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2.2. No Magistério de Paulo VI

2.2.2. A Sollemnis Professio Fidei

O documento que agora iremos analisar trata-se da profissão de fé feita pelo Papa Paulo VI a 30 de Junho de 1968 na basílica de S. Pedro, por ocasião do encerramento do Ano da Fé que celebrava o 19º centenário do martírio dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo284. Muito embora não faça parte do objectivo do presente trabalho analisar as circunstâncias históricas que motivaram a emanação deste documento, não podemos deixar de mencionar que esta solene profissão de fé pode ter correspondido em grande medida ao desejo manifestado pelo Sínodo de 1967 de “que a Sé Apostólica, ouvidas as Conferências episcopais, publique uma declaração positiva e pastoral sobre as questões referentes à actual problemática doutrinal, para dirigir com segurança a fé do Povo de Deus”285

, embora o documento aponte apenas para um acto exclusivamente papal. Por outro lado, vislumbra-se

281

Cf. A. M. SANGUINETI, El sacrificio eucarístico, 121.

282

Cf. A. PIOLANTI, “I motivi dell’Enciclica Mysterium Fidei”, cit. in A. M. SANGUINETI, El sacrificio

eucarístico, 121. 283

Cf. L.IAMMARRONE, “Relazione tra la transustanziazione e il sacrificio-convito sacramentale”, cit. in A. M. SANGUINETI, El sacrificio eucarístico, 121.

284

Cf. A. M. SANGUINETI, El sacrificio eucarístico, 125.

285

F.SEPER, Le rapport de la commission doctrinale du Synode, in La Docmuentation Catholique 1505 (1967) 1986.

também uma resposta clara aos pontos fundamentais da doutrina que deviam ser corrigidos no Catecismo Holandês, nascido da fermentação das ideias erróneas do momento286.

Podemos constatar que as dificuldades que surgem na época correspondem a um novo conceito da presença e da eficácia actual do mistério de Deus no mundo, relacionados sobretudo com pontos como sejam a Palavra de Deus, os sacramentos e o sacerdócio287. Estes assuntos haviam sido contestados em alguns sectores, segundo uma lógica filosófica de exclusão quer, da teologia natural quer da analogia do ente288.

Falando agora do valor da Sollemnis Professio Fidei, podemos qualifica-la como uma documento de grande importância, porque, embora não se trata de uma definição dogmática propriamente dita, reúne algumas características que lhe conferem “máxima autoridade”289:

- Dirige-se à Igreja universal (bem como a todos os que buscam a verdade)

- Por ter sido proclamada “em nome de todo o povo de Deus”290, donde a comum designação de “Credo do Povo de Deus”, que intitulava as primeiras edições em vários idiomas.

- Pela presença de expressões específicas de todo o acto de fé (a palavra “Cremos” encontra-se repetida inúmeras vezes)

Podemos então concluir que é neste contexto de clarificação de verdades, “postuladas pelas condições espirituais desta época”291

, que se pode situar o presente documento com os seus

286

Cf. A. M. SANGUINETI, El sacrificio eucarístico, 126.

287

Cf. A. M. SANGUINETI, El sacrificio eucarístico, 127.

288

Cf. A. M. SANGUINETI, El sacrificio eucarístico, 127.

289

Cf. A. M. SANGUINETI, El sacrificio eucarístico, 127.

290

PAULO VI, Sollemnis Professio Fidei, 7, in AAS 60 (1968) 435.

291

artigos sobre a Eucaristia (artigos 24 a 26). Estes mesmos artigos reafirmam aqueloutros já mencionados na Encíclica Mysterium Fidei, a saber292:

1. A natureza sacrificial da Missa (artigo 24);

2. A presença real de Cristo operada pela conversão substancial que se realiza na Missa (artigos 24, 25 e 26);

3. O carácter hierárquico do sacerdócio ministerial (artigo 24).

Voltando agora a nossa atenção para o texto propriamente dito, podemos constatar que a profissão de fé na Eucaristia inicia-se precisamente com afirmações solenes a respeito do carácter sacrificial da Missa, em estreita ligação com as outras dimensões mencionadas293:

«Cremos que a Missa, celebrada pelo sacerdote que representa a pessoa de Cristo em virtude do poder recebido no sacramento da Ordem, e oferecida por ele em nome de Cristo e dos membros do seu Corpo Místico, é verdadeiramente o sacrifício do Calvário tornado sacramentalmente presente sobre os nossos altares.»294

Neste, como nos artigos seguintes, torna-se clara uma explicitação da doutrina na qual se detectam matizes enriquecedores relativamente à exposição magisterial anterior295. Neste sentido, distingue-se o acto específico do sacerdote na celebração do sacrifício – o qual só a ele compete em virtude de representar a Pessoa de Cristo – do da sua oblação pelo qual o sacrifício é oferecido pelo sacerdote em nome de Cristo e dos membros do seu Corpo296.

Sublinha-se ainda o valor sacrificial da Última Ceia identificada, mediante a consagração, com o sacrifício da Cruz, e recorda-se também que a Última Ceia se identifica por sua vez com o sacrifício da Missa; nesta, o acto da consagração compete apenas a quem,

292

Cf. A. M. SANGUINETI, El sacrificio eucarístico, 128.

293

Cf. A. M. SANGUINETI, El sacrificio eucarístico, 128.

294

PAULO VI, Sollemnis Professio Fidei, 24, in AAS 60 (1968) 442.

295

Cf. A. M. SANGUINETI, El sacrificio eucarístico, 129.

296

em virtude do poder sacramental recebido de Cristo, foi conferido o sacerdócio ministerial para actuar in persona Christi.

«Cremos que, assim como o pão e o vinho consagrados pelo Senhor na Última Ceia foram mudados no seu Corpo e no seu Sangue, que dali a pouco iam ser oferecidos por nós na Cruz, assim também o pão e o vinho consagrados pelo sacerdote se mudam no Corpo e no Sangue de Cristo gloriosamente reinante no céu.»297

É reforçada igualmente a conexão entre presença e sacrifício quando no artigo 26 se precisa que o mesmo Cristo, na sua “única e indivisível existência”, que “não se multiplica”, se faz presente nos vários lugares do orbe da terra onde se realiza o sacrifício eucarístico, permanecendo, além disso, depois da celebração do mesmo298.

«A única e indivisível existência de Cristo Senhor glorioso no céu não é multiplicada pelo sacramento mas é tornada presente nos diversos lugares da terra onde se celebra o sacrifício eucarístico. Eis aí temos aquele “Mistério da fé” e das riquezas eucarísticas, que todos sem excepção devemos aceitar. Depois do sacrifício, tal existência continua presente no santíssimo sacramento, que é, no Tabernáculo, o coração vivente de cada urna das nossas igrejas. É para nos um dever suavíssimo honrar e adorar no Pão santo, que os nossos olhos vêem, o Verbo incarnado, que eles não podem ver, e que, sem deixar o céu, se tornou presente diante de nós.»299