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A Subjetividade Individual: o Indivíduo como Terminal

No documento A subjetividade maquínica em Guattari (páginas 97-101)

CAPÍTULO 3. A SUBJETIVIDADE MAQUÍNICA: A Heterogênese Não-Humana

3.2 Subjetividade Maquínica Enquanto Máquina Desterritorializada

3.2.2 A Subjetividade Individual: o Indivíduo como Terminal

A teoria guattariana enfatiza o âmbito coletivo ou mesmo cósmico da produção da subjetividade em oposição a uma apreensão reducionista que a concebe como restrita ao indivíduo ou ao sujeito. Temos visto, portanto, que a subjetividade é produzida atra- vés de vetores, ou agenciamentos, heterogêneos que podem ser chamados de coletivos, ou cósmicos por considerarem coisas tão diversas que vão desde as máquinas tecnológi- cas e a arquitetura até os agenciamentos sociais e máquinas hiper-desterritorializadas como as artes.

Ao constatarmos que os enunciados são sempre frutos de uma multiplicidade, são sempre sociais, coletivos, e nunca individuais, podemos nos perguntar o que seria a subjetividade individual que transmite, ou retransmite, esses enunciados coletivos. Ou ainda, o que seria a subjetividade individual que recebe esses enunciados. Formulando melhor essa questão podemos nos indagar sobre o processo de subjetivação, que se refe- re a uma subjetividade individual.

Guattari nos apresenta em sua teoria uma idéia de individuação, ou melhor, de processo de subjetivação individual, onde nos deparamos com as concepções de subje- tividade individual, indivíduo e subjetividade psicológica. O processo de subjetivação é a apreensão individual, ou o “processamento” individual, dos vários agenciamentos que produzem a subjetividade. Essa temática foi tratada, transversalmente, em nosso capítu- lo sobre a etologia onde pudemos observar que há uma concepção de diferentes forma- ções do eu, que não seriam vistas como fases a serem superadas, como vemos na psica- nálise, mas sim como níveis que constituirão a subjetividade psicológica, ou psíquica, por toda a vida, passíveis de serem postas em primeiro plano sem necessariamente con- figurar-se como uma regressão ou fixação.

A concepção guattariana de indivíduo é sinônimo de entrecruzamento, de encru- zilhada, ou ainda, de um terminal por onde passam, ou se fazem passar, os múltiplos agenciamentos coletivos de enunciação.

[...] a subjetividade não se situa no campo individual, seu campo é o de todos os processos de produção social e material. O que se poderia dizer, usando a linguagem da informática, é que, evidentemente, um indivíduo sempre existe, mas apenas, enquanto terminal [...] (GUATTARI, 2005, p. 41)

98 Esse “indivíduo-terminal” da teoria guattariana se contrapõe à noção de indiví- duo como uma totalidade egóica. Neste sentido, Guattari nos diz que Freud foi pioneiro nesta área: “Freud foi o primeiro a mostrar até que ponto é precária a noção da totali-

dade de um ego. A subjetividade não é passível de totalização ou de centralização no indivíduo.” (GUATTARI, 2005, p. 40) O conceito de subjetividade maquínica concebe, portanto, o indivíduo, ou melhor, a subjetividade individual, apenas enquanto um “mo- mento” do processo de subjetivação. É um terminal, uma estação, uma central, por onde passariam os diferentes agenciamentos coletivos de enunciação. Esta idéia de subjetivi- dade individual, tomando o indivíduo apenas como um terminal de agenciamentos cole- tivos heterogêneos, se distancia da focalização dos problemas subjetivos em processos intrapsíquicos, como vemos na psicanálise. Um problema de drogadição, ou mesmo de surtos psicóticos, por exemplo, nunca deveriam ser analisados em termos de complexos individuais ou de investimento de desejo no âmbito familiar, sem levar em consideração os agenciamentos sociais, econômicos e afetivos que o envolvem79. A concepção de uma subjetividade individual, portanto, não se contrapõe a caracterização da subjetivi- dade maquínica.

Apesar de reconhecer o pioneirismo de Freud na crítica de uma totalidade egói- ca, Guattari e Deleuze são bastante incisivos em suas críticas à redução da subjetividade ao âmbito psicológico individual, ou seja, às fases psicogenéticas e em especial ao pro- cessos psíquicos. A esquizoanálise tem uma abordagem bem contextualizada na práxis concreta da subjetividade e, como pudemos observar na leitura deleuze-guattariana do caso do homem dos lobos, leva sempre em consideração os agenciamentos sociais, polí- ticos, econômicos para a análise da de um problema subjetivo, não se restringindo ape- nas a um quadro referencial familialista.

A idéia de indivíduo, enquanto uma individualidade interior a priori, anterior ao contato com o mundo é uma idéia cartesiana combatida pela teoria guattariana. O pro- cesso de subjetivação não se restringe em primeira instância ao campo psicológico indi- vidual. Esta concepção de indivíduo, que começa na modernidade com Descartes, se

79 Guattari nos diz o seguinte a respeito da análise dos investimentos sociais que estão agenciados aos

drogados, psicóticos que entram em processo de institucionalização psiquiátrica: “O indivíduo que temos

diante de nós, freqüentemente, não é senão o “terminal” de todo um conjunto de agenciamentos sociais. E se não atingimos o cerne desses agenciamentos, embarcamos em atitudes fictícias. Trata-se não só de localizar a inserção de agenciamento em que um indivíduo se constitui, mas também de encontrar um ponto de apoio mínimo que lhe permita conquistar alguns graus suplementares de liberdade.” (GUAT- TARI, 2005, p. 303)

99 acentua com o desenvolvimento do sistema capitalista burguês que dicotomiza a reali- dade, a partir da idéia de propriedade privada.

A compreensão do processo de subjetivação como puramente da or- dem do psicológico, relevando a formação de um estado interior, na estruturação da mente, está relacionada ao modelo burguês e sua dis- tinção entre público e privado, entre sociedade e indivíduo, dicotomia onde o socius encontra-se muitas vezes barrado no processo de subje- tivação. O sujeito psicológico stricto sensu aponta para um psicolo- gismo presente no campo do individualismo burguês. (MIRANDA, 1996, p. 11)

A idéia de indivíduo, enquanto destacado do social, é associada na teoria guatta- riana ao sistema capitalístico que procura, de forma reacionária e opressora, destacar ou descolar a subjetividade do socius e do coletivo. O processo, ou processos, de subjetiva- ção, de produção da subjetividade individual, não estão apenas centrados na individua- ção. Eles são totalmente descentrados da subjetividade individual e produzem esta sub- jetividade ao “passar” por ela, como quando as informações dos computadores de uma rede passam pelo terminal, pela central. A idéia de indivíduo é, para Guattari, associada a uma produção em massa promovida pelos sistemas capitalísticos, que buscam produ- zir a subjetividade segundo um modelo fordiano serializado.

Seria conveniente dissociar radicalmente os conceitos de indivíduo e de subje- tividade. Para mim, os indivíduos são o resultado de uma produção de massa. O indivíduo é serializado, registrado, modelado. [...] Uma coisa é a individuali- zação do corpo. Outra é a multiplicidade dos agenciamentos da subjetivação: a subjetividade é essencialmente fabricada e modelada no registro social. Descar- tes quis colar a idéia de subjetividade consciente à idéia de indivíduo (colar a consciência subjetiva à existência do indivíduo), e estamos nos envenenando com essa equação ao longo de toda a história da filosofia moderna. Nem por is- so deixa de ser verdade que os processos de subjetivação são fundamentalmen- te descentrados em relação à individuação. (GUATTARI, 2005, p. 40)

Não só o sistema capitalístico, mas também a psicanálise, em seu aspecto “cien- tífico” de continuação da tradição descartiana, perpetua uma idéia restrita de subjetivi- dade aos processos intrapsíquicos individuais, às fases psiconenéticas. Freud reconhe- ceu ser um reducionismo a idéia de uma totalidade egóica, de uma subjetividade restrita ao indivíduo, mas a restringiu ao âmbito familiar edipiano, ao Édipo como dogma, ao triângulo familiar papai-mamãe-eu como centro produtor de toda a subjetividade como nos diz MIRANDA juntamente com Guattari:

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Deleuze e Guattari traçaram uma crítica à individualização da subjetividade que passa pelas práticas psicanalíticas. Se Freud apontou para a precariedade da totali- dade da noção de ego, e evocou a constituição do sujeito através do outro, deri- vando daí a noção de espelho ou o sujeito barrado pela linguagem em Lacan, esta alteridade se traduziu, muitas vezes, apenas pelo núcleo familiar, seja ele consan- guíneo, seja por derivações simbólicas: a função materna e a função paterna. O que importa é a estrutura edípica, triangularizada, que assume diversas variações, mas que se mantém enquanto constituição do sujeito: "O Édipo é, em sentido res- trito, a figura do triângulo papá-mamã-eu, a constelação familiar em pessoa. Mas, a psicanálise ao fazer dele o seu dogma, não desconhece a existência de relações ditas pré-edípicas na criança, exo-edipianas no psicótico, para-edipianas em outros povos. A função do Édipo como dogma, ou 'complexo nuclear' , é inseparável de um forcing através do qual o teórico da psicanálise chega a concepção de um Édi- po generalizado"80. (MIRANDA, 1996, p. 12)

O processo de individuação, portanto, não está centrado na subjetividade indivi- dual, em processos psíquicos ou fases psicogenéticas individuais. Ele está descentrado de qualquer idéia de indivíduo, e se opera, na verdade, nos agenciamentos históricos, sociais, econômicos, estéticos etc. de cada subjetividade individual. A subjetividade, na teoria guattariana, é essencialmente social, ela existe como um fato social que assume diferentes formas. Isto implica dizer que há diferentes agenciamentos coletivos de sub- jetivação que concorrem para apresentar modelos de subjetividade, para proferir enun- ciações de produção de subjetividade.

Parto da idéia de uma economia coletiva, de agenciamentos coletivos de subjetivação que, em algumas circunstâncias, em alguns contextos sociais, podem se individuar. Para ilustrar isso, tomemos o exemplo particular e óbvio da linguagem. Ferdinand de Saussure foi um dos primeiros lingüistas que estabeleceu o caráter fundamentalmente soci- al da linguagem, seu caráter de fato social que se encarna em falas e agentes individuados. É claro que não são dois indivíduos, um emissor e um receptor, que inventam a linguagem no momento em que estão falando. Existe a linguagem como fato social e existe o indivíduo fa- lante. A mesma coisa acontece com todos os fatos de subjetividade. A

subjetividade está em circulação nos conjuntos sociais de diferentes tamanhos: ela é essencialmente social, e assumida e vivida por indiví-

duos em suas existências particulares. (GUATTARI, 2005, p. 42)

Os agenciamentos coletivos de subjetivação, ou dito de outro modo, os agencia- mentos coletivos de enunciação, estão em circulação como fatos de subjetividade que passam pelas subjetividades individuais, onde são assumidos na existência particular. Cabe agora nos perguntarmos sobre a economia das escolhas em que a subjetividade contemporânea está imersa. De que forma essa subjetividade, enquanto fato social, pode ser assumida nas existências particulares? Será que a produção de subjetividade e o pro-

101 cesso de subjetivação sendo ambos produtos de agenciamentos heterogêneos, conse- guem se efetivar em sua heterogeneidade, em seus aspectos singulares? Haveria modeli- zações da subjetividade e do inconsciente que procuram reduzir a heterogeneidade ine- rente à subjetividade?

No documento A subjetividade maquínica em Guattari (páginas 97-101)