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3 A PROFISSÃO DOCENTE E A ENFERMAGEM

3.1 A Sociologia das Profissões, Profissão e Profissionalismo

A Sociologia das Profissões tem constituído um domínio da investigação no mundo anglo-saxónico, com início nos Estados Unidos nos anos 30, e com um rápido desenvolvimento à custa de debates intensos entre os contributos da teoria funcionalista e da interacionista.

O sociólogo Durkheim (1893), em França, foi o primeiro a abordar a evolução da atividade económica e as formas de regulação social - os grupos profissionais. Em Inglaterra, antes dos trabalhos editados por Parsons (1939) nos Estados Unidos da América (EUA), Carr Saunders e Wilson (1933) elaboraram um trabalho sobre a história e o significado das profissões inglesas, que formou a teoria da estrutura social, na qual as profissões ocupam um lugar de destaque (Dubar; Tripier, 1998).

Contudo, apesar da convergência de pontos de vista, existem diferenças entre as versões funcionalistas. Alicerçadas em modelos e tradições nacionais tão diferentes como a França, a Inglaterra e os EUA, não se apoiam nas mesmas definições do que é profissão. Para Durkheim, respeitando a tradição francesa, os grupos profissionais integram todas as atividades económicas e todas as categorias de trabalhadores, desde patrões, assalariados e independentes. Segundo o mesmo autor, não se trata de repor as antigas corporações, mas de instituir associações profissionais de um novo tipo, que reconhecidas, simultaneamente, pelo Estado e pelas famílias dos membros livres associados, constituiriam “novos corpos intermediários” investidos de uma autoridade

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legal, de modo a assegurar as bases concretas da integração e da regulação sociais (Dubar, 1997, p. 127).

De acordo com a tradição inglesa, Carr Saunders e Wilson distinguem profissões de ocupações, emprego vulgar de emprego especializado, estes últimos organizados em associações juridicamente reconhecidas.

Segundo Parsons, à boa maneira americana, as profissões assumem um modelo liberal dominante, distinguindo-se enquanto organizações autónomas (Dubar; Tripier, 1998). Estamos perante três perspetivas diferentes de uma mesma abordagem conceptual – o

funcionalismo – e que integram um conjunto de propostas de base comum, que

constituem as principais apostas das profissões. Desta forma, “o desenvolvimento, o

reestabelecimento e a organização das profissões estão no cerne do desenvolvimento das sociedades modernas, pois que estas asseguram uma função essencial: a coesão social e moral do sistema social e representam, deste modo, uma alternativa à supremacia do mundo dos negócios, do capitalismo competitivo e da luta de classes”

(Dubar; Tripier, 1998, p. 68).

Os sociólogos conferem às ocupações um plano de profissionalização, isto é, fornecem uma forma de passagem das ocupações a profissões. A forma como as profissões mais antigas e prestigiadas se fizeram emergir como profissões modernas podem trazer contributos para outras profissões.

Ainda neste paradigma funcionalista, o profissionalismo é definido como um modo de regulação economicamente eficaz e moralmente desejável que reúne três elementos chave: uma técnica intelectual especializada, adquirida através de uma formação longa que permite a prestação de serviços reconhecidos à comunidade (Dubar; Tripier, 1998). As profissões numa perspetiva funcionalista distinguem-se dos outros pontos de vista, segundo Dubar, por uma dupla afirmação: “por um lado, as profissões formam

comunidades reunidas à volta dos mesmos valores e da mesma «ética de serviço»; por outro, o seu estatuto profissional é válido por um saber «científico» e não apenas prático” (1997, p. 131). Estas duas características específicas de uma profissão,

comunidade ética e saber científico, são, segundo o mesmo autor, inseparáveis da distinção cultural e do fechamento social.

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Na abordagem funcionalista, em que as profissões são vistas como modelos organizadores do bom funcionamento da sociedade, existe um conjunto de elementos estruturais ou instituições que organizam os grupos profissionais como “escolas e

instituições de formação superior que desenvolvem e transmitem o corpo de conhecimentos e constituem importantes instituições de socialização dos profissionais; associações profissionais que contribuem para promover os valores de orientação para a sociedade e para a manutenção e aumento da autonomia e autoridade profissionais; sistema de licenças que protege a autoridade e prestígio profissionais e assegura o controlo social” (Rodrigues, 2002, p. 13).

Para Dubet o funcionalismo é entendido como “uma representação da sociedade

concebida como um todo funcional, como um sistema no qual a utilidade de cada elemento garante a integração do conjunto” (1996, p. 60). Por volta dos anos 60, o

funcionalismo sofre duras críticas. Nesta perspetiva, o mesmo autor, distingue três grandes críticas àquela corrente. Uma primeira, e a mais conhecida, é a recusa expressa por alguns autores como Merton à ideia de totalidade funcional. Isto é, aquele autor com a introdução da ideia de função latente e função manifesta introduziu a ideia de que possam coexistir subsistemas relativamente autónomos (Dubet, 1996). A segunda crítica considerada por Dubet como a mais radical, emerge da sociologia das organizações. Neste âmbito, “o sistema funcional surge então como um construído que resulta do jogo

das interacções e das estratégias dos indivíduos e dos grupos” (1996, p. 62). Por fim, a

última crítica circunscreve-se à própria conceção da ação. Critica-se o postulado segundo o qual “o sistema e a coerência determinam a acção de cada um” (1996, p. 63).

Em oposição ao funcionalismo, a corrente interacionista vem estudar a interação dos indivíduos e grupos na tentativa de perceber como eles constroem as suas carreiras no tecido social. O poder das profissões emerge, assim, derivado da corrente interacionista através dos trabalhos de Freidson, o qual se torna um importante modelo nos Estados Unidos e em Inglaterra.

A teoria funcionalista valoriza a organização social. Em oposição, a teoria interacionista, derivada fundamentalmente da perspetiva promovida pelos sociólogos de Chicago, em especial por Everett Hughes (1950-1960) e seus discípulos, salienta as

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profissões como forma de realização pessoal. Isto é, a atividade profissional deve ser estudada como um processo biográfico ou identitário (Dubar; Tripier, 1998).

Para estes autores, sustentados por Hughes, o trabalho inscreve-se numa trajetória, num ciclo de vida, que possibilita compreender como um ser humano veio a fazer o que faz no presente (Dubar; Tripier, 1998). Ainda segundo estes autores, existe um duplo ponto de vista, ou seja, toda a atividade laboral assenta, do ponto de vista analítico, num processo de vida significante, por um lado, e, por outro, nas relações dinâmicas que se estabelecem com os outros. Existe como que um acordo tácito entre quem dá, quem exerce determinada prática creditada com um diploma, e quem recebe serviços de um profissional, legitimado num saber que este último deve manter em segredo. O mesmo autor refere ainda organizações destinadas a proteger os profissionais de um público “profano”, passível de os agredir de diversas formas. Por fim, define profissão enquanto carreira e meio de socialização (Dubar, 1997).

A ideia central de uma carreira vista como a permanência numa mesma ocupação durante uma vida inteira deu lugar, segundo Abbott (1992, p. 132), ao surgimento do profissionalismo para tornar as carreiras dos indivíduos dinâmicas. Segundo o mesmo autor, as carreiras vitalícias chocam com as leis da oferta e da procura contemporâneas dando lugar à mobilidade profissional (Abbott, 1992).

Desta forma, é reconhecido a Hughes e aos seus seguidores a ligação entre o universo do trabalho e os mecanismos da socialização profissional, que sustentam vários estudos empíricos, nomeadamente sobre a profissão de enfermagem. Este autor, segundo Dubar (1997), põe em destaque a carreira de cada indivíduo na trajetória sócio-profissional. Na década de 60, com a dispersão dos sociólogos interacionistas de Chicago, surgem novas abordagens teóricas das profissões, que se vão centrar na estrutura económica e nas relações de poder (Dubar; Tripier, 1998).

Na mesma década, o debate entre a teoria funcionalista e a teoria interacionista dá lugar a novas abordagens nos Estados Unidos que, sob inspiração Marxista e principalmente Weberiana, consagram maior importância aos mecanismos económicos de controlo de mercado (Dubar; Tripier, 1998, p. 113).

Estas novas abordagens questionam as justificações morais ou as motivações vocacionais das profissões, tendendo “a considerar as profissões actores colectivos do

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mundo económico, que conseguiam fechar o seu mercado de trabalho e estabelecer um monopólio de controlo das suas próprias actividades de trabalho” (Dubar; Tripier,

1998, p. 113).

Ao contrário das perspetivas funcionalistas, as profissões deixam de ser “elementos

constitutivos” da estrutura social, para historicamente com a sua ação coletiva, na e pela

sua relação com o Estado, atingirem um sistema de justificações que se designe por

profissionalismo, o qual é analisado como uma estratégia política e não como uma

atitude meramente funcional de configuração relacional (Dubar; Tripier, 1998, p. 113). Os teóricos desta nova vaga tentam de alguma forma renovar o cenário da sociologia das profissões.

A obra de Max Weber (1967) trouxe para o debate o facto das profissões numa primeira fase serem de origem religiosa, isto é, o domínio da atividade religiosa estava no centro da vida comunitária. Com a introdução do protestantismo e do capitalismo, as profissões passam a apostar nas oportunidades de determinado mercado.

Freidson (2001) define profissionalismo como o controlo ocupacional do trabalho e sugere um modelo ideal tipo das circunstâncias institucionais. Ao elaborar o modelo de profissionalismo, o autor distingue um número de variáveis que são contingências críticas para definir o ideal tipo que suporta o profissionalismo.

As diretrizes teóricas são as seguintes: em primeiro lugar, um corpo de sabedoria e técnica que é oficialmente reconhecido com base em conceitos abstratos e teorias e requer o exercício de discrição considerável; em segundo lugar, uma divisão ocupacional e controlada de trabalho; em terceiro lugar, um mercado de trabalho controlado requerendo o treino de credenciais para a entrada e a mobilidade de carreiras; em quarto lugar, surge um programa de treino ocupacionalmente controlado que produz essas mesmas credenciais, o ensino escolar, que está associado a uma aprendizagem maior, segregado pelo mercado de trabalho habitual, e que disponibiliza a oportunidade para o desenvolvimento do saber; por último, e em quinto lugar, uma ideologia conferindo uma maior devoção para fazer um melhor trabalho do que a compensação económica.

O conceito de carreira inscreve-se na teoria interacionista como sinónimo do percurso de uma pessoa ao longo do seu ciclo vital.

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Para Menger (2003), as profissões constituem um segmento particular, uma elite de trabalho dotada de elevadas competências e de uma forte autonomia para exercer a sua atividade no seio de uma organização. Contudo, a condição de profissão liberal, com estatuto independente, não constitui por si só condição necessária para ser assumida como uma profissão em si. O objeto profissão, no qual nos revemos, segundo Menger (2003), é um domínio fecundo da abordagem sociológica e que se apresenta no cruzamento de quatro dimensões: uma análise micro sociológica de atividade produtiva individual que se inscreve num perfil identitário; uma análise estrutural e interacionista das relações de grupo profissional com os seus pares e com os concorrentes e outras profissões vizinhas próximas; uma análise socioeconómica das características do trabalho e também da segmentação profissional; e uma análise institucionalista e sistémica da constituição da organização do trabalho e da estrutura totalitária social. Abordadas as principais teorias que sustentam a nossa problemática, afigura-se-nos que é no paradigma interacionista que se desenvolve o nosso trabalho de investigação. Wilson recorre à noção de profissionalidade segundo Weiss (1983). Para este autor, o conceito exprime a complexidade, a articulação e o dinamismo das competências e das capacidades, atuais e potenciais, que definem cada vez mais a atividade produtiva nas dimensões individuais e coletivas.

Segundo Abbott (1992), as profissões tendem a desenvolver-se num padrão comum, denominado de profissionalização.

Lallement remete-nos para os movimentos da revolução industrial entre os séculos XVIII e XIX onde, nos países ocidentais, nascem os primeiros sistemas de relações profissionais. Sob a génese da constituição de organizações profissionais e dos movimentos sindicais, o mesmo autor refere que as relações profissionais tomaram corpo na Europa com repercussões na constituição de identidades coletivas (2008). Segundo o mesmo autor, os sociólogos das relações profissionais que privilegiam uma lógica interacionista estão igualmente atentos à regulação. Isto é, à forma como os atores são capazes de criar, manter, parar e mudar as regras sociais.

O estudo das carreiras, numa perspetiva epistemológica ligada ao interacionismo simbólico, é assumido por Huberman (1989) em “La vie des enseignants”. Neste trabalho, Huberman apresenta um ciclo de vida profissional dos professores com 7 fases

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distintas e em interligação. A primeira fase, designada por entrada na carreira, situa-se entre o primeiro e o terceiro ano de experiência profissional na docência e caracteriza-se fundamentalmente pelo choque com a realidade e o confronto com a complexidade da profissão. Segundo o autor, é entre processos de sobrevivência, ligados ao choque com a realidade e mecanismos de descoberta, traduzindo algum entusiasmo na experimentação, que podem coexistir ou promover uma dominação de um aspeto sobre o outro, que se ultrapassa a fase. Podem ainda existir perfis mais marcados por um ou outro aspeto.

A evolução da fase de exploração leva a uma fase posterior, segundo o mesmo autor, a de estabilização. Para Huberman, escolher significa eliminar outras possibilidades. Assim, “a escolha de uma identidade profissional implica renunciar pelo menos por um

período determinado, a outras identidades” (1989, p.15). Nesta segunda fase descrita

pelo autor, entre os 4 e os 6 anos de experiência profissional, surge alguma libertação e independência do ator assumindo novos cargos. A este propósito e talvez considerando a prematuridade da fase, Huberman recorre ao exemplo dos professores de arte e desporto para referir que para os professores daqueles ramos: “há sempre a

possibilidade de sonhar com uma carreira de artista ou de atleta” (1989, p. 15).

Parece ser a partir desta última fase, estabilização, que ocorre maior diversidade nos percursos dos professores. Com efeito, após esta sedimentação, os professores parecem estar mais disponíveis para analisar as problemáticas organizacionais e sociais ao nível da política educativa. Assim, e na concretização de alguma autoridade e responsabilidade, os professores lançam-se numa série de experiências pessoais concretizando a fase de diversificação, caracterizada por um período muito ativo das suas vidas numa janela temporal de 7 a 25 anos na docência. Ainda nesta mesma janela temporal e na derivação da fase anterior, existe um conjunto de professores que, movidos por uma crise existencial possivelmente causada por um conjunto de rotinas, trabalham cumprindo regras organizacionais e permanecem numa fase dita de questionamento.

Numa janela temporal entre 25 a 35 anos, Huberman (1989) distingue duas fases. Uma primeira designada de Serenidade e distanciamento afetivo, caracterizada pela diminuição dos níveis de ambição e investimento e pelo consequente aumento dos níveis de confiança e serenidade, e uma segunda denominada de Conservadorismo,

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marcada por algum desencanto perante a mudança imposta, assumindo assim o professor como que alguma marginalidade ao sistema. Como nos acrescenta ainda o autor, a monotonia vivida, ano após ano, coloca o ator perante um desencantamento proporcionado pelas rotinas após reformas estruturais desencadeadoras de crise. Ainda em relação a esta fase, o autor encontra uma relação clara entre a idade e o conservadorismo.

No período de serenidade começam, sobre o plano pessoal e institucional, os mecanismos de Dèsengagement (Huberman, 1989). Nesta última fase do ciclo de vida profissional, os professores reduzem progressivamente o seu investimento no trabalho para assim consagrarem mais tempo para si e para interesses exteriores à escola e a uma vida social mais refletida do ponto de vista filosófico.

Para Abbott, as diferenças de carreira apontam para diferenças de estatutos e, por sua vez, as carreiras mais longas apontam para padrões mais fixos. Um dos padrões descritos por este autor denomina-se “Rigidez demográfica”. Assim, “uma profissão é

demograficamente rígida se o seu tamanho e os seus mecanismos reprodutivos previnem que a mesma expanda ou contraia rapidamente" (1992, p. 129). A rigidez

demográfica aumenta o tempo de resposta à mudança nas profissões que constituem este padrão deixando muitas vezes com o aumento da procura a sua jurisdição aberta a outras profissões concorrentes. A diferenciação interna constitui um outro padrão descrito por Abbott. Este padrão pode assumir várias formas e tem efeitos profundos nas relações interprofissionais que podem gerar perturbações no sistema. Isto é, as diferenças internas podem enfraquecer o controlo da jurisdição e exercem forças que podem dificultar as profissões a lidar com mudanças na procura. Em suma e segundo o mesmo autor, enquanto as profissões estão geralmente em competição no sistema, vários aspetos de diferenciação profissional interna ajudam paradoxalmente a ligar profissões diferentes (Abbott, 1992, p. 134).

Em síntese, as profissões numa primeira abordagem definidas à luz da corrente funcionalista circunscrevem-se à dinâmica da organização social. Já recorrendo à corrente interacionista valoriza-se o itinerário ou o processo biográfico. Partimos da premissa de que a dimensão biográfica de carreira se inscreve na teoria do interaccionismo. Estabelecemos uma articulação entre a carreira e o desenvolvimento profissional das profissões com recurso a autores como Pierre Michel Menger e Michel

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Lallement. Por fim, recorremos a Michaël Huberman, na exploração das várias fases do modelo de carreira do autor, desde a entrada na profissão e o choque com a realidade, passando pela fase de estabilização e consolidação, diversificação e questionamento, serenidade ou conservadorismo até, no limite, se chegar ao “Désengagement”.