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Comparando o ser humano com outros animais, Berger e Luckmann atestam que se, por um lado, o organismo humano tem pouca vantagem física sobre o meio natural, os animais têm pouco ou nenhum poder de transformar o ambiente natural a partir das relações sociais firmadas com outros indivíduos da mesma espécie. Nas palavras dos autores:

Em contraste a relação do homem com seu ambiente caracteriza-se pela abertura para o mundo. O homem não somente conseguiu estabelecer-se na maior parte da superfície da Terra, mas sua relação com o ambiente circunstante é em toda parte muito imperfeitamente estruturada por sua própria constituição biológica (BERGER; LUCKMANN, p. 70).

Se a “constituição biológica” do ser humano quase não determina a relação do homem com o ambiente, é a ordem cultural e social que o faz humano em grande medida, definindo e redesenhando a sua humanidade. Para os autores, a “imensa variedade e exuberante inventividade [dos seres humanos] indicam que são produtos das formações socioculturais próprias do homem e não de uma natureza humana biologicamente fixa” (BERGER; LUCKMANN, 1983, p. 73). Diante de vasta evidência, é correto afirmar

que “o homo sapiens é sempre, e na mesma medida, homo socius” (p. 75). Isso significa que a espécie humana se define em seus hábitos, seus valores, sua existência e sua relação com o meio ambiente a partir das construções sociais que ela mesma edifica. Assim, como o ser humano possui uma desvantagem física frente ao ambiente natural, ele precisa exteriorizar uma ordem social que lhe proporcione “um ambiente estável para a sua conduta” (BERGER; LUCKMANN, 1983, p. 77). Ao mesmo tempo, o ser humano se adequa com tremenda plasticidade a essa ordem social que ele mesmo construiu por necessidade de sobrevivência.

São importantes, para o estabelecimento da ordem social, as instituições sociais que, segundo a teoria dos autores, são formadas a partir da consolidação de hábitos, os quais fornecem “a direção e a especialização da atividade que faltam no equipamento biológico do homem” (BERGER; LUCKMANN, 1983, p. 78). Esse processo de institucionalização ocorre quando o ser humano tipifica uma atividade, como pedreiro, padeiro, músico, professor e aluno. Essas tipificações, por sua vez, são recíprocas, e esses tipos realizam ações habituais, assumindo papéis sociais. As instituições possuem uma dimensão histórica, elas controlam a conduta humana e “na experiência real as instituições geralmente se manifestam em coletividades que contém um número considerável de pessoas” (p. 81). Assim, as instituições são diversas, podem ser práticas sociais, valores ou condutas estabelecidas, como o casamento, a Igreja, o Estado, o suicídio honrado e tradicional japonês, o ingresso na idade adulta do menino judeu, o reisado do mês de janeiro no Brasil, etc. Berger e Luckmann sustentam que, quando as instituições são transmitidas a outros, o processo se aperfeiçoa. A instituição ganha qualidade de objetividade. Especialmente pensando na transmissão das instituições de pais para filhos, os autores destacam:

O processo de transmissão simplesmente reforça o sentido que os pais têm da realidade, quanto mais não seja porque, falando cruamente, ao dizer ‘é assim que as coisas são feitas’, frequentemente o próprio indivíduo acredita que é isso (BERGER; LUCKMANN, 1983, p. 86).

Para os autores, “somente com a transmissão do mundo social a uma nova geração (isto é, a interiorização efetuada na socialização), a dialética social fundamental aparece em sua totalidade” (p. 88). Entretanto, como as instituições sociais foram erigidas a partir das relações entre os indivíduos de um mesmo grupo e cultura, as instituições sociais são instáveis. Elas necessitam de aparelhos legitimadores que façam com que elas possam permanecer firmes e serem aceitas como reais pelos seus contemporâneos e pelas gerações

futuras. Os fatos da instituição devem ser interpretados de tal modo que sejam aceitos por aqueles que estão ingressando na ordem social estabelecida, através dos processos de legitimação. Neste ponto, Berger e Luckmann argumentam:

A mesma história, por assim dizer, tem de ser contada a todas as crianças. Segue-se que a ordem institucional em expansão cria um correspondente manto de legitimações, que estende sobre si uma cobertura protetora de interpretações cognoscitivas e normativas (1983, p. 89).

Esses processos de legitimação podem ser identificados em quatro níveis: (1) no sistema transmitido de objetivações linguísticas; (2) no conjunto de proposições colocados de forma rudimentar, por exemplo, os ditados populares (3) na produção de teorias repassadas por um grupo de especialistas; e, por fim, (4) na construção de universos simbólicos. Os universos simbólicos “são corpos de tradição teórica que integram diferentes áreas de significação e abrangem a ordem institucional em uma totalidade simbólica” (BERGER; LUCKMANN, 1983, p. 131). Este nível de legitimação ordena a realidade num todo aceitável para consciência dos integrantes daquela ordem social. O universo simbólico também define os papéis sociais exercidos pelos indivíduos, regrando a sua realidade, bem como estabelecendo regras de conduta e normas de aceitação no grupo. Ele estabelece uma hierarquia das realidades e integra todas elas, fazendo com que desvios da realidade definida como dominante ou “mais real” sejam “contidos pela ordenação de todas as realidades concebíveis dentro do mesmo universo simbólico, que abrange a realidade da vida diária” (BERGER; LUCKMANN, 1983, p. 134).

As instituições, construídas pela relação dialética entre o homem e o meio social, equilibradas por diversos níveis de legitimação, podem ser interiorizadas ou fazer parte da vida do indivíduo humano. Berger e Luckmann argumentam que as instituições sociais são interiorizadas a partir de dois processos: socialização primária e socialização secundária. De acordo com a teoria da construção social da realidade, “a socialização primária é a primeira socialização que o indivíduo experimenta na infância” (BERGER; LUCKMANN, 1983, p. 174). É aquela socialização que acontece de modo mais profundo, a que nos torna seres humanos, tal como os autores definem, um ser social capaz de entender e de interagir com o meio cultural em que está inserido e sobre o ambiente natural do seu espaço geográfico. Já a “socialização secundária é qualquer processo subsequente que introduz um indivíduo já socializado em novos setores do mundo objetivo de sua sociedade”, por exemplo, na escola,

na empresa onde vai trabalhar, em uma religião diferente da religião da sua família de origem. Para os autores, “a interiorização só se realiza quando há identificação”, isto é, quando a pessoa assume o papel que a ordem social lhe impõe. Quando há identificação na interiorização, o indivíduo “absorve os papéis e as atitudes dos outros significativos”, que podem ser seus pais ou seus preceptores, tornando-os seus propriamente, assumindo-os para si. De acordo com Berger e Luckmann:

Este processo não é unilateral nem mecanicista. Implica uma dialética entre a identificação pelos outros e a auto-identificação, entre a identidade objetivamente atribuída e a identidade subjetivamente apropriada (BERGER; LUCKMANN, p. 177).

Pode-se afirmar que, segundo essa teoria, o mundo objetivado socialmente, através da dinâmica da exteriorização dos hábitos e da construção e estabelecimento das instituições sociais, passa a fazer parte da realidade subjetiva do indivíduo através da interiorização. O indivíduo tornou-se parte de um grupo social, tendo passado pelos processos de socialização. O sujeito passa, então, a assumir um papel dentro da estrutura social geral e diante dos outros que se relacionam com ele de modo mais imediato, sejam estes mais ou menos próximos da sua subjetividade. Assim, “a identidade é formada por processos sociais. Uma vez cristalizada, é mantida, modificada ou mesmo remodelada pelas relações sociais” (BERGER; LUCKMANN, p. 228).