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A sociedade que se educa para culpar o professor

No documento Tese JCapistrano Filho (páginas 50-55)

Culpar o professor pelo péssimo resultado desvelado pelas avaliações encetadas pelos órgãos governamentais é o caminho mais fácil. Não incluir o professor como elemento importante no descalabro da educação é, também, um modo de não refletir seriamente a respeito do problema. O professor, então, transita como peça-chave do encaminhamento para que haja uma solução viável do grave problema da aprendizagem que atingem os alunos das escolas que obedecem as diretrizes do Estado.

Quem exerce a função de professor já deve ter percebido que o Estado está bem mais interessado em falar de educação do que gastar com educação escolar para o povo. O Estado burguês, no entanto, não é inconseqüente quanto à defesa dos seus interesses, ou seja, ele cuida de quem deve cuidar e engana a quem deve enganar. O professor

como peça-chave para a política educacional do Estado tem a função de ser o bode expiatório do fracasso da mesma.

A função do professor é a de pensar o saber dentro dos parâmetros da educação de resistência. Nesse sentido, o educador educa se contrapondo dialeticamente ao modelo de educação voltado para o mercado e não para o homem. O professor para por em prática a educação de resistência tem o amparo da parte oprimida da sociedade empenhada em debelar a dominação. É vã a esperança pela valorização da educação escolar por parte do Estado burguês. È mais cômodo induzir os espiritualmente depauperados a culpar cegamente o professor e transformar a profissão em um flagelo. Como consequência vai exercer a profissão aquele segmento da sociedade que por força das circunstâncias vai adentrar a sala de aula porque não encontrou outro meio de sobrevivência. A repulsa pela profissão já era sentida até mesmo na desenvolvida Alemanha de Adorno

Permita-me começar pela exposição da experiência inicial: justamente entre os universitários mais talentosos que concluíram o exame oficial, constatei uma forte repulsa frente aquilo a que são qualificados pelo exame oficial, e em relação ao que se espera após este exame. Eles sentem seu futuro como professores como uma imposição, a que se curvam apenas por falta de alternativa.75

Não é fácil desempenhar a função de professor onde a transgressão longe de ser gesto de rebeldias proporcionadas por uma ânsia de mudar hábitos sociais opressores é um gesto de repetição do que foi visto na novela, no cinema ou na letra de alguma música de algum roqueiro. A repetição consubstanciada em comportamento é o resultado bem sucedido da indústria cultural que comprova a competência de quem dirige a arte de entreter. A cultura industrializada estimula a transgressão de velhos valores que levariam anos para sofrer algum tipo de mudança. A mídia faz isso em pouco tempo ao mostrar um mundo velho com cara de novo.

75 ADORNO. Educação e Emancipação. Tradução: Wolfgang Leo Maar. São Paulo: Paz e Terra,

A atuação da indústria cultural é mimética, pois seu disfarce se constitui de valores familiares constituintes da educação social. O que é produzido nos studios não é uma simples invenção tirada do nada, mas do mundo real. A indústria cultural cria e dá ao sujeito uma realidade manipulada dentro do quadro de interesses do capital.

O abrupto contato do sujeito com o mundo criado pela mídia abala os ensinamentos oriundos da educação social. Aos valores do cotidiano, manipulados adequadamente e de maneira superficial, os agentes da indústria cultural embute os valores que delineiam o modo de ser burguês. O ar de ser superior do burguês tornou-se objeto de desejo da maioria pobre da população. Com o desenvolvimento das forças produtivas a burguesia percebeu rapidamente que esse objeto de desejo poderia se tornar uma mercadoria espiritual agregada à venda dos produtos da grande indústria.

A democratização dos bens culturais, no entanto, vem pela metade, mas de modo algum deve ser percebido pelo consumidor. A intenção, portanto, não é levar conhecimentos, mas sim elevar o consumo de mercadorias por meio de uma semiformação que finge esclarecer com profundidade o espírito de quem vê, ouve, sente e pensa que é dono do seu destino. A atmosfera consumista envolve com seus conceitos novos modos de se comportar em casa, na escola, nas ruas, estádios de futebol e entre os grupos das relações sociais de cada um. A alta tecnologia aplicada aos meios de comunicação povoa de informações todos os recantos da sociedade levando fórmulas acabadas sobre como se deve ser ao adquirir o produto da última moda. O produto deve guardar em si o agir perante outras pessoas para que a logomarca mostre a sua força para quem ainda não pode comprá-lo ou resiste à tentação da propaganda.

O comportamento fabricado pela propaganda que promete a felicidade também é fugaz, pois liga o sujeito à novidade que será superada por outra novidade que virá acompanhada de um novo comportamento. Assim é a incansável capacidade de repetição do novo da indústria do entretenimento. A consciência do sujeito fica submetida à espera do sempre-novo já que suas potencialidades “são subsumidas ao fetiche de objetos produzidos pelos próprios homens” 76. A educação social fica submetida aos interesses imediatos ligados à venda e consumo de mercadorias. O que a

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ZUIN, Antonio A. Soares. Indústria Cultural e Educação. Campinas SP: Editora Autores Associados, 1999, p.43.

indústria cultural oferece é o bem-estar imediato em contraponto ao discurso do professor que revela a necessidade de um esforço intelectual para se alcançar uma vida confortável pela via dos estudos. Por esta senda encontramos o próprio discurso religioso que perde terreno para a oferta de paraíso da indústria cultural. Para Adorno e Horkheimer o que existe de fato é uma substituição de discursos da dominação por dentro do mesmo sistema. Segundo os dois autores

Na opinião dos sociólogos, a perda do apoio que a religião objetiva fornecia, a dissolução dos últimos resíduos pré-capitalistas, a diferenciação técnica e social e a extrema especialização levaram a um caos natural. Ora, essa opinião encontra a cada dia um novo desmentido. Pois a cultura contemporânea confere a tudo um ar de semelhança. O cinema, o rádio e as revistas constituem um sistema. Cada setor é coerente em si mesmo e todos o são em conjunto. Até mesmo as manifestações estéticas de tendências políticas opostas entoam o mesmo louvor do ritmo do aço.77

A dessacralizada felicidade prometida pela indústria cultural reduz o homem aos interesses dos arquitetos do capital. As antigas deidades eram ligadas à imaginação do homem que viam em determinados sinais o cumprimento de um apelo pela via da suplicância, mas caso a súplica não fosse atendida a culpa era do suplicante. No caso, o suplicante renovava seus apelos para aplacar a fúria do deus – no caso dos credos monoteístas – ou simplesmente mudava de deus. Assim era o movimento das sociedades antigas ou pré-capitalistas que “baseava-se na opressão brutal, nos privilégios de uma pequena minoria e na exploração de grande número de trabalhadores” 78. Na sociedade industrial cabe a indústria cultural a função do logro, ou seja, fingir que a promessa de felicidade será cumprida e ao mesmo tempo manter o estado de carência permanente no sujeito pela renovação da promessa. O ritmo imprimido ao sujeito na sociedade voltada para o consumo não o deixa pensar na sua própria reificação. No entanto não há outro caminho para a sociedade que não seja o de despertar a consciência crítica contra o movimento de coisificação imposto pelo capital.

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ADORNO & HORKHEIMER. Dialética do Esclarecimento. Op.cit. p.113.

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A educação de resistência se posiciona contra a reificação reflexionando a educação social na qual todos nós – alheios a nossa vontade – estamos mergulhados culturalmente. É acompanhado do conceito de educação social que o educador reflexiona e desconstrói o conceito de realidade dada pelo princípio da dominação. A educação de resistência é a práxis do princípio adorniano de eclodir o conceito com o conceito.

O sujeito que reflete a sociedade não pode ser um solitário, pois precisa da participação da parte oprimida da sociedade pela busca do sentido de uma educação escolar de resistência que afaste o perigo da catástrofe contra o homem e a natureza. Ir de encontro ao que progride na sociedade e não ser cegamente contra o progresso de um modo geral é possível à medida que as pessoas reflexionem a educação social como o lugar em que o sujeito se encontre consigo mesmo.

Culpar o professor pelo mau desempenho do aluno é pertinente quando há participação consciente da parte oprimida da sociedade envolvida na educação escolar promovida pelo Estado. A educação de resistência precisa da parte oprimida da sociedade como representante da educação social no processo educativo. A ausência no processo educativo da parte da sociedade diretamente interessada está alimentando um estado de violência nas escolas e transformando o magistério numa profissão de alto risco. O jovem se sente à vontade para agredir o professor como se houvesse ali alguém dado pela sociedade para apanhar.

A culpabilidade inconseqüente contra o professor por parte da sociedade que não combate a influência da indústria cultural à fragmentação da educação social deixa margem à reprodução da violência do sistema que deseja uma educação acrítica voltada para o mercado e de baixo custo. Numa sociedade, cuja esmagadora maioria vive no meio urbano, o conhecimento sobre o que envolve cada sujeito no plano das instituições e do poder tecnológico não pode mais se resumir aquilo que Montesquieu disse sobre o homem como a “criatura que obedece a outra criatura que manda” 79. A culpabilização contra o professor é um gesto de obediência a favor do governo que diz que tudo faz, e que, por isso, não tem culpa de nada.

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Os professores ao se manifestarem a favor de uma escola de resistência estão assumindo uma postura de agente da reflexão da educação social e com isso pode “fornecer ambiente no qual as atividades educativas se possam desenvolver” 80. Para isso é necessário uma aproximação consciente com os elementos históricos e sociológicos que dão impulsão à dinâmica da educação social. Isso exige uma participação fundamental das universidades na formação dos docentes.

No documento Tese JCapistrano Filho (páginas 50-55)

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