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A sociobiologia e o programa da psicologia evolucionista.

No documento P ORTELAL OPES DE (páginas 46-49)

Capítulo 1 A evolução do altruísmo: a explicação da sociobiologia humana

1.3. A sociobiologia e o programa da psicologia evolucionista.

A sociobiologia influenciou praticamente todos os programas de pesquisa voltados para uma explicação evolutiva do comportamento humano que se seguiram. Entre eles, talvez o que tenha seguido mais fielmente aquele programa de pesquisa tenha sido a psicologia evolucionista, que explica a cooperação humana a partir dos mesmos mecanismos evolutivos

propostos pelos sociobiólogos, mas vai além, teorizando sobre a própria natureza dos mecanismos psicológicos envolvidos no comportamento.

Em artigo clássico, que demonstra como a psicologia evolucionista explica a capacidade humana de cooperação, Leda Cosmides e John Tooby propõem que a mente humana é composta por módulos dedicados para resolver problemas da vida social. Segundo eles:

(...) Os humanos têm uma faculdade de cognição social, consistindo em uma rica coleção de módulos dedicados, funcionalmente especializados e inter- relacionados (i.e., subunidades isoláveis, mecanismos, órgãos mentais, etc.), organizados para coletivamente guiar o pensamento e o comportamento com respeito aos problemas adaptativos evolutivamente recorrentes postos pelo mundo social (COSMIDES; TOOBY: 1992, 163).

Esse pequeno trecho resume a forma pela qual a psicologia evolucionista busca responder aos problemas que se colocam para esse programa. A premissa básica assumida é a de que a seleção natural não seleciona o comportamento, mas os mecanismos psicológicos que o produzem. Estes existem porque foram bem sucedidos, na história evolutiva da espécie, em resolver um problema particular em determinadas condições ambientais (LALAND; BROWN: 2002, 158).

Segundo a psicologia evolucionista, a mente humana é composta por vários módulos (os mecanismos psicológicos) responsáveis por resolver problemas relativos a um único domínio, ou seja, são domínio-específicos. Os módulos são encapsulados, na medida em que cada um resolve problemas específicos sem trocar informação com outros módulos. Além disso, esses módulos seriam inatos e caracterizariam uma certa universalidade da natureza humana (LALAND; BROWN: 2002, 160).10 A mente humana não é uma tabula rasa: pelo contrário, é equipada com módulos que já trazem informações sobre o mundo em que os seres humanos viveram, como relações sociais, emoções e o reconhecimento de expressões faciais, por exemplo (TOOBY; COSMIDES: 1992, 89).

10

O antropólogo Donald Brown elaborou uma lista extensa de universais humanos que poderiam ser explicados a partir das premissas da psicologia evolucionista. A lista abrange conceitos tão diferentes como ciúme, classificação, crença no sobrenatural, crenças sobre boa e má sorte, justiça, meios de resolução de conflitos, uso de pronomes, preferência pelos próprios filhos, orgulho, instituições, distinção entre verdade e falsidade, entre vários outros (PINKER: 2004b, 587-591).

A evolução dos módulos ocorreu porque mentes com essa arquitetura se mostraram mais eficientes para resolver problemas recorrentes em um ambiente evolutivo ancestral e foram, portanto, selecionadas. Nessa perspectiva, por exemplo, o apego que os pais têm pelos filhos poderia ser explicado como uma adaptação que, no passado evolutivo, aumentou a probabilidade de que as crianças sobrevivessem (como explicado pela teoria da seleção de parentesco). Isso não significa dizer, contudo, que os comportamentos adaptativos no passado continuam a sê-lo no presente: as circunstâncias da vida moderna, muitíssimo diferentes das enfrentadas por nossos ancestrais, frequentemente tornam o comportamento, causado por esses módulos inatos, mal-adaptativos. Um exemplo muito citado é o do consumo do açúcar. No passado, os carboidratos eram valiosíssimos porque eram uma fonte muito importante e rara de energia. Portanto, o paladar humano é equipado para “preferir” alimentos com alto teor de açúcar. Como a oferta desses alimentos era muito menos abundante no passado do que hoje, nossos ancestrais não se depararam com doenças como o diabetes. Todavia, a preferência por açúcares é um grande problema da vida moderna porque, apesar de a oferta de carboidratos não ser rara, nossa mente ainda nos impulsiona a consumi-los.

Um outro exemplo é apresentado por Steven Pinker, que propõe que a capacidade humana de adquirir uma linguagem somente é possível porque temos um instinto linguístico, baseado em um módulo responsável, única e exclusivamente, pela tarefa de aprender e estruturar uma linguagem particular a partir de princípios abstratos inatos (PINKER, 2004b). O principal argumento apresentado por Pinker a favor dessa tese é baseado na pobreza de

estímulos: a quantidade de informação recebida por uma criança ao longo de seus três

primeiros anos de vida seria insuficiente para torná-la capaz de aprender uma linguagem, com todas as suas nuances sintáticas e semânticas. Não obstante, uma criança se torna incrivelmente competente no mundo linguístico com poucos anos de vida. O mesmo argumento foi apresentado por Noam Chomsky décadas antes, como evidência de que a mente humana teria uma gramática universal: princípios inatos de organização dos estímulos linguísticos apreendidos pela mente. Todas as linguagens humanas teriam uma estruturação universal, organizada a partir desses princípios e adaptada localmente para cada língua.

Essa forma de explicar o comportamento humano é típica do programa da psicologia evolucionista, que também se propõe a teorizar sobre o problema da cooperação a partir dos mecanismos evolutivos propostos pela sociobiologia, a saber: a seleção de parentesco e o

altruísmo recíproco. Segundo Tooby e Cosmides, o passado evolutivo humano foi propício à evolução de capacidades mentais complexas e específicas para lidar com o problema da cooperação, em razão do mundo social em que viviam nossos ancestrais - que, segundo eles, retratou condições muito próximas às que possibilitaram a evolução da estratégia TIT for TAT nos torneios de Axelrod. De acordo com Tooby e Cosmides, por exemplo, os seres humanos têm uma psicologia capaz de identificar oportunistas, de atribuir valores abstratamente a praticamente qualquer classe de coisas e de raciocinar em termos de custo e benefício - todas essas condições relevantes para que alguém se torne capaz de participar de relações de troca. Essa psicologia seria composta pelo que eles chamam de uma teoria do contrato social (TOOBY; COSMIDES: 1992, 178). Assim como temos uma gramática universal no domínio da linguagem, também teríamos uma gramática moral universal, responsável pela organização das experiências normativas a partir de princípios comuns.

1.4. Limitações dos mecanismos propostos pela sociobiologia para explicar a

No documento P ORTELAL OPES DE (páginas 46-49)