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como poste de Lula

5.2.4 A solidão das mulheres

Outro enquadramento marcante da cobertura do segundo man- dato de Dilma Rousseff refere-se ao isolamento político e à solidão da presidenta. A tematização da solidão no poder é comum na cobertura política, especialmente em fins de mandatos, quando a mobilização em torno dos novos governantes se instaura. No caso de Dilma Rousseff, entretanto, o tema extrapola as questões da vida pública e chega à ambiência privada.

Na edição 2399, a primeira após a reeleição de Rousseff em 2014, Veja traz a presidenta na capa com a seguinte manchete: “A solidão da vitória”. Durante o segundo mandato, as revistas se revezam na repercussão dessa temática. Em março de 2015, três meses após o início do segundo mandato ,a revista Época afirmou:

Ela é a mulher mais poderosa do Brasil – mas não con- segue mandar. Ela é a mulher com nove partidos aliados no Congresso – mas está abandonada. Ela é, afinal, a mulher a quem o Brasil deu mais quatro anos – mas que, com apenas dois meses de segundo mandato, não consegue governar. Acossada pelas consequências polí- ticas, econômicas e sociais dos erros que cometeu nos primeiros quatro anos, Dilma Rousseff está só (ÉPOCA, ed.875, 14/03/2015, p. 16).

Esse isolamento/solidão é, na opinião das quatro revistas pesquisadas, resultado da inabilidade política da presidenta, de sua dificuldade de diálogo com os pares e de seu tempera- mento difícil. “A Presidente nunca foi muito querida entre os servidores, pelos mesmos motivos que não é querida pelos polí- ticos: seus arroubos de impaciência, o hábito de gritar e a ris- pidez no trato”, afirma reportagem da Época com o objetivo de esclarecer os motivos da solidão da presidenta (ÉPOCA, ed.931, 16/04/2016).

As narrativas convergem para uma representação de Rousseff como alguém que não consegue produzir parcerias e laços afe- tivos tanto na vida pública quanto na vida privada.

O isolamento da Presidente Dilma está também na vida privada. Sua filha, Paula, que está grávida, e seu neto, Gabriel moram em Porto Alegre. Dilma, que é divor- ciada, vive no Palácio da Alvorada apenas com a mãe, Dilma Jane, de 92 anos. Desde que dona Dilma adoeceu, a filha almoça todos os dias em casa quando está em Brasília. Elas estão juntas no Alvorada desde 2011[....] s presidentes desde a redemocratização eram polí- ticos, com amigos na política. Não é o caso de Dilma. Nos finais de semana, é comum a Presidente telefonar a ministros e auxiliares mais próximos para ter com quem conversar. Vencer o delicado momento do impea- chment, para Dilma, é antes derrubar seu claustro (ÉPOCA, ed.913, 07/12/2015, p. 17).

Quase o mesmo texto, escrito por repórteres diferentes, é publicado em Veja:

Todos os presidentes da República padecem de solidão, mas é certo que Dilma é uma Presidente mais sozinha do que foram seus antecessores. No Alvorada, mora só com a mãe. Dilma Jane, de 92 anos, é assistida diariamente por três enfermeiras, locomove-se em cadeira de rodas e, por causa dos lapsos de memória, já não é capaz de fazer companhia à filha (VEJA, ed. 2477, 11/05/2016, p. 51).

A “solidão” da presidenta é, portanto, um tema comum às revistas, com pontos de interseção entre elas no modo de abordar o assunto. As relações familiares e afetivas de Rousseff são pro- blematizadas com ênfase no seu estado civil. A qualificação de personagens públicas femininas a partir da apresentação das condições familiares, especificamente sobre o estado civil, tem sido uma tendência na abordagem da mídia. Campus (2013) des- creveu como a secretária de Estado americana Condoleezza Rice, solteira, era questionada em programas de auditório sobre sua disposição para um possível casamento.

A cobrança sobre as mulheres de suas relações afetivas ou do desempenho de funções relacionadas ao espaço privado nos mostra como há uma dificuldade da sociedade e suas instituições em romper com o padrão cultural da mulher dedicada à casa, à família e especialmente ao amor. A representação simbólica clás- sica da mulher está cristalizada em sua relação com o amor. Seja o amor romântico, representado pelas princesas e esposas devo- tadas, ou o amor materno, solidificado no imaginário coletivo como sublime e incondicional. Nesse sentido, a professora Linda Rubim (2003, p. 171) esclarece:

A mulher é reconhecida desde o Século XVIII como um ser sensível destinada para o amor. É ela que repre- senta a encarnação suprema da paixão amorosa, do amor absoluto e primordial. Nas sociedades modernas, o amor se impôs como um pólo constitutivo da

identidade feminina. Assimilada a uma criatura caó- tica e irracional, a mulher é supostamente predisposta às paixões do coração. A necessidade de amar e a ter- nura aparecem, cada vez mais, como atributos especi- ficamente do feminino. Na verdade, ainda mais longe, pode-se afirmar que, desde a era clássica, a expressão do sentimento é considerada coisa mais adequada ao feminino que ao masculino. Os homens são obrigados, em suas revelações intimas a mais reserva, mais mode- ração, mais controle dos sentimentos e das emoções que as mulheres. As visões tradicionais das mulheres como ser de excesso e desmedida, assim como as ideologias modernas que se recusam a considerar a mulher como um indivíduo autônomo vivendo para e por si mesmo, contribuíram para conjugar estrei- tamente identidade feminina e vocação para o amor. Celebrando o poder do sentimento sobre a mulher, definindo-a pelo amor, os modernos legitimaram seu confinamento à esfera privada. A ideologia do amor contribuiu para reproduzir a representação social da mulher naturalmente dependente do homem, incapaz de chegar a plena soberania de si.

Ao insistir em tematizar questões sobre os relacionamentos amorosos ou familiares das mulheres políticas, a imprensa rati- fica esse simbólico sobre o feminino e o amor, pontuando como falta ou incompletude, no caso das mulheres, a ausência de um companheiro ou de uma estrutura familiar tradicional.

Observou-se, na pesquisa, nesse sentido, que a “solidão” ou, mais especificamente, o estado civil das mulheres públicas é tematizado e explicado pela imprensa. A apresentação da ministra do Supremo Tribunal Federal Cármen Lúcia publicada na Época no preâmbulo de uma entrevista revela tal comportamento:

Cármen Lúcia estaria sozinha na casa branca e imacu- lada no Lago Sul de Brasília não fossem os processos que estuda, não fosse a fé que a acompanha. Essa mineira de 61 anos, não tem empregada, nunca se casou e não

tem namorado há alguns anos porque trabalha demais, adora os 18 sobrinhos e os nove sobrinhos-netos. É uma mulher casada com o Direito e com suas causas (ÉPOCA, ed. 931, 16/04/2016).

Nota-se que o destaque realizado pela revista se refere às rela- ções privadas da ministra, e não ao seu currículo profissional. A publicação, inclusive, precisa explicar e dar sentido à ausência de marido e filhos na vida de Cármen Lúcia. Outro ponto a ser obser- vado é que a personagem tem a simpatia do veículo, e, nesse caso, tenta-se construir uma narrativa elogiosa de sua “solidão”. Se em Dilma Rousseff, personagem combatido pelas revistas, a solidão provém de seu temperamento difícil, em Cármen Lúcia, vem da dedicação religiosa ao trabalho.

A propósito dessa afirmação, percebe-se que a revista uti- lizou os símbolos mais tradicionais para completar a descrição da ministra, santificando-a por meio de elementos como devoção à família e à religião.

Fotos da família grande, da mãe com quem se parece muito, do pai que tem hoje 97 anos e a quem é muito ape- gada. Um quadro pequeno retrata o Rio São Francisco. Vejo Jesus no crucifixo junto à porta, a escultura da santa pintada à mão, um cálice de comunhão, o desenho do rosto de Cristo com a sua coroa de espinhos, a toalha bordada com Nossa Senhora das Graças estendida sobre a cama com uma bíblia. Sua fé explica muitos de seus gestos e votos. [...] Sem maquiagem e sem esmalte, os cabelos prateados e naturais, a juíza assa um tabuleiro de pães de queijo e prepara, ela mesma, um gnocchi al pomodoro, seguido de pudim de leite e goiabada cascão com queijo da serra [...] (ÉPOCA, ed. 931, 16/04/2016).

O poder não é algo que deva ser desejado por uma mulher. Afirmar, portanto, que uma mulher se dedicou amplamente ao crescimento na carreira profissional fere a hierarquia de sen- tidos da cultura patriarcal. A propósito, Valcárcel (1994, p. 77-78)

esclarece que as mulheres poderosas da história quando asso- ciadas à Igreja, salvavam-se da representação da mulher diabó- lica. A filósofa afirma que o poder está associado a características como maldade, ambição, volúpia, elementos contrários ao que se espera de uma boa mulher. Nesse sentido, ela aponta que as rai- nhas cristãs que chegaram ao poder exorcizavam-no associan- do-se aos símbolos da religiosidade e, assim, estavam protegidas da associação ao mal. De sua pesquisa sobre as diferentes perso- nagens femininas que ocuparam o poder, Valcárcel constata que, para o exercício pacífico do poder, só resta às mulheres:

[...] ostentar o poder algemadas, com as mãos juntas, em atitude de desculpa, e casadas com sua própria virgin- dade ou com algum homem sombrio, e com o tempo se converter em viúvas inconsoláveis. Porque se a mulher assim não o faz, simplesmente peca, peca contra a natu- reza e a cultura, e como a mãe Eva, introduz o pecado (VÀLCARCEL, 1994, p. 77).

Quando Época destaca a religiosidade da ministra Cármen Lúcia, seu amor pelos sobrinhos e o hábito de cozinhar, está atuando para enquadrá-la nos signos culturalmente acolhidos do feminino e, desse modo, para preservá-la. Ao fazê-lo, no entanto, a revista reforçou o senso comum e perdeu a oportunidade de construir um novo simbólico sobre a mulher no poder.

No caso de Rousseff, a entrada na seara familiar foi utili- zada para a construção de sua antítese: Marcela Temer, esposa do então vice-presidente Michel Temer. No ápice da campanha pelo impeachment, a revista Veja publicou o artigo “Bela, recatada e do lar”, que trata da relação conjugal de Marcela e Michel Temer e da rotina da “vice primeira-dama” como dona de casa, esposa e mãe zelosa (VEJA, ed.2474, 2016). A sentença da repórter é de que o vice-presidente é um “homem de sorte”. O artigo gerou indig- nação das mulheres no país, que iniciaram uma campanha bem- -humorada nas redes sociais para questionar o viés machista ado- tado pela revista. A filósofa Djamila Ribeiro percebeu a atitude

de Veja como uma tentativa de apresentar um perfil de mulher oposto ao da presidenta Dilma Rousseff, em mais uma manobra para enfraquecer sua imagem.

Fica evidente a tentativa da revista de fazer uma opo- sição ao que Dilma representa. Uma mulher aguer- rida, forte, fora do padrão imposto do que se entende que uma mulher deve se comportar. Mas, é como se dis- sessem: mulher boa é a esposa, a primeira dama, a “que está por trás de um grande homem (RIBEIRO, 2016).

A revista segue um padrão de representação com as marcas da tradição patriarcal, representando o homem político como o chefe da família, acolhido e amado pela esposa e filho. Enquanto uma narrativa posiciona a Presidenta como uma mulher fora dos padrões, do outro retrata “o homem de família”.

Logo depois de acordar o vice tomou café, escolheu o terno com a ajuda da primeira-dama e deu os reto- ques finais no discurso de posse [...]. Michelzinho, o filho mais novo de Temer, acompanhava junto ao pai a intensa movimentação no início daquela manhã (VEJA, ed.2478, 18/05/2016, p. 65).

Nota-se que a vida privada do homem político é também acio- nada com a intenção de qualificá-lo, conferir-lhe simpatia, cre- dibilidade e empatia. As investigações sobre representação sim- bólica de mulheres e homens políticos indicam, no entanto, que as questões familiares têm menor peso na representação deles (PAIVA, 2008; NORRIS, 2007).

A família sempre foi um elemento de destaque nas campa- nhas eleitorais; no entanto, as mulheres estão historicamente conectadas à figura da primeira dama. Essa mudança de pers- pectiva da mulher primeira dama para a mulher chefe de Estado ainda não amadureceu no repertório simbólico das diferentes sociedades. Nos últimos anos, observa-se que o papel da família tradicional tem sido intensificado nas campanhas eleitorais,

acompanhando a onda conservadora emergente. Fraser (2007, p. 300) destaca que, nos Estados Unidos, a campanha de Bush esco- lheu como estratégia de campanha em Ohio destacar os valores familiares, com a “defesa do casamento” como um dos temas escolhidos pelos republicanos para a realização de um plebis- cito naquele colégio eleitoral, o que atrairia muitos eleitores cristãos fundamentalistas. Nesse sentido, a socióloga reflete que, apesar de as propostas políticas do governo Bush acarre- tarem perdas de redistribuição de renda e tornarem as condi- ções de vida da população mais difíceis, “a direita conseguiu persuadi-los de que são os direitos ao aborto e ao casamento gay que ameaçam seu estilo de vida” (FRASER, 2007, p. 301). Ao focar em uma estratégia de política cultural regressiva, aponta a autora, a direita consegue desfocar a atenção de sua política de redistribuição regressiva.

Ao defender padrões familiares, as instituições conside- radas democráticas, como a imprensa, no limite, estão defen- dendo o ambiente privado como o local primaz da atuação das mulheres. Percebam que, na representação da família Temer, há uma convocação ao modelo de família consolidado e valorizado na tradição patriarcal, em que a mulher é a dona de casa dedi- cada ao marido e ao filho. Dilma Rousseff, no entanto, confronta esse padrão, sendo mulher divorciada, sem parceiro, e já avó, um retorno à independência dos rituais familiares primários do dia a dia. Desse modo, associa-se a crise econômica e ética do governo a uma crise de valores da sociedade, a um estado de insegurança motivado pela mudança dos padrões morais, com a família no centro dessas questões.

A explicação, para alguns autores, como Engels (1884/1964) e Xavier (1998), é de que o modelo familiar na tradição patriarcal5

5 A relação entre família e patriarcado remete à origem do termo “família”, do vocábulo latino “famulus”, que significa “escravo doméstico”. Esse organismo social configurou-se como instituição na Roma Antiga. A família romana era centrada no homem, e o patriarca tinha como propriedade a mulher, os filhos, os escravos e os vassalos, inclusive com o poder de decidir o direito de vida e de morte sobre eles (ENGELS, 1884/1964; XAVIER, 1998). No entanto, o patriarcado não se refere ao poder do pai, mas ao poder dos homens,

atua para a manutenção do status quo, e, nesse sentido, há uma disputa também em torno da definição do que é família. Contestar modelos familiares que saiam do padrão da família nuclear patriarcal é contestar em verdade mudanças nas estru- turas de poder. Não por acaso, a disputa no Brasil que se consti- tuiu em torno do projeto de lei sobre o estatuto da família, com bancadas religiosas e as igrejas atuando para impedir a alteração da legislação que define o que é considerado “família”.

Fizemos esse recorte para deixar claro que as representações simbólicas pela mídia não estão isoladas da produção de efeitos no plano material e que se trabalha em uma cadeia de sentidos em prol da manutenção do sistema vigente, visto que as dis- putas pelo rompimento do establishment são constantes. Como bem observa Foucault em A microfísica do poder (2001), o sistema vigente percebe as ameaças a seu domínio e trata de neutralizá- -las, para que sejam incorporadas à lógica do sistema ou para que sejam condenadas.

Figura 14 – Solidão

Fonte: recortes das capas: Veja, 2434/2015; Época, ed.931/2016; Isto É, ed.2437/2016.

como categoria social. Em linhas gerais, o patriarcado se configura em duas diretrizes: a subordinação hierárquica das mulheres aos homens e a subordinação dos jovens aos homens mais velhos (MATOS, 2008).

Tabela 9 – Solidão

ÉPOCA, EDIÇÃO 07/12/2015 “Os presidentes desde a redemocratização eram

políticos, com amigos na política. Não é o caso de Dilma. Nos finais de semana, é comum a presidente telefonar a ministros e auxiliares mais próximos para ter com quem conversar. Vencer o delicado momento do impeachment, para Dilma, é antes derrubar seu claustro.”

ÉPOCA, EDIÇÃO 07/12/2015 “Os aliados políticos se foram. Os funcionários

mais próximos buscam emprego. Até em casa, no Palácio da Alvorada, Dilma Rousseff está sozinha e reclusa”.

CARTA CAPITAL, EDIÇÃO 25/05/2018 “A segunda impressão, pelo contrário, confirma aquela que tive no passado. Vi, melhor, senti uma personagem solitária naquele cenário desmesurado, esmagador antes que imponente.” VEJA, EDIÇÃO 11/05/2016 “Todos os presidentes da República padecem de solidão, mas é certo que Dilma é uma presidente mais sozinha do que foram seus antecessores.” ISTO É, EDIÇÃO 20/04/2016 “A solidão dos políticos, nos últimos dias de

poder, é tamanha que até o cafezinho passa a ser servido frio, reza a tradição. A presidente Dilma não sofreu com isso na semana antecendente à votação do seu impeachment na Câmara. Seu café já estava gelado fazia algum tempo.”

Fonte: elaborada pela autora.