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3 A CONSOLIDAÇÃO DA LEGALIDADE AUTORITÁRIA NO ESTADO DE

3.4 A repressão política: Justiça Militar, Doutrina de Segurança Nacional

3.4.2 A subversão do Direito e a repressão judicializada

A construção e consolidação do Estado de Exceção obedece a uma lógica pragmática de monopólio do poder e de uma constante e crescente inviabilização de

qualquer forma de oposição política. Segundo Giorgio Agamben 94 não existe uma

teoria geral do Estado de Exceção no Direito Público. Inclusive um conjunto de juristas afirma que tal é desnecessário pois esta modalidade de Estado responde a uma necessidade política. Na verdade, para este autor, o Estado de Exceção seria o ponto de desequilíbrio entre o fato político e o Direito Público, e historicamente ele surgiria nos seguintes contextos: guerra civil, insurreição e resistência. Dessa forma, o Estado de Exceção materializaria o conceito contraditório de ditadura constitucional.

A evolução normativa do Direito Público no Brasil da ditadura empresarial- militar seguiu uma constante, a própria subversão do Direito, que expressava juridicamente a Doutrina da Segurança Nacional. Esta foi uma característica fundamental para se compreender o habitus daquela conjuntura e o campo jurídico no qual os advogados dos presos políticos atuavam. Nas palavras de um dos principais

92 Idem. p. 58.

93http://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeirarepublica/SUPREMO%20TRIBUNAL%20MILIT

AR%20(STM).pdf

advogados que atuou neste momento histórico em prol dos direitos civis e humanos, o Dr. Mário Passos Simas:

“Todo aquele período foi caracterizado por um binômio chamado desenvolvimento e segurança. Então, a segurança nacional passou a ser a grande figura, a coluna mestra, a viga principal de toda estrutura de poder que havia.” 95

Parte integrante de um projeto político nacional autoritário, a questão da Segurança Nacional permeia todo processo repressivo legal do regime militar desde o seu início.

A ação repressiva extrajudicial e judicializada se fez presente desde os primeiros momentos do golpe empresarial-militar em abril de 1964. Um verdadeiro processo de caça às bruxas foi iniciado em todo Brasil contra as lideranças e os militantes considerados “subversivos” e ligados ao governo anterior do presidente João Goulart. Sobre o alcance da repressão neste período o historiador norte- americano Thomas Skidmore reflete:

“Quais foram as dimensões reais da repressão ? Talvez em sua maior parte tenha ocorrido nos dez dias entre a deposição de Goulart e a eleição de Castelo Branco, embora no Nordeste tenha continuado até junho. O número dos detidos em consequência do golpe só pode ser estimado, pois não se divulgaram dados oficiais a respeito; provavelmente o total variou entre 10.000 e 50.000. 96

Esta estimativa aproximada feita por Thomas Skidmore em 1988 pode ser considerada superestimada levando-se em consideração os dados divulgados no Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade:

“Desde as primeiras horas, uma perseguição violenta atingiu sobretudo indivíduos e organizações mais identificados como esquerdistas, como o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), a União Nacional dos Estudantes (UNE), as Ligas Camponesas e grupos católicos como a Juventude Universitária Católica (JUC) e a Ação Popular (AP). “Sete em cada dez confederações de trabalhadores e sindicatos tiveram suas diretorias depostas.” Milhares de pessoas foram presas. Segundo a embaixada norte- americana, nos dias seguintes ao golpe, prenderam-se em torno de 5 mil pessoas, e a ocorrência de brutalidades e torturas foi comum, especialmente no Nordeste.” 97

95 Depoimento do Dr. Mário Passos Simas, em 2006, para o Centro de Pesquisa e Documentação de

História Contemporânea do Brasil (CPDOC), da Fundação Getúlio Vargas – FGV, no Projeto de 200 anos da Justiça Militar no Brasil, In http://www.fgv.br/cpdoc/historal/arq/Entrevista1454.pdf

96 SKIDMORE, Thomas. Brasil de Castelo a Tancredo. Paz e Terra: São Paulo/Rio de Janeiro, 1994. p.

58.

Neste caso o número de presos citados desce para cerca de cinco mil em todo o país. Dado um tanto duvidoso pois foi elaborado pela embaixada norte-americana, aliada de primeira hora dos golpistas.

Desde os primeiros dias da repressão generalizada em abril de 1964, muitos advogados se mobilizaram para defenderem os presos políticos. E a medida que a repressão legal foi se ampliando eram criadas redes informais de advogados em todo o Brasil para fazerem frente a gigantesca onda repressiva.

Diversos dispositivos jurídicos punitivos existentes foram utilizados na perseguição política aos opositores da nova ordem política. Toda uma legislação autoritária foi sendo progressivamente elaborada e sancionada pelo executivo federal verde-oliva. Neste sentido destaco uma análise sobre o referido período:

“O regime militar, inicialmente declarado como solução temporária e excepcional a uma situação de anormalidade institucional, endureceu progressivamente, buscando legitimar-se por meio de inúmeros mecanismos jurídicos. Os 17 atos institucionais editados entre 1964 e 1969, complementados por inúmeros atos complementares, constituem a faceta mais visível da ditadura.”98

O início da ação repressiva do ponto de vista jurídico e institucional se deu logo em abril de 1964 com a criação de diversas Comissões Gerais de Investigação (CGIs). O chefe nacional dessas comissões foi o general Taurino de Rezende. Foram criados dois tipos de inquéritos: os inquéritos policiais em repartições de polícia, e os tristemente famosos inquéritos policiais militares (IPMS), que ocorriam

em unidades militares. 99

De abril de 1964 a outubro de 1965 os acusados de subversão, pela Lei de Segurança Nacional podiam recorrer à Justiça Comum, o Supremo Tribunal Federal (STF). Este ainda mantinha uma certa independência, julgando a luz da Constituição de 1946. 100

O primeiro “golpe dentro do golpe” foi a edição do segundo Ato Institucional – 0 AI-2, em 27 de outubro de 1965. Diferentemente do Ato Institucional que fundou a

98 PIERANTI, Octávio Penna, WIMMER, Miria & DALCANAL, Verônica. George Tavares: técnica

jurídica e política militar. In: Os advogados e a ditadura de 1964 – A defesa dos perseguidos políticos no Brasil. SÁ, Fernando, MUNTEAL, Oswaldo & MARTINS, Paulo Emílio (orgs.). Editora PUC Rio/EDITORA VOZES Petrópolis: Petrópolis, 2010. p. 140.

99 BRASIL NUNCA MAIS. Editora Vozes: Petrópolis, 1985 p. 169. 100 BRASIL NUNCA MAIS. Editora Vozes: Petrópolis, 1985 p. 169.

ditadura empresarial-militar em 9 de abril de 1964, o qual não tinha numeração e possuía prazo de validade, este ato numerado prenunciava a futura regularidade deste mecanismo jurídico para a consolidação do Estado de Exceção.

A ampliação do público-alvo da Justiça Militar com o AI-2 fez com que esta passasse a monopolizar a competência para processar e julgar todos os crimes contra a segurança nacional. Dessa forma a Lei de Segurança Nacional vigente à época (Lei Nº 1802 – 05/01/1953), que definia que os crimes contra a ordem política e social teria seu trâmite no âmbito da Justiça Comum teria seu campo jurídico transferido para a Justiça Militar.

Isso provocou um salto qualitativo na repressão com a criminalização militar dos acusados de “subversão”. Também incrementou a repressão aos movimentos sociais e suas lideranças com um aumento das prisões políticas. Inclusive com a prisão daqueles advogados que defendiam os presos políticos em Pernambuco segundo o relato autobiográfico do advogado, escritor e militante do PCB, Paulo Cavalcanti:

“A crise institucional, de que resultou a outorga do Ato Nº 2, em 1965, cassando novos mandatos, transformando eleições diretas em indiretas, e transferindo para a área da Justiça Militar o processo e julgamento de civis, por infração a delitos previstos na Lei de Segurança Nacional, repercutiu no Recife de maneiram contundente. Era o chamado ‘golpe dentro do golpe’, na sequência de outros que viriam acontecer na ditadura.” 101

Com a edição do AI-2, Paulo Cavalcanti, ciente de que seria novamente preso,

se escondeu na residência de sua mãe, e lá, segundo seu relato autobiográfico: “Pelos

jornais, tomei conhecimento das prisões efetuadas: “os suspeitos de sempre”, acrescidos de quase todos advogados que funcionavam em processos políticos,..” 102

Podemos observar que a cada recrudescimento da ação repressiva um dos grupos sociais atingidos pela ditadura era aquela fração da categoria profissional dos advogados que defendiam os presos políticos.

E qual era a estrutura da Justiça Militar naquele período ? Como era estruturado o campo jurídico no qual atuavam os advogados que faziam a defesa dos presos

101 CAVALCANTI, Paulo. O caso eu conto como o caso foi – Da Coluna Prestes a queda de Arraes.

EDITORA ALFA-OMEGA: SÃO PAULO, 1978. p. 376.

102 CAVALCANTI, Paulo. O caso eu conto como o caso foi – Da Coluna Prestes a queda de Arraes.

políticos ? A Justiça Militar estava dividida, em todo o] território nacional, em Circunscrições Judiciárias Militares (CJMs). Suas bases eram as regiões militares do Exército, os distritos navais da Marinha e os comandos aéreos regionais da Aeronáutica.

Sua distribuição pelos estados era a seguinte: Rio de Janeiro: sete circunscrições - três do Exército, duas da Marinha e duas da Aeronáutica; São Paulo: três circunscrições; Rio Grande do Sul: três circunscrições; Minas Gerais, Paraná, Bahia, Pernambuco, Pará, Mato Grosso, Ceará, Distrito Federal e Amazonas: uma

circunscrição cada. 103

Os enquadramentos dos acusados de “subversão” nos dispositivos punitivos da Lei de Segurança Nacional tinham seus processos julgados em três instâncias distintas: Primeira instância: auditorias militares dos Conselhos de Justiça Militar; Segunda Instância: Superior Tribunal Militar; e, Terceira instância: Supremo Tribunal Federal.

O STM era composto por quinze membros vitalícios, indicados pelo presidente da República e aprovados pelo Senado federal, quatro generais da ativa do Exército, três almirantes da ativa da Marinha, três brigadeiros da ativa da Aeronáutica e cinco civis sendo dois auditores militares ou promotores do Ministério público e três membros avulsos de “notório saber”.

A distribuição dos processos era feita sem distinção entre as auditorias. Algumas destas se especializavam me julgar certos grupos políticos. Em duas circunscrições (RJ e PE) havia o desmembramento das acusações contidas nos inquéritos a fim de que as penas fossem aumentadas, multiplicando assim, as

condenações. 104

As fases de formação dos processos de infração sob a Lei de Segurança Nacional aconteciam da seguinte forma: (a) Fase policial / Inquérito Policial Militar / IPMs; apuração de um crime e de sua autoria; e a inexistência de contraditório.

103 BRASIL NUNCA MAIS. Editora Vozes: Petrópolis, 1985 p. 171 104 BRASIL NUNCA MAIS. 1985 p. 172.

Os presos políticos passavam por longos períodos de incomunicabilidade com a família e com seus advogados. Segundo um dos mais atuantes defensores dos presos políticos no estado de São Paulo, o Dr. Mário Simas:

“Numa incomunicabilidade rigorosa e prolongada são os presos políticos submetidos a interrogatórios infindáveis, que se repetiam, primeiramente sob ameaças, e depois sob torturas, para que consintam em confessar atos, que não praticaram, em descrever fatos, que não presenciaram e em denunciar cúmplices, que não tiveram.” 105

A partir de 1969, já em vigência do Ai-5, a formação dos IPMs foi dividida: a primeira fase (investigação, prisão, tortura, interrogatório, confissão ou morte) era efetuada pelo DOI-CODI (Destacamentos de Operações de Informação-Centros de

Operações de Defesa Interna)106 e os organismos de segurança das Forças Armadas:

Exército – CIEX (Centro de Informações do Exército), Marinha – CENIMAR (Centro

de informações da Marinha) e da Aeronáutica – CISA (Centro de Informações de

Segurança da Aeronáutica). Os detidos por estes órgãos repressivos eram torturados dia e noite até que as equipes de militares torturadores chegassem a conclusão de não tinham mais nenhuma informação a ser arrancada. A partir de então sua prisão era comunicada oficialmente e o detido era enviado ao DOPS (Departamento de Ordem Política e Social).

A segunda Fase era cartorial (DOPS e Polícia Federal). Após os “interrogatórios preliminares” nos porões dos DOI-CODIs os presos acusados de “subversão” tinham suas denúncias e processos formalizados. Era então realizado um segundo “interrogatório”. Se as declarações dadas no DOI-CODI não coincidissem com as declarações prestadas no DOPS, o detido era enviado de volta para o inferno do DOI- CODI. Quando as informações dos dois interrogatórios concordavam entre si, o DOPS e a Polícia Federal faziam um resumo delas, as quais compunham a denúncia inicial para o inquérito policial militar, assinadas pelos delegados destes respectivos órgãos

105 SIMAS, Mário. Gritos de Justiça. Editora FTDSA: São Paulo, 1986. p. 5.

106 Os DOI-CODIs foram criados em todo o país depois da experiência inicial em São Paulo com a

Operação Bandeirantes em 1969. Representou uma constatação da ditadura de que esta estava despreparada para enfrentar a guerrilha urbana, que em setembro de 1969 havia sequestrado com sucesso o embaixador norte-americano Charles Elbrick, e que, naquele momento, atuava com 12 grupos guerrilheiros urbanos. Foi uma articulação de todas as forças repressivas estatais (Exército, Marinha e Aeronáutica), na chamada luta contra a “subversão” expressa na guerrilha urbana. Segundo a historiadora Mariana Joffilly em sua tese – No centro da engrenagem: Os interrogatórios na Operação Bandeirantes e no DOI em São Paulo (1969-1975), os DOi-CODIs foram fruto de uma estratégia cujo: “objetivo era garantir a proeminência militar sobre as atividades repressivas” Esta instituição possuía dotação orçamentária própria e sua parceria íntima com o meio empresarial reforçava sua independência financeira e autonomia repressiva. Sem falar na certeza da impunidade.

repressivos. O inquérito era a peça informativa fundamental para a formação da denúncia perante a Justiça Militar. Por ter sido embasada em uma prisão clandestina

e obtida sob tortura, a ação penal era ilegal e ilegítima. 107

O prazo para a conclusão do inquérito variava de acordo com a situação do acusado de “subversão”. Se ele estava detido, o prazo era de 20 dias, a partir da prisão. Se ele estava solto, o prazo era de 40 dias, a partir da instauração do inquérito. Prorrogável se solicitado antes de findo este prazo.

A terceira fase – A ação penal na fase judicial: A ação penal, por infração à Lei de Segurança Nacional, era concretizada em um inquérito e remetida à Auditoria Militar, para ser lida pelo juiz auditor que a remetia para o procurador militar que pronunciava a denúncia. Então esta, baseada nas declarações do acusado na fase interrogatória era enviada para os Conselhos de Justiça que pertencem ao âmbito da Justiça Militar sendo de dois tipos: Conselho de Justiça Permanente e Conselho de Justiça Especial.

Os Conselhos Especiais de Justiça, originalmente julgavam os oficiais das Forças Armadas. Sua composição era formada para acompanhar um processo e durava até o seu término. Depois de 1969 passaram também a julgar a pena de morte para os presos políticos.

Os Conselhos Permanentes de Justiça eram formados por quatro oficiais militares (escolhidos por sorteio a cada três meses) e um juiz auditor civil, presidido sempre pelo militar de mais alta patente. Julgavam os crimes contra a Lei de

Segurança Nacional. 108

Toda esta estrutura institucional repressiva, articulada com um complexo arcabouço legal expresso em atos institucionais, atos complementares, constituições e emendas constitucionais e combinada a uma ideologia anticomunista, a Doutrina de Segurança Nacional, embasava a consolidação de um Estado policial em nosso país, principalmente a partir da edição do AI-5 em dezembro de 1968.

Para a construção deste Estado de Exceção era necessária a castração do espírito de autonomia do Poder Judiciário e sua crescente manipulação pela ditadura.

107 BRASIL NUNCA MAIS 1985 p. 174. 108 BRASIL NUNCA MAIS. 1985 p. 175-176.

O eminente advogado Dr. Sobral Pinto analisou alguns destes pontos em um parecer encomendado por bispos católicos brasileiros logo após a edição do AI-5:

“É inerente, igualmente, à ditadura o banimento da magistratura autônoma, independente e livre... A magistratura, desprovida de qualquer estabilidade e vitaliciedade, não poderá obstar as prisões arbitrárias nem acudir, com medidas adequadas, aqueles que no território nacional, brasileiros e estrangeiros, tiveram os seus direitos lesados, negados ou proscritos pelo órgão, individual ou coletivo, que encarna a ditadura. “ 109

É importante destacar que a premissa fundamental que fundamentou tanto a repressão judicializada como a repressão genocida extrajudicial era a Ideologia da Segurança Nacional, elaborada no mundo capitalista no contexto da Guerra Fria. Nas palavras de um dos principais advogados que defenderam presos políticos no período ditatorial, Dr. Antônio Carlos Barandier, uma “alucinação”:

“Não resta dúvida que seja, de fato um bem jurídico, mas esta ideologia – ou alucinação – não a considera apenas um bem jurídico, mas o único, pelo qual se sacrifica tudo o mais. Assim, surgem estatutos de emergência, tribunais especiais, penas aplicadas por autoridades administrativas, leis que violam a legalidade, a noção de culpabilidade, a humanidade, etc.” 110

Foi nesta conjuntura profundamente desfavorável que os advogados que defendiam os presos políticos tiveram que atuar. Enfrentado obstáculos na legislação crescentemente autoritária e draconiana, além da falta de pagamentos dos honorários por parte de seus clientes e de seus familiares que na grande maioria dos casos necessitavam de ajuda material e conforto humano diante da perseguição política promovida pela repressão estatal.

É este quadro que veremos a seguir no próximo capítulo.

109 PINTO, Sobral. Lições de liberdade. Editora Comunicação: Belo Horizonte, 1977. Pp. 119-120. 110 BARANDIER, Antônio Carlos. Relatos – Um advogado na ditadura. EDITORA J. DI GIORGIO: Rio

4 UM MERGULHO NO ABISMO: GOLPE, DITADURA E RESISTENCIA