4. O ESTATUTO GRAMATICAL-DISCURSIVO DO PAR P-R
4.4. A SUBJETIVIDADE E INTERSUBJETIVIDADE NO PAR P-R
Nesta seção, trato dos mecanismos de instauração da subjetividade e intersubjetividade no processo de codificação do par P-R, mostrando como esse processo contribui para a instauração e manutenção da interação entre os participantes do discurso.
Como sinalizado anteriormente, na seção de gramaticalização, Traugott e Dasher (2005) denominam de estratégias subjetivas e intersubjetivas as relações que são negociadas no jogo interativo estabelecido pelos interlocutores, ou seja, como a atitude do falante está relacionada ao interlocutor. Na subjetividade, os falantes utilizam termos inferenciais para comunicar crenças e valores. Já na estratégia intersubjetiva, os falantes se utilizam de recursos que têm como objetivo agirem sobre o interlocutor para obter aquiescência ou adesão para o que está sendo dito.
Traugott e Dasher (2005) elaboram os traços que identificam os pontos de vista objetivos e subjetivos. Os primeiros estão relacionados:
a. Sentenças declarativas, na voz ativa, minimamente marcadas no que se refere à modalidade;
b. Todos os participantes de um evento são expressos na estrutura de superfície;
c. Os itens lexicais estão minimamente relacionados à perspectiva dos interlocutores, isto é, minimamente, dêiticos (TRAUGOTT; DASHER, 2005, P. 22)51.
Esses traços definidores da objetividade mostram mínima explicitude do sujeito em sua produção de fala, pois quase não há envolvimento do falante em relação àquilo que diz:
(62) Dav: Edivaldo tá precisando de gente pra ir passear lá viu?
Ama: ah viu ((RISOS))... que bom... sobre a questão assim da seca no nordeste né? a gente cansa de ver sobre essa temática seca no nordeste seca no nordeste... no nordeste e nunca houve um problema uma solução realmente pra solucionar essa seca né? um alguns queriam colocar a questão da transposição que seria que alguns estados não deixariam de ser beneficiado mas que não chegou nem ser concretizado como é que você vê essa questão da seca no nordeste? sempre ( ) mas nunca foi solucionado
a seca é um problema no nordeste?(INTERAÇÕES CONDUZIDAS, ITABAIANA, M, 21, 1, S, P)
A pergunta formulada, em (62), é um exemplo de enunciado que apresenta características mais objetivas do que subjetivas, considerando o polo de gradiência proposto por Traugott e Dasher (2005), segundo os quais os polos objetivos e intersubjetivos devem ser considerados dentro de um continuum: objetivo <> subjetivo, em que uma expressão pode ser mais ou menos subjetiva. No caso de (62), a pergunta é codificada de forma mais objetiva porque não há modalização. Os participantes do evento alocado, no nível do texto, se resumem aos argumentos. Não há presença de dêiticos, e a pergunta restringe a resposta do ouvinte apenas para a dúvida codificada na proposição, ou seja, para o que é dito. No caso das características subjetivas, há a presença dos seguintes traços:
a. Dêixis espacial e temporal explícitas;
b. Marcadores explícitos da atitude do falante em relação ao que é dito, incluindo atitude epistêmica para a proposição;
c. Marcadores explícitos da atitude do falante em relação ao que procede e ao que segue na estrutura discursiva;
51 (i) they are declarative, i.e. minimally marked with regard to modality, (ii) all participants in an event structure are expressed in surface structure, (iii) lexical items are minimally concerned with the interlocu- tors’ perspective (i.e. minimally deictic) [Tradução nossa]
d. Maior relação com o campo do não-dito (TRAUGOTT; DASHER, 2005p. 23)52.
Na realização dos enunciados subjetivos, marcas linguístico-contextuais possibilitam a identificação do enunciador que se envolve diretamente no que está sendo dito, como em:
(63) Ent: no final do ano você tem planos?
Dav: planos pro final do ano? ah eu tenho um monte de planos... eu se- eu morro de vontade de passar com meu namorado na orla porque é lindo... eu gosto ((RISOS)) as pessoas falam que é meio cafona mas eu acho lindo passar lá na orla ver fogos eu acho tão boni- ( ) ... final do ano assim eu penso eu penso eu sonho assim com coisas... família com... eu sou meio romântico sabe? aí meus objetivos são assim coisinhas assim com ele... que é com quem eu vivo mesmo que eu divido tudo... então... tem que ser do lado dele
Ent:quando você tá viajando o que você acha que não pode faltar? (ENTREVISTA SOCIOLINGUÍSTICA, ITABAIANA, M, 25, 1, S).
Verificamos, em (63), que, além da dúvida codificada na interrogativa focada, que busca uma informação na forma de OD, existem as marcas você e acha que indicam, de modo direto, o envolvimento do falante codificado na pergunta. A primeira marca instaura a presença do ouvinte no discurso; a segunda, abre espaço para o campo do não-dito, o que possibilita ao ouvinte ir além do que está codificado na pergunta.
Além disso, podemos também observar os mecanismos da intersubjetividade que estão relacionados aos da subjetividade, que, segundo os autores, incluem: i) dêixis social explícita; marcadores explícitos de atenção do falante em relação ao ouvinte; e ii) predominância de inferência a partir daquilo que é dito, ou seja, o processo de intersubjetividade está diretamente relacionado a dêixis social, e envolve o status que o falante confere às marcas de primeira e de segunda pessoa no discurso.
Galembeck (2002) afirma que, na língua, há elementos que indicam, de modo direto, a inscrição dos interlocutores no discurso, como pronomes e formas verbais de primeira e de segunda pessoas, marcadores conversacionais de valor fático, lexicais (certo?, né?) ou não-lexicalizados. Essas marcas de caráter intersubjetivo assumem o
52 (i) overt spatial, and temporal deixis, (ii) explicit markers of SP/W attitude to what is said, including epistemic attitude to the proposition, (iii) explicit markers of SP/W attitude to the relationship between what precedes and what follows, i.e. to the discourse structure; many aspects of discourse deixis are in- cluded here, (iv) The R-heuristic predominates [Tradução nossa]
papel de estabelecer a manutenção das relações entre os participantes do diálogo, como no exemplo:
(64) Die: e ele tava com uma lista de sete pessoas pra matar inclusive um policial Dav: tava eu no meio?
Die: aí eu não sei...
Dav: acho que doido não ( ) não ((RISOS)) Die: você anda aprontando é?
Dav: eu não vou lá saber... erra assim diz que tem uma pessoa parecida comigo eu nunca vi ter duas coisa triste no mundo
Die: rapaz se tiver duas ( ) o mundo tá perdido mesmo falar a verdade... aí ( ) é? Dav: ((RISOS))... e é né?
Die: pode correr
Dav: ah pois ((RISOS))
Die: pode correr bem pra bem pra longe mesmo sabe? bem quando apontar olhe vem um ali e o outro lá pois se esconda (INTERAÇÕES CONDUZIDAS, ITABAIANA, M, 28, 1, S,P)
A marca sabe?, em (64), pela perspectiva de Galembeck (2002), tanto funciona como estratégia de busca de aprovação por parte do falante, como instaura a presença dos interlocutores envolvidos no discurso. Essa afirmação é corroborada por Castilho (1998), citado por Galembeck (2002), que define as estratégias com que os interlocutores se envolvem durante a conversação: a manutenção do turno conversacional, o assalto ao turno e a passagem consentida de turno.
Na mesma linha de Traugott e Dasher (2005), Almeida (2013) afirma que existem graus de codificação nos processos subjetivos e intersubjetivos que acontecem nos eventos de fala. A constatação da autora, ao analisar verbos de marcação condicional, é de que, no presente do indicativo, o termo condicionante indica um traço de intersubjetividade, uma vez que o falante considera as informações compartilhadas pelo interlocutor. Já a escolha do presente do indicativo, no termo condicionado, revela, para a autora, uma conclusão estabelecida pelo falante, o que se configura em um traço de subjetividade.
A noção de (inter) subjetividade, na acepção de Neves (2014), é fundamental para o entendimento das complexidades que se estabelecem no processo de coerência discursiva, a partir da relação texto-discurso. Para a autora, os juntivos são os elementos mais representativos dessas relações por evidenciarem um contrato intersubjetivo entre falantes e ouvintes. As relações de coordenação, em Neves (2014), ocorrem por meio de dois aspectos: i) a coordenação cognitiva responsável pela regularização interna das
sentenças, ou seja, as relações estabelecidas pelo discurso (intersubjetivas); e ii) pelas necessidades pessoais de falantes e ouvintes que cumprem os papéis sociopessoais no âmbito da interação.
Nesta tese, busco evidenciar as marcas de subjetividade e intersubjetividade codificadas no par P-R e relacioná-las aos padrões de interatividade estabelecidos pelos interlocutores. Na sequência, trato dos procedimentos metodológicos que balizam as análises efetuadas nesta tese.