Capítulo II Revisão da Literatura
2.1 A Sociedade em Rede
A sociedade não se detém por longo tempo no mesmo ponto, é coagida, pelas transformações que ocorrem nos modos de produção, a reorganizar todo o seu regime económico, social e político, e a adquirir e a transitar para outras configurações. A história da civilização é cronologicamente retratada por Bell (1973) como: a sociedade agrária, extrativa, pré-industrial, industrial e pós industrial e por fim surge a “Sociedade de Informação”.
A “Sociedade de Informação” é à semelhança das outras “(...) uma sociedade inserida num processo de mudança constante, fruto dos avanços na ciência e na tecnologia(...)” (Coutinho e Lisbôa, 2011: 6). Por outro lado, a tecnologia é um produto social: “No uso habitual da tecnologia, o homem, em termos fisiológicos, é perpetuamente modificado por ela, ao mesmo tempo que vai sempre encontrando novos modos de a transformar.” (Mcluhan, 2008)
A tecnologia em que assenta a “Sociedade da Informação” rege-se pelos princípios da eletricidade, o que permite a extensão do corpo e dos sentidos do Homem e um alcance ímpar sobre a humanidade, o que conduz à sua vinculação social e orgânica (Mcluhan, 2008).
Castells (1999) assegura que esta rede elétrica permite assim a formação da rede que sustenta a Internet e que constitui a atual base tecnológica da “Era da Informação” ou a “Era da Informação e da Comunicação” para Mcluhan (2008). As redes de interação que suportam a Internet “(...)são o meio que controla e configura a escala e a forma de ação e da associação humanas” (Mcluhan, 2008: 22). As inteligências múltiplas, constituem os nós da rede, interagem e partilham na rede um determinado contexto cultural, descobrem, transformam e produzem conhecimento coletivo, sustentando, reciprocamente, a rede. A tecnologia passa a mediar a componente social, a colaborativa e a cognitiva.
A Internet personifica um novo modelo de comunicação aberto, espontâneo, igualitário e natural, provoca a mudança do fluxo da informação da vertical para a horizontal, assenta numa ideologia de liberdade e transforma-se numa criação cultural.
A “sociedade de informação” pressupõe “um novo modo de produção”, tendo o computador como a ferramenta, “amigável” e “conversacional”. Esta é uma tecnologia que permite a diversão, o relaxamento e a “ludicidade” (Prensky, 2005). Surge como o culminar do desenvolvimento de outros média e contem-nos. Provoca repercussões na sociedade, passando
a liderá-la (artefacto centralizador, enquanto fonte de informação), mas ao mesmo tempo descentralizador, quando se toma por exemplo o hipertexto.
“O texto contemporâneo alimentando correspondências online e conferências eletrônicas, correndo em redes, fluido, desterritorializado, mergulhado no oceano do ciberespaço, esse texto dinâmico reconstitui, mas de outro modo e numa escala infinitamente superior, a copresença da mensagem e de seu contexto vivo que caracteriza a comunicação oral. De novo, os critérios mudam. Reaproximam-se daqueles do diálogo ou conversação: pertinência em função do momento, dos leitores e dos lugares virtuais.” (Levy, 1996:39). O hipertexto é caracterizado como uma estrutura tridimensional, múltipla e aberta a múltiplas conexões, basta para isso aceder às janelas paralelas e sobrepostas permitindo construir um conhecimento personalizado e contextualizado, com o objetivo da procura do utilizador.
“A estrutura do hipertexto – textualidade aberta, descrita com termos ligação, nós, rede e trajeto – dá conta de um esquema de comunicação em que os sujeitos constroem e remodelam o sentido daquilo que os une ou opõe.” (Silva, 1998: 25).
Assim na “era da mídia desmassificada” (Silva, 2002: 33), os meios tecnológicos permitem “a segmentação e divisão de transmissores e receptores em unidades separadas e descontínuas” (Silva, 2002: 34) num processo de comunicação concêntrico (Silva, 1998) e inacabado.
“Na verdade é somente na tela, ou em outros dispositivos interativos, que o leitor encontra a nova plasticidade do texto ou da imagem, uma vez que, como já disse, o texto em papel (ou o filme em película) forçosamente já está realizado por completo. A tela informática é uma nova “máquina de ler”, o lugar onde uma reserva de informação possível vem se realizar por seleção, aqui e agora, para um leitor particular. Toda leitura em computador é uma edição, uma montagem singular.” (Levy, 1996:41).
O Homem surge como recolector de informação, com um posicionamento nómada em relação à informação, à comunicação e ao conhecimento (Mcluhan, 2008). Neste processo o homem eletrónico (Mcluhan, 2008) é transparente (Castells, 1999) quanto aos seus propósitos e na rede, a sua simpatia recai sobre o termo comunicação uma vez que implica “bidireccionalidade” (Silva, 2002) e cooperação.
O interesse humano intensifica-se, quando é lhe dada a possibilidade de transmitir, de participar, quando a distância espacial com os criadores do conhecimento é encurtada e é estabelecida uma profunda relação assente no diálogo. A magia surge, assim, quando o universo implode e os lugares universais se transformam em lugares comuns, onde impera o coletivo em
detrimento do individualismo, o social é entendido como um produtor e a heterogeneidade é um bem comum (Mclhuan, 2008).
A sociedade em rede vincula os indivíduos qualitativamente, cria regionalismos, neotribos (Maffessoli, 1996), produz informação com sentido, não incorpora, mas antes integra os indivíduos, é por isso seletiva, interativa, pois permite a articulação entre os vários nós da rede (Kumar, 1997).
A sociedade passa assim de uma “(…)organização social piramidal para a tendência reticular(…)” (Silva, 2002: 50) provocada pelo surgimento da interatividade.
A interatividade assoma com o objetivo de adequar os produtos (Toffler, 1984) às necessidades individuais. Por outro lado, permite a intervenção sobre os produtos e assim derruba os produtos massificados e homogeneizados, é preconizado o “faça você mesmo” e assim dada a possibilidade da redimensionação. A interatividade surge como uma solicitação de mais cooperação, criatividade, reação e maiores conhecimentos.
Por outro lado, os indivíduos que participam na rede são claramente diferentes, o “homo zappiens” (Veen, 2005), ou o “Nativo digital” (Prensky, 2005) deixam de estar concentrados no “dever ser” e idealizam o “aqui e agora”, o desejo e a “sensoralidade”, a afetividade, o lúdico, o imaginário, as experimentações coletivas (a interatividade) no âmago das redes sociais.
Este indivíduo é o “homo aestheticus” (sentir comum) que se entrega ao sentimento partilhado em rede, em tribos. Por essa razão dedicam-se aquilo que mais lhe dá prazer, a comunicação, “homo communicans” (Silva, 1998: 7) e a interação com os outros, estar-junto, o que semeia a interatividade, interagindo sobre pontos comuns, há fusão e a “interpenetrabilidade dos corpos”: “A comunicação, interacção, interatividade são para a sociologia do cotidiano uma só coisa. São o cimento, são loco das agregações em torno da criatividade partilhada, do sentir comum.” (Silva, 2002: 65).