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A Sociologia da Infância: Estudos europeus

PARTE 1: AS CRIANÇAS, AS MENINAS E O GÊNERO NOS

1 Novos olhares sobre a socialização e a geração pela Sociologia da

1.2 A Sociologia da Infância: Estudos europeus

A Sociologia28 descobriu novas maneiras de pensar as infâncias e as crianças ao final do século XX, graças aos debates ocorridos em vários congressos europeus, na criação de vários grupos de estudo, revistas cientificas e obras como a de Chris Jenks, The Sociology of

28 Refiro-me à Sociologia da Infância desenvolvida na Europa, sobretudo na Inglaterra e França, que recebe o nome de estudos sociais da infância. (CHRISTENSEN, Pia e JAMES, Alisson 2005) Sobre a produção da Sociologia da Infância nos países de língua inglesa e francesa ver, respectivamente, os artigos de MONTANDON, Cléopâtre. Sociologia da infância: balanço dos trabalhos em língua inglesa. Cadernos de Pesquisa. São Paulo, n.112, mar. 2001, p.91-118 e SIROTA, Régine. Emergência de uma sociologia da infância: evolução do objeto e do olhar. Cadernos de Pesquisa, São Paulo, n. 112, mar.2001, p.7-31.

Childhood: Essential readings, publicada sem muito alarde em 1982 e

reeditada 10 anos depois porque, como diz o autor, alguma coisa parecia ter mudado em relação ―à nossa percepção colectiva da infância durante aquela década‖. (JENKS in CHRISTENSEN e JAMES, 2005, p.58) Estava-se diante de um novo campo da Sociologia que representaria uma grande mudança paradigmática nos estudos sociológicos sobre as infâncias e as crianças.

O sociólogo francês Alan Prout, no texto ―Reconsiderar a Nova Sociologia da Infância‖, aponta que o surgimento das primeiras pesquisas da SI deu-se pela influência da Sociologia Interacionista norte-americana ao final da déc. de 1960, cuja noção do retorno do ator foi decisiva para marcar o reencontro da criança e da infância no discurso e no campo sociológico, conforme apontei anteriormente. Porém, o desenvolvimento da SI tomou maior impulso, para Prout, graças ao ressurgimento do estruturalismo e do construtivismo social nas décadas de 1980-199029, décadas de grande avanço das legislações

29 No cenário internacional, as décadas de 1980-1990 consagraram os direitos da infância sob a

tutela da proteção especial. Entretanto, esta discussão teve início no começo do século XX em várias cidades como Paris, Bruxelas e Washington que fundaram as organizações para o bem- estar da criança como Children‘s Bureau, nos EUA (1912), a Associação Internacional para a Proteção da Infância (1913),o Comitê para a Proteção da Infância da Sociedade das Nações (1919), União Internacional para a Proteção da Criança que, em 1923, editou a Declaração de

Genebra promulgado pela Assembléia da Sociedade da Nações em 1924, que dentre outras

coisas, afirmou o princípio da proteção especial à infância. (FONSECA, 2004, p.106). Esta declaração, encabeçada pela Ong Save the Children (1919), é considerada o primeiro documento norteador das declarações seguintes, de 1959 e da Convenção dos direitos da criança de 1989. Este debate também existiu na América Latina com diversos congressos pan- americanos. Como fruto desta discussão, a Assembléia Geral das Nações Unidas, em 20 de novembro de 1959, consagra a Declaração Universal dos Direitos das Crianças tendo como base os direitos à liberdade, ao estudo, a brincar e ao convívio social, preconizados em seus dez princípios. Segundo Philip Alston, o impulso que deu origem à Convenção sobre os Direitos

das Crianças, de 1989, foi o contexto da Guerra Fria durante a década de 1970, quando a

Polônia solicitou a transformação da Declaração (um documento não-normativo) em um contrato normativo, cujo propósito era ressaltar a participação de um país do blococomunista na luta pelos direitos humanos das crianças. Contrariado, os EUA protelam a redação deste documento nos 10 anos seguintes, reforçando o texto da Convenção no que tange às liberdades civis e reduzindo os direitos ligados às questões econômicas e sociais, bem ao gosto do clima de tensão da Guerra Fria. (ALSTON apud FONSECA, 2004, p.110-111) Ainda na esteira da discussão sobre a proteção dos direitos infantis, é digno de nota registrar a importância dos Congressos realizados pela ORGANIZAÇAO INTERNACIONAL DO TRABALHO – OIT, com a Conferência Internacional do Trabalho em 1989 que designou uma série de convenções sobre o trabalho de crianças e adolescentes, especialmente a Convenção N° 05 que fixou a idade mínima de 14 anos para o início do trabalho na indústria e a Convenção N.138 que ―obriga todos os países-membros da OIT a adotar uma política nacional de efetiva abolição do trabalho infantil no mundo. Para tanto, proíbe o emprego de crianças em qualquer setor econômico, antes de completar a idade estabelecida para a conclusão do ensino obrigatório. Juntamente com a Convenção 138 é ratificada a Recomendação 146 que solicita aos países-

internacionais a respeito dos direitos da criança e do adolescente como sujeitos de direitos, a exemplo da promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente no Brasil(1990).

Cleopâtre Montandon também reconhece que, desde 1984, a Sociedade para o Estudo do Interacionismo Simbólico, composta por sociólogos norte-americanos, foi responsável pelo interesse dos sociólogos ingleses sobre as crianças, que resultou em 1986, na organização da Revista Sociological Studies of Child Development, posteriormente chamada de Sociological Studies of Children. Daí para frente, o progresso foi visível, em 1990, o Congresso Mundial de Sociologia reuniu um grupo de sociólogos da infância e em 1992 a Associação Americana de Sociologia criou a seção de estudos Sociologia das Crianças.(MONTANDON, 2001, p.34)

O que caracteriza a proposta da SI? Dois paradigmas sintetizam a proposta deste campo: 1) o reconhecimento da existência de uma cultura infantil e da aptidão cultural das crianças entendidas agora como atores sociais e 2) o entendimento da infância como construção social. Estes paradigmas correspondem, nas palavras de Sarmento, a uma nova gramática das culturas da infância, discutidas anteriormente. (SARMENTO, 2005)

Como observa Montandon, ―os sociólogos que estudaram de perto as crianças e se declararam insatisfeitos com as teorias da socialização‖ foram os mesmos que, ironicamente, ―durante muito tempo conceituaram as crianças como objetos da ação dos adultos.‖ (MONTANDON, 2001, p.38) Por sua vez, Régine Sirota conclui que a infância emerge como um novo campo de estudo cujo objetivo maior é romper a cegueira das Ciências Sociais e ―acabar com o paradoxo da ausência das crianças na análise científica da dinâmica social com relação a seu ressurgimento nas práticas consumidoras e no imaginário social‖. (SIROTA, 2001, p.11)

Uma coisa é certa: pela revisão de literatura que tenho efetuado sobre a SI, fica nítido que ela constituiu-se como um novo campo de estudos principalmente por causa da insatisfação dos sociólogos com o

membros que elevem a idade mínima para o trabalho para 16 anos‖. Como mostra Sartori, “em inúmeros países, novas leis foram aprovadas e leis já existentes foram modificadas para adequar-se à Convenção. Serra Leoa desmobilizou seus soldados infantis, e, em Ruanda, crianças presas em centros de detenção para adultos foram transferidas para instituições específicas para jovens. Iniciativas importantes, como o Congresso Mundial contra a Exploração Sexual de Crianças, realizado em Estocolmo, em agosto de 1996, e a Conferência Internacional sobre o Trabalho Infantil, programada para outubro de 1997, em Oslo, resultam de energia mobilizada pela Convenção‖. (SARTORI, 2005, p.4)

tratamento que a Sociologia dava à infância e à criança, simples variáveis de estudo no âmbito da família e/ou da escola, por vezes invisíveis nos estudos sobre a socialização e totalmente subjugadas à hierarquia nas relações geracionais.30

É notório que a infância esteja amadurecendo sociologicamente com as crianças saindo do ―limbo‖ da teoria social para o centro da pesquisa sociológica. Antes consideradas como simples apêndice da sociedade dos adultos, a SI trouxe a preocupação de pensar as crianças como interlocutores centrais e a infância como uma construção social do tipo geracional, cujos contextos e problemas levam à compreensão de diferentes infâncias vividas por diferentes crianças, crianças que nem sempre são analisadas em seu gênero.

Diferentes infâncias, diferentes crianças, diferentes teorias que contribuem não só para o amadurecimento teórico e empírico da Sociologia no trato com a infância mas lançam novos desafios e questionamentos acerca do lugar que o gênero ocupa nestes estudos.

No que segue, apresento as principais contribuições dos referenciais construtivista, estruturalista e o enfoque relacional, observando o lugar que o gênero ocupa em suas discussões. Esclareço, de antemão, que estes referenciais são nomeados e classificados de forma distinta por vários/as autores/as da SI que disputam seus saberes neste campo.31 Para esta análise, utilizo os artigos dos/as autores/as

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É certo que a constituição do campo da SI ainda não está pronta, conforme discutem vários autores. No começo da década de 2000, Alan Prout (2002) considerava que era preciso acrescentar que o desenvolvimento da SI deu-se no contexto de uma crise teórica da Sociologia na Modernidade Tardia, referindo-se ao conceito de Zigmunt Bauman, especialmente no que diz respeito às dicotomias entre estrutura X agência, natureza X cultura, local X global, identidade X diferença etc... O que ele colocava, então, era que a SI não poderia consolidar-se como um campo autônomo da própria Sociologia, mas que deve dialogar constantemente com a própria crise teórica na qual ela se inseria. Para ele, a SI teria duas tarefas primordiais: 1) criar um espaço para a infância no discurso sociológico ao mesmo tempo em que a confronta como um fenômeno contemporâneo altamente instável e plural e, 2) libertar-se do pensamento dicotômico que caracterizou a Sociologia na Modernidade. Na sua opinião, o campo da SI já nasce ultrapassado se não incorporar a crítica sociológica destas dicotomias (por ex. criança X adulto).Daí a razão de Prout utilizar o conceito de híbrido em Bruno Latour, como uma forma de captar a instabilidade e pluralidade das infâncias no mundo contemporâneo. Prout observa que identificar a infância como uma categoria sociológica ―autônoma‖ encontra respaldo na construção da reflexividade contemporânea. Assim, além de estudar as infâncias e as crianças como objetos ―autônomos‖, a SI continua fazendo o que a Sociologia sempre fez – estudar a sociedade. Este texto foi desenvolvido em seu livro posterior, "The future of childhood" (2005) no qual discute o problema do reducionismo sociológico dos paradigmas da SI.

31Estes autores especializaram-se em áreas distintas das Ciências Sociais, como Jens Qvortrup

(sociologia da educação), Leena Alanen (Estudos feministas), Berry Mayall, Chris Jenks, William Corsaro (Sociologia), Allan Prout (Economia), Pia Christensen e Alisson James (Antropologia), apenas para citar seus principais representantes. A maioria destes autores está

principais de cada referencial e a obra de Lourdes Gaitán, Sociologia de

la infância (2006).

1.2.1 Construtivismo

Desenvolvido nas décadas de 1980-90, este referencial incluiu definitivamente a infância como categoria de análise na investigação sociológica ao lado das categorias clássicas como ação, estrutura, ordem, linguagem, racionalidade, classe social, sexo, pertencimento étnico, etc... As primeiras discussões deste referencial foram feitas pelo sociólogo Chris Jenks na obra The Sociology of Childhood:

Essential readings (1982), mas seus princípios teóricos e

metodológicos foram lançados em 1990 na obra Constructing and

reconstructing childhood: Contemporary issues inte sociological study of childhood, da antropóloga Alisson James e do sociólogo

Alan Prout, que trazem os seis princípios abaixo, descritos por Montandon (2001,p.51):

1.A infância é uma construção social. 2. A infância é variável e não pode ser inteiramente separada de outras variáveis como classe social, o sexo ou o pertencimento étnico. 3.As relações sociais das crianças e suas culturas devem ser estudadas em si. 4. As crianças são e devem ser estudadas como atores na construção de sua vida social e da vida daqueles que as rodeiam. 5.Os métodos etnográficos são particularmente úteis para o estudo da infância. 6. A infância é um fenômeno no qual se encontra a ―dupla hermenêutica‖ das ciências sociais evidenciadas por Giddens, ou seja, proclamar um novo paradigma no estudo da infância é se engajar num processo de ―reconstrução‖ da criança e da sociedade.

vinculada a programas de pesquisa e organizações internacionais como Save the Children e The Economic and Social Research Council-ESRC Children 5-16, além de atuarem como coordenadores de revistas cientificas e de centros de pesquisa, como o Centre for Child Research Norwegian, Children‘s Participation Programme Officer, Butterflies Programme of Street and Working Children in Delhi, Índia e a Associação Internacional de Sociologia. (CHRISTENSEN e JAMES, 2005)

Para Lourdes Gaitán, a emergência deste referencial deve-se pela reação da sociologia inglesa contra a pressão do positivismo e do estruturalismo de orientação marxista, fruto da revisão paradigmática do campo marxista das décadas de 1960-70 (sobretudo na História) que vai desembocar nos paradigmas da construção social da realidade que equivale, na critica feminista, na construção social do gênero.

Nas palavras de Gaitán, este referencial permite (GAITAN, 2006, p.72-73):

liberar al niño del determinismo biológico así como situar al fenómeno de ser nino en la esfera de lo social.(..) Los construccionistas ponen en tela de juicio las assunciones acerca de la existencia y los poderes causales de una estructura social que hace que las cosas sean como son, y se remontan al origen del fenómeno para mostrar cómo está construído el mismo.(..) El cuestionamiento de las cosas que se dan por hechas está intensamente relacionado con el relativismo cultural y conduce a un estilo de análisis de los modos de discurso mediante el cual se define a los niños.

Em 2000, foi a vez de Pia Christensen e Alisson James publicarem a coletânea Investigação com crianças: Perspectivas e Práticas, que reuniu pesquisas empíricas orientadas por estes princípios. As duas principais contribuições deste referencial são, na verdade, os paradigmas ―fundadores‖ da SI, a criança como ator social e a infância como construção social, i.e., as crianças são valorizadas como atores sociais competentes e a infância deixa der ser pensada como uma categoria natural/ biológica e universal.

Entretanto, muitas perguntas surgem quando se fala que a criança é um ator social, dentre elas: o que se entende por criança? Como ouvir as crianças? Qual a relação ética do adulto- pesquisador/a com a criança-sujeito da pesquisa? Como diferenciar a recolha da voz da criança em pesquisas sobre as crianças e pesquisas com as crianças? Como as pesquisas diferenciam suas falas de acordo com os contextos nos quais estão inseridas (escola, família, brincadeiras de rua etc.)?

Nas palavras de Jenks, o construtivismo entende que ―a criança pertence a estruturas sociais mas sem qualquer sentido de permanência ou fixação‖ e isto significa dizer que tanto a infância

como a criança fazem parte da noção do ―‗socialmente construído‘(...),não existe qualquer criança essencial pois este é sempre construído através de práticas constitutivas.‖ (JENKS in CHRISTENSEN e JAMES, 2005, p.60) Esta noção remete à teoria do discurso32 que auxilia neste processo de desconstrução e constrangimento estrutural da infância. Todavia, o autor afirma que a teoria do discurso possui um sentido ―fraco‖ na compreensão da infância como construção social por ver a criança como um ser integrante de outros modos discursivos como a idade, dependência, família etc... mas também possui um sentido ―forte‖ graças às suas instâncias explicativas, ―como a sociedade, o modo de produção, a cultura e os períodos históricos‖, instâncias que foram também analisadas por Jens Qvortrup. Desconstruir a infância parte, assim, do reconhecimento da noção do discurso que repousa sobre ela e os constrangimentos que a cercam, como os de geração, classe ou gênero, que ajudam a perceber que o discurso deve ser pensado como ―idéias, conceitos, conhecimentos, modos de fala‖ e como práticas sociais que fundam ―posições de sujeito subjectivas (como ‗a criança‘)‖. (JENKS in CHRISTENSEN e JAMES, 2005, p.62)

Na tentativa de resumir este debate entre a construção social e o discurso, Jenks lembra que todo teórico construtivista deve ser consciente de ―las diferentes imágenes y representaciones de niño están ocasionadas por los distintos mundos sóciales que él mismo habita‖ e que a tarefa do sociólogo é analisar estas representações e estudar os processos sociais através dos quais se produzem as representações. (JENKS apud GAITÁN, 2006, p.76)

Este referencial toca numa problemática central na Sociologia que é a relação entre natureza e cultura33, relação que foi, durante

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Ao final da década, em 1998, James, Jenks e Prout publicaram outra obra, Theorizing Childhood, na qual propõem uma releitura da proposta construtivista. Sobre o perigo do reducionismo na teoria do discurso, isto é, o perigo de achar que tudo é discurso e/ou efeito das relações sociais deixando de lado os constrangimentos físicos/corpóreos presentes na infância, ver o capítulo O corpo e a infância, a respeito das perspectivas fundacionalistas e antifundacionalistas, publicado em: KOHAN, Walter e KENNEDY, David. Filosofia e

infância: possibilidades de um encontro. Petrópolis/RJ: Ed. Vozes, 1999.

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O teórico mais recorrente nestas análises da SI sobre o debate natureza e cultura tem sido Bruno Latour, com seu conceito de vida social como redes heterogêneas (pessoas, corpos, mentes, artefatos, animais, plantas etc...) que ajuda a pensar as crianças como híbridos da natureza e da cultura, como entidades heterogêneas cuja mescla (natureza e cultura) é feita não somente pelos humanos (crianças e adultos) ou por seus corpos mas sobretudo pela tecnologia, e Pierre Bourdieu com a discussão sobre o acesso dos grupos sociais com os diferentes

muito tempo, privilegiada em relação à natureza, fazendo a Sociologia observar a infância a partir de suas características bio- psicológicas. Todavia, a partir da revisão paradigmática da década de 1970, que não somente trouxe a compreensão do indivíduo como ator social mas incorporou as noções de representação, discurso e construção social como novos paradigmas de análise, permitiram que as infâncias e as crianças fossem sociologicamente ―desconstruidas‖ pela pluralidade. Porém, esta pluralidade não significa apenas somar ou colocar um ―s‖ ao final da palavra, significa que a Sociologia deve olhar para a infância como um fenômeno sociologicamente duplo: natural e social, biológico e cultural, universal e particular, individual e coletivo, enfim, a infância como mais um elemento da estrutura social cujo caráter é profundamente relacional, como a categoria gênero tão bem explicita e que é raramente observada entre os/as autores/as da SI.

Graças à aproximação com os estudos culturais, este referencial privilegia a etnografia, estudos de caso e a observação participante no estudo da diversidade dos tipos de infância e criança nos mais variados contextos sociais34. É por esta razão que este referencial agrega grande parte dos/as antropólogos/as que estudam a infância. Também é importante frisar que este referencial tem o mérito de ter sido o primeiro a evocar o conceito da criança como ator social que participa e auxilia na modelação das estruturas e dos processos sociais, e não apenas como vítima destes mesmos processos.

As metodologias que privilegiam os pontos de vista das crianças, as suas interações intra e intergeracionais e as experiências infantis (culturas infantis) recebem grande atenção neste referencial. O mesmo não pode ser dito em relação à categoria gênero. Uma das poucas citações sobre o gênero que encontrei neste referencial é a de Sarmento (2002, p.277) quando diz que:

―capitais‖ – cultural, econômico e social – que definem seu status social. (GAITÁN, 2006, p.86 e JAMES, JENKS e PROUT, 1998)

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A tradição dos estudos antropológicos é constantemente revisitada pela SI, como por ex., as pesquisas de Mauss (1934) sobre as diferentes experiências corporais das crianças no aprendizado do andar, ou a de Mead sobre a socialização de adolescentes nas ilhas Samoa, a pesquisa de Toren(1993) sobre a interação social entre crianças e adultos das ilhas Fiji a respeito das noções de espaço e autoridade em certos rituais, a pesquisa de Schildkrout (1978) sobre idade e gênero entre as crianças da sociedade Hausa, Delalande(2003) com sua pesquisa sobre o saber infantil através de jogos e brincadeiras nas escolas primárias, e ainda Hirschfield(2003) sobre as práticas culturais das crianças norte-americanas. (SILVA, NUNES e MACEDO, 2002).

Apesar da crescente uniformização de estilos de vida, não é indiferente ser-se rapaz ou rapariga. As relações de género atravessam não apenas as identidades pessoais como impõem constrangimentos sociais próprios. Não se fala de ‗gravidez juvenil‘, por exemplo, mas de ‗gravidez das adolescentes‘. Do mesmo modo, a posição social das crianças, ou a sua pertença étnica ou ainda a sua inserção geográfica (central ou periférica, urbana ou rural, no bairro urbano de classe média ou nos subúrbios etc.) são categorias fundamentais na respectiva identidade.

Apesar de reconhecer a necessidade do diálogo, este autor não prioriza a categoria gênero, em suas pesquisas ela é utilizada apenas como mais uma das variáveis que ajudam na construção social da infância mas ainda é uma categoria pouco problematizada. A ausência teórica e empírica do gênero neste referencial é, pois, um grande paradoxo se levarmos em conta que os processos de desnaturalização e construção social observados na infância também marcaram os estudos feministas e os de gênero acerca da condição social da mulher e dos papéis ligados ao feminino na cultura ocidental.

1.2.2 Estruturalismo

Este referencial foi desenvolvido a partir da pesquisa do