CAPÍTULO II -Educação ao longo de toda a vida: A desmaterialização do trabalho e a
2.2. A gênese da teoria da sociedade da informação
2.2.2 A Sociedade Pós-industrial como Sociedade Pós-Moderna
2.2.2. A Sociedade Pós-industrial como Sociedade Pós-Moderna
Para Kumar, o pós-modernismo é a mais abrangente das teorias recentes contemporâneas. Incorpora e acolhe todas as formas de mudança, “cultural, política e econômica” (1997, p.15) não sendo nenhuma o “vetor” privilegiado do movimento em direção à pós-modernidade: “... o que os outros vêem como provas de pós-fordismo ou da sociedade da informação, ela tranqüilamente agrupa como componentes de sua própria e ambiciosa conceituação de fenômenos correntes” (ibid., p.16).
Para Kumar existe uma diferença conceitual entre pós-modernidade e pós-modernismo que é preciso esclarecer. O pós-modernismo estaria mais ligado à perspectiva de crítica cultural, da arte e da modernidade enquanto a noção de pós-modernidade está associada a uma crítica mais geral da sociedade moderna. Contudo, ele mesmo chama atenção para o fato que
os termos são usados correntemente como sinônimos e isso nos dá uma real dimensão do que é a pós-modernidade, “ela apaga as linhas divisórias entre os diferentes reinos da sociedade – político, social e cultural” (ibid., p.113).
Para o autor, a teoria da sociedade pós-industrial foi a primeira a ser absorvida pela teoria pós-moderna. Com o objetivo de fazer um balanço crítico da modernidade e do seu projeto de sociedade, que em alguma medida era industrial, os teóricos desta vertente negam a principio a categoria de totalidade e por conseqüência as metanarrativas. Culpam a razão, os ideais iluministas41 e tudo que surgiu deste período, inclusive a própria crítica ao iluminismo como formularam Marx e os marxistas. Para Miriam Limoeiro, “o pós-moderno é muito mais do que uma estratégia teórico-ideológica (...), porque é marcado profunda e positivamente pela crítica contundente ao Iluminismo, mas certamente também contém um sentido político importante de superação de Marx e do marxismo” (2006, p.29).
Essa perspectiva fragmentária que surge diante da crítica à sociedade moderna denota para os pós-modernistas a impossibilidade de compreender o todo diante da complexidade das relações sociais. A sociedade pós-industrial necessitaria de outras relações, impondo um novo ritmo à coletividade. Segundo Kumar, para estes teóricos a nova sociedade desconstrói a noção clássica de classes sociais e revela uma diversidade de identidades reprimida pela modernidade. Para além disso, a pós-modernidade teria uma postura “desdenhosa” em relação ao passado. A própria rejeição das grandes narrativas apontaria para isso. Com a desvalorização do tempo, ocorreu a valorização do espaço. “O plano do presente eterno é espacial se as coisas não tiram a importância do seu lugar na história, podem tirá-las de sua distribuição no espaço (...) a implosão espacial produzida pela rede de informações e comunicação global é um exemplo disso” (Kumar, 1997, p.156)
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Para os pós-modernos, os ideais tão caros aos iluministas como liberdade, igualdade e fraternidade, defendidos pela revolução Francesa, demonstraram, ao longo do período moderno,a impossibilidade de concretização de fato. O projeto moderno iluminista não poderia garantir esses direitos a todos e todas.
Essa rede de informações altera de fato a relação entre tempo e espaço e, sobretudo, acaba por cultivar o efêmero, o descartável, uma vez que o futuro tanto quanto o passado são desconsiderados em nome do presente. E o presente precisa ser vivenciado, instantâneamente. Segundo Kumar, a pós-modernidade, ou pós-modernismo, rompe a separação entre cultura e economia, ambas as esferas estariam tão próximas que identificar o limite que as separa é quase impossível, e a mercantilização da cultura deixa isso mais evidente. A cultura do efêmero facilita a mercantilização da cultura, pois é necessário consumir hoje, consumir tudo, o produto, o conceito, a idéias, etc. A indústria da cultura é formada hoje pela educação, meios de comunicação de massa, turismo, lazer, sendo estes a moeda de troca da nova sociedade (Kumar, 1997).
Jean-François Lyotard, que é um dos “pais” da teoria pós-moderna, também identifica uma nova moeda de troca na nova sociedade. O seu livro A condição pós-moderna é tido como um dos principais trabalhos do debate pós-moderno. É dele a primeira abordagem destas questões do ponto de vista filosófico. Para Lyotard, a sociedade pós-moderna é datada do final dos anos 50 com o início da sociedade pós-industrial. Através da hegemonia da informática, impor-se-ia uma nova lógica, um conjunto de prescrições que vieram como enunciados aceitos como de saber (2006, p.4), ocasionando uma mudança deste estatuto que, segundo Lyotard, traz conseqüências para todas as instituições tradicionais da sociedade contemporânea. Segundo o autor, a pós-modernidade é apresentada como uma condição cultural que tem os seus desdobramentos em toda a vida social. A cultura pós-moderna seria a representação superestrutural das sociedades pós-industriais (Lyotard, 2006, p.3). A condição pós-moderna também estaria relacionada com a condição do conhecimento, a nova moeda de troca da sociedade contemporânea.
Pode-se então esperar uma explosiva exteriorização do saber em relação ao sujeito que sabe, em qualquer ponto que este se encontre no processo de conhecimento. O antigo princípio segundo o qual a aquisição do saber é indissociável da formação do espírito, e mesmo da pessoa, cai e cairá cada vez mais em desuso. Esta relação entre fornecedores e usuários do conhecimento
tende e tenderá a assumir a forma que os produtores e os consumidores de mercadorias têm com estas últimas, ou seja, a forma valor. O saber é e será produzido para a ser vendido, e ele é e será consumido para ser valorizado numa nova produção: nos dois casos, para ser trocado. Ele deixa de ser para si mesmo seu próprio fim; perde seu “valor de uso” (ibid., p.5).
Lyotard nos revela a nova relação com o Conhecimento, o seu novo status na sociedade pós-moderna, assim como Kumar nos evidenciou que para os teóricos da sociedade da informação e do conhecimento o “conhecimento” se tornara a origem do valor, substituindo o lugar historicamente exercido pelo trabalho material. Finalmente atingimos o centro da nossa problemática. Conseguimos agora avaliar as similitudes entre a tese da sociedade da informação inscrita no Relatório Delors e a discussão sobre um tipo pós-moderno de capitalismo, ou de sociedade presente nos textos de Gorz, Negri e Hardt. Em todos estes casos o conhecimento assume uma centralidade sob a forma valor. Portanto, podemos afirmar que todos convergem ao mesmo ponto e neste sentido corroboram a mesma tese: a de que vivemos em um novo período histórico onde o saber, o conhecimento e a informação gerenciam as novas relações sociais, assumindo, quase sempre, o papel de sujeito destas relações.
2.3. O Trabalho imaterial e a Sociedade da Informação: Trabalho e Conhecimento na