Considerações finais do capítulo
FIGURA 60 Imagem publicitária de
1) a retenção especulativa imobiliária que pode ser entendida como a retenção intencional da terra para o aguardo de um melhor posicionamento do preço Esta
3.2. Formação do Estado brasileiro.
3.2.1. Um Estado periférico
3.2.1.1. A sociedade e a ideia de sociedade
Prado Junior (2011) explica a sociedade brasileira contemporânea a partir da compreensão do papel dos três primeiros séculos de nossa história econômica. Segundo o autor, é no período colonial que se encontra a chave para compreender, conhecer e interpretar o processo histórico responsável pelo Brasil
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contemporâneo. O sistema colonial, ditado pelo capital mercantil, correspondeu a uma construção que não teve preocupações em constituir, nos países dominados, uma sociedade unitária e integrada. Muito pelo contrário. A partir das tentativas modernizadoras, a divisão internacional do trabalho e das riquezas, foi conferido ao Brasil, um papel periférico no sistema. Ainda segundo o autor, a sociedade colonial caracteriza-se pela “incoerência e instabilidade do povoamento, pobreza e miséria na economia; dissolução dos costumes; inépcia e corrupção nos dirigentes leigos e eclesiásticos” (apud Lapa, 1999, p. 335). Desta forma a questão extrapola o campo da economia e alcança a estrutura social e política da nação. Monta-se um tipo específico de vida calcada na sociedade colonial. Isto, segundo o autor, explica a dependência permanente, que destina ao fracasso as tentativas de rompimento de ciclos de exploração.
A nação brasileira foi construída pelo sistema colonial de forma particular, a partir de algo novo em termos de sociedade, mentalidade e cultura. Se distanciou do modelo europeu sem dar continuidade a uma sociedade pré-colonial já existente. Esta sociedade não gerou uma autonomia, mas sim um sistema diretamente dependente de condicionantes externos, formando nos agentes hegemônicos locais grupos e classes subalternas. Segundo Prado Junior, estas seriam as causas verdadeiras do “comprometimento do processo” da formação da sociedade brasileira que segue uma “ordem social colonial”. Esta ordem é impositiva, tem origem externa, engendra-se internamente necessariamente com consentimento externo.
A escravidão e a servidão, e seu legado, são adotados pelo autor como principal forma de anulação, degeneração e desqualificação das possibilidades de organização social do país. O autor questiona: “Como pôde, o colonizador, ressuscitar uma instituição, sem hesitar para tanto em despojar-se de todos os valores morais que representavam os pilares sobre os quais construíra a civilização ocidental moderna?” (Prado Junior, 2011, p.267). A crítica ao instituto escravista é presente na construção do autor, que segundo ele corrompe e degrada, que não oferece o mínimo de formação intelectual, em detrimento do esforço físico. Para Prado Junior, “pretos boçais, índios apáticos e brancos degenerados e decadentes” (ibidem, p. 274) seriam o resultado da contribuição da sociedade colonial. Uma
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sociedade apática, sem ideias e ideais, que evitam o confronto com o sustentáculo do sistema que é a estrutura patriarcal (tipo específico de família com poder) como domínio fundiário e associada à Igreja. Este conjunto é a “célula orgânica da sociedade colonial” (ibidem, p.286). Esta articulação assegura o contínuo funcionamento do sistema e compromete as tentativas de rompimento.
Toda ciência tem princípios, de que deriva o seu sistema. Um dos princípios da Economia Política é o trabalho livre. Ora, no Brasil domina o fato “impolítico e abominável” da escravidão (Machado de Assis, apud SCHWARTZ, 1972).
Ainda segundo Caio Prado, podem ser identificados três níveis de articulação social do sistema colonial perpetuados na contemporaneidade: entre os que conferem a ordem ao sistema vinculados ao patriarcalismo e submissão do Estado; entre os primeiros e os que são a eles vinculados diretamente a partir da ordem social e da forma de trabalho imposta; e os que buscam minar tal ordem, vistos como grupos incoerentes e sem nexo moral pela ordem dominante. Ao reconhecer esse último nível de articulação social, que contradiz as linhas gerais estabelecidas pelo sistema, Prado aponta para um caminho para sua modificação.
A revolução, em seu sentido real e profundo, significa o processo histórico assinalado por reformas e modificações econômicas, sociais e políticas sucessivas, que, concentradas em um período histórico relativamente curto, vão dar em transformações estruturais da sociedade, em especial das relações econômicas e do equilíbrio recíproco das diferentes classes e categorias sociais (PRADO JUNIOR, 1966, p.).
O autor coloca a seguinte tese: existe uma barreira de origem ao desenvolvimento da sociedade brasileira. O povo é socialmente desqualificado para responder às exigências do mercado. Quando muito, se acomodam ao seu papel na periferia do sistema. Em contraposição Schwartz (1972) constrói a tese que dá título a este ponto do trabalho. O autor apresenta uma explicação histórica para o deslocamento forçado de concepções externas de desenvolvimento e o produto resultante no país:
É claro que a liberdade do trabalho, a igualdade perante a lei e, de modo geral, o universalismo eram ideologia na Europa também; mas
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lá correspondiam às aparências, encobrindo o essencial: a exploração do trabalho. Entre nós, as mesmas ideias seriam falsas num sentido diverso, por assim dizer, original. A Declaração dos Direitos do Homem, por exemplo, transcrita em parte na Constituição Brasileira de 1824, não só não escondia nada, como tornava mais abjeto o instituto da escravidão. A mesma coisa para a professada universalidade dos princípios, que transformava em escândalo a prática geral do favor. Que valiam, nestas circunstâncias, as grandes abstrações burguesas que usávamos tanto? Não descreviam a existência – mas nem só disso vivem as ideias (SCHWARTZ, 1972, p.151).
Segundo o autor, por sua mera existência, a escravidão indicava a impropriedade das ideias liberais (Schwartz, 1972, p.153). Sendo um escravo uma propriedade, pode ser vendido, mas não despedido. O trabalhador livre dá mais liberdade a seu patrão, além de imobilizar menos capital. A escravatura impunha à racionalização produtiva. Não especialização do trabalho. Não é objetivo do dono de terra possibilitar o trabalho do escravo num mínimo de tempo, mas num máximo. A disciplina escravista dependia mais da autoridade do que da eficácia. O estudo do processo produtivo, e sua modernização continuada eram sem propósito no Brasil (Schwartz, 1972).
Ainda segundo o autor, embora a forma de trabalho que viabilizava a força produtiva fundamental, a escravidão, não foi o nexo efetivo da vida social brasileira. A colonização produziu, a partir do monopólio da terra, três classes: o latifundiário, o escravo e o homem livre, o último na verdade dependente do primeiro. Para o homem livre, o acesso à vida e aos bens dependia materialmente dos favores conseguidos através do latifundiário. O favor, mecanismo pelo qual se sustenta a maior classe, era sempre vinculado a uma relação produtiva, assegurada pelo uso da força e da coerção.
Os aspectos contraditórios do ideário externo amplamente divulgado e a real absolvição social colonial são ressaltados da seguinte forma por Schwartz: autonomia e dependência; a universalidade da lei e a exceção à regra; a remuneração objetiva e a remuneração relacionada; a ética no trabalho e o favorecimento. Ao longo de sua reprodução social, as elites brasileiras
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sobrepuseram à sua realidade ideias europeias, sempre em sentido impróprio e buscando o benefício próprio.
Neste mesmo viés, Faoro (2001) aprofunda a análise ao abordar a enorme resistência da sociedade brasileira às transformações fundamentais que impactam diretamente sobre patrimonialismo e sua relação de benefício frente ao Estado. Para o autor, a construção da colônia portuguesa no Brasil foi patrimonial e estamental. O grupo de comando não era uma classe social construída a partir das relações econômicas, mas um estamento, ou seja, a partir da estratificação social. Na sociedade estamentária os membros têm consciência de pertencer a um mesmo grupo qualificado para o exercício do poder por meio de uma teia de relacionamentos sociais e econômicos (Faoro, 2001). O sistema colonial brasileiro foi resultante de um Estado português estamental. Dessa forma o poder local da colônia foi confiado à pessoas que garantiriam os vínculos com a metrópole portuguesa. A ameaça à integridade da posse levou a um sistema de delegação de autoridade aos agentes locais, contudo preservando o monopólio do sistema de tributos. Posteriormente, frente a mais uma ameaça de perca do domínio, a metrópole cria um governo-geral na colônia que viria a limitar as aspirações autonomistas.
Com a Revolução de 30, o estamento brasileiro evoluiu de aristocrático para burocrático, acomodando-se às mudanças sem no entanto alterar as estruturas sociais mais básicas. Existia a clássica premissa que era preciso mudar para realizar a modernização nacional, mas o poder não deveria ser transferido às camadas médias e populares. Daí a necessidade de um Estado forte orientador, cuja espinha dorsal era o elemento militar (Faoro, 2001).
O entendimento destes aspectos nos leva a seguinte questão: como a sociedade brasileira, patrimonialista e dependente, conferiu um estilo próprio à implantação e consolidação do Estado capitalismo em seu interior? O que aconteceu no Brasil foi que a camada senhorial e proprietária de terras se assegurou no poder político, obviamente sem promover mudanças no plano social ou econômico. O centro dinâmico da economia continuou, desta forma, eminentemente voltado e submetido ao mercado externo.
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Verificamos, segundo Faoro, que no lugar da lógica de classes, esta consolidação se deu de forma estamentária, ou seja, agregação de indivíduos conforme critérios de inclusão no desfrute de uma série de vantagens vinculadas ao intercâmbio social e privilégios. Fernandes (2006) amplia esta leitura e afirma que tal esquema se impôs-se não apenas social e economicamente, mas também politicamente, junto à sociedade que aproveita oportunidades econômicas oferecidas a partir de privilégios sem respeitar limites. A mais importante característica é a orientação particularista, voltada para o privado.
Esta “burguesia” que assume o papel hegemônico recorre prontamente às formas autocráticas (antidemocráticas) de organização do poder, mesmo depois da república. A autocracia referida por Fernandes, (2006) não é sinônimo de autoritarismo. A autocracia relaciona-se mais estreitamente a concentração exclusiva e privatista do poder em um estamento. Converte o estado democrático em instrumento de ditadura do estamento. A autocracia burguesa brasileira se transvestiu em um processo legitimatório democrático, caracterizado por uma associação entre desenvolvimento capitalista e autocracia.
Viana (1987) caracteriza as instituições políticas brasileiras, mostrando-as como resultado de uma formação histórica específica, em tudo diferente da trajetória dos países onde a democracia liberal foi forjada. A democracia europeia e norte- americana é ancorada em bases socioculturais relacionadas à coletividade. Tanto que no cenário europeu, uma grande parte dos países possui um regime monárquico, entretanto democrático.
No Brasil, utiliza-se ainda do idealismo jurídico3. Divulga-se e assume-se que a
materialidade da legislação por si só pode de fato operar uma ação transformadora da sociedade. Ou seja, transpor instituições de uma sociedade por meio da replicação de seus dispositivos constitucionais. Tratar os fatos da política do ângulo
3 Viana (1987) constrói duas acepções do direito: o direito-lei - obra das elites de juristas, materializada em leis, códigos, constituições; e o direito-costume: criado pelo “povo-massa” e sua mais autêntica expressão, constituído por sistemas orgânicos, não sistematizados, decorrentes de usos e costumes tradicionais centenários, por vezes, desconhecidos pelas elites.
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exclusivo da norma jurídica, da lei escrita. O que importa, nesta conduta, é a coerência interna do sistema de regras abstratas, e não da sua adequação às realidades da vida, à sociedade e seus costumes. Ora, se uma nação civilizada só poderia atingir suas metas (governo do povo, liberdade civil e política, administração local, ordem pública, paz social, progresso) pelos métodos que a tradição anglo-saxã consagrara (democracia, sufrágio universal, partidos políticos, supremacia do parlamento, separação de poderes), tudo isso teria pouco a ver com as verdadeiras instituições políticas nacionais.
Como forma de atuação típica dos países socialmente atrasados, o idealismo jurídico é constituído de uma elite que vive entre dois mundos: do seu povo, com suas contradições não inteiramente conhecidas por ela; o outro mundo, o europeu ou norte-americano, que lhe dá as ideias e as diretrizes. Segundo Viana (1997) as reformas políticas não podem ser operadas por força de lei, afirma ainda que as leis têm reproduzido e viabilizado a lógica do favorecimento dado legitimidade a decisões ilegítimas. As reformas requerem a modificação de um comportamento coletivo e de uma cultura política local incorporado pelas novas instituições que devem superar a teimosia em copiar referências externas. Então, qualquer diretriz que parta unicamente do princípio da neutralidade do Estado, do espírito de coletividade social é fadada ao fracasso, já que a sociedade brasileira foi herdada do sistema colonial essencialmente anti-urbano, privatista e anti-igualitário. Com relação a anti-urbanidade, verifica-se que o sistema de distribuição colonial da terra favoreceu a dispersão da população. A rala vida urbana, concentrada no litoral e posteriormente nas vilas mercantis, em nada havia de democrática. Os detentores do poder não moravam nas cidades. O centro da gravidade do sistema era a grande propriedade rural, que atraia populações, engendrando uma vida cultural peculiar: uma sociedade dispersa, rural, pouco coesa e fortemente hierarquizada, cuja cultura política caracteriza-se com privatista, particularista, personalista, localista e paternalista-autoritária. Sobre este contexto, as novas elites burguesas do século XX quiseram impor a democracia.
Ao impor o sufrágio universal, o Estado burguês-democrático não criou ao mesmo tempo as estruturas sociais os complexos culturais necessários ao bom
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funcionamento do novo regime. As mudanças não engendraram modificações sociais e econômicas, mas estritamente políticas, mais precisamente eleitorais. Segundo Viana (1987):
O partido do coronel, tornando uma seção ou fragmento municipal do partido do governador, constituía um conjunto muito unido de clãs feudais e parentais associados para explorarem em seu favor os cargos públicos locais (Viana, 1987, p.253).
A união política, contudo, não representava uma modificação nos complexos culturais, ou seja, na situação de dependência dos novos “cidadãos”. A democracia sobreposta a uma realidade sociocultural transformou o processo eleitoral em um processo violento, cujo resultado é uma farsa. Não existia a perspectiva de transformar o cidadão em autônomo. O nepotismo, por exemplo, foi uma das instituições nascidas por meio do implante do novo regime em um terreno social preparado pelo sistema colonial. Como a estrutura social dispersa poderia ter alguma ideia coletiva de nação? Os partidos nasceram assim como representação de interesses privatistas para a viabilização de interesses particulares dos chefes e de seus protegidos. Mas estaria o Brasil, então, condenado ao atraso imposto pelo legado sociocultural da colonização?
Apesar destes males de origem, Viana (1987) afirma que o império possibilitou a criação uma elite política com consciência dos interesses nacionais. Produto do mérito individual e da vontade de um imperador estadista, que selecionou representantes e soube lhe conferir papeis na política nacional, claramente, contudo, em favor da metrópole. Esta construção de uma elite nacional, segundo o autor, foi interrompida pela república, eliminando o papel do moderador ou de uma instância situada acima dos interesses locais, gerenciados contudo por decisões centralizadas. Para o autor a solução seria o fortalecimento de uma elite que guardasse e implementasse objetivos de caráter coletivo, e que essas ações poderiam acontecer de duas formas: a primeira, lenta e natural, acontece por meio de transformações ao longo do tempo, quase imperceptíveis e inerentes à sociedade; a segunda, a que interessaria, seria o resultado de uma iniciativa e decisão consciente de mudar, materializada em um plano de reformas, posto em prática por políticas de Estado. Apesar de não ser impossível, seus resultados,