4. O Puro e o Impuro
4.2 A sujeira como desordem
Estritamente ligadas à moral, a sujeira e a limpeza se adequam, assim, a conceitos de ordem e desordem. Essas relações são recorrentes na história e no imaginário, fato que explorarei neste subcapítulo a fim de ligar esses conceitos com o de pecado e com a noção de que só há pecado na desordem e na impureza. O pecado é então a doença, enquanto a desordem é sua causa e a impureza, o sintoma. A questão aqui é que parece haver o mal apenas na falta de ordem e a sujeira é uma de suas características.
Já na introdução de seu livro dedicado aos sentidos antropológicos da pureza, Douglas (2014, p. 12) profere: “como se sabe, a sujeira é, essencialmente, desordem”. Posteriormente, a pesquisadora detalha:
Se pudermos abstrair patogenia e higiene de nossa noção de sujeira, estaremos diante da velha definição de sujeira como um tópico inoportuno. Esta é uma abordagem muito sugestiva. Implica duas condições: um conjunto de relações ordenadas e uma contravenção desta ordem. Sujeira, então, não é nunca um acontecimento único, isolado. Onde há sujeira, há sistema. Sujeira é um subproduto de uma ordenação e classificação sistemática de coisas, na medida em que a ordem implique rejeitar elementos inapropriados (DOUGLAS, 2014, p. 50).
Os exemplos de Douglas (2014) são bem rotineiros: os sapatos não são sujos em si, mas se tornam sujos se colocados sobre a mesa de jantar; a comida não é sujeira, mas se torna sujeira quando despejada no chão do quarto, e assim por diante. A questão aqui é que a sujeira não é sujeira em si, mas surge apenas num deslocamento da ordem.
A ordem, por sua vez, só pode ser produzida na classificação de um sistema. Sua sistematização, consequentemente, produz inerentemente as anomalias, as sobras desse sistema, que não se encaixam nas classificações. Uma anomalia confronta as linhas de percepção e geralmente é vista de modo negativo, como algo que afeta o ordenamento de
determinada cultura. “Impureza ou sujeira é aquilo que não pode ser incluído, se se quiser manter um padrão” (DOUGLAS, 2014, p. 55-56).
No universo cristão, o Levítico é o livro do Antigo Testamento que mais deixa claro essa noção de impuro como algo a ser evitado. Apesar de diversas teorias sobre as proibições do Levítico terem sido apresentadas durante a história, Douglas (2014) crê que tais interditos giram em torno deste conceito de impureza relacionada à desordem. As chamadas abominações do Levítico são proibições do consumo de animais em específico, sem, no entanto, dar muitos motivos para tamanha especificação. A lista é extensa, então prefiro dar apenas alguns exemplos na medida em que conduzo as explicações da autora.
Em primeiro lugar, é preciso entender que, no Antigo Testamento, o mal e o bem perpassam pelas noções de benção divina. A benção é fonte das coisas boas e a falta de benção é fonte das ruins. “O trabalho de Deus através da benção é, essencialmente, criar a ordem pela qual os negócios dos homens prosperam. [...] Onde a benção é retirada e a força da maldição desencadeada, há esterilidade, peste, desordem.” (DOUGLAS, 2014, p. 66). Logo, se Deus utiliza da benção para criar ordem, algo que está fora dessa ordem não foi abençoado e, consequentemente, se torna perigoso e/ou impuro.
Todas estas prescrições54 são prefaciadas por um mandamento geral: “Vós sereis santos, porque eu sou santo”. Podemos concluir que a santidade é exemplificada pela integridade. A santidade requer que os indivíduos se conformem à classe à qual pertencem. E a santidade requer que diferentes classes de coisas não se confundam. Outro conjunto de preceitos aperfeiçoa esta ideia. A santidade significa manter distintas as categorias de criação. Ela, portanto, envolve definição correta, discriminação e ordem. Sob este título, todas as regras de moralidade sexual exemplificam o santo (DOUGLAS, 2014, p. 70).
A santidade, então, está ligada à unidade e integridade com o santo, tanto do homem quanto de seu povo. As regras dietéticas apontadas no Levítico são, então, a exemplificação dessa busca por uma santidade una, integrada e que siga esses princípios de classificação ordenada. Logo, essas regras dietéticas funcionam como signos para relembrar constantemente dessa necessidade de unidade com Deus.
Comecemos pelos animais permitidos na alimentação. O gado, o camelo, o carneiro e a cabra eram criados pelos israelitas; após lidarem com eles, não era necessário lavar as mãos para se entrar no Templo. Estes bichos eram providos por Deus e habitavam a terra dada e abençoada pelo criador, logo, eram puros. São animais que estão inseridos na ordem divina de providência. A partir disso, se desenrolam duas características que são ligadas a eles: o seu
ruminar e o casco fendido. É em torno das dissonâncias dessas características que alguns animais são proibidos. Acreditava-se que a lebre, por exemplo, com seu constante ranger de dentes, ruminava, porém seu consumo era proibido por ela não ter o casco fendido. O porco tem o casco fendido, porém não rumina, logo seu consumo é proibido. A pureza, então, é definida pela classificação de categorias, e aqueles animais que não se adequam a elas são considerados impuros e não devem ser consumidos (DOUGLAS, 2014).
No que concerne aos animais selvagens, os critérios de impureza seguem os de classificação e ordem:
Para atingir este esquema precisamos retornar ao Gênesis e à criação. Aqui se desdobra uma classificação tripartida, dividida entre terra, as águas e o firmamento. O Levítico toma este esquema e atribui para cada elemento o tipo de vida apropriado. No firmamento, aves de duas pernas voam com asas. Na água, peixes com escamas nadam com nadadeiras. Na terra, animais de quatro pernas pulam, saltam ou andam. Qualquer classe de criaturas que não esteja equipada para o tipo correto de locomoção no seu elemento é contrária à santidade. O contato com ela desqualifica uma pessoa a aproximar-se do Templo. Portanto, qualquer coisa da água que não tenha nadadeiras e escamas é impura (11, 10-12). Não é dito a respeito dos hábitos predatórios ou de alimentação de carniça. O único teste seguro de limpeza para um peixe são suas escamas e a sua propulsão por meio de nadadeiras (DOUGLAS, 2014, p. 72).
Logo, a definição de impureza desses animais segue suas categorizações, ou melhor, a falta de possibilidade de enquadramento de alguns animais em categorias pré-estabelecidas no Gênesis. A impureza está no erro, na ambiguidade e, principalmente, no deslocamento. Alguns répteis andam na terra, mas não são quadrúpedes. Do mesmo modo, insetos voam, mas não são aves.
Em termos sociais, o deslocamento do indivíduo funciona também como uma desordem marcada pelo impuro. Isso fica muito claro se percebermos a separação que se estabeleceu com a ascensão da burguesia destacada por Vigarello (1996). As classes sociais na Europa funcionavam como separação e classificação dos tipos e graus de limpeza dos cidadãos. Do mesmo modo, Clark (2006) ressalta que as bruxas do século XVI e XVII eram relacionadas com a desordem, a irracionalidade e o tom carnavalesco55. Por sua vez, eram seres impuros e seus malefícios geralmente giravam em torno da sujeira, doença e infecciosidade (tanto física quanto da alma). Como Douglas (2014) conclui, o ambiente social é dividido por linhas e, quando essas percepções se confundem, a poluição aparece como um denominador a fim de marcar essas linhas divisórias.