2 A FORMAÇÃO HISTÓRICA E SOCIAL DO VALE DO SÃO
2.5 A SOBREVIVÊNCIA DO CAMPESINATO NOS INTERSTÍCIOS DA
Ainda que a agricultura de base camponesa tenha sido marginalizada e excluída dos projetos do Estado isso não significou a sua eliminação da região. O campesinato passou a se reproduzir nos interstícios da fruticultura e a depender em grande medida dos insucessos dos projetos empresariais. Principalmente a partir do final dos anos de 1980 áreas de empresas falidas e/ou improdutivas passaram a ser objeto de ocupação por movimentos sociais interessados na desapropriação das terras para projetos de reforma agrária. Em meados daquela década, o MST e a Federação dos Trabalhadores Rurais, Agricultores, Agricultoras
Familiares do Estado de Pernambuco (FETAPE) passaram a ter uma atuação mais forte na região, identificando e recrutando trabalhadores no próprio espaço dos perímetros irrigados, mobilizando deste então as famílias camponesas na luta pela terra.
Os primeiros assentamentos surgem na região no final dos anos de 198037 a partir da desapropriação por parte do Incra de áreas empresariais falidas, improdutivas e endividadas. Atualmente, o MST organiza na região quatro acampamentos às margens dos canais de irrigação que agregam aproximadamente duas mil famílias rurais sem-terra (MST, 2017). Enquanto esperam por uma solução do poder público, essas famílias seguem sendo ameaçadas por empresas e produtores rurais interessados no despejo dos sem-terra e na apropriação da terra e da água. Movimentos sociais surgidos no final do século XX buscaram através da luta pela terra obter reconhecimento de direitos sociais pautados na afirmação de suas identidades. É nesse contexto específico que se inserem as trajetórias de vida das famílias do assentamento Mandacaru que foram alvo deste estudo.
O assentamento Mandacaru foi oficialmente criado em 2001, logo após o Incra ter emitido a desapropriação por não cumprimento da função social da fazenda Mapel, situada dentro do projeto de irrigação Nilo Coelho, em Petrolina. Relatos dos moradores do assentamento indicam que a desapropriação da área atendia também aos interesses dos donos da terra, que haviam inclusive incentivado e mediado a ocupação da fazenda no final da década de 1990.
A criação do assentamento Mandacaru envolveu um impasse com a Codevasf já que os antigos proprietários da fazenda Mapel haviam contraído uma imensa dívida referente às taxas de água. Segundo Moraes (2016), a Codevasf não se habilitou no processo de desapropriação para o recebimento das dívidas deixadas pelos antigos proprietários e decidiu, então, cortar o fornecimento de água para o assentamento até que a dívida fosse totalmente quitada. O impasse gerou uma forte mobilização dos agricultores acampados que ocuparam as sedes da Codevasf e do Incra. A pressão resultou no estabelecimento de um acordo em que o Incra se comprometeu a pagar a dívida pendente referente à taxa de água K2 (MORAES, 2016). Não obstante, o fornecimento de água continuou suspenso, o que levou as famílias rurais a instalarem por conta própria equipamentos para a captação da água diretamente do
37 Segundo Cavalcanti et al. (2014) os primeiros assentamentos criados no final da década de 1980 foram
estabelecidos nos municípios de Cabrobó, Lagoa Grande, Petrolina e Santa Maria da Boa Vista. Segundo os autores são atualmente 110 assentamentos assistidos pelo INCRA, o que compreende um público de 4.730 famílias assentadas.
canal de irrigação que passa nos fundos do assentamento. O impasse jurídico entre Incra e Codevasf que envolveu a criação do assentamento Mandacaru segue sem solução até hoje, alimentando rumores e o medo de que um dia os agricultores assentados terão que pagar dívidas retroativas relacionado ao uso da água38.
Não obstante os impasses jurídicos, no início dos anos 2000 são estabelecidos no assentamento Mandacaru 70 famílias rurais em uma área de cerca de 480 hectares. Segundo relatos dos primeiros moradores, muitas dificuldades marcaram o início do assentamento. Durante cerca de três anos os acampados moraram em precários barracos e sobreviveram com a ajuda de doações e do trabalho temporário em fazendas e em empregos urbanos. Somente a partir de 2003 organiza-se o processo de loteamento e demarcação da agrovila, das áreas comunitárias e das áreas irrigadas e de sequeiro. Nesse período, inicia-se a construção das primeiras casas e muitos dos acampados que até aquele momento viviam sozinhos passam a buscar seus filhos, esposas e familiares que ainda viviam em bairros de Petrolina e Juazeiro para se estabelecer definitivamente no assentamento.
Seu Rodrigo (76 anos) – um dos primeiros agricultores a ocupar a fazenda – conta que apesar do corte do fornecimento de água do canal de irrigação, os acampados organizaram uma área coletiva e, aproveitando-se da água armazenada em uma lagoa, obtiveram a primeira grande produção que serviu tanto para suprir as necessidades alimentares das famílias como para a geração de renda por meio da venda de parte da produção. A trajetória de seu Rodrigo é similar à de tantas outras pessoas que encontrei no assentamento Mandacaru. Camponês sem- terra que vivia de pagar renda da terra no Sertão, ele migrou para o Vale do São Francisco com o sonho de obter um lote irrigado, mas acabou morando em uma casa de taipa no bairro João de Deus, em Petrolina, se juntando a outros familiares e amigos que também não obtiveram sucesso e foram convertidos em empregados de empresários da fruticultura.
Então quando eu cheguei aqui em Petrolina eu não trouxe nada, minha filha tinha acabado de ganhar um terreno no [bairro] João de Deus, aí ela disse: “pai já que o senhor não tem um terreno e nós não podemos comprar o senhor faz um barraquinho no fundo do meu terreno”. Eu fiz um barraquinho de taipa, casa de taipa, aí fiquei morando e fui trabalhar numas empresas [da fruticultura]. (…) Eu tava trabalhando na empresa, aí o sindicato rural chegou lá e disse: “Seu Rodrigo nós vamos ocupar uma propriedade, mas como o senhor já está empregado eu tenho
38 Segundo Moraes (2016), a Codevasf chegou a negativar o Incra no Cadastro Informativo de Créditos não
Quitados do Setor Público Federal (CADIN) pelo não pagamento da dívida dos assentados, porém a questão foi retirada da justiça e encontra-se atualmente na Câmara de Julgamento e Conciliação da Administração Federal da Advocacia-Geral da União, onde segue sem solução até o momento.
certeza que o senhor não vai deixar o seu emprego pra ir ocupar uma propriedade e ficar sem ganhar”. Eu digo: “coloque meu nome que eu vou”.
As palavras de seu Rodrigo evidenciam uma trajetória muito comum entre os moradores do local. O assentamento Mandacaru é composto, majoritariamente, por famílias rurais que migraram do Sertão para o Vale do São Francisco com o objetivo de alcançar o sonho da terra própria, mas que inicialmente não obtiveram sucesso e foram marginalizadas e convertidas em trabalhadores da fruticultura irrigada. No entanto, o acesso à terra nunca saiu do horizonte dessas famílias. Desejando abandonar o trabalho na fruticultura, muitos agricultores engrossaram as fileiras do MST. A conquista da terra, por meio do assentamento rural, significou para muitas destas famílias a retomada de um projeto de vida camponês. Assim, apesar de terem ficado às margens das benesses estatais concedidas aos projetos empresariais, as famílias procuraram reconstruir no assentamento rural uma lógica associada à tradição camponesa, convertendo o assentamento em um espaço não apenas de reinvenção e adaptação, mas também de resistência ao modelo produtivo e tecnológico da fruticultura de exportação.
O Vale do São Francisco transformou-se em uma região global, produtora de frutas de destacada qualidade, elaboradas de acordo com as regras impostas pelas grandes corporações das cadeias globais de comercialização de frutas. Nesse quadro, as formas empresariais de produção mais adaptadas à nova matriz produtiva receberam uma série de incentivos do Estado, enquanto nos interstícios da fruticultura irrigada, famílias camponesas marginalizadas seguem lutando para garantir a reprodução e a manutenção do seu modo de vida. Já em Pelotas, Rio Grande do Sul, como será abordado a seguir, graças a uma política pública de colonização, o Estado favoreceu a formação de um campesinato muito mais autônomo em relação à posse da terra, o que permitiu o desenvolvimento de um sistema produtivo localizado, enraizado na cultura e modo de vida local, evidenciando uma situação em grande medida oposta ao caso do Vale do São Francisco.