o grande e o genuíno [dem Größeren und Echtesten (...) sich entgegenheben].

Ao retornar uma e outra vez ao mesmo local, onde se acham os objetos excelentes, o peripatético os imprime com mais força na memória e os ordena melhor no espaço interior – o qual é aqui citado literalmente. O vocabulário utilizado e as concepções detalhadas nessa passagem – como, por exemplo, a frequência ao local para bem imaginar a disposição dos lugares (v. ANÔNIMO, 1964: 210-213) – pertencem de forma evidente à tradição da mnemotécnica, não deixando sombra de dúvida quanto à filiação conceitual de Goethe à antiga retórica latina. Que essa memória conserve objetos grandes e que sua organização permita ainda o movimento de elevação do espírito – veja-se o verbo sich entgegenheben, “elevar-se de encontro a” –, prova a combinação moderna com a tradição do sublime.

Em alguns momentos, tal filiação clássica, por assim dizer, à visão da Antiguidade se desdobra de outra maneira, como, por exemplo, na transformação da imagem da memória (Erinnerungsbild) em imagem qua memória, isto é, na exteriorização da recordação (tal como criticada por Sócrates no Fedro). Daí que, diante da impossibilidade de “fixar essas imagens [sublimes de Michelangelo] na própria alma”, Goethe (1999: 172) recorra ao suporte imagético físico: “[t]udo quanto eu puder apanhar, ao menos em termos de gravuras e desenhos reproduzindo obras suas, vou levar comigo”. Na volta para Alemanha, já distante dos originais, essas cópias “me lembrarão [erinnern] do melhor que vi” (GOETHE, 1999: 180; GOETHE, 2000c: 152). Daí também que os esboços do amigo Kniep sejam chamados de “tão seguro auxílio para a memória [für die Erinnerung so sichere Merkzeichen]” (GOETHE, 1999: 262; GOETHE, 2000c: 220) ou também, como um desenho da pintora Angelica Kauffmann, de

Andenken – recordação, souvenir (GOETHE, 2000c: 169; 228). Não só: as paisagens de

Taormina desenhadas por Kniep ficam como “uma lembrança eterna [Gedächtnis] desses dias magníficos [herrlichen Tag]” (GOETHE, 1999: 350; GOETHE, 2000c: 298). Erinnerung,

Andenken, Gedächtnis – em Goethe, a imagem ainda é medium de várias formas memorativas,

exatamente no sentido da tradição greco-latina.

A ligação intensa entre imagem e memória, claríssima nas expressões e passagens estudadas até aqui, radica, como era de se esperar, na própria formação retórica do autor, que é brevemente delineada em Dichtung und Wahrheit. Lá, rememorando a infância, o velho Goethe (2000a: 32-33) afirma que “em coisas retóricas, esquemas [Chrien] e semelhantes, ninguém era melhor do que eu”, sublinhando ainda “outras precocidades [suas] no que diz respeito à memória [Gedächtnis] e à combinação”. Pela leitura da Bíblia ilustrada por Matthäus Merian e pelo estudo das Metamorfoses ovidianas, seu cérebro se desenvolve “com uma massa de

imagens [Bildern] e incidentes, de figuras e acontecimentos eminentes e maravilhosos” (GOETHE, 2000a: 35). Prova da boa memória imagética de Goethe, de que era “um homem no qual as impressões [Eindrücke] óticas se imprimiam [einprägten] de maneira particularmente boa” – como assegura o crítico Erich Trunz (2000a: 656) –, oferece o próprio viajante pela Itália, quando numa crise de enjoo, deitado na cabine do navio, vê pairar diante de seus olhos “muito nitidamente a imagem da gravura em cobre da Bíblia de Merian” (GOETHE, 1999: 374).180 Talentos retóricos, mnemônicos e imaginativos. Se, como Goethe (2000a: 224) insiste

em confirmar, “antes de todos os outros, o olho era o órgão com o qual eu compreendia o mundo”, era também a partir dele que o recordava.

O pertencimento goethiano à retórica da “imagem na alma” pode ser demonstrado ainda microscopicamente em pequenos detalhes do texto. O uso, por exemplo, do termo Eindruck (impressão), já tantas vezes observados nas páginas anteriores, bem como do seu cognato sich

eindrücken (gravar, deixar uma impressão). Da localização da cidade de Perúgia e da visão do

lago, ou seja, desses dois quadros de paisagem, Goethe (1999: 137; 2000c: 116) diz: “As imagens, guardei-as bem em minha mente [mir die Bilder wohl eingedrückt]”. E mais tarde, escreve que, mantendo “os olhos sempre abertos” durante a viagem, “registro bem em minha mente tudo o que vejo [drücke mir die Gegenstände recht ein]” (GOETHE, 1999: 143; GOETHE, 2000c: 122). Utilizando-se também de outras expressões, diante da Santa Ágata de Rafael, anota que “[g]uardei muito bem sua figura em minha mente [mir die Gestalt wohl

gemerkt]” (GOETHE, 1999: 126; GOETHE, 2000c: 107), e frente a uma escultura de Hércules,

que pôde contemplar no final de sua segunda estadia em Nápoles, diz que busca “gravar o melhor possível em [sua] mente [mir den Herkules einprägte]” (GOETHE, 1999: 402-403; GOETHE, 2000c: 347). Tanto o verbo merken – lembremo-nos dos desenhos de Kniep como

sichere Merkzeichen (GOETHE, 2000c: 220) – quanto o verbo einprägen situam-se no campo

da mnemotécnica: o primeiro como análogo das notae (v. QUINTILIANO, 1968: 228) e o segundo traduzindo o cunhar do týpos.

180 No contexto em que surge essa afirmação, isto é, diante de um naufrágio iminente, o retorno imagético acaba

por comprovar, como o expressa até mesmo o autor, “que a força de toda impressão [Eindrücke] sensorial e moral sempre atinge o seu máximo quando o homem se encontra entregue à própria sorte” (GOETHE, 1999: 374; GOETHE, 2000c: 319-320). É essa também a visão do escritor inglês Thomas De Quincey (2013: 137), o qual, nesse famoso texto sobre o palimpsesto do cérebro humano, defende que as camadas da memória recobertas pelo esquecimento podem ser revividas na hora da morte, da febre ou até mesmo pelo uso do ópio – ou seja, em situações afins ao sublime, a sua elevação e seu excesso mortíferos. Mais uma vez: recordação e sublimidade. A metáfora do palimpsesto – diga-se de passagem – se inscreve na tradição antiga do bloco de cera da alma e da memória qua escrita, tradição modelarmente exposta nos textos platônicos do Fédon e do Fedro.

Das Bild in der Seele tragen, behalten, fixieren, mitnehmen. As expressões são muitas, o

fato sempre o mesmo: Goethe ainda pensa conforme os antigos retóricos e filósofos. Para ele, recordar é imprimir ou retomar imagens via páthos. Como acreditamos ter demonstrado, esse

páthos é – no caso da paisagem, mas muitas vezes também de objetos artísticos – o caráter

sublime como choque violento e como excesso. A próxima seção deixará esse aspecto ainda mais evidente, partindo para isso do tópos do indizível/ indescritível – também recorrente no relato italiano. Como última nota à investigação, que fique claro que tais imagens não se reduzem às representações gráficas, mas são principalmente composições verbais. É num texto, “mediante forma poética digna”, que Goethe (1999: 249) desejaria “dar vida a esta magnífica região, ao mar, às ilhas, aos portos”. O drama Nausícaa – que traduziria poeticamente a paisagem italiana – seria “ein ander Denkmal dieser meiner glücklichen Stunden” (GOETHE, 2000c: 232): um outro monumento dessas minhas horas felizes.181 Não levado a cabo, tendo permanecido do drama somente um fragmento, restou-nos ao menos esse “primeiro” monumento, a Viagem à Itália, escrito eventualmente com tinta de desenho – como sublinha o autor em dois momentos (GOETHE, 1999: 160; 276). As imagens que nos chegaram são suas paisagens literárias: “Quando me ponho a escrever, o que vejo diante dos olhos são sempre imagens da terra fértil, do mar aberto, das ilhas enevoadas, da montanha fumegante, e meus sentidos não bastam para descrever tudo isso” (GOETHE, 1999: 249).